Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Renato Rezende
[O Outro]
Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
970
Renato Rezende
Epílogo
Aqui
Todo o espaço é o Paraíso
ou nenhum o é
O exílio
é um estado de espírito
A mente é livre
para criar seu destino
Dançamos, em rodopio
o frenesi da vida
na direção do infinito
de cada instante ínfimo
Não importa a mínima
o caminho
O que vale um homem
é o amor
que sente por si mesmo
e pelo seu próximo
Amor que transborda
na puríssima orgia íntima
de sermos todos, sempre
eu
o mesmo
eu
Somos todos iguais
ao mesmo tempo parte
e unidade
desta força
que move o sol
e os outros astros
Todo o espaço é o Paraíso
ou nenhum o é
O exílio
é um estado de espírito
A mente é livre
para criar seu destino
Dançamos, em rodopio
o frenesi da vida
na direção do infinito
de cada instante ínfimo
Não importa a mínima
o caminho
O que vale um homem
é o amor
que sente por si mesmo
e pelo seu próximo
Amor que transborda
na puríssima orgia íntima
de sermos todos, sempre
eu
o mesmo
eu
Somos todos iguais
ao mesmo tempo parte
e unidade
desta força
que move o sol
e os outros astros
1 068
Renato Rezende
Zelig
Como se não bastasse
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
981
Renato Rezende
Mercado de Frutas
Quando saí de casa hoje
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
973
Renato Rezende
A Ilha
Levanto as mãos para o céu,
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
757
Renato Rezende
O Mendigo
Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
1 037
Renato Rezende
O Mendigo
Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
1 037
Renato Rezende
O Mendigo
Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
1 037
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
774
Renato Rezende
Domingo
Passeamos hoje, domingo
no Aterro do Flamengo.
Fazia um dia lindo
Parecia uma cidade estrangeira
(quando eu nela chegava
pela primeira vez,
jovem e ingênuo,
e a luz do sol sumindo-se na curva
suave de cada rua parecia anunciar
uma infinidade de aventuras:
a vida jorrava em si mesma).
A liberdade não existe,
é um estado de espírito.
Passeava, domingo, no Aterro
na Barra, no Parque Guinle,
a classe média brasileira,
e sem mistério, sem desespero,
gozava seu merecido recreio.
Aqui estou eu, no meio
do dia a dia da vida:
um invólucro vazio
do que já foi risco e incêndio.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
no Aterro do Flamengo.
Fazia um dia lindo
Parecia uma cidade estrangeira
(quando eu nela chegava
pela primeira vez,
jovem e ingênuo,
e a luz do sol sumindo-se na curva
suave de cada rua parecia anunciar
uma infinidade de aventuras:
a vida jorrava em si mesma).
A liberdade não existe,
é um estado de espírito.
Passeava, domingo, no Aterro
na Barra, no Parque Guinle,
a classe média brasileira,
e sem mistério, sem desespero,
gozava seu merecido recreio.
Aqui estou eu, no meio
do dia a dia da vida:
um invólucro vazio
do que já foi risco e incêndio.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
694
Renato Rezende
Domingo
Passeamos hoje, domingo
no Aterro do Flamengo.
Fazia um dia lindo
Parecia uma cidade estrangeira
(quando eu nela chegava
pela primeira vez,
jovem e ingênuo,
e a luz do sol sumindo-se na curva
suave de cada rua parecia anunciar
uma infinidade de aventuras:
a vida jorrava em si mesma).
A liberdade não existe,
é um estado de espírito.
Passeava, domingo, no Aterro
na Barra, no Parque Guinle,
a classe média brasileira,
e sem mistério, sem desespero,
gozava seu merecido recreio.
Aqui estou eu, no meio
do dia a dia da vida:
um invólucro vazio
do que já foi risco e incêndio.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
no Aterro do Flamengo.
Fazia um dia lindo
Parecia uma cidade estrangeira
(quando eu nela chegava
pela primeira vez,
jovem e ingênuo,
e a luz do sol sumindo-se na curva
suave de cada rua parecia anunciar
uma infinidade de aventuras:
a vida jorrava em si mesma).
A liberdade não existe,
é um estado de espírito.
Passeava, domingo, no Aterro
na Barra, no Parque Guinle,
a classe média brasileira,
e sem mistério, sem desespero,
gozava seu merecido recreio.
Aqui estou eu, no meio
do dia a dia da vida:
um invólucro vazio
do que já foi risco e incêndio.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
694
Renato Rezende
Copacabana, 1997
O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
950
Renato Rezende
Trapo
O dia deu em nada?
A fome, o fogo, a sede
que pulsaram fortes
nas manhãs de outrora,
nas noites cheias de estrelas
extinguem-se hoje
sem muitas palavras, sem alarde
nesta praia, no final da tarde.
Sou agora mínimos desejos.
Nas veias corre água do mar.
O coração esfarela-se em areia.
O vulcão dentro do peito
que me deu o mundo inteiro
e me levou aos sete mares, aos mil abraços
aos reinos do sol, das sombras, do medo
dissipa-se em água, em anônimo cansaço
que se esvai como a maré entre os dedos.
Não parece sobrar nada
do que antes foi ardor e sonho.
No meio da vida,
sou fim ou sou começo?
Me desfaço no teu solo
ó Rio de Janeiro,
sou solta branca rosa que bóia
no mar de suas auroras
na boca de suas noites.
Sou finalmente neutro,
sem primavera, côr ou aroma.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
A fome, o fogo, a sede
que pulsaram fortes
nas manhãs de outrora,
nas noites cheias de estrelas
extinguem-se hoje
sem muitas palavras, sem alarde
nesta praia, no final da tarde.
Sou agora mínimos desejos.
Nas veias corre água do mar.
O coração esfarela-se em areia.
O vulcão dentro do peito
que me deu o mundo inteiro
e me levou aos sete mares, aos mil abraços
aos reinos do sol, das sombras, do medo
dissipa-se em água, em anônimo cansaço
que se esvai como a maré entre os dedos.
Não parece sobrar nada
do que antes foi ardor e sonho.
No meio da vida,
sou fim ou sou começo?
Me desfaço no teu solo
ó Rio de Janeiro,
sou solta branca rosa que bóia
no mar de suas auroras
na boca de suas noites.
Sou finalmente neutro,
sem primavera, côr ou aroma.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
818
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
979
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
979
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
979
Renato Rezende
Olho
De repente,
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
996
Renato Rezende
Impressões do Parque Lage
Na floresta do Parque Lage
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
826
Renato Rezende
Impressões do Parque Lage
Na floresta do Parque Lage
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
826
Renato Rezende
O Alto
Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
712
Renato Rezende
O Alto
Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
712
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
949
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
949