Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Pablo Neruda
XV - Os homens
O transeunte, viajeiro, o satisfeito,
volta a suas rodas para rodar, a seus aviões,
e acabou o silêncio solene, é necessário
deixar para trás aquela solidão transparente
de ar lúcido, de água, de pasto duro e puro,
fugir, fugir, fugir do sal, do perigo,
do solitário círculo na água
de onde os olhos ocos do mar,
as vértebras, as pálpebras das estátuas negras
morderam o espantado burguês das cidades:
Oh Ilha de Páscoa, não me iludas,
há demasiada luz, estás muito longe,
e quanta pedra e água:
too much for me![2] Partamos!
volta a suas rodas para rodar, a seus aviões,
e acabou o silêncio solene, é necessário
deixar para trás aquela solidão transparente
de ar lúcido, de água, de pasto duro e puro,
fugir, fugir, fugir do sal, do perigo,
do solitário círculo na água
de onde os olhos ocos do mar,
as vértebras, as pálpebras das estátuas negras
morderam o espantado burguês das cidades:
Oh Ilha de Páscoa, não me iludas,
há demasiada luz, estás muito longe,
e quanta pedra e água:
too much for me![2] Partamos!
1 220
Pablo Neruda
Tarde - LXXII
Amor meu, o inverno regressa a seus quartéis,
estabelece a terra seus dons amarelos
e passamos a mão sobre um país remoto,
sobre a cabeleira da geografia.
Ir-nos! Hoje! Adiante, rodas, naves, sinos,
aviões acerados pelo diurno infinito
para o olor nupcial do arquipélago,
por longitudinais farinhas de usufruto!
Vamos, levanta-te, e endiadema-te e sobe
e desce e corre e trina com o ar e comigo
vamo-nos aos trens da Arábia ou Tocopilla,
sem mais que transmigrar para o pólen longínquo,
a povoados lancinantes de farrapos e gardênias
governados por pobres monarcas sem sapatos.
estabelece a terra seus dons amarelos
e passamos a mão sobre um país remoto,
sobre a cabeleira da geografia.
Ir-nos! Hoje! Adiante, rodas, naves, sinos,
aviões acerados pelo diurno infinito
para o olor nupcial do arquipélago,
por longitudinais farinhas de usufruto!
Vamos, levanta-te, e endiadema-te e sobe
e desce e corre e trina com o ar e comigo
vamo-nos aos trens da Arábia ou Tocopilla,
sem mais que transmigrar para o pólen longínquo,
a povoados lancinantes de farrapos e gardênias
governados por pobres monarcas sem sapatos.
570
Pablo Neruda
VII. Tristeza
O homem maldiz de repente a aurora recém-descoberta
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
952
Pablo Neruda
VII. Tristeza
O homem maldiz de repente a aurora recém-descoberta
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
952
Pablo Neruda
VII. Tristeza
O homem maldiz de repente a aurora recém-descoberta
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
952
Pablo Neruda
VII. Tristeza
O homem maldiz de repente a aurora recém-descoberta
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
952
Pablo Neruda
VII. Tristeza
O homem maldiz de repente a aurora recém-descoberta
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
952
Ana Martins Marques
cozinha
nostálgicas de um tempo de intermináveis almoços
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
1 461
Ana Martins Marques
Relógio
De que nos serviria
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
1 869
Stela do Patrocínio
Eu já fui operada várias vezes
Eu já fui operada várias vezes
Fiz várias operações
Sou toda operada
Operei o cérebro, principalmente
Eu pensei que ia acusar
Se eu tenho alguma coisa no cérebro
Não, acusou que eu tenho cérebro
Um aparelho que pensa bem pensado
Que pensa positivo
E que é ligado a outro que não pensa
Que não é capaz de pensar nada e nem trabalhar
Eles arrancaram o que está pensando
E o que está sem pensar
E foram examinar esse aparelho de pensar e não pensar
Ligados um ao outro na minha cabeça, no meu cérebro
Estudar fora da cabeça
Funcionar em cima da mesa
Eles estudando fora da minha cabeça
Eu já estou nesse ponto de estudo, de categoria
Fiz várias operações
Sou toda operada
Operei o cérebro, principalmente
Eu pensei que ia acusar
Se eu tenho alguma coisa no cérebro
Não, acusou que eu tenho cérebro
Um aparelho que pensa bem pensado
Que pensa positivo
E que é ligado a outro que não pensa
Que não é capaz de pensar nada e nem trabalhar
Eles arrancaram o que está pensando
E o que está sem pensar
E foram examinar esse aparelho de pensar e não pensar
Ligados um ao outro na minha cabeça, no meu cérebro
Estudar fora da cabeça
Funcionar em cima da mesa
Eles estudando fora da minha cabeça
Eu já estou nesse ponto de estudo, de categoria
793
José Saramago
20
Todas as calamidades haviam caído já sobre a tribo ao ponto de se falar da morte com esperança
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
1 134
José Saramago
20
Todas as calamidades haviam caído já sobre a tribo ao ponto de se falar da morte com esperança
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
1 134
Stela do Patrocínio
Não trabalho com a inteligência
Não trabalho com a inteligência
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
598
Murillo Mendes
Somos todos poetas
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
as mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
586
José Saramago
18
Muito perto do lugar escolhido para o novo acampamento as quatro mulheres que transportavam o fogo gritaram de desespero
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
Ninguém morrera subitamente ninguém fora arrebatado aos ares pelas águias mecânicas que os ocupantes lançavam sobre os bandos fugitivos
Mas ao apagar-se o fogo acontecera a desgraça de todas mais temida porque com ela seria o tempo do pavor sem remédio do negrume gelado da solidão
E metade da horda viria certamente a sucumbir na tentativa de arrancar às cidades ocupadas um novo lume se para tanto tivesse coragem
Reuniram-se em volta das cinzas e ali mesmo o chefe foi deposto e as quatro mulheres apedrejadas mas não até à morte
Porque os perseguidos estavam tão certos de morrer que respeitavam a vida e provavelmente por isso morriam com tanta facilidade
Assim começou aquela primeira noite de escuridão com todo o bando amassado numa nódoa de sombra sob o pálido e distante luzeiro das estrelas
Como sempre faziam ao fim do dia contaram-se e souberam que eram menos um
E quando apesar da sua tão grande miséria tornaram a lamentar-se por este pouco
Uma criança disse que vira afastar-se na direcção do poente um homem da tribo e que isso fora depois de o lume se apagar
A noite foi como um lastro de lama porque as estrelas estavam longe e ardiam friamente
E o dia seguinte nasceu e passou sem que se movessem dali comeram dormiram e alguns juntaram os sexos para não terem tanto medo
Outra noite se levantou da terra e vieram os lobos mecânicos que levaram consigo de rastos os dez homens mais fortes
Só se afastaram quando o sol começou a aparecer e uivaram de longe com as suas gargantas de ferro enquanto das feridas dos mortos pingava o sangue
Então sobre o disco vermelho viram os homens e as mulheres sobreviventes um ponto negro que aumentava e julgaram que o próprio sol ia apagar-se
Até ao momento em que distinguiram o homem que corria para eles o companheiro que os deixara duas noites antes e que nesse homem havia também um ponto luminoso
Uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada
1 133
Pablo Neruda
A terra
Antártica pátria que do racimo cheiroso aos cereais,
da salitreira que esconde a lua enterrada e acima no frio
os sete episódios do cobre e suas páginas verdes,
estendes, oh terra delgada, entre ondas de vinho e de neve
teus filhos insignes e esfarrapados que cantam em plena agonia.
da salitreira que esconde a lua enterrada e acima no frio
os sete episódios do cobre e suas páginas verdes,
estendes, oh terra delgada, entre ondas de vinho e de neve
teus filhos insignes e esfarrapados que cantam em plena agonia.
661
José Saramago
24
Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando
Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la
Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar
E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos
Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado
Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens
Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas
Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido
Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada
Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
991
José Saramago
28
Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
1 076
José Saramago
28
Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
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José Saramago
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Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
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José Saramago
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Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
1 076
José Saramago
14
Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o sono cansado da tribo ou rebanho de gente que vagueia pelos campos
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
Um homem ao norte uma mulher ao sul outro homem a oriente e a ocidente a segunda mulher
Estão sentados de pernas cruzadas atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo
Mas porque os perseguidores não gostam de atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes calma apenas fria
Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada
Depois o homem do norte e a mulher do sul o homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os sexos porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs
Enquanto a união dura cantam em redor a única canção feliz que não esqueceram
O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que são a esperança inconsciente da tribo
Entretanto acende-se a primeira fogueira e o fumo azul da lenha sobe para o céu
1 012
José Saramago
13
Todo o sistema prisional foi reformado pelo ocupante incluindo os próprios edifícios
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
1 054
José Saramago
13
Todo o sistema prisional foi reformado pelo ocupante incluindo os próprios edifícios
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
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