Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Nuno Júdice
Imagem do mundo
Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice | "Geometria variável", 2005
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Al Berto
LÁPIDE, DE «CARTA DA ÁRVORE TRISTE»
a contínua solidão torna-se claridade
iridiscência lume
que incendeia o coração daquele cujo ofício
é escrever e olhar o mundo a partir da treva
humildemente
foi este o trabalho que te predestinaram
viver e morrer nesse simulacro de inferno
meu deus! tinha de escolher a melhor maneira de arder
até que de mim nada restasse senão osso
e meia dúzia se sílabas sujas
iridiscência lume
que incendeia o coração daquele cujo ofício
é escrever e olhar o mundo a partir da treva
humildemente
foi este o trabalho que te predestinaram
viver e morrer nesse simulacro de inferno
meu deus! tinha de escolher a melhor maneira de arder
até que de mim nada restasse senão osso
e meia dúzia se sílabas sujas
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Nuno Júdice
Nuno Júdice espera do leitor
Espero do leitor que abra um livro de poesia como se abre uma caixa de fósforos: fazendo a cada poema o que se faz quando se risca um fósforo, para que ele se acenda e o seu fogo ilumine ou incendeie quem o lê. E é isso que eu, colocando-me na posição de leitor, espero de um poema: a capacidade de revelar nas palavras e nas imagens a música, a interrogação, a inquietação, mas também a percepção daquilo a que chamei "o mistério da beleza". É isso que procuro quando escrevo, tentando captar na convergência dos ventos os sinais de que a poesia continua a abrir horizontes surpreendentes num permanente convite à viagem para dentro e para fora de nós.
Nuno Júdice | Resposta ao "DN Artes" a propósito da questão colocada a sete poetas portugueses sobre a sua relação com os leitores.
Esperam alguma ligação ou desprezam essa possibilidade? Escrevem para quem compra livros ou o lado de lá não tem importância? As respostas diferiram, tal como são diferentes os poemas de cada um.
21 Março 2016
Nuno Júdice | Resposta ao "DN Artes" a propósito da questão colocada a sete poetas portugueses sobre a sua relação com os leitores.
Esperam alguma ligação ou desprezam essa possibilidade? Escrevem para quem compra livros ou o lado de lá não tem importância? As respostas diferiram, tal como são diferentes os poemas de cada um.
21 Março 2016
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Manuel António Pina
Voyager
Um instante, um só instante,
do azul ao vermelho, da música ao fogo!
Por que não encontra o sangue o seu lugar
entre os dispersos mundos?
Perde o viajante
o caminho do regresso.
No cristal do coração,
que nenhum sono embacia,
fulgem imagens de imagens
de frios sonhos desfeitos.
Algum país voltado para fora
lhe abrirá as vastas portas
e ele repousará enfim
sem noite e sem memória.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 131 (escrito a 9 Novembro 1983)| Assirio & Alvim, 2012
do azul ao vermelho, da música ao fogo!
Por que não encontra o sangue o seu lugar
entre os dispersos mundos?
Perde o viajante
o caminho do regresso.
No cristal do coração,
que nenhum sono embacia,
fulgem imagens de imagens
de frios sonhos desfeitos.
Algum país voltado para fora
lhe abrirá as vastas portas
e ele repousará enfim
sem noite e sem memória.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 131 (escrito a 9 Novembro 1983)| Assirio & Alvim, 2012
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Nuno Júdice
Guia de mercado
Nos mercados da solidão, sobem
de preço os barris: mas podemos comprá-la
ao desbarato, ao sair de casa, sem conhecer
ninguém.
Nos centros comerciais, a melancolia
vende-se em sacos de plástico, que se acumulam
nos carrinhos das compras, e se arrumam
nos frigoríficos da alma.
Nas bolsas, sobem as cotações
do desespero; mas quem o quiser comprar,
encontra sempre um accionista compreensivo
para o oferecer a preço de saldo.
E quem quiser um amor de empréstimo,
só tem de esperar que os juros desçam, e
pô-lo a render no banco da esquina, onde
a vida é mais barata.
de preço os barris: mas podemos comprá-la
ao desbarato, ao sair de casa, sem conhecer
ninguém.
Nos centros comerciais, a melancolia
vende-se em sacos de plástico, que se acumulam
nos carrinhos das compras, e se arrumam
nos frigoríficos da alma.
Nas bolsas, sobem as cotações
do desespero; mas quem o quiser comprar,
encontra sempre um accionista compreensivo
para o oferecer a preço de saldo.
E quem quiser um amor de empréstimo,
só tem de esperar que os juros desçam, e
pô-lo a render no banco da esquina, onde
a vida é mais barata.
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Nuno Júdice
Guia de mercado
Nos mercados da solidão, sobem
de preço os barris: mas podemos comprá-la
ao desbarato, ao sair de casa, sem conhecer
ninguém.
Nos centros comerciais, a melancolia
vende-se em sacos de plástico, que se acumulam
nos carrinhos das compras, e se arrumam
nos frigoríficos da alma.
Nas bolsas, sobem as cotações
do desespero; mas quem o quiser comprar,
encontra sempre um accionista compreensivo
para o oferecer a preço de saldo.
E quem quiser um amor de empréstimo,
só tem de esperar que os juros desçam, e
pô-lo a render no banco da esquina, onde
a vida é mais barata.
de preço os barris: mas podemos comprá-la
ao desbarato, ao sair de casa, sem conhecer
ninguém.
Nos centros comerciais, a melancolia
vende-se em sacos de plástico, que se acumulam
nos carrinhos das compras, e se arrumam
nos frigoríficos da alma.
Nas bolsas, sobem as cotações
do desespero; mas quem o quiser comprar,
encontra sempre um accionista compreensivo
para o oferecer a preço de saldo.
E quem quiser um amor de empréstimo,
só tem de esperar que os juros desçam, e
pô-lo a render no banco da esquina, onde
a vida é mais barata.
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Nuno Júdice
O mecanismo romântico da fragmentação
Que fazer de tanto excesso,
de tanta luz poída nos bolsos da alma?
A simplicidade incomoda-me.
Nos poemas que deixar,
mais do que no discurso fluente que fundou o Cubo,
o perfil de adaga do amarelo,
afirmarei o gosto amargo de quem cedeu ao poético.
Apesar disto, dois meses depois, as florestas arderam.
Quando um corpo se encaminha para a grande margem da loucura
só dois tiros de noite impedem o acender do fogo.
Acabado de escrever o que, saí de casa;
a passo atravessei a rua, sem olhar para o lado esquerdo,
encostei-me à montra do infinito e pedi:
-Uma caixa de fósforos.
Ao acender o cigarro eu acendia o horizonte;
e, por detrás dele, a própria face oculta da Terra!
Nuno Júdice | "O Mecanismo Romântico da Fragmentação", pág. 41- Livro vencedor do Prémio Pablo Neruda - 1973 | Editorial Inova, Porto, 1973
de tanta luz poída nos bolsos da alma?
A simplicidade incomoda-me.
Nos poemas que deixar,
mais do que no discurso fluente que fundou o Cubo,
o perfil de adaga do amarelo,
afirmarei o gosto amargo de quem cedeu ao poético.
Apesar disto, dois meses depois, as florestas arderam.
Quando um corpo se encaminha para a grande margem da loucura
só dois tiros de noite impedem o acender do fogo.
Acabado de escrever o que, saí de casa;
a passo atravessei a rua, sem olhar para o lado esquerdo,
encostei-me à montra do infinito e pedi:
-Uma caixa de fósforos.
Ao acender o cigarro eu acendia o horizonte;
e, por detrás dele, a própria face oculta da Terra!
Nuno Júdice | "O Mecanismo Romântico da Fragmentação", pág. 41- Livro vencedor do Prémio Pablo Neruda - 1973 | Editorial Inova, Porto, 1973
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1
Nuno Júdice
Gosto das palavras exactas
Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.
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Bruno Kampel
Nova Era
Saberão os herdeiros do novo tempo
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
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José Miguel Silva
Colheita de 98
Comprei ontem no supermercado
uma garrafa de maduro tinto do Ribatejo.
Se o rótulo não mente, estou perante
um vinho de cor granada, um corpo excelente,
sabor e aroma muito acentuados,
com alguma evolução e persistência.
Talvez não seja o Bem, a Beleza, a Verdade,
mas é melhor do que a minha vida incorpórea,
caprichosa, sem evolução,
de cor avinagrada e aroma nenhum.
Além disso é garantido por testes laboratoriais,
enquanto eu - quem me garante o quê?
uma garrafa de maduro tinto do Ribatejo.
Se o rótulo não mente, estou perante
um vinho de cor granada, um corpo excelente,
sabor e aroma muito acentuados,
com alguma evolução e persistência.
Talvez não seja o Bem, a Beleza, a Verdade,
mas é melhor do que a minha vida incorpórea,
caprichosa, sem evolução,
de cor avinagrada e aroma nenhum.
Além disso é garantido por testes laboratoriais,
enquanto eu - quem me garante o quê?
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Bruno Kampel
Poema de amor
Sempre soube terminar os poemas
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.
Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.
Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.
Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.
Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.
E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.
Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.
Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.
Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.
E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.
E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.
Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.
Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.
Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.
Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.
E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.
Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.
Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.
Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.
E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.
E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.
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Al Berto
Notas para o diário
deus tem que ser substituído rapidamente por poemas,
sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
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Nuno Júdice
Domingo no campo
Aos domingos, quando os sinos tocam
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.
2 111
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José Miguel Silva
O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)
Os adolescentes armados da Libéria e da Serra Leoa
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
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1
José Miguel Silva
O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)
Os adolescentes armados da Libéria e da Serra Leoa
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
1 375
1
José Miguel Silva
O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)
Os adolescentes armados da Libéria e da Serra Leoa
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
1 375
1
José Miguel Silva
O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)
Os adolescentes armados da Libéria e da Serra Leoa
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
1 375
1
José Miguel Silva
O Ódio — Mathieu Kassowitz (1995)
Os adolescentes armados da Libéria e da Serra Leoa
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
não sabem quem lhes pôs um gatilho na vida.
Eu faço uma ideia, mas não digo nada. Prefiro
comprar em DVD O Bom, O Mau e o Vilão.
As mortes de urânio enriquecido que disparamos
na Sérvia são fabricadas pela Boeing e pela General
Motors. Mas eu gosto de ir a Londres, a Paris,
a Nova Iorque, e o meu automóvel é bastante fiável.
É verdade que não voto no bloco liberal, mas
nem por isso sou menos culpado pelo íntimo
holocausto dos vitelos sociais. Basta ver
as sapatilhas que ofereci ao meu sobrinho no Natal
Não fui eu que negociei com o régulo o despejo
de resíduos tóxicos no mar da Somália, é verdade.
No entanto, tenho luz em casa, água quente, combustível...
e sexta-feira à tarde lá vou eu com a Joana para o Alto Douro.
O sofrimento dos outros, enfim, é relativo. Não vale a pena,
só por isso, interromper o sol. A mim, pessoalmente,
nada me dói: tenho para livros, discos, preservativos,
e a vida que levo convém-me lindamente. Aprecio sobretudo,
e cada vez mais, as quietas florações da vida interior,
a doméstica lida. Mas não vou dizer que não sei onde fica
a Chechénia ou o Bairro do Cerco. Nisto sou como tu,
leitor: custa-me ver, de manhã, o meu sorriso ao espelho.
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1
Nuno Júdice
Quotidiano
Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.
Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.
Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.
Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.
Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.
1 955
1
Fernando Pessoa
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
1 477
1
Fernando Pessoa
II - A Guerra!
II
A Guerra!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
As civilizações guerreiras de todos os tempos e lugares...
Num panorama confuso e lúcido,
Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quando
Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo,
Passam...
Passam e eu, eu que estou estendido na erva
E vi os carros passarem, passarem — cessarem depois para nós mesmos
Vejo-os e o meu espanto nem é muito calmo nem interessado
Nem os vê nem os deixa de ver,
E eles passam por mim como um pó ou leve vento sobe pelos ares.
Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra,
A fúria terna e [...] dos combates
Os mortos sempre a mesma misteriosa vida — o corpo no chão (e o que é o mundo, afinal, e aonde?)
A ferida [...]
E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo!
A Guerra!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
As civilizações guerreiras de todos os tempos e lugares...
Num panorama confuso e lúcido,
Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quando
Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo,
Passam...
Passam e eu, eu que estou estendido na erva
E vi os carros passarem, passarem — cessarem depois para nós mesmos
Vejo-os e o meu espanto nem é muito calmo nem interessado
Nem os vê nem os deixa de ver,
E eles passam por mim como um pó ou leve vento sobe pelos ares.
Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra,
A fúria terna e [...] dos combates
Os mortos sempre a mesma misteriosa vida — o corpo no chão (e o que é o mundo, afinal, e aonde?)
A ferida [...]
E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo!
3 114
1
Fernando Pessoa
Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.
2 162
1
Fernando Pessoa
SALUTE TO THE SUN’S ENTRY INTO ARIES
Now at the doorway of the coming year,
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
Ye nymphs do gather and the garlands twine
That heroes' sons will bear
Fifty years hence in their remembering hands
And of their fathers speak with shining eyes
And of the war that stained the lands.
Weave ye the garlands, for the fame will pass,
And their grandchildren of grandchildren will
No more remember, neither care
Who their ancestor was
Who did that old crown, now scarce a crown, bear
For all must pass, that Time may have his fill.
Weave ye the garlands therefore, for this hour
Will not survive beyond the memory
Of those yet near to it who have the power
The hour somewhat like what it was to see.
Weave ye the garlands, weave
That their memory may live
Awhile, and if that mean that fame is nought,
Weave still the garlands with a gentle thought,
For weaving them, know ye
What to Time's elder shades you yet may give.
The days are heavy with the blood of men,
The year reels like a shattered wall
When the wind comes out of the caves of night.
Our minds are equal with the shaking...
We know not on what power to call
Or which side of the Truth lies right.
Alas! alas! all sides are right in war,
And that impartial vision born of peace,
And that the Gods alone can have,
Lives only in our wish that dim wars mar,
Breathes only in the halls of our release
From all the human things for which we crave.
But these are thoughts, and life is grief and fear.
Weave ye the garlands, lest the coming year
Forget, like ye, the fallen to remember
And the victors to greet.
Weave ye the garlands made
Of some strange flower that lasts unto December
And lay them at Fate's unseen feet.
Ay, for not for the heroes nor the slain
Weave ye the garlands woven with your pain.
Not for the fallen do your cheeks awhile
Flush then grow pale and your proud pain smile.
Not for a man nor for a nation do
Your garlands outreach Time
Perhaps and in eternal regions chime
With the sense of their fame who were e'er true.
For Fate alone all garlands woven are.
Unto Fate's feet the rivers of our tears
Perennial run, nor is there aught more far
Alas! than mere Fate that outwits the sun,
And that in circles round its empty name
Carries the vain course of our sterile fame
And great men as great nations equal lead
Vainly around the frame
Of nothing, like a wind along a mead.
Yet, whether for some man or for no man,
Whether for personal hopes or Fate no one,
Your garlands weave, lest the year come und span
With days fame‑empty the task e'er begun.
Weave garlands, green glad garlands, garlands sad,
Garlands of all sorts, if they glory mean,
Carry your woven garlands to their grave...
The rest is something that cannot be had -
The void as of a ship sunk nor more seen
Beneath the wave.
1 583
1
Fernando Pessoa
Passo, na noite da rua suburbana,
Passo, na noite da rua suburbana,
Regresso da conferência com peritos como eu.
Regresso só, e poeta agora, sem perícia nem engenharia,
Humano até ao som dos meus sapatos solitários no princípio da noite
Onde ao longe a porta da tenda tardia se encobre com o último taipal.
Ah, o som do jantar nas casas felizes!
Passo, e os meus ouvidos vêem para dentro das casas.
O meu exílio natural enternece-se no escuro
Da aia meu lar, da rua meu ser, da rua meu sangue.
Ser a criança economicamente garantida,
Com a cama fofa e o sono da infância e a criada!
O meu coração sem privilégio!
Minha sensibilidade da exclusão!
Minha mágoa extrema de ser eu!
Quem fez lenha de todo o berço da minha infância?
Quem fez trapos de limpar o chão dos meus lençóis de menino?
Quem expôs por cima das cascas e do cotão das casas
Nos caixotes de lixo do mundo
As rendas daquela camisa que usei para me baptizarem?
Quem me vendeu ao Destino?
Quem me trocou por mim?
Venho de falar precisamente em circunstâncias positivas.
Pus pontos concretos, como um numerador automático.
Tive razão como uma balança.
Disse como sabia.
Agora, a caminho do carro eléctrico do término de onde se volta à cidade,
Passo, bandido, metafísico, sob a luz dos candeeiros afastados
E na sombra entre os dois candeeiros afastados tenho vontade de não seguir.
Mas apanharei o eléctrico.
Soará duas vezes a campainha lá do fim invisível da correia puxada
Pelas mãos de dedos grossos do condutor por barbear.
Apanharei o eléctrico.
Ai de mim; apesar de tudo sempre apanhei o eléctrico —
Sempre, sempre, sempre...
Voltei sempre à cidade,
Voltei sempre à cidade, depois de especulações e desvios,
Voltei sempre com vontade de jantar.
Mas nunca jantei o jantar que soa atrás de persianas
Das casas felizes dos arredores por onde se volta ao eléctrico,
Das casas conjugais da normalidade da vida!
Pago o bilhete através dos interstícios,
E o condutor passa por mim como se eu fosse a Crítica da Razão Pura...
Paguei o bilhete. Cumpri o dever. Sou vulgar.
E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.
Regresso da conferência com peritos como eu.
Regresso só, e poeta agora, sem perícia nem engenharia,
Humano até ao som dos meus sapatos solitários no princípio da noite
Onde ao longe a porta da tenda tardia se encobre com o último taipal.
Ah, o som do jantar nas casas felizes!
Passo, e os meus ouvidos vêem para dentro das casas.
O meu exílio natural enternece-se no escuro
Da aia meu lar, da rua meu ser, da rua meu sangue.
Ser a criança economicamente garantida,
Com a cama fofa e o sono da infância e a criada!
O meu coração sem privilégio!
Minha sensibilidade da exclusão!
Minha mágoa extrema de ser eu!
Quem fez lenha de todo o berço da minha infância?
Quem fez trapos de limpar o chão dos meus lençóis de menino?
Quem expôs por cima das cascas e do cotão das casas
Nos caixotes de lixo do mundo
As rendas daquela camisa que usei para me baptizarem?
Quem me vendeu ao Destino?
Quem me trocou por mim?
Venho de falar precisamente em circunstâncias positivas.
Pus pontos concretos, como um numerador automático.
Tive razão como uma balança.
Disse como sabia.
Agora, a caminho do carro eléctrico do término de onde se volta à cidade,
Passo, bandido, metafísico, sob a luz dos candeeiros afastados
E na sombra entre os dois candeeiros afastados tenho vontade de não seguir.
Mas apanharei o eléctrico.
Soará duas vezes a campainha lá do fim invisível da correia puxada
Pelas mãos de dedos grossos do condutor por barbear.
Apanharei o eléctrico.
Ai de mim; apesar de tudo sempre apanhei o eléctrico —
Sempre, sempre, sempre...
Voltei sempre à cidade,
Voltei sempre à cidade, depois de especulações e desvios,
Voltei sempre com vontade de jantar.
Mas nunca jantei o jantar que soa atrás de persianas
Das casas felizes dos arredores por onde se volta ao eléctrico,
Das casas conjugais da normalidade da vida!
Pago o bilhete através dos interstícios,
E o condutor passa por mim como se eu fosse a Crítica da Razão Pura...
Paguei o bilhete. Cumpri o dever. Sou vulgar.
E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.
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