Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Adélia Prado
Pingentes de Citrino
Tão lírica minha vida,
difícil perceber onde sofri.
Depois de décadas de reprimido desejo,
furei as orelhas.
Miúdos como grãos de arroz,
brinquinhos de pouco brilho
me tornam mais bondosa.
Fora minhas irmãs,
que também pagam imposto
ao mesmo comedimento,
quase ninguém notou.
Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.
difícil perceber onde sofri.
Depois de décadas de reprimido desejo,
furei as orelhas.
Miúdos como grãos de arroz,
brinquinhos de pouco brilho
me tornam mais bondosa.
Fora minhas irmãs,
que também pagam imposto
ao mesmo comedimento,
quase ninguém notou.
Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.
1 072
Florbela Espanca
Meu fado meu doce amigo
Meu fado, meu doce amigo
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!
Só no silêncio da noite
Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada d’amor!
Eu quero ouvir-te também
P’r uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!
Quando o luar é dolente
Eu quero ouvir essa voz
Docemente... docemente...
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!
Só no silêncio da noite
Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada d’amor!
Eu quero ouvir-te também
P’r uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!
Quando o luar é dolente
Eu quero ouvir essa voz
Docemente... docemente...
978
Adélia Prado
Sacramental
É um modo de expiação a que nada escapa,
a árvore seca, o padre cansado
tomando comprimidos pra dormir,
a esforçada alegria de quem não sabe que é triste.
Vidas a meu encargo, interpoladas de excesso, falhas
por onde altissonante o vozerio dos mortos nos avisa.
Mas no grande Bazar ninguém escuta,
a semijoia, a missa temática
falam a mesma língua e têm o mesmo preço
do ‘Concurso de miss pra criancinhas’.
Dia após dia,
o homem cuidou de sua irmã enferma
e no dia em que ela morreu foi à cozinha
como sempre fazia àquela hora da tarde
e tomou duas cervejas.
Não pegou em armas contra o aguilhão da morte.
Ó Deus, perdoai-me o equivocado zelo em Vos servir,
o não tomar cerveja por orgulho
de ser a mãe perfeita dos viventes.
a árvore seca, o padre cansado
tomando comprimidos pra dormir,
a esforçada alegria de quem não sabe que é triste.
Vidas a meu encargo, interpoladas de excesso, falhas
por onde altissonante o vozerio dos mortos nos avisa.
Mas no grande Bazar ninguém escuta,
a semijoia, a missa temática
falam a mesma língua e têm o mesmo preço
do ‘Concurso de miss pra criancinhas’.
Dia após dia,
o homem cuidou de sua irmã enferma
e no dia em que ela morreu foi à cozinha
como sempre fazia àquela hora da tarde
e tomou duas cervejas.
Não pegou em armas contra o aguilhão da morte.
Ó Deus, perdoai-me o equivocado zelo em Vos servir,
o não tomar cerveja por orgulho
de ser a mãe perfeita dos viventes.
1 307
Adélia Prado
Feira de São Tanaz
Os peixes me olham
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
1 070
Adélia Prado
Feira de São Tanaz
Os peixes me olham
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.
1 070
Adélia Prado
Pontuação
Pus um ponto final no poema
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.
e comecei a lambê-lo a ponto de devorá-lo.
Pensamentos estranhos me tomaram:
numa bandeja de prata
uma comida de areia,
um livro com meu nome
sem uma palavra minha.
O medo pode explodir-nos,
é com zelo de quem leva sua cruz
que o carregamos.
Por isso, Deus, Vossa justiça é Jesus,
o Cordeiro que abandonastes.
Assim, quem ao menos se atreve
a levantar os olhos para Vós?
O capim cresce à revelia de mim,
não há esforço no cosmos,
tudo segue a si mesmo,
como eu agora fazendo o que sei fazer
desde que vim ao mundo.
Sou inocente,
pois nem este grito é meu.
1 123
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. a Memória Longínqua de Uma Pátria
A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
1 488
Adélia Prado
Distrações No Velório
Felipa ainda quente no caixão
e o que me vem à cabeça
é o vasilhame que areava até espelhar.
Com a mesma idade minha, só porque morreu,
não pode empoeirar-se num museu de fósseis
seu modo de arrematar qualquer assunto:
‘É um problema, comadre.’
Existem as costas, o saco e o suportar.
E suportar que realidade tem?
E por que é abstrato, se dói tanto?
Felipa organizava bazares pra mães de periferias:
‘Não têm noção de nada as coitadinhas,
um problema, comadre!’
Felipa, agora, como se diz na poética,
“descansa no seu leito derradeiro”.
Como se não fosse morrer, rezo por sua alma
e demonstro mais contrição que seus parentes,
esforço meu para espantar a cobiça:
Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente
[usava?
Vou fazer um retiro, minha glicose subiu
e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.
Deus, tem piedade de mim.
Peço porque estou viva
e sou louca por açúcar.
e o que me vem à cabeça
é o vasilhame que areava até espelhar.
Com a mesma idade minha, só porque morreu,
não pode empoeirar-se num museu de fósseis
seu modo de arrematar qualquer assunto:
‘É um problema, comadre.’
Existem as costas, o saco e o suportar.
E suportar que realidade tem?
E por que é abstrato, se dói tanto?
Felipa organizava bazares pra mães de periferias:
‘Não têm noção de nada as coitadinhas,
um problema, comadre!’
Felipa, agora, como se diz na poética,
“descansa no seu leito derradeiro”.
Como se não fosse morrer, rezo por sua alma
e demonstro mais contrição que seus parentes,
esforço meu para espantar a cobiça:
Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente
[usava?
Vou fazer um retiro, minha glicose subiu
e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.
Deus, tem piedade de mim.
Peço porque estou viva
e sou louca por açúcar.
1 200
Sophia de Mello Breyner Andresen
Exílio
Espero tecendo os dias
Imagino e contemplo.
Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
Imagino e contemplo.
Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
1 576
Adélia Prado
Nossa Senhora Dos Prazeres
No que se pode chamar de rua,
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
754
Adélia Prado
O Hospedeiro
Ainda que nasça em mim, não me pertence.
Tal qual um olho ou braço esta piedade,
o purgatório de ver a pena alheia
como se não sofresse eu mesma.
Só pode ser Deus a morte,
tão aterrorizante em seu mistério,
em seu mutismo. A opaca.
Mórbida congênita, me apodam,
este é o preço por teu nascimento
no centro do miolo de Minas.
Eu sei. E sou mais,
melancólica, quase triste.
Padeci muito vergonhas paralisantes,
nem por isso civilizei minha fome,
dentes pra destroçar bananas,
carnes roídas até os ossos.
Me esforço por olhar nos olhos
quem desde que nasci me olha fixo
esperando de mim um assentimento
— ainda que humana e fracamente,
ainda que inepto e bruto —,
um sim.
Tem braços acolhedores
e vem cheia de vida.
É Deus a poderosa morte.
Tal qual um olho ou braço esta piedade,
o purgatório de ver a pena alheia
como se não sofresse eu mesma.
Só pode ser Deus a morte,
tão aterrorizante em seu mistério,
em seu mutismo. A opaca.
Mórbida congênita, me apodam,
este é o preço por teu nascimento
no centro do miolo de Minas.
Eu sei. E sou mais,
melancólica, quase triste.
Padeci muito vergonhas paralisantes,
nem por isso civilizei minha fome,
dentes pra destroçar bananas,
carnes roídas até os ossos.
Me esforço por olhar nos olhos
quem desde que nasci me olha fixo
esperando de mim um assentimento
— ainda que humana e fracamente,
ainda que inepto e bruto —,
um sim.
Tem braços acolhedores
e vem cheia de vida.
É Deus a poderosa morte.
872
Adélia Prado
Espasmos No Santuário
Pesam como maus-tratos
as verdades que falo ao dissonante,
ao feio que pede amor.
Um susto me marcou,
como castigo perpétuo me acompanha.
Mesmo que ninguém saiba
se alguma vez gargalhou,
ou minimamente riu,
Jesus falou de Deus:
“Não tenhais medo, pequenino rebanho,
o Pai vos ama.”
Por desventura eu não teria fé?
Então, que nome tem este desejo meu
de beijar o corpo onde a ferida sangra?
Do banco dos neófitos é que rezo.
No Santo dos Santos,
no corpo vivo não toco,
tenho pouca inocência,
nem ao menos sei
se quero convictamente
amansar o coração,
limpar minha língua turva.
Daqui, onde todos descansam,
escuto um fragor de espadas.
Estou viva. É só isto que eu sei.
as verdades que falo ao dissonante,
ao feio que pede amor.
Um susto me marcou,
como castigo perpétuo me acompanha.
Mesmo que ninguém saiba
se alguma vez gargalhou,
ou minimamente riu,
Jesus falou de Deus:
“Não tenhais medo, pequenino rebanho,
o Pai vos ama.”
Por desventura eu não teria fé?
Então, que nome tem este desejo meu
de beijar o corpo onde a ferida sangra?
Do banco dos neófitos é que rezo.
No Santo dos Santos,
no corpo vivo não toco,
tenho pouca inocência,
nem ao menos sei
se quero convictamente
amansar o coração,
limpar minha língua turva.
Daqui, onde todos descansam,
escuto um fragor de espadas.
Estou viva. É só isto que eu sei.
883
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando Brilhou a Aurora, Dissolveram-Se
Entre a luz as florestas encantadas.
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos.
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.
E ao encontro da noite caminhei.
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos.
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.
E ao encontro da noite caminhei.
1 399
Adélia Prado
Balido
Setenta anos redondos,
assim não se quebra o verso.
Na verdade tenho mais.
E então?
Respeito me insulta,
repele fantasias de rapto,
namoros no jardim cheirando a malva.
Quero um paranormal a me ensinar piano,
Consuelo dá aulas, mas seu toque é um martelo
e eu venero pianos.
Mãe não rima com nada,
nem velha,
só aparece telha, ovelha, orelha,
nada que preste. Cansei.
Tem um senhor distinto
querendo arrasar meu ego.
Com certeza minto.
Volta e meia estou perplexa
e toda rima que achei é circunflexa.
assim não se quebra o verso.
Na verdade tenho mais.
E então?
Respeito me insulta,
repele fantasias de rapto,
namoros no jardim cheirando a malva.
Quero um paranormal a me ensinar piano,
Consuelo dá aulas, mas seu toque é um martelo
e eu venero pianos.
Mãe não rima com nada,
nem velha,
só aparece telha, ovelha, orelha,
nada que preste. Cansei.
Tem um senhor distinto
querendo arrasar meu ego.
Com certeza minto.
Volta e meia estou perplexa
e toda rima que achei é circunflexa.
1 128
Adélia Prado
O Visitante da Noite
Não tenho medo do papa
nem do camarada russo,
o presidente da América me distrai.
O que me encolhe é o príncipe andrajoso
que finge pedir esmolas,
sacando do seu chapéu
a fantasia das trevas:
Vão morrer os nascituros,
sua bondade é ridícula,
Deus odeia esta sua cara de medo.
Quando o sol se põe
a maldição se cumpre,
julgo não merecer minha cama limpa.
nem do camarada russo,
o presidente da América me distrai.
O que me encolhe é o príncipe andrajoso
que finge pedir esmolas,
sacando do seu chapéu
a fantasia das trevas:
Vão morrer os nascituros,
sua bondade é ridícula,
Deus odeia esta sua cara de medo.
Quando o sol se põe
a maldição se cumpre,
julgo não merecer minha cama limpa.
806
Adélia Prado
O Aproveitamento da Matéria
Só quem olha sem asco as próprias fezes,
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
1 216
Adélia Prado
Senha
Eu sou uma mulher sem nenhum mel
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
eu vou gerar um cacto sem espinho.
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
eu vou gerar um cacto sem espinho.
1 586
Adélia Prado
Quarto de Costura
Um óvulo imaginado,
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
espesso, fosco, amarelo,
pólen e penugem
que a mais potente das máquinas
ainda não inventada
abriria em universos.
O que parece indivíduo é vários.
Fosse boa cristã
entregava a Deus o que não entendo
e arrematava o bordado esquecido no cesto.
Tenho labirintite. Amei Aristóteles com fervor.
E por longo tempo deixei-o por Platão.
Enfadei-me, saudosa de carne e ossos,
acidez de sangue e suor.
O que deveras existe nos poupa perturbações,
sou uma vestal sem mágoas.
Terei o que desejo, carregando minha cruz
e morrendo nela.
1 509
Adélia Prado
Rua do Comércio
Quase fora da loja a balconista
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
1 282
Adélia Prado
O Menino Jesus
Sofri sozinha este insuportável,
quando me trouxeram o menino
que parecia dizer
‘me pega, diz que não sou órfão,
que tenho pai e mãe,
me fala que não sou um usurpador’.
Atracou-se comigo até dormir.
Mesmo rígida,
fui sua cruz mais branda.
quando me trouxeram o menino
que parecia dizer
‘me pega, diz que não sou órfão,
que tenho pai e mãe,
me fala que não sou um usurpador’.
Atracou-se comigo até dormir.
Mesmo rígida,
fui sua cruz mais branda.
1 543
Adélia Prado
Portunhol
Quero dizer
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
1 176
Adélia Prado
Outubro
El macaquito diria
se falasse espanhol
mas só sei português
e bater um coco no outro
ignorante e atrevida.
Outubro me dá desejos
secretos e confessáveis.
Grito alto
pelos mesmos motivos das cigarras.
se falasse espanhol
mas só sei português
e bater um coco no outro
ignorante e atrevida.
Outubro me dá desejos
secretos e confessáveis.
Grito alto
pelos mesmos motivos das cigarras.
1 259
Adélia Prado
O Tesouro Escondido
Tanto mais perto quanto mais remoto,
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
1 625