Sociedade e Mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pranto Pelo Infante D. Pedro Das Sete Partidas
Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pranto Pelo Infante D. Pedro Das Sete Partidas
Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fechei À Chave
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. de Novo Em Delphos o Python Emerge
Do sono sob os séculos contido
As águias afastaram o seu voo
Só as abelhas zumbem ainda no flanco da montanha seu vozear de bronze
Sob negras nuvens e mórbidos estios o Python emerge
A ordem natural do divino é deslocada
De novo cresce o poder do monstruoso
De novo cresce o poder do «Apodrecido»
De novo o corpo de Python é reunido
Nenhum deus respira no respirar das coisas
As máquinas crescem o Python emerge
Sob o húmido interior da terra movem-se devagar os seus anéis
Ventos da Ásia em sua boca trazem
O estridente clamor da fúria tantra
Tudo vai rolar na violência do instante
Nenhuma coisa é construída em pedra
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esteira E Cesto
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto
Mas seu humano casamento com a terra
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esteira E Cesto
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto
Mas seu humano casamento com a terra
Sophia de Mello Breyner Andresen
Maria Helena Vieira da Silva Ou o Itinerário Inelutável
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia —
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável —
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens
Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto
Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Palavra
«O pior de todos os males seria
A morte da palavra»
Diz o provérbio do Malinké:
«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Templo de Athena Aphaia
Espiga de trigo
Erguida para o céu nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Raparigas
Erguidas como espigas nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia em sua áspera doçura cereal
É claro doirado e terrestre como raparigas de trigo
Que os deuses transformaram em colunas
Junto do mar nos píncaros de Egina
Egina, Julho de 1970
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Templo de Athena Aphaia
Espiga de trigo
Erguida para o céu nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Raparigas
Erguidas como espigas nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia em sua áspera doçura cereal
É claro doirado e terrestre como raparigas de trigo
Que os deuses transformaram em colunas
Junto do mar nos píncaros de Egina
Egina, Julho de 1970
Sophia de Mello Breyner Andresen
Grécia 72
Afundados em distância confundidos com o vento
De novo o dia será liso sobre a orla do mar
Nada encobrirá a pura manhã da imanência
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Memória
Foi morto e foi esquecido
Malhas que o império tece
Mesmo depois de perdido
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Memória
Foi morto e foi esquecido
Malhas que o império tece
Mesmo depois de perdido
Sophia de Mello Breyner Andresen
Promessa
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Vaga
Mas sacode a crina
Como cavalgada
Seu próprio cavalo
Como cavaleiro
Força e chicoteia
Porém é mulher
Deitada na areia
Ou é bailarina
Que sem pés passeia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Despedida
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais
As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
Sophia de Mello Breyner Andresen
Santa Clara de Assis
Das altas noites puras e suspensas.
Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pátios
Que nos seus corredores nunca se engana
Sophia de Mello Breyner Andresen
Semi-Rimbaud
Onde frios ventos cantam
Passa rasgando o luar
E desesperando a noite
Pelas ruas oblíquas da cidade
Em madrugadas duvidosas
Constrói o mal com gestos cautelosos
E sonha a inversão total das coisas
Constrói o mal com gestos rigorosos
Lúcido de vício e de noitada
Íntegro como um poema
Completo lógico sem falha
A aurora desenha o seu rosto com os dedos
As suas órbitas iguais às das caveiras
Seu rosto voluntário e inventado
Magro de solidão verde de intensa
Vontade de negar e não ceder
De caminhar de mão dada com o nojo
De ser um espectro para terror dos vivos
E uma acusação escrita nas paredes.
Adélia Prado
Num Jardim Japonês
fazer silêncio ainda é ruído.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade Suja, Restos de Vozes E Ruídos
Que nem a própria noite resgatou.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi Florestas E Danças E Tormentos
Nos céus atravessados por cometas.
Vi luz a pique sobre as faces nuas,
Vi olhos que eram como fundas luas
Magnéticas suspensas sobre o mar.
Vi poentes em sangue alucinados
Onde os homens e as sombras se cruzavam
Em gestos desmedidos, mutilados.
Levada por fantásticos caminhos
Atravessei países vacilantes,
E nas encruzilhadas riam anjos
Inconscientes e puros como estrelas.