Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Nova Canção (Sem Rei) de Tule
Há muito, há muito, muito tempo,
um Rei de Tule, apaixonado,
jogou ao mar a taça de ouro
em que bebera todo o amor.
E Goethe fez uma canção
desse amor e dessa áurea copa
que o pobre Nerval traduziu
(il la vit tourner dans l’eau noire…)
e mais Gounod e mais Berlioz
espalharam pelos teatros
líricos, o nosso inclusive.
Foi há tanto, nevoso tempo!
Já não se jogam taças de ouro
numa varanda sobre o mar
nem em qualquer outro lugar.
E Tule é outra. Mas que vejo?
Que objeto é esse lançado
às profundas do Mar de Baffin,
quando até as óperas mudam
de tom, em seu texto eletrônico?
Nem é um só, mas três ou quatro
alfaias de um rei dolorido
a desfazer-se de lembranças
inefáveis, no fim da vida?
E é ouro mesmo? Não: plutônio
(o duzentos e trinta e nove)
e urânio, seu irmão-primo
(o duzentos e trinta e cinco),
tão juntos como outrora juntos
em amoroso contubérnio
o rei e sua amada estavam.
Sob a blindagem protetora,
o idílio desses elementos
é de infernal doçura, mas
cuidado: se o detonador
detona, o mundo vira caco
ou pó de caco, pois amor
com tal potência em megatons
é antes símbolo de morte
do que uma rima para flor.
Focas em pânico: “Por que
nos remetem para depósito
esses invólucros letais
seguidos de uma caixa negra
com cabalísticos sinais,
se nenhum crime cometemos
em nossas solidões claustrais?”
Esquimós repetem em coro
a angústia das focas, o medo:
“Ninguém pode viver tranquilo
nem ao menos neste degredo?
Que presente é este, sem dó,
agredindo a paz do esquimó?”
“Calma, filhinhos” — uma Voz,
ressoando não se sabe de onde,
esclarece, pede desculpas:
“Foi apenas um acidente
em treinamento de rotina,
que dia e noite, mês a mês,
ano a ano, nossos motores
(oito) dos B-Cinquenta e Dois
vêm fazendo no mar das nuvens
com esses mimosos engenhos
tão amoráveis e perfeitos
e de prodigiosos efeitos
para o fim de lembrar ao Homem
que viver é graça precária
dependente de nosso arbítrio,
e portanto não facilite
se não quer converter-se em cinzas
sem sequer urna cinerária.
São bombas, sim, mas bombas bentas
pelo nosso santo desejo
de dirigir bem este mundo:
já não espada de justiça
nem lanterna do entendimento,
nem quimeras que a mente atiça
e se esfumam no vão do vento.
Fiquem quietas, amigas focas,
caros esquimós, bocca chiusa:
não se mexam em suas tocas,
que não é hora de alaúza”.
Disse a Voz. Seu ensinamento
verruma os arcanos gelados
para atingir a consciência
dos mínimos seres terrestres.
Ninguém mais joga copa de ouro
ao mar, nem há mais Rei de Tule.
Mas, de vez em quando, uma bomba
(ou três ou quatro) se diverte
fazendo o úmido trajeto.
Goethe também já não existe
para compor sua canção,
nem Nerval, nem os mestres músicos
dos velhos tempos do Oitocentos.
Então, este simples escriba,
claudicante na versiprosa,
eis que tentou versiprosar
mais um caso de bomba ao mar.
26/01/1968
um Rei de Tule, apaixonado,
jogou ao mar a taça de ouro
em que bebera todo o amor.
E Goethe fez uma canção
desse amor e dessa áurea copa
que o pobre Nerval traduziu
(il la vit tourner dans l’eau noire…)
e mais Gounod e mais Berlioz
espalharam pelos teatros
líricos, o nosso inclusive.
Foi há tanto, nevoso tempo!
Já não se jogam taças de ouro
numa varanda sobre o mar
nem em qualquer outro lugar.
E Tule é outra. Mas que vejo?
Que objeto é esse lançado
às profundas do Mar de Baffin,
quando até as óperas mudam
de tom, em seu texto eletrônico?
Nem é um só, mas três ou quatro
alfaias de um rei dolorido
a desfazer-se de lembranças
inefáveis, no fim da vida?
E é ouro mesmo? Não: plutônio
(o duzentos e trinta e nove)
e urânio, seu irmão-primo
(o duzentos e trinta e cinco),
tão juntos como outrora juntos
em amoroso contubérnio
o rei e sua amada estavam.
Sob a blindagem protetora,
o idílio desses elementos
é de infernal doçura, mas
cuidado: se o detonador
detona, o mundo vira caco
ou pó de caco, pois amor
com tal potência em megatons
é antes símbolo de morte
do que uma rima para flor.
Focas em pânico: “Por que
nos remetem para depósito
esses invólucros letais
seguidos de uma caixa negra
com cabalísticos sinais,
se nenhum crime cometemos
em nossas solidões claustrais?”
Esquimós repetem em coro
a angústia das focas, o medo:
“Ninguém pode viver tranquilo
nem ao menos neste degredo?
Que presente é este, sem dó,
agredindo a paz do esquimó?”
“Calma, filhinhos” — uma Voz,
ressoando não se sabe de onde,
esclarece, pede desculpas:
“Foi apenas um acidente
em treinamento de rotina,
que dia e noite, mês a mês,
ano a ano, nossos motores
(oito) dos B-Cinquenta e Dois
vêm fazendo no mar das nuvens
com esses mimosos engenhos
tão amoráveis e perfeitos
e de prodigiosos efeitos
para o fim de lembrar ao Homem
que viver é graça precária
dependente de nosso arbítrio,
e portanto não facilite
se não quer converter-se em cinzas
sem sequer urna cinerária.
São bombas, sim, mas bombas bentas
pelo nosso santo desejo
de dirigir bem este mundo:
já não espada de justiça
nem lanterna do entendimento,
nem quimeras que a mente atiça
e se esfumam no vão do vento.
Fiquem quietas, amigas focas,
caros esquimós, bocca chiusa:
não se mexam em suas tocas,
que não é hora de alaúza”.
Disse a Voz. Seu ensinamento
verruma os arcanos gelados
para atingir a consciência
dos mínimos seres terrestres.
Ninguém mais joga copa de ouro
ao mar, nem há mais Rei de Tule.
Mas, de vez em quando, uma bomba
(ou três ou quatro) se diverte
fazendo o úmido trajeto.
Goethe também já não existe
para compor sua canção,
nem Nerval, nem os mestres músicos
dos velhos tempos do Oitocentos.
Então, este simples escriba,
claudicante na versiprosa,
eis que tentou versiprosar
mais um caso de bomba ao mar.
26/01/1968
661
Carlos Drummond de Andrade
Guanabara
Distinto doutor Sette Câmara,
JK lhe deu uma tâmara
por sua festa natalícia?
uma embaixada pontifícia
ou um Volkswagen de 60,
souvenir gracioso, que tenta
o cidadão, e que sempre há de
provar a perfeita amizade?
Não foi antes abacaxi,
perna faltosa de saci,
brasa na mão, caixa de espantos,
capaz de infernizar os santos?
É seu amigo ou é da onça
quem, dessa maneira esconsa,
numa bandeja, de presente,
lhe oferece tal dor de dente
ou de cabeça, melhor dito?
Claro, não vai ser infinito
seu governo, mas, mesmo breve,
bonequinho esculpido em neve,
que fios de cabelo branco
lhe custará, para ser franco!
Ficamos livres de Falcão,
de Peixoto e da multidão
de solertes paraquedistas
a tocaiar novas conquistas.
Mas será que ficamos mesmo?
Meu pensamento salta a esmo…
Tudo escuro. Sem almenara,
nasce o Estado de Guanabara.
Filho sem pai, mas com padrasto,
é logo presa fácil, pasto
de quantos, por trás da cortina,
têm mão boba com vista fina.
(Esses governos provisórios
se parecem com suspensórios
de elasticidade tamanha
que esticam a poder de manha
e encolhem quando necessário
evitar qualquer comentário.)
Governo assim, todo o programa
consiste em preparar a cama
bem quentinha, em colchão de molas,
para ilustríssimos cartolas.
Mas salve, Guanabara! Pobre
terra, porém bravo, nobre
povo que agora recomeças,
desiludido de promessas,
foros de capital, Sursans
e mais lorotas maganãs,
o teu caminho entre destroços,
dívidas, dúvidas e ossos.
Deputados, teus vereadores?
Cristo sofreu maiores dores,
teu orago São Sebastião
foi flechado no coração,
e o que aconteceu a Estácio
de Sá não cabe num posfácio.
Entre sombras e vis desgostos
que fazem pender tantos rostos,
entre provas de desamor
dos que, sob pífano e tambor,
passam a outra freguesia,
abandonando — quem diria —
estas paragens tão amigas
que lavraram como formigas,
— ó Rio velho, sempre novo! —
junta o riso e a força do povo,
e compõe teu próprio destino,
Guanabara, Estado menino!
17/04/1960
JK lhe deu uma tâmara
por sua festa natalícia?
uma embaixada pontifícia
ou um Volkswagen de 60,
souvenir gracioso, que tenta
o cidadão, e que sempre há de
provar a perfeita amizade?
Não foi antes abacaxi,
perna faltosa de saci,
brasa na mão, caixa de espantos,
capaz de infernizar os santos?
É seu amigo ou é da onça
quem, dessa maneira esconsa,
numa bandeja, de presente,
lhe oferece tal dor de dente
ou de cabeça, melhor dito?
Claro, não vai ser infinito
seu governo, mas, mesmo breve,
bonequinho esculpido em neve,
que fios de cabelo branco
lhe custará, para ser franco!
Ficamos livres de Falcão,
de Peixoto e da multidão
de solertes paraquedistas
a tocaiar novas conquistas.
Mas será que ficamos mesmo?
Meu pensamento salta a esmo…
Tudo escuro. Sem almenara,
nasce o Estado de Guanabara.
Filho sem pai, mas com padrasto,
é logo presa fácil, pasto
de quantos, por trás da cortina,
têm mão boba com vista fina.
(Esses governos provisórios
se parecem com suspensórios
de elasticidade tamanha
que esticam a poder de manha
e encolhem quando necessário
evitar qualquer comentário.)
Governo assim, todo o programa
consiste em preparar a cama
bem quentinha, em colchão de molas,
para ilustríssimos cartolas.
Mas salve, Guanabara! Pobre
terra, porém bravo, nobre
povo que agora recomeças,
desiludido de promessas,
foros de capital, Sursans
e mais lorotas maganãs,
o teu caminho entre destroços,
dívidas, dúvidas e ossos.
Deputados, teus vereadores?
Cristo sofreu maiores dores,
teu orago São Sebastião
foi flechado no coração,
e o que aconteceu a Estácio
de Sá não cabe num posfácio.
Entre sombras e vis desgostos
que fazem pender tantos rostos,
entre provas de desamor
dos que, sob pífano e tambor,
passam a outra freguesia,
abandonando — quem diria —
estas paragens tão amigas
que lavraram como formigas,
— ó Rio velho, sempre novo! —
junta o riso e a força do povo,
e compõe teu próprio destino,
Guanabara, Estado menino!
17/04/1960
554
Carlos Drummond de Andrade
Guanabara
Distinto doutor Sette Câmara,
JK lhe deu uma tâmara
por sua festa natalícia?
uma embaixada pontifícia
ou um Volkswagen de 60,
souvenir gracioso, que tenta
o cidadão, e que sempre há de
provar a perfeita amizade?
Não foi antes abacaxi,
perna faltosa de saci,
brasa na mão, caixa de espantos,
capaz de infernizar os santos?
É seu amigo ou é da onça
quem, dessa maneira esconsa,
numa bandeja, de presente,
lhe oferece tal dor de dente
ou de cabeça, melhor dito?
Claro, não vai ser infinito
seu governo, mas, mesmo breve,
bonequinho esculpido em neve,
que fios de cabelo branco
lhe custará, para ser franco!
Ficamos livres de Falcão,
de Peixoto e da multidão
de solertes paraquedistas
a tocaiar novas conquistas.
Mas será que ficamos mesmo?
Meu pensamento salta a esmo…
Tudo escuro. Sem almenara,
nasce o Estado de Guanabara.
Filho sem pai, mas com padrasto,
é logo presa fácil, pasto
de quantos, por trás da cortina,
têm mão boba com vista fina.
(Esses governos provisórios
se parecem com suspensórios
de elasticidade tamanha
que esticam a poder de manha
e encolhem quando necessário
evitar qualquer comentário.)
Governo assim, todo o programa
consiste em preparar a cama
bem quentinha, em colchão de molas,
para ilustríssimos cartolas.
Mas salve, Guanabara! Pobre
terra, porém bravo, nobre
povo que agora recomeças,
desiludido de promessas,
foros de capital, Sursans
e mais lorotas maganãs,
o teu caminho entre destroços,
dívidas, dúvidas e ossos.
Deputados, teus vereadores?
Cristo sofreu maiores dores,
teu orago São Sebastião
foi flechado no coração,
e o que aconteceu a Estácio
de Sá não cabe num posfácio.
Entre sombras e vis desgostos
que fazem pender tantos rostos,
entre provas de desamor
dos que, sob pífano e tambor,
passam a outra freguesia,
abandonando — quem diria —
estas paragens tão amigas
que lavraram como formigas,
— ó Rio velho, sempre novo! —
junta o riso e a força do povo,
e compõe teu próprio destino,
Guanabara, Estado menino!
17/04/1960
JK lhe deu uma tâmara
por sua festa natalícia?
uma embaixada pontifícia
ou um Volkswagen de 60,
souvenir gracioso, que tenta
o cidadão, e que sempre há de
provar a perfeita amizade?
Não foi antes abacaxi,
perna faltosa de saci,
brasa na mão, caixa de espantos,
capaz de infernizar os santos?
É seu amigo ou é da onça
quem, dessa maneira esconsa,
numa bandeja, de presente,
lhe oferece tal dor de dente
ou de cabeça, melhor dito?
Claro, não vai ser infinito
seu governo, mas, mesmo breve,
bonequinho esculpido em neve,
que fios de cabelo branco
lhe custará, para ser franco!
Ficamos livres de Falcão,
de Peixoto e da multidão
de solertes paraquedistas
a tocaiar novas conquistas.
Mas será que ficamos mesmo?
Meu pensamento salta a esmo…
Tudo escuro. Sem almenara,
nasce o Estado de Guanabara.
Filho sem pai, mas com padrasto,
é logo presa fácil, pasto
de quantos, por trás da cortina,
têm mão boba com vista fina.
(Esses governos provisórios
se parecem com suspensórios
de elasticidade tamanha
que esticam a poder de manha
e encolhem quando necessário
evitar qualquer comentário.)
Governo assim, todo o programa
consiste em preparar a cama
bem quentinha, em colchão de molas,
para ilustríssimos cartolas.
Mas salve, Guanabara! Pobre
terra, porém bravo, nobre
povo que agora recomeças,
desiludido de promessas,
foros de capital, Sursans
e mais lorotas maganãs,
o teu caminho entre destroços,
dívidas, dúvidas e ossos.
Deputados, teus vereadores?
Cristo sofreu maiores dores,
teu orago São Sebastião
foi flechado no coração,
e o que aconteceu a Estácio
de Sá não cabe num posfácio.
Entre sombras e vis desgostos
que fazem pender tantos rostos,
entre provas de desamor
dos que, sob pífano e tambor,
passam a outra freguesia,
abandonando — quem diria —
estas paragens tão amigas
que lavraram como formigas,
— ó Rio velho, sempre novo! —
junta o riso e a força do povo,
e compõe teu próprio destino,
Guanabara, Estado menino!
17/04/1960
554
Carlos Drummond de Andrade
Guanabara
Distinto doutor Sette Câmara,
JK lhe deu uma tâmara
por sua festa natalícia?
uma embaixada pontifícia
ou um Volkswagen de 60,
souvenir gracioso, que tenta
o cidadão, e que sempre há de
provar a perfeita amizade?
Não foi antes abacaxi,
perna faltosa de saci,
brasa na mão, caixa de espantos,
capaz de infernizar os santos?
É seu amigo ou é da onça
quem, dessa maneira esconsa,
numa bandeja, de presente,
lhe oferece tal dor de dente
ou de cabeça, melhor dito?
Claro, não vai ser infinito
seu governo, mas, mesmo breve,
bonequinho esculpido em neve,
que fios de cabelo branco
lhe custará, para ser franco!
Ficamos livres de Falcão,
de Peixoto e da multidão
de solertes paraquedistas
a tocaiar novas conquistas.
Mas será que ficamos mesmo?
Meu pensamento salta a esmo…
Tudo escuro. Sem almenara,
nasce o Estado de Guanabara.
Filho sem pai, mas com padrasto,
é logo presa fácil, pasto
de quantos, por trás da cortina,
têm mão boba com vista fina.
(Esses governos provisórios
se parecem com suspensórios
de elasticidade tamanha
que esticam a poder de manha
e encolhem quando necessário
evitar qualquer comentário.)
Governo assim, todo o programa
consiste em preparar a cama
bem quentinha, em colchão de molas,
para ilustríssimos cartolas.
Mas salve, Guanabara! Pobre
terra, porém bravo, nobre
povo que agora recomeças,
desiludido de promessas,
foros de capital, Sursans
e mais lorotas maganãs,
o teu caminho entre destroços,
dívidas, dúvidas e ossos.
Deputados, teus vereadores?
Cristo sofreu maiores dores,
teu orago São Sebastião
foi flechado no coração,
e o que aconteceu a Estácio
de Sá não cabe num posfácio.
Entre sombras e vis desgostos
que fazem pender tantos rostos,
entre provas de desamor
dos que, sob pífano e tambor,
passam a outra freguesia,
abandonando — quem diria —
estas paragens tão amigas
que lavraram como formigas,
— ó Rio velho, sempre novo! —
junta o riso e a força do povo,
e compõe teu próprio destino,
Guanabara, Estado menino!
17/04/1960
JK lhe deu uma tâmara
por sua festa natalícia?
uma embaixada pontifícia
ou um Volkswagen de 60,
souvenir gracioso, que tenta
o cidadão, e que sempre há de
provar a perfeita amizade?
Não foi antes abacaxi,
perna faltosa de saci,
brasa na mão, caixa de espantos,
capaz de infernizar os santos?
É seu amigo ou é da onça
quem, dessa maneira esconsa,
numa bandeja, de presente,
lhe oferece tal dor de dente
ou de cabeça, melhor dito?
Claro, não vai ser infinito
seu governo, mas, mesmo breve,
bonequinho esculpido em neve,
que fios de cabelo branco
lhe custará, para ser franco!
Ficamos livres de Falcão,
de Peixoto e da multidão
de solertes paraquedistas
a tocaiar novas conquistas.
Mas será que ficamos mesmo?
Meu pensamento salta a esmo…
Tudo escuro. Sem almenara,
nasce o Estado de Guanabara.
Filho sem pai, mas com padrasto,
é logo presa fácil, pasto
de quantos, por trás da cortina,
têm mão boba com vista fina.
(Esses governos provisórios
se parecem com suspensórios
de elasticidade tamanha
que esticam a poder de manha
e encolhem quando necessário
evitar qualquer comentário.)
Governo assim, todo o programa
consiste em preparar a cama
bem quentinha, em colchão de molas,
para ilustríssimos cartolas.
Mas salve, Guanabara! Pobre
terra, porém bravo, nobre
povo que agora recomeças,
desiludido de promessas,
foros de capital, Sursans
e mais lorotas maganãs,
o teu caminho entre destroços,
dívidas, dúvidas e ossos.
Deputados, teus vereadores?
Cristo sofreu maiores dores,
teu orago São Sebastião
foi flechado no coração,
e o que aconteceu a Estácio
de Sá não cabe num posfácio.
Entre sombras e vis desgostos
que fazem pender tantos rostos,
entre provas de desamor
dos que, sob pífano e tambor,
passam a outra freguesia,
abandonando — quem diria —
estas paragens tão amigas
que lavraram como formigas,
— ó Rio velho, sempre novo! —
junta o riso e a força do povo,
e compõe teu próprio destino,
Guanabara, Estado menino!
17/04/1960
554
Carlos Drummond de Andrade
Fmi
Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade
Fmi
Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade
Fmi
Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade
Fmi
Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade
A Um Viajante
Eu vi você flutuando
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
1 190
Carlos Drummond de Andrade
A Um Viajante
Eu vi você flutuando
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
1 190
Carlos Drummond de Andrade
União Nacional Em Três Dias
Quem falou em guerra?
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
641
Carlos Drummond de Andrade
União Nacional Em Três Dias
Quem falou em guerra?
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
641
Carlos Drummond de Andrade
União Nacional Em Três Dias
Quem falou em guerra?
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
Chegam todos unidos:
Unidos de São Carlos
Unidos de Vaz Lobo
Unidos de Vila Isabel
Unidos de Nilópolis
do Cunha
de Manguinhos e de Padre Miguel
de Lucas, de Jardim
da Tijuca, da Ponte
do Morro do Pinto
Unidos do Tuiuti
da Vila São Luís
da Vila Santa Teresa
Unidos do Cabuçu Bangu Zumbi
Unidos (ecumenicamente) do Éden.
Restam, é certo, os Independentes do Leblon
(que antes eram Inocentes)
os de Mesquita
os Decididos de Quintino.
Uni-vos, caríssimos, e unidos todos
aos Acadêmicos do Salgueiro
do Engenho da Rainha
da Academia Brasileira de Letras
e de Santa Cruz
acolitados pelos Aprendizes da Gávea
pelos da Boca do Mato
pelos Índios do Leme,
de mãos dadas aos Cartolinhas de Caxias
aos Azulões da Torre
aos Caprichosos de Pilares
diremos aos irmãos do Império Serrano
do Império do Marangá
do Império de Campo Grande
aos de Lins Imperial
aos da Imperatriz Leopoldina:
Diletos,
chegou a hora da União Nacional.
Com todo o frevo, com todo o frevor
com todo o samba
que é uma tristeza aberta em alegria
à porta de Portela, à sombra de Mangueira
no pulo-bolo-pulo dos clubes
no tablado da Rua Miguel Lemos
de nosso mal viver faça-se um sonho
em Kodachrome
coruscante de strass e tão tamborinado
que na pele tensa percutida
a alma ressoa, o som é dor sem amargor.
De flor no cabelo
de flor na cara
de cara de pau
de pau de arara
de arara real
no Municipal
de umbigo de fora
de fora da terra
me dê, me dê a mão
vamos pro meio do salão
com Dona Beja feiticeira do Araxá
e o Crioulo Doido decifrando
sublimes pergaminhos, oba oba.
Fuga? Integração?
Um sair de si mesmo em travesti
um encontrar-se, um dar-se, um desventrar-se
no grande aboio das manadas rítmicas
desfilando entre turistas de aço
até raiar o dia e a fantasia
desfolhar-se?
Unidos desunidos confundidos
diluídos
possuídos
do diabo dançarol e cantarinho
endemoninhados da Pavuna
festivos de Ipanema
repetentes do Fundão
abandonados de Deodoro
mutilados de Del Castilho
corruptos da Lapa Velha
humilhados de Ricardo de Albuquerque
párias do Nordeste em fogo e chuva
afogados do Amazonas párias
de toda parte vinde
vinde todos, vinde todos, vinde todos,
aqui e agora
re-unidos
num projeto de vida à flor da vida.
25/02/1968
641
Carlos Drummond de Andrade
No Festival
Na janela Carolina
não viu o tempo passar.
Eu bem que mostrei a ela:
São os do Norte que vêm,
que vêm para dar exemplo
com Suassuna e Capiba.
Enquanto isso Guarabira,
que é Guttenberg também,
vai demolindo o castelo
(será de Garcia d’Ávila?),
uma pedrinha e mais outra.
Aparece Margarida
em seu terraço roqueiro
(ah, esse Rio comprido!),
exclama: Calma, filhinho,
que tu me botas abaixo.
Mas Gut, que nem Botafogo
em dia de goleada,
vai cantando seu olé
em som fechado de olê.
Marinheiro, olê… Lá vai,
lá vai nessa travessia
onde o nome de Maria
— é Maria a toda hora,
é Maria atrás do som,
da cor, da dor, do pistom —
de tão repetido serve
de “como vai” e “bom-dia”.
Como é bom dizer bom-dia,
diz o netinho do Souto
enquanto papa um biscoito.
Ó Maria Madrugada,
ó Maria Minha Fé,
acorda, que na alvorada
quero bem quente o café.
Sou de Oxalá. Não sabias?
Quem sabe não vai dizer,
não mete a mão em cumbuca,
foi pago pra não falar,
por mais que reclame Tuca.
Filho de branco e de preto,
eu sempre quis só cantar
de serra, de terra e mar.
Eu troco o não pelo sim,
não tranco meu coração.
E quem será que inventou
não só o tempo da flor,
não só o tempo do amor,
mas esse instante de luz
que é esperança de aurora
sob os líricos auspícios
de nosso caro Vinícius?
Eu bem que mostrei sorrindo,
ó meu amor infinito
(infinito enquanto dura),
todas as coisas do mundo,
se queres, te quero dar.
— Fala baixinho… Ninguém
é capaz de compreender
meiguices de Pixinguinha
em tempos de desamor.
E, sem ligar pra ninguém,
andarilho Pingarilho,
venho de terras distantes.
No sertão de minha terra
outro vento está soprando.
E tudo se transformou.
A vida como ela é
se impõe, Geraldo Vandré.
Dá vontade de gritar,
mas o que ouço em redor
é choradeira em novelo,
rala dor de cotovelo.
Por que a lágrima vã
que turvou o teu olhar
em canto não se converte
noutra estrela da manhã?
Bem faz o Chico: se a estrela
caiu e murchou a rosa,
ei-lo que mostra à janela
de floresta, céu e mar:
— Oh que lindo… Carolina,
meu doce, minha menina,
não deixa o barco partir,
não deixa a banda passar!
25/10/1967
não viu o tempo passar.
Eu bem que mostrei a ela:
São os do Norte que vêm,
que vêm para dar exemplo
com Suassuna e Capiba.
Enquanto isso Guarabira,
que é Guttenberg também,
vai demolindo o castelo
(será de Garcia d’Ávila?),
uma pedrinha e mais outra.
Aparece Margarida
em seu terraço roqueiro
(ah, esse Rio comprido!),
exclama: Calma, filhinho,
que tu me botas abaixo.
Mas Gut, que nem Botafogo
em dia de goleada,
vai cantando seu olé
em som fechado de olê.
Marinheiro, olê… Lá vai,
lá vai nessa travessia
onde o nome de Maria
— é Maria a toda hora,
é Maria atrás do som,
da cor, da dor, do pistom —
de tão repetido serve
de “como vai” e “bom-dia”.
Como é bom dizer bom-dia,
diz o netinho do Souto
enquanto papa um biscoito.
Ó Maria Madrugada,
ó Maria Minha Fé,
acorda, que na alvorada
quero bem quente o café.
Sou de Oxalá. Não sabias?
Quem sabe não vai dizer,
não mete a mão em cumbuca,
foi pago pra não falar,
por mais que reclame Tuca.
Filho de branco e de preto,
eu sempre quis só cantar
de serra, de terra e mar.
Eu troco o não pelo sim,
não tranco meu coração.
E quem será que inventou
não só o tempo da flor,
não só o tempo do amor,
mas esse instante de luz
que é esperança de aurora
sob os líricos auspícios
de nosso caro Vinícius?
Eu bem que mostrei sorrindo,
ó meu amor infinito
(infinito enquanto dura),
todas as coisas do mundo,
se queres, te quero dar.
— Fala baixinho… Ninguém
é capaz de compreender
meiguices de Pixinguinha
em tempos de desamor.
E, sem ligar pra ninguém,
andarilho Pingarilho,
venho de terras distantes.
No sertão de minha terra
outro vento está soprando.
E tudo se transformou.
A vida como ela é
se impõe, Geraldo Vandré.
Dá vontade de gritar,
mas o que ouço em redor
é choradeira em novelo,
rala dor de cotovelo.
Por que a lágrima vã
que turvou o teu olhar
em canto não se converte
noutra estrela da manhã?
Bem faz o Chico: se a estrela
caiu e murchou a rosa,
ei-lo que mostra à janela
de floresta, céu e mar:
— Oh que lindo… Carolina,
meu doce, minha menina,
não deixa o barco partir,
não deixa a banda passar!
25/10/1967
1 237
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
Uma semana triste: em Rio Claro,
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
700
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
Uma semana triste: em Rio Claro,
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
700
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
As alegrias no Maracanã
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
1 043
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
As alegrias no Maracanã
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
1 043
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
As alegrias no Maracanã
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
1 043
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
As alegrias no Maracanã
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
1 043
Carlos Drummond de Andrade
A Paulo de Tarso
São Paulo aos Coríntios:
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.
Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.
Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.
A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido
(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.
A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.
Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.
Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.
Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.
A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido
(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.
A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.
Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
1 332
Carlos Drummond de Andrade
A Paulo de Tarso
São Paulo aos Coríntios:
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.
Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.
Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.
A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido
(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.
A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.
Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.
Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.
Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.
A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido
(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.
A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.
Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
1 332
Carlos Drummond de Andrade
Desfile
Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
1 103
Carlos Drummond de Andrade
Desfile
Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
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