Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Albuquerque Freire
Insurreição
Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
1 399
1
Albuquerque Freire
Insurreição
Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
1 399
1
Albuquerque Freire
Insurreição
Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,
Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!
Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,
Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,
Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,
Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,
Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,
Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...
Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,
Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,
Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,
Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...
1 399
1
Tamara Baroni
Carmem
Suor entre os seios umidade
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
699
1
António Arnaut
Geografia de Portugal
Noventa mil quilómetros quadrados
de ousadia e sofrimento:
A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,
Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pégadas da aventura.
de ousadia e sofrimento:
A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,
Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pégadas da aventura.
1 222
1
Alcides Werk
O Ouro do Rio Amana
Tuas doces águas, Amana,
de repente se toldaram.
Chegaram dragas, pontões,
canoas, motores, balsas
abarrotadas de homens
falando gírias estranhas,
escafandros, pás, bateias,
mecanismos de sucção
a revolver-te as entranhas,
e o teu relevo de margens:
foi decifrado o segredo
do teu rico aluvião.
As cobiças pessoais
precisam catar o ouro
para urgências nacionais.
Cadê teus patos selvagens,
teus amenos inambus,
tangurupará voltando
(segundo registra a lenda)
de lutas com o japiim,
o som rouco das ciganas
a voz dos uirapurus,
o alarido dos guaribas,
os bandos de caititus,
os socós-boi meditando,
jacarés-pedra espiando,
tracajás quase dormindo
na beira, esquentando o sol?
Cadê tuas ariranhas,
tuas antas e capivaras,
teus tambaquis, tuas piranhas
pretas, teus pirarucus,
teus surubins, teus pacus,
araris e pirararas?
Vai, leva ao Parauari
(que também foi descoberto)
teu choro amargo de virgem
possuída sem amor.
Conta que há alto-falantes
espantando os papagaios;
que em cada motor-de-linha
chegam novos garimpeiros;
que as vilas vão-se formando
nas margens, e em cada tenda
há muitas coisas a venda
e mulheres de aluguel
(brancas, louras, que adoecem
por rejeição natural);
que há muito cabra-da-peste
e cenas de faroeste,
cachaça, carne-de-lata,
cigarro, pilha, sardinha,
leite-moça, mosquiteiro,
lanterna, charque do Sul.
Entrega teu ouro, Amana,
quanto mais cedo melhor.
Quero que sejas tão pobre
que nem se lembrem que existes.
Depois do caso passado,
mesmo sabendo que és triste,
quero fazer um roçado,
levantar um tapiri,
deixar o mundo de lado
e morar perto de ti.
de repente se toldaram.
Chegaram dragas, pontões,
canoas, motores, balsas
abarrotadas de homens
falando gírias estranhas,
escafandros, pás, bateias,
mecanismos de sucção
a revolver-te as entranhas,
e o teu relevo de margens:
foi decifrado o segredo
do teu rico aluvião.
As cobiças pessoais
precisam catar o ouro
para urgências nacionais.
Cadê teus patos selvagens,
teus amenos inambus,
tangurupará voltando
(segundo registra a lenda)
de lutas com o japiim,
o som rouco das ciganas
a voz dos uirapurus,
o alarido dos guaribas,
os bandos de caititus,
os socós-boi meditando,
jacarés-pedra espiando,
tracajás quase dormindo
na beira, esquentando o sol?
Cadê tuas ariranhas,
tuas antas e capivaras,
teus tambaquis, tuas piranhas
pretas, teus pirarucus,
teus surubins, teus pacus,
araris e pirararas?
Vai, leva ao Parauari
(que também foi descoberto)
teu choro amargo de virgem
possuída sem amor.
Conta que há alto-falantes
espantando os papagaios;
que em cada motor-de-linha
chegam novos garimpeiros;
que as vilas vão-se formando
nas margens, e em cada tenda
há muitas coisas a venda
e mulheres de aluguel
(brancas, louras, que adoecem
por rejeição natural);
que há muito cabra-da-peste
e cenas de faroeste,
cachaça, carne-de-lata,
cigarro, pilha, sardinha,
leite-moça, mosquiteiro,
lanterna, charque do Sul.
Entrega teu ouro, Amana,
quanto mais cedo melhor.
Quero que sejas tão pobre
que nem se lembrem que existes.
Depois do caso passado,
mesmo sabendo que és triste,
quero fazer um roçado,
levantar um tapiri,
deixar o mundo de lado
e morar perto de ti.
1 485
1
Alcides Werk
O Ouro do Rio Amana
Tuas doces águas, Amana,
de repente se toldaram.
Chegaram dragas, pontões,
canoas, motores, balsas
abarrotadas de homens
falando gírias estranhas,
escafandros, pás, bateias,
mecanismos de sucção
a revolver-te as entranhas,
e o teu relevo de margens:
foi decifrado o segredo
do teu rico aluvião.
As cobiças pessoais
precisam catar o ouro
para urgências nacionais.
Cadê teus patos selvagens,
teus amenos inambus,
tangurupará voltando
(segundo registra a lenda)
de lutas com o japiim,
o som rouco das ciganas
a voz dos uirapurus,
o alarido dos guaribas,
os bandos de caititus,
os socós-boi meditando,
jacarés-pedra espiando,
tracajás quase dormindo
na beira, esquentando o sol?
Cadê tuas ariranhas,
tuas antas e capivaras,
teus tambaquis, tuas piranhas
pretas, teus pirarucus,
teus surubins, teus pacus,
araris e pirararas?
Vai, leva ao Parauari
(que também foi descoberto)
teu choro amargo de virgem
possuída sem amor.
Conta que há alto-falantes
espantando os papagaios;
que em cada motor-de-linha
chegam novos garimpeiros;
que as vilas vão-se formando
nas margens, e em cada tenda
há muitas coisas a venda
e mulheres de aluguel
(brancas, louras, que adoecem
por rejeição natural);
que há muito cabra-da-peste
e cenas de faroeste,
cachaça, carne-de-lata,
cigarro, pilha, sardinha,
leite-moça, mosquiteiro,
lanterna, charque do Sul.
Entrega teu ouro, Amana,
quanto mais cedo melhor.
Quero que sejas tão pobre
que nem se lembrem que existes.
Depois do caso passado,
mesmo sabendo que és triste,
quero fazer um roçado,
levantar um tapiri,
deixar o mundo de lado
e morar perto de ti.
de repente se toldaram.
Chegaram dragas, pontões,
canoas, motores, balsas
abarrotadas de homens
falando gírias estranhas,
escafandros, pás, bateias,
mecanismos de sucção
a revolver-te as entranhas,
e o teu relevo de margens:
foi decifrado o segredo
do teu rico aluvião.
As cobiças pessoais
precisam catar o ouro
para urgências nacionais.
Cadê teus patos selvagens,
teus amenos inambus,
tangurupará voltando
(segundo registra a lenda)
de lutas com o japiim,
o som rouco das ciganas
a voz dos uirapurus,
o alarido dos guaribas,
os bandos de caititus,
os socós-boi meditando,
jacarés-pedra espiando,
tracajás quase dormindo
na beira, esquentando o sol?
Cadê tuas ariranhas,
tuas antas e capivaras,
teus tambaquis, tuas piranhas
pretas, teus pirarucus,
teus surubins, teus pacus,
araris e pirararas?
Vai, leva ao Parauari
(que também foi descoberto)
teu choro amargo de virgem
possuída sem amor.
Conta que há alto-falantes
espantando os papagaios;
que em cada motor-de-linha
chegam novos garimpeiros;
que as vilas vão-se formando
nas margens, e em cada tenda
há muitas coisas a venda
e mulheres de aluguel
(brancas, louras, que adoecem
por rejeição natural);
que há muito cabra-da-peste
e cenas de faroeste,
cachaça, carne-de-lata,
cigarro, pilha, sardinha,
leite-moça, mosquiteiro,
lanterna, charque do Sul.
Entrega teu ouro, Amana,
quanto mais cedo melhor.
Quero que sejas tão pobre
que nem se lembrem que existes.
Depois do caso passado,
mesmo sabendo que és triste,
quero fazer um roçado,
levantar um tapiri,
deixar o mundo de lado
e morar perto de ti.
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1
Águia Mendes
A Casa
a gustavo fernandes
de lima sobrinho
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa no mundo
varanda dos lados
wc com luar
ruas refulgentes
poltronas & sofás
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa marítima
alcova com beira-mar
padarias e jardins
vulva crepuscular
casa que é bar
vulgata vulgívaga
retreta lunar
mercearia
com pomares em órbita
e sonoros pardais
ou um negro coagido
por uma confederação
de poetas marginais
de lima sobrinho
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa no mundo
varanda dos lados
wc com luar
ruas refulgentes
poltronas & sofás
há quatrocentos anos
eu sonho
uma casa marítima
alcova com beira-mar
padarias e jardins
vulva crepuscular
casa que é bar
vulgata vulgívaga
retreta lunar
mercearia
com pomares em órbita
e sonoros pardais
ou um negro coagido
por uma confederação
de poetas marginais
494
1
Anízio Vianna
terra estrangeira
e acontece
de você ser linda
e eu estar com frio
numa terra estrangeira
e acontece
de você viver a mil
e falar sozinha
num lugar que não é seu
e acontece
de você apagar essa lua
e rezar confusa com um terço
da fé que deus lhe deu
e acontece
de você criar coragem
no instante em que parto
para ter com os meus
de você ser linda
e eu estar com frio
numa terra estrangeira
e acontece
de você viver a mil
e falar sozinha
num lugar que não é seu
e acontece
de você apagar essa lua
e rezar confusa com um terço
da fé que deus lhe deu
e acontece
de você criar coragem
no instante em que parto
para ter com os meus
1 234
1
António Arnaut
Portucale
As montanhas abrem alas. Vai passar
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.
1 402
1
António Arnaut
Portucale
As montanhas abrem alas. Vai passar
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.
1 402
1
Alcides Werk
Das Águas Grandes
o barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
1 660
1
Alcides Werk
Das Águas Grandes
o barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
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1
Amândio César
Caminhada
Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
1 069
1
Amândio César
Caminhada
Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
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1
Alexandre de Gusmão
A Júpiter Supremo Deus do Olimpo
Númen que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
1 529
1
Alexandre de Gusmão
A Júpiter Supremo Deus do Olimpo
Númen que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
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Alexandre de Gusmão
A Júpiter Supremo Deus do Olimpo
Númen que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
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Alexandre de Gusmão
A Júpiter Supremo Deus do Olimpo
Númen que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
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Alexandre de Gusmão
A Júpiter Supremo Deus do Olimpo
Númen que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniqüidade,
E assoçobrado ao são entendimento?
Como hei de crer que um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?
Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;
Se és Deus, se isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.
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António Arnaut
Os Meus Heróis
Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
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António Arnaut
Os Meus Heróis
Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha
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Antonio Damásio Rêgo Filho
Ulisses a Teus Pés
Os gritos do mar chicoteando o dorso das pedras
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.
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Mikhail Yurevitch Lermontov
ADEUS, Ó RÚSSIA MAL LAVADA!
Adeus pra sempre, ó Rússia mal lavada!
Terra de escravos e cruéis senhores!
E vós, azuis gendarmes opressores,
e vós, dócil nação de carneirada!
Além do Cáucaso e seus altos montes
livre estarei dos vossos grão-pachás,
dos olhos com que espiam tão bifrontes,
e de quantos ouvidos deixo atrás.
Terra de escravos e cruéis senhores!
E vós, azuis gendarmes opressores,
e vós, dócil nação de carneirada!
Além do Cáucaso e seus altos montes
livre estarei dos vossos grão-pachás,
dos olhos com que espiam tão bifrontes,
e de quantos ouvidos deixo atrás.
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