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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 148
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 148
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 148
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 148
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem

Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.

Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.

Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.

Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.

Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,

salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,

e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.

O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.

Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.

Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?

Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.

Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.

Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.

O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.

Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.

Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.

Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.

(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
624
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem

Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.

Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.

Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.

Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.

Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,

salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,

e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.

O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.

Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.

Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?

Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.

Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.

Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.

O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.

Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.

Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.

Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.

(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
624
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem

Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.

Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.

Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.

Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.

Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,

salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,

e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.

O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.

Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.

Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?

Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.

Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.

Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.

O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.

Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.

Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.

Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.

(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
624
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Versiprosa

Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
1 022
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Versiprosa

Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
1 022
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Versiprosa

Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
1 022
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Versiprosa

Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
1 022
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 159
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 159
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 159
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Atletas

Os poetas haviam composto suas odes
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.

Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.

Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?

É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?

Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio

se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.

Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.

Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.

Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim

na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
1 948
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Atletas

Os poetas haviam composto suas odes
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.

Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.

Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?

É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?

Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio

se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.

Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.

Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.

Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim

na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
1 948
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cariocas

Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
1 317
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cariocas

Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
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