Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Marina Colasanti
Dai de beber a quem
A água que tomo
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
1 195
Marina Colasanti
Dai de beber a quem
A água que tomo
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
1 195
Marina Colasanti
Dai de beber a quem
A água que tomo
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
1 195
Marina Colasanti
SOBRE A ESTRADA
Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
1 154
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 198
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 198
Marina Colasanti
PORQUINHOS-DA-INDIA
O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta
No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
foi a primeira namorada
do poeta
No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
1 102
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 132
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 132
Marina Colasanti
DUAS ALÇAS DE COURO
Íamos a Bruges e a morte nos deteve
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
cravada
no gleis número onze da estação de Frankfurt.
Ponteiros da banhof
mostradores nos pulsos
quartzo e perfeição germânica
todos pararam
todos
cederam passo a esse outro comboio.
Lacrada em plástico fosco
descida do vagão
a morte é saco
sem nome ou rosto
transporte apenas
sem choro.
Até que alguém traz a bolsa
- duas alças, o ventre de couro preto
a trava do fecho éclair -
e faz da morte
mulher.
Frankfurt 1994
504
Marina Colasanti
NO PARQUE DA FERTILIDADE
As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
609
Marina Colasanti
NO PARQUE DA FERTILIDADE
As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
609
Marina Colasanti
VERÃO DE CHUVA EM SAITAMA
Grand-mother me chamou
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram por mim
saias em festa
íamos todos na mesma direção.
Chovia sobre o desfile
as sandálias de palha
se empapavam na lama
o andor
ou como là se chame em japonês
pesava sobre os ombros
dos homens encharcados de sakê
mas o tambor batia no mesmo ritmo
e além das cordas
as crianças olhavam submersas
na longa ondulação dos guarda-chuvas.
A avó veio por fim.
Presas as longas mangas do quimono
- não fosse a foice decepar a seda -
ceifou com graça as hastes invisíveis
fez tombar as espigas
atou os feixes
celebrando a abundância
sobre o asfalto.
E o sol
abriu-se inteiro
no seu leque.
Satums 2988
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram por mim
saias em festa
íamos todos na mesma direção.
Chovia sobre o desfile
as sandálias de palha
se empapavam na lama
o andor
ou como là se chame em japonês
pesava sobre os ombros
dos homens encharcados de sakê
mas o tambor batia no mesmo ritmo
e além das cordas
as crianças olhavam submersas
na longa ondulação dos guarda-chuvas.
A avó veio por fim.
Presas as longas mangas do quimono
- não fosse a foice decepar a seda -
ceifou com graça as hastes invisíveis
fez tombar as espigas
atou os feixes
celebrando a abundância
sobre o asfalto.
E o sol
abriu-se inteiro
no seu leque.
Satums 2988
531
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 200
Marina Colasanti
CARNAVAL EM FRIBURGO
Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
977
Marina Colasanti
CIRCO DE SOL
Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
1 220
Marina Colasanti
NAS ASAS DA PANAIR
Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
722
Marina Colasanti
NAS ASAS DA PANAIR
Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
722
Marina Colasanti
A ÚLTIMA ILHA
Neste mundo de pontes virtuais
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
1 020
Marina Colasanti
A ÚLTIMA ILHA
Neste mundo de pontes virtuais
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
1 020
Marina Colasanti
JARDINAGEM ABAIXO DO EQUADOR
Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
1 059
Marina Colasanti
SIM, PODE-SE
Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
1 046
Marina Colasanti
DOMENICA A CERTALDO
Domenica a Certaldo
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
1 018
Marina Colasanti
NEGRAS MIGRANTES
No hotel Schönbrunn em Viena
gralhas me acordam de manhã
com seu alarido,
e os sinos de uma igreja
de campanário em ponta como um bico.
Por um instante, latina que sou,
acreditei fossem gansos
no arbóreo capitólio dos Habsburgo.
Equívoco. Aves guardias não são
essas negras migrantes.
Abandonam a Rússia no princípio
do inverno deixando atrás de si
neve e silêncio
e vêm valsar aqui com duro passo.
Breve nevará em Viena, e as gralhas
exatas silhuetas sobre o branco
terão trocado um frio
por outro frio.
Ao contrário das andorinhas
quando o inverno acabar
sua ausência
trará a primavera
Fiena 1995
gralhas me acordam de manhã
com seu alarido,
e os sinos de uma igreja
de campanário em ponta como um bico.
Por um instante, latina que sou,
acreditei fossem gansos
no arbóreo capitólio dos Habsburgo.
Equívoco. Aves guardias não são
essas negras migrantes.
Abandonam a Rússia no princípio
do inverno deixando atrás de si
neve e silêncio
e vêm valsar aqui com duro passo.
Breve nevará em Viena, e as gralhas
exatas silhuetas sobre o branco
terão trocado um frio
por outro frio.
Ao contrário das andorinhas
quando o inverno acabar
sua ausência
trará a primavera
Fiena 1995
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