Poemas neste tema
Vida e Existência
Gonçalo Jácome
Predestinação
Não deplores viver sob o anátema triste
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
927
Hardi Filho
Esdrúxulo
A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
1 347
José Lannes
Confissão
Vou caminhando para ti, Senhor!
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
971
Hélio Simões
Duas Cidades
Séculos caminharam sobre a pedra
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
O muro enegreceu.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
Guimarães é a pia batismal
e o castelo roqueiro.
Aqui nasceu Afonso, o príncipe, Primeiro
e ao designo de Deus que tudo impele
nasceu com ele
Portugal.
Séculos caminharam sobre a pedra
o muro enegreceu...
Brasília é o crisma. Novo
anseio de fé ardendo no planalto,
confirmação de um povo
no seu destino alto.
Branca a cidade medra
entre o cerrado e o céu.
910
João Quental
Certa Vez de Manhã Cedo
Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
817
João Quental
Certa Vez de Manhã Cedo
Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
817
João Quental
Certa Vez de Manhã Cedo
Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.
Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.
Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.
(1989)
817
José Paulo Moreira da Fonseca
Buscar a Rosa
Buscar a rosa no cimo dos penhascos,
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
974
José Paulo Moreira da Fonseca
Buscar a Rosa
Buscar a rosa no cimo dos penhascos,
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.
974
Fontoura Xavier
Pomo do Mal
Dimanam do teu corpo as grandes digitales,
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.
No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!
Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...
E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...
1 296
Iranildo Sampaio
Teoria da Última Ladeira
Nada tenho a dizer.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
876
Iranildo Sampaio
Teoria da Última Ladeira
Nada tenho a dizer.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
876
Francisco Miguel de Moura
Soneto dos Cinqüentanos
Aos cinqüenta bebidos, me apeteço
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
966
Francisco Miguel de Moura
Soneto dos Cinqüentanos
Aos cinqüenta bebidos, me apeteço
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
966
Francisco Miguel de Moura
Soneto dos Cinqüentanos
Aos cinqüenta bebidos, me apeteço
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
porque a vida me ofertou de espinhos.
flores poucas, encantos mitigados.
E em todo passo a busca de sentidos.
Feliz por ser fidel no que me arrimo.
São secretas conquistas, muito humanas.
Sorrio ao que me passa e vai ao vento:
— Eu sou vagar, sou tempo e não me canso.
Meu corpo alcança o corpo mais cansado,
minha alma inflama a irmã insubmissa,
sem barulhar a paz que me guerreia.
Semeio amor. Na dúvida, campeio
o que me arma de força e decisão.
E vou seguindo. E sei que vou ficando...
966
Guerra-Duval
Versos da Noite Má
Desmaiam alegrias e açucenas,
primaveras e rosas rosicler;
já autuneja o verde das verbenas
e o perfume pueril do vetiver.
Abrem os goivos tristes, goivos roxos,
como o viúvo pio roxo de mochos;
roreja sonolenta, lenta a chuva,
— triste noivado roxo de viúva...
A Noite cega, a imensa Noite impura
cobre a Luxúria e o Crime pelos mundos.
(A sombra desleal da Noite escura
lembra os teus olhos fúnebres, profundos!)
No campanário da última esperança
dobra a mortos o sino da Lembrança.
..........................................................
— É noite de assassinos esta noite,
E a minhalma não tem onde se acoitei
primaveras e rosas rosicler;
já autuneja o verde das verbenas
e o perfume pueril do vetiver.
Abrem os goivos tristes, goivos roxos,
como o viúvo pio roxo de mochos;
roreja sonolenta, lenta a chuva,
— triste noivado roxo de viúva...
A Noite cega, a imensa Noite impura
cobre a Luxúria e o Crime pelos mundos.
(A sombra desleal da Noite escura
lembra os teus olhos fúnebres, profundos!)
No campanário da última esperança
dobra a mortos o sino da Lembrança.
..........................................................
— É noite de assassinos esta noite,
E a minhalma não tem onde se acoitei
942
Ferro do Lago
Minha Rua
Espio da janela a minha rua
em seu sono de lâmpadas elétricas.
(Na pausa repentina do silêncio,
passos notivagueiam pelo asfalto.)
A quietação fermenta o melancólico
pensamento das coisas esquecidas,
e entre as folhas das árvores o tempo
deixa escorrer de leve a sua areia.
Outra vez a olharei. E quando olhar
esta rua a alongar-se pela noite,
talvez não pense nada, apenas veja
as árvores, as lâmpadas — e as casas
brancas e emudecidas como túmulos
e, como túmulos, com o seu mistério.
em seu sono de lâmpadas elétricas.
(Na pausa repentina do silêncio,
passos notivagueiam pelo asfalto.)
A quietação fermenta o melancólico
pensamento das coisas esquecidas,
e entre as folhas das árvores o tempo
deixa escorrer de leve a sua areia.
Outra vez a olharei. E quando olhar
esta rua a alongar-se pela noite,
talvez não pense nada, apenas veja
as árvores, as lâmpadas — e as casas
brancas e emudecidas como túmulos
e, como túmulos, com o seu mistério.
868
Ferro do Lago
Minha Rua
Espio da janela a minha rua
em seu sono de lâmpadas elétricas.
(Na pausa repentina do silêncio,
passos notivagueiam pelo asfalto.)
A quietação fermenta o melancólico
pensamento das coisas esquecidas,
e entre as folhas das árvores o tempo
deixa escorrer de leve a sua areia.
Outra vez a olharei. E quando olhar
esta rua a alongar-se pela noite,
talvez não pense nada, apenas veja
as árvores, as lâmpadas — e as casas
brancas e emudecidas como túmulos
e, como túmulos, com o seu mistério.
em seu sono de lâmpadas elétricas.
(Na pausa repentina do silêncio,
passos notivagueiam pelo asfalto.)
A quietação fermenta o melancólico
pensamento das coisas esquecidas,
e entre as folhas das árvores o tempo
deixa escorrer de leve a sua areia.
Outra vez a olharei. E quando olhar
esta rua a alongar-se pela noite,
talvez não pense nada, apenas veja
as árvores, as lâmpadas — e as casas
brancas e emudecidas como túmulos
e, como túmulos, com o seu mistério.
868
Gilberto Gil
Procissão
Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
1 715
Gonçalo Jácome
Flores Noturnas
Na eterna paz das noites silenciosas
E por onde estrelas glaciais florescem,
Pelas excelsas aras luminosas
Dos céus azuis, brancas neblinas descem.
Cristalinas hosanas langorosas
Na boca dos arcanjos desfalecem.
E num concerto de harpas misteriosas
Lótus de amor pela amplidão fenecem.
Todo o paul da terra se perfuma
E desabrocha no éter e na bruma
A gestação das flores imortais.
E, do mar das angústias e das ânsias,
As nossas almas bóiam nas distâncias
Das remotas paragens siderais.
E por onde estrelas glaciais florescem,
Pelas excelsas aras luminosas
Dos céus azuis, brancas neblinas descem.
Cristalinas hosanas langorosas
Na boca dos arcanjos desfalecem.
E num concerto de harpas misteriosas
Lótus de amor pela amplidão fenecem.
Todo o paul da terra se perfuma
E desabrocha no éter e na bruma
A gestação das flores imortais.
E, do mar das angústias e das ânsias,
As nossas almas bóiam nas distâncias
Das remotas paragens siderais.
1 008
Ieda Estergilda
Brincadeira
O ovo alvo, calvo, ainda na galinha
nada sabia do exterior, se com ou sem dor.
Pinto em formação, não tinha idéia da concepção
do amor em questão
um ovo sem as implicações do ser ou não ser
cozido ou frito
um ovo só, um ovo O
que já cansado de não ser
pôs-se.
nada sabia do exterior, se com ou sem dor.
Pinto em formação, não tinha idéia da concepção
do amor em questão
um ovo sem as implicações do ser ou não ser
cozido ou frito
um ovo só, um ovo O
que já cansado de não ser
pôs-se.
1 023
Ieda Estergilda
Brincadeira
O ovo alvo, calvo, ainda na galinha
nada sabia do exterior, se com ou sem dor.
Pinto em formação, não tinha idéia da concepção
do amor em questão
um ovo sem as implicações do ser ou não ser
cozido ou frito
um ovo só, um ovo O
que já cansado de não ser
pôs-se.
nada sabia do exterior, se com ou sem dor.
Pinto em formação, não tinha idéia da concepção
do amor em questão
um ovo sem as implicações do ser ou não ser
cozido ou frito
um ovo só, um ovo O
que já cansado de não ser
pôs-se.
1 023
Irineu Filho
O Padre Cacete
Nédio, careca e culto reverendo,
vadio monsenhor que ainda namora,
pesar de com a velhice ir já perdendo
o risco de perder qualquer senhora!
Foi o padre das moças; foi outrora
um Don Juan de batina... E, hoje, descendo
pela encosta da vida, de hora em hora,
saudades do passado vai vertendo...
Professor normalista de francês,
matéria ingrata e má... porém, gostosa:
pelo arame que dá no fim do mês...
Mas, se a língua que ensina sabe mal,
leva vida folgada e milagrosa
beliscando as meninas da Normal...
vadio monsenhor que ainda namora,
pesar de com a velhice ir já perdendo
o risco de perder qualquer senhora!
Foi o padre das moças; foi outrora
um Don Juan de batina... E, hoje, descendo
pela encosta da vida, de hora em hora,
saudades do passado vai vertendo...
Professor normalista de francês,
matéria ingrata e má... porém, gostosa:
pelo arame que dá no fim do mês...
Mas, se a língua que ensina sabe mal,
leva vida folgada e milagrosa
beliscando as meninas da Normal...
858
Irineu Filho
O Padre Cacete
Nédio, careca e culto reverendo,
vadio monsenhor que ainda namora,
pesar de com a velhice ir já perdendo
o risco de perder qualquer senhora!
Foi o padre das moças; foi outrora
um Don Juan de batina... E, hoje, descendo
pela encosta da vida, de hora em hora,
saudades do passado vai vertendo...
Professor normalista de francês,
matéria ingrata e má... porém, gostosa:
pelo arame que dá no fim do mês...
Mas, se a língua que ensina sabe mal,
leva vida folgada e milagrosa
beliscando as meninas da Normal...
vadio monsenhor que ainda namora,
pesar de com a velhice ir já perdendo
o risco de perder qualquer senhora!
Foi o padre das moças; foi outrora
um Don Juan de batina... E, hoje, descendo
pela encosta da vida, de hora em hora,
saudades do passado vai vertendo...
Professor normalista de francês,
matéria ingrata e má... porém, gostosa:
pelo arame que dá no fim do mês...
Mas, se a língua que ensina sabe mal,
leva vida folgada e milagrosa
beliscando as meninas da Normal...
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