Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Adélia Prado
Tal Qual Um Macho
Comi em frente da televisão
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
1 031
Adélia Prado
Uma Janela E Sua Serventia
Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
1 310
Adélia Prado
A Escrivã Na Cozinha
Só Deus pode dar nome à obra completa
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo pra torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas pra dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo pra torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas pra dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
1 510
Adélia Prado
O Santo Ícone
A despeito do meu desejo
de contrição e alegria,
amanheci rancorosa,
regirando a cabeça
à cata de um facão.
O cachorro percebeu,
a criança também,
se escondendo de mim
no colo de sua mãe.
Havia dito:
por que não me atendes, Deus?
Ou alguém rezava para mim?
Me olhando da parede
a Virgem Nossa Senhora
me oferecia o seu menino
à lâmina.
Eu que delirava à noite
em tempo mais-que-perfeito
porque Portugal fizera
O Tratado de Tordesilhas,
me rindo muito de abóboras,
da palavra e da coisa,
parei desafadigada
de que todas elas
não se chamassem caçambas.
Como o louco que de repente
dispensa enfermeiro e pílulas,
cortei canas com o facão
e fiquei chupando na sombra.
de contrição e alegria,
amanheci rancorosa,
regirando a cabeça
à cata de um facão.
O cachorro percebeu,
a criança também,
se escondendo de mim
no colo de sua mãe.
Havia dito:
por que não me atendes, Deus?
Ou alguém rezava para mim?
Me olhando da parede
a Virgem Nossa Senhora
me oferecia o seu menino
à lâmina.
Eu que delirava à noite
em tempo mais-que-perfeito
porque Portugal fizera
O Tratado de Tordesilhas,
me rindo muito de abóboras,
da palavra e da coisa,
parei desafadigada
de que todas elas
não se chamassem caçambas.
Como o louco que de repente
dispensa enfermeiro e pílulas,
cortei canas com o facão
e fiquei chupando na sombra.
993
Adélia Prado
A Diva
Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
2 904
Adélia Prado
A Diva
Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
2 904
Adélia Prado
Aqui, Tão Longe
Neste bairro pobre todos têm um real
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
1 207
Adélia Prado
Sesta Com Flores
Temporal para Ofélia
é chuva que dura tempos.
Voltou de novo, no ouvido,
o barulhinho de telégrafo.
Vaca é nome invasivo,
o nome só, a vaca é boa.
Sofro de aristocracismo,
logo eu,
nascida em Córrego da Ferrosa.
Invadi filho uma vez,
quero ficar sem minha língua,
a repetir o que fiz.
À porta da escola
um menino doente
ajudava o outro a subir,
homem é muleta de Deus.
Não há descanso aqui,
estamos no exílio,
edificando móbiles na areia.
Os galos sabem,
cantam fora de hora
querendo apressar o dia,
tem deus, tem deus, tem deus
gritam os recém-nascidos
e as dálias
com seu cheiro de morte e virgindade.
O barulhinho de telégrafo continua,
mas até faz dormir:
tem deus, tem deus, tem deus.
é chuva que dura tempos.
Voltou de novo, no ouvido,
o barulhinho de telégrafo.
Vaca é nome invasivo,
o nome só, a vaca é boa.
Sofro de aristocracismo,
logo eu,
nascida em Córrego da Ferrosa.
Invadi filho uma vez,
quero ficar sem minha língua,
a repetir o que fiz.
À porta da escola
um menino doente
ajudava o outro a subir,
homem é muleta de Deus.
Não há descanso aqui,
estamos no exílio,
edificando móbiles na areia.
Os galos sabem,
cantam fora de hora
querendo apressar o dia,
tem deus, tem deus, tem deus
gritam os recém-nascidos
e as dálias
com seu cheiro de morte e virgindade.
O barulhinho de telégrafo continua,
mas até faz dormir:
tem deus, tem deus, tem deus.
1 232
Adélia Prado
Mural
Recolhe do ninho os ovos
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.
1 577
Adélia Prado
Viação São Cristóvão
Não quero morrer nunca,
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
1 508
Adélia Prado
Viação São Cristóvão
Não quero morrer nunca,
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
1 508
Adélia Prado
Viação São Cristóvão
Não quero morrer nunca,
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
1 508
Adélia Prado
Pensamentos À Janela
O que durante o dia foi pressa e murmuração
a boca da noite comeu.
Estrelas na escuridão são ícones potentes.
Como oráculos bíblicos,
os paradoxos da física me confortam.
Sou um corpo e respiro.
Suspeito poder viver
com meio prato e água.
a boca da noite comeu.
Estrelas na escuridão são ícones potentes.
Como oráculos bíblicos,
os paradoxos da física me confortam.
Sou um corpo e respiro.
Suspeito poder viver
com meio prato e água.
805
Adélia Prado
Prodígios
Hoje quase tive um êxtase
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
no meu querer intenso de um milagre:
que esta flor desabroche na minha frente,
que a luz pisque três vezes.
Assim sem mais, o pensamento de que vivo em pecado,
Cristo me advertindo:
“Quem olhar uma mulher cobiçando-a
já adulterou com ela em seu coração.”
Mas Jonathan nem é mulher
e quem hoje, senão às escondidas,
cumpre o preceito bíblico
de vergastar até o sangue
as costas do escravo ruim?
Ó andorinha,
pousa em meu ombro como um sinal.
Ó escorpião,
move tua cauda azul,
rodopia no céu, lua crescente.
Me diz, bíblia velha, onde está o erro.
“Quantas vezes no deserto O provocaram
e na solidão O afligiram.”
Estes poemas belíssimos
dizem de Deus:
“Matou os primogênitos no Egito.”
“Seu hálito queima como brasa.”
A lei me afasta de Jonathan
que me aproxima de Deus
porque é belo e me ama
e não teme tocar os meus
com seus lábios de carne.
Bons tempos em que se matava
a adúltera a pedradas.
O que segura o mar nos seus limites
tem carinho com o mar.
Por que não terá comigo que também sei bramir?
Amo Deus, amo Jonathan,
amo, amo, amo.
1 296
Adélia Prado
Duas Horas da Tarde No Brasil
Tanto quanto a vida amo este calor,
esta claridade metafísica,
este pequeno milagre:
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.
Quem sofre é meu coração,
às duas horas da tarde quer rezar.
Quem me chama é Deus?
É Seu olho centrífugo o que me puxa?
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,
seu jeito triste de fechar a boca.
A quem amo enfim?
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem
e confundo você, mesquinho,
e confundo você, vaidoso,
com o que me quer com ele
gemendo na sua cama de cruz?
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,
de batuques, de meus quadris excessivos.
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?
Brasileiro não é. Estranhíssimo, sim,
com seu corpo desnudo e perfurado,
mendigando carinho, igual ao meu.
Minha pátria, como as outras, tem folclore,
cantigas cheias de melancolia.
Como posso aceitar que morreremos?
E a alma do povo, a quem aproveitaria?
Frigoríficos são horríveis
mas devo poetizá-los
para que nada escape à redenção:
Frigorífico do Jiboia
Carne fresca
Preço joia.
De novo quero rezar pra não ficar estrangeira
meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu.
esta claridade metafísica,
este pequeno milagre:
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.
Quem sofre é meu coração,
às duas horas da tarde quer rezar.
Quem me chama é Deus?
É Seu olho centrífugo o que me puxa?
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,
seu jeito triste de fechar a boca.
A quem amo enfim?
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem
e confundo você, mesquinho,
e confundo você, vaidoso,
com o que me quer com ele
gemendo na sua cama de cruz?
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,
de batuques, de meus quadris excessivos.
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?
Brasileiro não é. Estranhíssimo, sim,
com seu corpo desnudo e perfurado,
mendigando carinho, igual ao meu.
Minha pátria, como as outras, tem folclore,
cantigas cheias de melancolia.
Como posso aceitar que morreremos?
E a alma do povo, a quem aproveitaria?
Frigoríficos são horríveis
mas devo poetizá-los
para que nada escape à redenção:
Frigorífico do Jiboia
Carne fresca
Preço joia.
De novo quero rezar pra não ficar estrangeira
meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu.
1 941
Adélia Prado
A Terceira Via
Jonathan me traiu com uma mulher
que não sofreu por ele
um terço do que eu sofri;
uma mulher turista espairecendo na Europa.
Jonathan é bastante tolo.
Estou sem saber se me mudo
para alguém mais ladino,
se espero Jonathan crescer.
Sem descasar-me, sem gastar um tostão,
o moço oferece-me pensamentos diários
com irresistível margem de perigos:
posso ficar tísica,
posso engordar,
posso entender de física,
posso jejuar
produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz: ‘Deus é um tijolo,
está aqui no nariz do meu cachorro.
Eu sou puro pecado.’
E imediatamente come docinho de aletria
com descansada certeza:
‘Irei salvar-me porque Deus me ama.’
Não tenho o peito de Ismália
pra chegar perto de Deus.
Por isso fico ganindo
e chego perto dos homens,
cheiro a camisa de Pedro,
o travo ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou
quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha.
Da geração da cachaça,
do é ou não é,
do ou casa ou vai pro convento,
não posso ser gay e dizer: depende,
vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega
ou na santidade mais rigorosa.
Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas,
por que os santos levitam.
Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico,
minha unha é como meu sexo.
Meu pé te deseja, meu nariz.
Meu espírito — que é o alento de Deus em mim —
[te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, estático
— Francisco e o Serafim, abrasados —,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...
que não sofreu por ele
um terço do que eu sofri;
uma mulher turista espairecendo na Europa.
Jonathan é bastante tolo.
Estou sem saber se me mudo
para alguém mais ladino,
se espero Jonathan crescer.
Sem descasar-me, sem gastar um tostão,
o moço oferece-me pensamentos diários
com irresistível margem de perigos:
posso ficar tísica,
posso engordar,
posso entender de física,
posso jejuar
produzindo sua imagem na hora mais quente do dia.
Ismália me diz: ‘Deus é um tijolo,
está aqui no nariz do meu cachorro.
Eu sou puro pecado.’
E imediatamente come docinho de aletria
com descansada certeza:
‘Irei salvar-me porque Deus me ama.’
Não tenho o peito de Ismália
pra chegar perto de Deus.
Por isso fico ganindo
e chego perto dos homens,
cheiro a camisa de Pedro,
o travo ingrato de Jonathan.
Todos viram que minha boca secou
quando disse muito prazer e desfaleci na cadeira.
O amor me envergonha.
Da geração da cachaça,
do é ou não é,
do ou casa ou vai pro convento,
não posso ser gay e dizer: depende,
vou ver, vou tratar do seu caso.
Comigo é na pândega
ou na santidade mais rigorosa.
Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.
Sei agora, a duras penas,
por que os santos levitam.
Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico,
minha unha é como meu sexo.
Meu pé te deseja, meu nariz.
Meu espírito — que é o alento de Deus em mim —
[te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, estático
— Francisco e o Serafim, abrasados —,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...
1 846
Adélia Prado
Os Tiranos
Joaquim meu tio foi imperturbável ditador.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
860
Adélia Prado
Oração
Horizontina é gorda,
mas é com desvelo que seus pais a amam,
eles que só compram livros didáticos:
‘Já tomou seu leite, filhinha?’
De que vale pagar o dízimo da menta e da arruda
se meu coração não se desdobra?
Já vi um homem sofrido ficar feliz de repente
e puxar uma fumaça no pito
como se visse no céu as trombetas da parusia,
ele que não sabe dos místicos:
“nem todo o que diz Senhor, Senhor,
entrará no Reino”.
Eu Vos peço perdão
por ter amado mal.
mas é com desvelo que seus pais a amam,
eles que só compram livros didáticos:
‘Já tomou seu leite, filhinha?’
De que vale pagar o dízimo da menta e da arruda
se meu coração não se desdobra?
Já vi um homem sofrido ficar feliz de repente
e puxar uma fumaça no pito
como se visse no céu as trombetas da parusia,
ele que não sabe dos místicos:
“nem todo o que diz Senhor, Senhor,
entrará no Reino”.
Eu Vos peço perdão
por ter amado mal.
1 984
Adélia Prado
O Lugar da Necrópole
Há quem tendo cantado e batido os dentes no copo
já morreu.
Há quem tendo falado suas dores secretas
está hoje selado sob lápides,
excrescendo sobre mim o seu fantasma
de pessoa verdadeira, rebelada,
de pessoa poética.
Na juventude me comprazia o fúnebre,
as faces lívidas dos poetas doentes.
Hoje, só preciso da vida pra morrer.
Nas metrópoles,
o campo-santo acaba confundido,
rodeado de bares.
E por causa disso iludem-se as pessoas
de ter nas mãos a indomesticável.
O cemitério quer ladeira e montes
para os quais se olha ao entardecer:
um dia estarei lá,
lá longe,
no incontestável lugar.
já morreu.
Há quem tendo falado suas dores secretas
está hoje selado sob lápides,
excrescendo sobre mim o seu fantasma
de pessoa verdadeira, rebelada,
de pessoa poética.
Na juventude me comprazia o fúnebre,
as faces lívidas dos poetas doentes.
Hoje, só preciso da vida pra morrer.
Nas metrópoles,
o campo-santo acaba confundido,
rodeado de bares.
E por causa disso iludem-se as pessoas
de ter nas mãos a indomesticável.
O cemitério quer ladeira e montes
para os quais se olha ao entardecer:
um dia estarei lá,
lá longe,
no incontestável lugar.
1 123
Adélia Prado
Noite Feliz
Dói tanto que se pudesse diria:
me fere de lepra.
Mas que importa a Deus o monte de carne podre?
Tende piedade de mim, Vós, cujo filho duas vezes gritou,
apesar de ser Deus. Me dá um sonho.
É como se meu pai não me amasse
e não tivesse dado a vida por mim.
Só belos versos, não.
Uma linha depois da outra,
tão finamente escritas,
com tão primoroso fecho
— e o que sinto é cansaço.
Basta a beleza própria
da estocada das coisas no meu peito.
Comer, sonhar, talvez morrer, quem sabe?
A morte existe, ô pai?
Sei que na Polônia católica
ninguém escreveu com estas mesmas palavras
na carrocinha de doces:
‘Para todos e sua família desejo um feliz Natal.’
No Brasil, sim, na minha rua,
usando uma língua pobre e uma caneta de cor,
alguém sentiu o inefável.
Não se perderá o fermento, ó comadre.
Bebem? Não pagam as contas?
— Vamos fazer um teatro.
Tem a máscara do boi, do burro,
as vestes de José e Maria,
tem a roupa do homem que negou hospedagem
mas que veio depois, depois da estrela,
dos anjos, depois dos pobres pastores, e mais recebeu.
Porque não merecia.
Sou miserável.
Um monte de palha seca
é a obra de minhas mãos.
Tem piedade de mim,
desce, orvalho do céu,
desce sobre nós,
restabelece o fio das conversas saudáveis.
Traze a fresca manhã.
me fere de lepra.
Mas que importa a Deus o monte de carne podre?
Tende piedade de mim, Vós, cujo filho duas vezes gritou,
apesar de ser Deus. Me dá um sonho.
É como se meu pai não me amasse
e não tivesse dado a vida por mim.
Só belos versos, não.
Uma linha depois da outra,
tão finamente escritas,
com tão primoroso fecho
— e o que sinto é cansaço.
Basta a beleza própria
da estocada das coisas no meu peito.
Comer, sonhar, talvez morrer, quem sabe?
A morte existe, ô pai?
Sei que na Polônia católica
ninguém escreveu com estas mesmas palavras
na carrocinha de doces:
‘Para todos e sua família desejo um feliz Natal.’
No Brasil, sim, na minha rua,
usando uma língua pobre e uma caneta de cor,
alguém sentiu o inefável.
Não se perderá o fermento, ó comadre.
Bebem? Não pagam as contas?
— Vamos fazer um teatro.
Tem a máscara do boi, do burro,
as vestes de José e Maria,
tem a roupa do homem que negou hospedagem
mas que veio depois, depois da estrela,
dos anjos, depois dos pobres pastores, e mais recebeu.
Porque não merecia.
Sou miserável.
Um monte de palha seca
é a obra de minhas mãos.
Tem piedade de mim,
desce, orvalho do céu,
desce sobre nós,
restabelece o fio das conversas saudáveis.
Traze a fresca manhã.
2 537
Adélia Prado
Choro a Capela
O poder que eu quisera é dominar meu medo.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.
1 238
Adélia Prado
Festa do Corpo de Deus
Como um tumor maduro
a poesia pulsa dolorosa,
anunciando a paixão:
“O crux ave, spes unica
O passiones tempore.”
Jesus tem um par de nádegas!
Mais que Javé na montanha
esta revelação me prostra.
Ó mistério, mistério,
suspenso no madeiro
o corpo humano de Deus.
É próprio do sexo o ar
que nos faunos velhos surpreendo,
em crianças supostamente pervertidas
e a que chamam dissoluto.
Nisto consiste o crime,
em fotografar uma mulher gozando
e dizer: eis a face do pecado.
Por séculos e séculos
os demônios porfiaram
em nos cegar com este embuste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
E teu corpo na cruz, sem panos:
olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu
que apaixonadamente me revelas
a inocência da carne.
Expondo-te como um fruto
nesta árvore de execração
o que dizes é amor,
amor do corpo, amor.
a poesia pulsa dolorosa,
anunciando a paixão:
“O crux ave, spes unica
O passiones tempore.”
Jesus tem um par de nádegas!
Mais que Javé na montanha
esta revelação me prostra.
Ó mistério, mistério,
suspenso no madeiro
o corpo humano de Deus.
É próprio do sexo o ar
que nos faunos velhos surpreendo,
em crianças supostamente pervertidas
e a que chamam dissoluto.
Nisto consiste o crime,
em fotografar uma mulher gozando
e dizer: eis a face do pecado.
Por séculos e séculos
os demônios porfiaram
em nos cegar com este embuste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
E teu corpo na cruz, sem panos:
olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu
que apaixonadamente me revelas
a inocência da carne.
Expondo-te como um fruto
nesta árvore de execração
o que dizes é amor,
amor do corpo, amor.
1 362
Adélia Prado
O Anticristo Ronda Meu Coração
Por que a mãe de Stella tem os nervos em pânico?
Por que não consigo cultivar folhagens?
Por que tão arduamente vivo
se meu desejo único é ser feliz?
O alarido dos que enchem a praça exibindo feridas
rói o bordado do meu casamento,
tarefa que executei como meus pais e meus avós
[longínquos.
Que vasta infelicidade no planeta!
Tão vasta que cortei os cabelos,
eu que os desejo longos, mesmo brancos.
E os pobres? Onde estão os pobres, os diletos de Deus?
A antilírica quer me matar, me comer, me cagar,
nesta tarde de pó e desgosto.
Por que não consigo cultivar folhagens?
Por que tão arduamente vivo
se meu desejo único é ser feliz?
O alarido dos que enchem a praça exibindo feridas
rói o bordado do meu casamento,
tarefa que executei como meus pais e meus avós
[longínquos.
Que vasta infelicidade no planeta!
Tão vasta que cortei os cabelos,
eu que os desejo longos, mesmo brancos.
E os pobres? Onde estão os pobres, os diletos de Deus?
A antilírica quer me matar, me comer, me cagar,
nesta tarde de pó e desgosto.
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