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Sociedade e Mundo

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Anjo Soviétivo

Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.

Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.

Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.

E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
1 046
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Anjo Soviétivo

Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.

Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.

Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.

E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
1 046
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Anjo Soviétivo

Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.

Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.

Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.

E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
1 046
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Anjo Soviétivo

Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.

Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.

Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.

E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
1 046
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Anjo Soviétivo

Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.

Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.

Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.

E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
1 046
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IV - Tudo É Tão Simples

De manhã na aldeia
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!

Vem comigo à aldeia!

Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.

Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!

Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.

Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.

Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.

Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
1 264
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IV - Tudo É Tão Simples

De manhã na aldeia
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!

Vem comigo à aldeia!

Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.

Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!

Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.

Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.

Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.

Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
1 264
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IV - Tudo É Tão Simples

De manhã na aldeia
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!

Vem comigo à aldeia!

Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.

Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!

Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.

Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.

Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.

Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
1 264
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IV - Tudo É Tão Simples

De manhã na aldeia
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!

Vem comigo à aldeia!

Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.

Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!

Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.

Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.

Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.

Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
1 264
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Muda a História

Era o tempo de Pushkin,
a primavera plana,
uma onda de ar
como a vela pura
de um barco transparente
ia pelas campinas
levantando a erva e o aroma
das germinações.
Perto de Leningrado os abetos
dançavam uma valsa lenta
de horizonte marinho.
Rumo a Este
marchavam os motores,
as rodas, a energia,
os rapazes e as moças.
Trepidava a estepe,
os cordeiros punham
sua pontuação nevada
na imensa extensão da ternura.

Vasta é a União Soviética,
como nenhuma terra.
Tem espaço
para a menor flor azul
e para a usina gigante.
Tremem e cantam grandes rios
sobre sua pele extensa
e ali vive
o esturjão que guarda envolto em prata
diminutos cachos
de frescor e delícia.
O urso nas montanhas
vai com pés delicados
como um antigo monge na aurora
de uma basílica verde.
Mas é o homem o rei
das terras soviéticas,
o pequeno homem
que acaba de nascer,
chama-se Ivan ou Pedro,
e chora
e pede leite:
é ele, o herdeiro.

Largo é o reino e afofado
com tapetes de erva e neve.
A noite apenas cobre
com seu diadema frio
a cabeça, o cimo
dos montes Urais,
e o mar lambe o contorno
de gelo ou terra doce,
glaciais territórios
ou países de uva.
Tudo possui:
a terra em movimento
como uma vasta empresa
onde ele deve,
desde que nasce,
cantar e trabalhar,
porque o reino fecundo
é obra de homens.
Antes foi escura a terra,
fome e dor encheram
o tempo e o espaço.
Então na história
veio Lenin,
mudou a terra,
depois Stalin mudou o homem.
Depois a paz, a guerra,
o sangue, o trigo:
dificilmente tudo
se foi cumprindo
com força e alegria,
e hoje Ivan herdou
de mar a mar a primavera rubra,
por onde te levo pela mão.

Escuta, escuta
este canto de pássaros:
silva a prata no temor molhado
de sua voz matutina,
eu o persigo entre agulhas
e leques de pinheiros
outro canto responde,
povoa-se o bosque
de vozes na altura.
De bosque a bosque cantam,
de semana a semana,
de aurora a aurora mudam
trinos recém-nascidos.
De aldeia a aldeia se respondem,
de usina a usina,
de rio a rio,
de metal a metal, de canto a canto.

O vasto reino canta,
se responde cantando.
Orvalho têm as folhas
na manhã clara.
Sabor de estrela fresca
tem o bosque.
Como por um planeta
vai lentamente andando
a primavera pela terra russa,
e espigas e homens nascem
sob seus pés de prata.
1 266
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Muda a História

Era o tempo de Pushkin,
a primavera plana,
uma onda de ar
como a vela pura
de um barco transparente
ia pelas campinas
levantando a erva e o aroma
das germinações.
Perto de Leningrado os abetos
dançavam uma valsa lenta
de horizonte marinho.
Rumo a Este
marchavam os motores,
as rodas, a energia,
os rapazes e as moças.
Trepidava a estepe,
os cordeiros punham
sua pontuação nevada
na imensa extensão da ternura.

Vasta é a União Soviética,
como nenhuma terra.
Tem espaço
para a menor flor azul
e para a usina gigante.
Tremem e cantam grandes rios
sobre sua pele extensa
e ali vive
o esturjão que guarda envolto em prata
diminutos cachos
de frescor e delícia.
O urso nas montanhas
vai com pés delicados
como um antigo monge na aurora
de uma basílica verde.
Mas é o homem o rei
das terras soviéticas,
o pequeno homem
que acaba de nascer,
chama-se Ivan ou Pedro,
e chora
e pede leite:
é ele, o herdeiro.

Largo é o reino e afofado
com tapetes de erva e neve.
A noite apenas cobre
com seu diadema frio
a cabeça, o cimo
dos montes Urais,
e o mar lambe o contorno
de gelo ou terra doce,
glaciais territórios
ou países de uva.
Tudo possui:
a terra em movimento
como uma vasta empresa
onde ele deve,
desde que nasce,
cantar e trabalhar,
porque o reino fecundo
é obra de homens.
Antes foi escura a terra,
fome e dor encheram
o tempo e o espaço.
Então na história
veio Lenin,
mudou a terra,
depois Stalin mudou o homem.
Depois a paz, a guerra,
o sangue, o trigo:
dificilmente tudo
se foi cumprindo
com força e alegria,
e hoje Ivan herdou
de mar a mar a primavera rubra,
por onde te levo pela mão.

Escuta, escuta
este canto de pássaros:
silva a prata no temor molhado
de sua voz matutina,
eu o persigo entre agulhas
e leques de pinheiros
outro canto responde,
povoa-se o bosque
de vozes na altura.
De bosque a bosque cantam,
de semana a semana,
de aurora a aurora mudam
trinos recém-nascidos.
De aldeia a aldeia se respondem,
de usina a usina,
de rio a rio,
de metal a metal, de canto a canto.

O vasto reino canta,
se responde cantando.
Orvalho têm as folhas
na manhã clara.
Sabor de estrela fresca
tem o bosque.
Como por um planeta
vai lentamente andando
a primavera pela terra russa,
e espigas e homens nascem
sob seus pés de prata.
1 266
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Muda a História

Era o tempo de Pushkin,
a primavera plana,
uma onda de ar
como a vela pura
de um barco transparente
ia pelas campinas
levantando a erva e o aroma
das germinações.
Perto de Leningrado os abetos
dançavam uma valsa lenta
de horizonte marinho.
Rumo a Este
marchavam os motores,
as rodas, a energia,
os rapazes e as moças.
Trepidava a estepe,
os cordeiros punham
sua pontuação nevada
na imensa extensão da ternura.

Vasta é a União Soviética,
como nenhuma terra.
Tem espaço
para a menor flor azul
e para a usina gigante.
Tremem e cantam grandes rios
sobre sua pele extensa
e ali vive
o esturjão que guarda envolto em prata
diminutos cachos
de frescor e delícia.
O urso nas montanhas
vai com pés delicados
como um antigo monge na aurora
de uma basílica verde.
Mas é o homem o rei
das terras soviéticas,
o pequeno homem
que acaba de nascer,
chama-se Ivan ou Pedro,
e chora
e pede leite:
é ele, o herdeiro.

Largo é o reino e afofado
com tapetes de erva e neve.
A noite apenas cobre
com seu diadema frio
a cabeça, o cimo
dos montes Urais,
e o mar lambe o contorno
de gelo ou terra doce,
glaciais territórios
ou países de uva.
Tudo possui:
a terra em movimento
como uma vasta empresa
onde ele deve,
desde que nasce,
cantar e trabalhar,
porque o reino fecundo
é obra de homens.
Antes foi escura a terra,
fome e dor encheram
o tempo e o espaço.
Então na história
veio Lenin,
mudou a terra,
depois Stalin mudou o homem.
Depois a paz, a guerra,
o sangue, o trigo:
dificilmente tudo
se foi cumprindo
com força e alegria,
e hoje Ivan herdou
de mar a mar a primavera rubra,
por onde te levo pela mão.

Escuta, escuta
este canto de pássaros:
silva a prata no temor molhado
de sua voz matutina,
eu o persigo entre agulhas
e leques de pinheiros
outro canto responde,
povoa-se o bosque
de vozes na altura.
De bosque a bosque cantam,
de semana a semana,
de aurora a aurora mudam
trinos recém-nascidos.
De aldeia a aldeia se respondem,
de usina a usina,
de rio a rio,
de metal a metal, de canto a canto.

O vasto reino canta,
se responde cantando.
Orvalho têm as folhas
na manhã clara.
Sabor de estrela fresca
tem o bosque.
Como por um planeta
vai lentamente andando
a primavera pela terra russa,
e espigas e homens nascem
sob seus pés de prata.
1 266
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Muda a História

Era o tempo de Pushkin,
a primavera plana,
uma onda de ar
como a vela pura
de um barco transparente
ia pelas campinas
levantando a erva e o aroma
das germinações.
Perto de Leningrado os abetos
dançavam uma valsa lenta
de horizonte marinho.
Rumo a Este
marchavam os motores,
as rodas, a energia,
os rapazes e as moças.
Trepidava a estepe,
os cordeiros punham
sua pontuação nevada
na imensa extensão da ternura.

Vasta é a União Soviética,
como nenhuma terra.
Tem espaço
para a menor flor azul
e para a usina gigante.
Tremem e cantam grandes rios
sobre sua pele extensa
e ali vive
o esturjão que guarda envolto em prata
diminutos cachos
de frescor e delícia.
O urso nas montanhas
vai com pés delicados
como um antigo monge na aurora
de uma basílica verde.
Mas é o homem o rei
das terras soviéticas,
o pequeno homem
que acaba de nascer,
chama-se Ivan ou Pedro,
e chora
e pede leite:
é ele, o herdeiro.

Largo é o reino e afofado
com tapetes de erva e neve.
A noite apenas cobre
com seu diadema frio
a cabeça, o cimo
dos montes Urais,
e o mar lambe o contorno
de gelo ou terra doce,
glaciais territórios
ou países de uva.
Tudo possui:
a terra em movimento
como uma vasta empresa
onde ele deve,
desde que nasce,
cantar e trabalhar,
porque o reino fecundo
é obra de homens.
Antes foi escura a terra,
fome e dor encheram
o tempo e o espaço.
Então na história
veio Lenin,
mudou a terra,
depois Stalin mudou o homem.
Depois a paz, a guerra,
o sangue, o trigo:
dificilmente tudo
se foi cumprindo
com força e alegria,
e hoje Ivan herdou
de mar a mar a primavera rubra,
por onde te levo pela mão.

Escuta, escuta
este canto de pássaros:
silva a prata no temor molhado
de sua voz matutina,
eu o persigo entre agulhas
e leques de pinheiros
outro canto responde,
povoa-se o bosque
de vozes na altura.
De bosque a bosque cantam,
de semana a semana,
de aurora a aurora mudam
trinos recém-nascidos.
De aldeia a aldeia se respondem,
de usina a usina,
de rio a rio,
de metal a metal, de canto a canto.

O vasto reino canta,
se responde cantando.
Orvalho têm as folhas
na manhã clara.
Sabor de estrela fresca
tem o bosque.
Como por um planeta
vai lentamente andando
a primavera pela terra russa,
e espigas e homens nascem
sob seus pés de prata.
1 266
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - o Cinturão

Carlos Augusto me mandou
um cinturão de couro de Orinoco.

Agora na cintura
levo um rio,
aves nupciais que em seu vôo levantam
as pétalas da espessura,
o longo trovão que perdi na infância
hoje o levo amarrado,
cosido com relâmpagos e chuva,
subjugando minhas velhas calças.
Couro de litoral, couro de rio,
te amo e toco,
és flor e madeira, sáurio e lodo,
és argila extensa.
Passo minha mão sobre tuas rugas
como sobre minha pátria. Tens lábios
de um beijo que me busca.
Mas não só amor, oh terra, tens,
sei que também me guardas
a dentada, o fio, o extermínio
que perguntam por mim todos os dias,
porque tua costa, América, não tem apenas plumas
de um leque incendiário,
não tem só açúcar luminoso,
frutas que pestanejam,
mas o venenoso sussurro
da facada secreta.

Aqui só
me provou o rio:
não fica mal em minha cintura.
O Orinoco
é como um nome que me falta.
Eu me chamo Orinoco,
devo ir com a água na cintura,
e desde agora
esta linha de couro
crescerá com a lua,
abrirá seus estuários na aurora,
caminhará as ruas
comigo e entrará nas reuniões
recordando-me
de onde sou: das terras abruptas
de Sinaloa e de Magallanes,
das pontas de ferro andino,
das ilhas de furacão,
porém mais que todos os lugares,
do rio caimão verde,
do Orinoco, envolto
pelas suas respirações,
que entre suas duas margens sempre recém-bordadas
vai estendendo seu canto pela terra.

Carlos Augusto, obrigado,
jovem irmão, porque no meu exílio
a água pátria me mandaste. Um dia
verás aparecer na corrente
do rio
que desatada corre e nos reúne,
um rosto, nosso povo,
alto e feliz cantando com as águas.
E quando esse rosto nos fitar
pensaremos “fizemos nossa parte”
e cantaremos com nossos rios,
com nossos povos cantaremos.
1 185
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Eu Canto E Conto

Desde o estio báltico,
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.

Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
1 203
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Eu Canto E Conto

Desde o estio báltico,
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.

Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
1 203
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Cidade Ferida

Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.

E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.

Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
985
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Cidade Ferida

Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.

E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.

Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
985
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Cidade Ferida

Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.

E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.

Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
985
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - a Cidade Ferida

Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.

E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.

Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
985
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A Estação Se Inaugura

Quando sob a terra
se preparam
as estações,
as seivas, as raízes,
as sementes,
o fogo,
a água
falam
buscando-se adereços,
polindo a caoba
da castanha futura,
endurecendo o níveo
marfim das amêndoas,
combinando os fios
das trepadeiras,
levantando o açúcar
verde dos cachos,
então
tudo está preparado:
o outono de mãos rubras,
ou a primavera pura,
ou o verão nos rios,
ou o inverno cor de estrela,
e França abre as portas:
inaugura-se o tempo.
 
Porque ali são mais belos
os bailes das folhas,
a seda crepitante
do outono nos bosques.
Ali as águas sabem
cantar de acordo
com o violino do vento.
Catedral e campina
faz já muitos anos
florescem recebendo
o mesmo beijo dúplice da chuva.
Ali no país de França
nasceu o vinho,
logo na transparência da taça
as palavras acharam
forma e som de cristal maduro
e os homens cantaram.
 
Ali
sempre os homens cantaram.
 
Chegou a guerra
como um alcatrão implacável,
mas do luto
a França saltou cantando.
Cantaram os valentes no muro
dos fuzilamentos. Cantaram
os comunistas da Comuna.
Cantou, decapitada,
a filha de Jean Richard. Canta
o povo da França,
enquanto os mercadores
atlânticos
vão preparando a carnificina.
 
Mas não apenas sala de espaçoso outono
ou primaveril pedraria
és, jardim
da França, rua
da França,
combatente,
escreveste com pedra e sangue
teu nome na muralha
do destino,
e como em ti os rios são seguros
de sua harmoniosa abundância,
assim teu povo,
rumo à plenitude, de margem a margem,
cumulado de lutas e dons,
restaurará, cantando,
a alegria.
 
1 268
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A Estação Se Inaugura

Quando sob a terra
se preparam
as estações,
as seivas, as raízes,
as sementes,
o fogo,
a água
falam
buscando-se adereços,
polindo a caoba
da castanha futura,
endurecendo o níveo
marfim das amêndoas,
combinando os fios
das trepadeiras,
levantando o açúcar
verde dos cachos,
então
tudo está preparado:
o outono de mãos rubras,
ou a primavera pura,
ou o verão nos rios,
ou o inverno cor de estrela,
e França abre as portas:
inaugura-se o tempo.
 
Porque ali são mais belos
os bailes das folhas,
a seda crepitante
do outono nos bosques.
Ali as águas sabem
cantar de acordo
com o violino do vento.
Catedral e campina
faz já muitos anos
florescem recebendo
o mesmo beijo dúplice da chuva.
Ali no país de França
nasceu o vinho,
logo na transparência da taça
as palavras acharam
forma e som de cristal maduro
e os homens cantaram.
 
Ali
sempre os homens cantaram.
 
Chegou a guerra
como um alcatrão implacável,
mas do luto
a França saltou cantando.
Cantaram os valentes no muro
dos fuzilamentos. Cantaram
os comunistas da Comuna.
Cantou, decapitada,
a filha de Jean Richard. Canta
o povo da França,
enquanto os mercadores
atlânticos
vão preparando a carnificina.
 
Mas não apenas sala de espaçoso outono
ou primaveril pedraria
és, jardim
da França, rua
da França,
combatente,
escreveste com pedra e sangue
teu nome na muralha
do destino,
e como em ti os rios são seguros
de sua harmoniosa abundância,
assim teu povo,
rumo à plenitude, de margem a margem,
cumulado de lutas e dons,
restaurará, cantando,
a alegria.
 
1 268
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A Estação Se Inaugura

Quando sob a terra
se preparam
as estações,
as seivas, as raízes,
as sementes,
o fogo,
a água
falam
buscando-se adereços,
polindo a caoba
da castanha futura,
endurecendo o níveo
marfim das amêndoas,
combinando os fios
das trepadeiras,
levantando o açúcar
verde dos cachos,
então
tudo está preparado:
o outono de mãos rubras,
ou a primavera pura,
ou o verão nos rios,
ou o inverno cor de estrela,
e França abre as portas:
inaugura-se o tempo.
 
Porque ali são mais belos
os bailes das folhas,
a seda crepitante
do outono nos bosques.
Ali as águas sabem
cantar de acordo
com o violino do vento.
Catedral e campina
faz já muitos anos
florescem recebendo
o mesmo beijo dúplice da chuva.
Ali no país de França
nasceu o vinho,
logo na transparência da taça
as palavras acharam
forma e som de cristal maduro
e os homens cantaram.
 
Ali
sempre os homens cantaram.
 
Chegou a guerra
como um alcatrão implacável,
mas do luto
a França saltou cantando.
Cantaram os valentes no muro
dos fuzilamentos. Cantaram
os comunistas da Comuna.
Cantou, decapitada,
a filha de Jean Richard. Canta
o povo da França,
enquanto os mercadores
atlânticos
vão preparando a carnificina.
 
Mas não apenas sala de espaçoso outono
ou primaveril pedraria
és, jardim
da França, rua
da França,
combatente,
escreveste com pedra e sangue
teu nome na muralha
do destino,
e como em ti os rios são seguros
de sua harmoniosa abundância,
assim teu povo,
rumo à plenitude, de margem a margem,
cumulado de lutas e dons,
restaurará, cantando,
a alegria.
 
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