Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Matilde Campilho
Descrição da Cidade de Lisboa
A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.
1 140
Matilde Campilho
Descrição da Cidade de Lisboa
A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.
1 140
Matilde Campilho
Descrição da Cidade de Lisboa
A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.
1 140
Pero da Ponte
Quem Seu Parente Vendia
Quem seu parente vendia,
todo por fazer tesouro,
se xe foss'em corredura
e podesse prender mouro,
tenho que x'o venderia
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
bem fidalg'e seu sobrinho,
se tevess'em Santiago
bõa adega de vinho,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
polo poerem no pao,
se pam sobrepost'houvesse,
e lhi chegass'ano mao,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
mui fidalg'e mui loução,
se cavalo sop'houvesse
e lho comprassem por são,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
todo por fazer tesouro,
se xe foss'em corredura
e podesse prender mouro,
tenho que x'o venderia
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
bem fidalg'e seu sobrinho,
se tevess'em Santiago
bõa adega de vinho,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
polo poerem no pao,
se pam sobrepost'houvesse,
e lhi chegass'ano mao,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
mui fidalg'e mui loução,
se cavalo sop'houvesse
e lho comprassem por são,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
533
Matilde Campilho
O Acrobata
I am too late for the birth of birds
but have come just in time for the
opening of a red chocolate bar
but have come just in time for the
opening of a red chocolate bar
1 264
Matilde Campilho
Ascendente Escorpião
Na noite em que Billy Ray nasceu
(rua 28, cruzamento com a 7, Nova Iorque)
não havia ninguém dedicado à contemplação dos gerânios
Havia, isso sim, o som do mundo que caía
como estalactites múltiplas
sobre as cercanias do hospital
Automóveis, alguns a 90 km/hora, outros a 30 km/hora
Bombeiros correndo para salvar o cachorro
preso na escotilha do bote atracado no Hudson
O imigrante rendendo o caixa na loja de conveniência
para roubar alguns dólares e chicletes
Aquele casal na esquina à direita, os dois chorando,
terminando com razão o arrastado namoro de cinco anos
Rosa Burns entrando em casa sem pressa nenhuma,
lançando investidas à fechadura com a chave muito mais velha
que seu rosto — tremendo, tremendo, quase desistindo
desse negócio de viver e atirar no alvo
Havia o camião varrendo todos os pedaços de lixo da rua
Havia o ruído das fichas de póquer sendo lançadas
sobre a mesa verde-gasto entre dedos e fumaça
Alguém gritando, na explosão da minúscula morte
Alguém cantando a canção sul-americana
Alguém afagando o pescoço do pombo sem dono
Alguém jogando a bola de ténis contra a parede do quarto,
repetidamente, repetidamente, repetidamente
Havia o rádio no on tocando algum barulhinho em onda média
Havia uma bruxa cozinhando azevinho & cobre na panela
do apartamento de paredes queimadas
Na noite do nascimento de Billy Ray
ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso
da placenta de onde era arrancado
e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe
e depois o som do primeiro toque em sua cabeça
e depois o som de seu próprio grito
o grito que inaugura a festa
O mundo se reunia inteiro
entre a rua 28 e a rua 7
o aleluia da existência ocidental:
centenas de homens vergados
fazendo vénia à metafísica suficiente
que existe nos corredores do mundo
e se extrapola
até ao infinito lunar
(rua 28, cruzamento com a 7, Nova Iorque)
não havia ninguém dedicado à contemplação dos gerânios
Havia, isso sim, o som do mundo que caía
como estalactites múltiplas
sobre as cercanias do hospital
Automóveis, alguns a 90 km/hora, outros a 30 km/hora
Bombeiros correndo para salvar o cachorro
preso na escotilha do bote atracado no Hudson
O imigrante rendendo o caixa na loja de conveniência
para roubar alguns dólares e chicletes
Aquele casal na esquina à direita, os dois chorando,
terminando com razão o arrastado namoro de cinco anos
Rosa Burns entrando em casa sem pressa nenhuma,
lançando investidas à fechadura com a chave muito mais velha
que seu rosto — tremendo, tremendo, quase desistindo
desse negócio de viver e atirar no alvo
Havia o camião varrendo todos os pedaços de lixo da rua
Havia o ruído das fichas de póquer sendo lançadas
sobre a mesa verde-gasto entre dedos e fumaça
Alguém gritando, na explosão da minúscula morte
Alguém cantando a canção sul-americana
Alguém afagando o pescoço do pombo sem dono
Alguém jogando a bola de ténis contra a parede do quarto,
repetidamente, repetidamente, repetidamente
Havia o rádio no on tocando algum barulhinho em onda média
Havia uma bruxa cozinhando azevinho & cobre na panela
do apartamento de paredes queimadas
Na noite do nascimento de Billy Ray
ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso
da placenta de onde era arrancado
e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe
e depois o som do primeiro toque em sua cabeça
e depois o som de seu próprio grito
o grito que inaugura a festa
O mundo se reunia inteiro
entre a rua 28 e a rua 7
o aleluia da existência ocidental:
centenas de homens vergados
fazendo vénia à metafísica suficiente
que existe nos corredores do mundo
e se extrapola
até ao infinito lunar
965
Pero da Ponte
Martim de Cornes Vi Queixar
Martim de Cornes vi queixar
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
538
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
357
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
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Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
357
Matilde Campilho
Golpe de 7 Graus
Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
1 265
Matilde Campilho
Obituário de J. Anderson Pritt, Pela Mão da Viúva
um pedaço de aço?
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
- vai lá e rouba.
a entrada da barcaça no Ganges?
- vai lá e rouba.
os dentes do jaguar japonês?
- vai lá e rouba.
corações? pele, pelo, retina?
- vai lá e rouba.
o efeito supralunar de janeiro?
- vai lá e leva.
a receita mágica do refrigerante ou
o mecanismo do relógio de corda?
- vai lá e rouba.
a hora do despertar do monge?
- vai e usa.
anel de ouro?
- todo seu.
setenta e oito braçadas do salmão
que agora já sabe onde é a foz?
- vai lá e rouba.
a canção tradicional da ilha
entalada entre meridianos?
- vai lá e rouba.
o farolim do carro armado?
- leva, para o que der e vier.
o desenho fosforescente suspenso
na parede colombiana?
- vai lá e toma.
o fantoche que João o carpinteiro
levou anos para esculpir?
- vai lá e rouba.
constelações desmanteladas
fora da orbita terrestre?
- vai lá e abusa.
a cautela previsivelmente
vencedora, loteria de Natal?
- vai lá e rouba.
pulseira de palha do discípulo
natural?
- vai lá e rouba.
Morreu sozinho e pobre
raspando farpa por farpa
a lasca presa no coração
de Dimas, o santo a quem
no céu chamaram Rakh.
926
Matilde Campilho
Veleiro
Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 590
Matilde Campilho
Veleiro
Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 590
Pero da Ponte
Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]
Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
317
Pero da Ponte
Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]
Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
317
Matilde Campilho
Explicação do Sopro
Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel porque nos lugares anônimos é muito possível ficar encostado numa parede branca vendo a água correr no chão do chu veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro centos e vinte quilômetros até achar a costa. Ao alcançá-la, tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lombar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de Deus. O motorista do ônibus sabe perfeitamente que dentro da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de joias que contém uma caixa de medicamentos que contém uma caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está consciente também de que todo o desenho acha sua acústica perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza, o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos, podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos escolher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó de arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois passos a galope.
1 349
Pero da Ponte
Noutro Dia, Em Carrion
Noutro dia, em Carrion,
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
626
Pero da Ponte
Noutro Dia, Em Carrion
Noutro dia, em Carrion,
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
626
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer
D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
753
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer
D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
753
Matilde Campilho
Época da Colheita de Lã
Faz hoje um ano e meio que inundaram o canal de Danesdale para dar passagem à procissão dos castores. Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa. Tenho-me recusado a falar sobre aquelas coisas habituais, como o coração de Deus, a corrida dos gaiatos, a visão macroscópica que incide sobre a dobra dos calções do atleta, o cílio do peixe preto que todos os dias roça o peito do mergulhador das manhãs, o resultado da partida de baseball no Connecticut ou a forma mais correcta de escrever baseball. Acho que o esporte é uma coisa reconfortante porque se realiza sempre sobre um solo fértil e também porque o posso abandonar a qualquer instante ou voltar a ele em qualquer instante. Fred ainda está vivo, ainda limpa o balcão do bar com o pano encardido e sei que sempre que regressar à cidade posso entrar no bar, sentar-me ao balcão e perguntar-lhe sobre a performance de Hank Aaron. Fred sabe tudo sobre o voo. Descobri inúmeros elementos transformadores da vontade, mas também não vou distender-me aqui em palavrões ou frases demasiado compostas só para encontrar um sentido no decorrer da sentença. O melhor pianista do país morreu esta tarde e tinha os cabelos iluminados de fogo. Sônia diz que ele fazia lembrar erupções de querubins no asfalto, Eric não para de chorar. A amendoeira do canal foi rasgada a canivete mas o desenho gravado não é de todo a tatuagem mais feia do mundo. Etc. Etc. Etc.
1 022
Pero da Ponte
Eu, Em Toledo, Sempr'ouço Dizer
Eu, em Toledo, sempr'ouço dizer
que mui maa [vila] de pescad'é;
mais non'o creo, per bõa fé,
ca mi fui eu a verdad'en saber:
ca, noutro dia, quand'eu entrei i,
bem vos juro que de mia vista vi
a Peixota su u[m] leito jazer.
Endõado bem podera haver
Peixota quen'a quisesse filhar,
ca non'a vi a nulh'home aparar;
e ũa cousa vos quero dizer
(tenh'eu por mui bõa vileza assaz):
ũa Peixota su o leito jaz
e sol nulh'home non'a quer prender.
E se de mim quiserdes aprender
qual part'há de cima em esta sazom,
non'[a] há i, sol lhis vem i salmom;
mais pescad'outro, pera despender,
mui rafec'é, por vos eu nom mentir:
ca vi eu a Peixota remanir
i sô um leit', assi Deus mi perdom.
que mui maa [vila] de pescad'é;
mais non'o creo, per bõa fé,
ca mi fui eu a verdad'en saber:
ca, noutro dia, quand'eu entrei i,
bem vos juro que de mia vista vi
a Peixota su u[m] leito jazer.
Endõado bem podera haver
Peixota quen'a quisesse filhar,
ca non'a vi a nulh'home aparar;
e ũa cousa vos quero dizer
(tenh'eu por mui bõa vileza assaz):
ũa Peixota su o leito jaz
e sol nulh'home non'a quer prender.
E se de mim quiserdes aprender
qual part'há de cima em esta sazom,
non'[a] há i, sol lhis vem i salmom;
mais pescad'outro, pera despender,
mui rafec'é, por vos eu nom mentir:
ca vi eu a Peixota remanir
i sô um leit', assi Deus mi perdom.
470
Pero da Ponte
Garcia López D'elfaro
Garcia López d'Elfaro,
direi-vos que m'agravece:
que vosso dom é mui caro
e vosso dom é rafece.
O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.
Por caros teemos panos
que home pedir nom ousa;
e, poilos tragem dous anos
rafeces som, por tal cousa.
O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.
Esto nunca eu cuidara:
que ũa cousa senlheira
podesse seer [tam] cara
e rafec'em tal maneira.
O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.
direi-vos que m'agravece:
que vosso dom é mui caro
e vosso dom é rafece.
O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.
Por caros teemos panos
que home pedir nom ousa;
e, poilos tragem dous anos
rafeces som, por tal cousa.
O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.
Esto nunca eu cuidara:
que ũa cousa senlheira
podesse seer [tam] cara
e rafec'em tal maneira.
O vosso dom é mui caro pera quen'o há d'haver,
o vosso dom é rafec[e] a quen'o há de vender.
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