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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Um Viajante

Eu vi você flutuando
na avenida sidéria.
Tranquilo, de escafandro,
fotografava a Terra
e outras terras e outras,
como turista em véspera
de voltar ao navio.
Súbito pulava um peixe
treinando, solicósmico,
nado sobremarino,
acrobata humorista
piruetando à solta
entre niilmundos, mundo
micromenino, olhante.
Você estava livre
de terrestres algemas,
era tão mais que pássaro
em distância e corisco,
e as aves em seus curtos
trajetos e projetos
requeriam dispensa
da condição voadora.
Um tubo apenas, elo
entre você e a sempre
mesmice cotidiana,
já vejo desligado.
No próximo domingo
nem restará registro
de míseros sistemas
que regulam o passo,
o compasso e o destino
urbano ao ser humano.
Liberto assim me vejo
em você, de mim mesmo,
deste peso e limite
que comigo carrego
ou a mim me transporta
ao prefixado jeito
da rês ao matadouro.
Eu vi você flutuante
e a seu lado flutuava
meu tardo corpo, e a mente.
Que sensação de tudo
vencido e convencido,
o sonho devassado,
o hieróglifo legível,
cofre de banco aberto
à astúcia do assaltante.
A glória de meu dia
é cosmoflor abrindo
as pétalas magnéticas
acima das estrelas
e dos hortos botânicos
plantados no possível.
Flor impossível, hoje
presa à minha lapela
na tevê desta célula.
Que sensação de nada
me vinha desse tudo.
Flutuávamos, sorríamos
em nossas carapaças
e o ardil vitorioso
cálculo grave-lúdico
em nós se desfazia:
era um fruto da terra,
germinada paciência
em luta com a matéria,
na infância da notícia
que temos de nós mesmos.
Uma dança aprendíamos
nova, de novo ritmo?
Ou, senão, decorávamos
de andar, preliminares?
Tamanha infância envolve
o cansaço das eras
que, no espaço vagantes,
eu e você — onde fica
a rua do colégio? —
a esmo procurávamos.
Flutuar não era ainda
ser e ser com firmeza,
mas ensaio indeciso
de exatas propriedades.
Os fantasmas de crenças
abolidas, e a imagem
tênuiazulmente vaga
de crenças-work in progress,
aerólitos, cortavam
a neutra superfície
da não atmosfera,
escarninho cortejo
de nosso real triunfo.
Eu vi você voltando
em seu terno divino
à regrada escotilha
da nave em torna-viagem.
Uma outra solitude
baixava, impercebida,
e se juntava à antiga
solitude da vida.
21/03/1965
1 238
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 172
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 172
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 172
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Míni-Míni

Míni míni míni míni
onde está esse biquíni
essa hipótese de saia
em projeto de menina
além da linha de outono?
Minissonho, mini-ideia,
miniarte, miniguerra:
será canção dormideira
que aos habitantes da insônia
traz o minirreconforto?
E onde está o minimorto
a gozar no minicéu
o miniprêmio da paz?
Dorme, dorme, nã nã nã,
fechando na tua palma
o resíduo de napalm
mais o grãozinho de arroz
brotado no Vietnam
entre pedaços de corpos
e princípios em pedaços.
Míni míni míni míni
tua bomba vira pílula,
que é muito mais baratinha
e dispensa de matar
dispensando de nascer,
mas sem dispensar a bomba,
seja limpa, seja suja,
que ao desperdício de chuva
causa a chuva radioativa.
O mundo não é mais bola,
melhor lhe chamem bolinha,
que na fração de segundo
a náusea espoca em modinha.
Entre o ácido lisérgico
e o óxido de deutério
que quer o meu camarada?
Quer as armas nucleares
quer os pagos estelares
quer as coisas singulares
assombrar Matias Aires
revelando o minicosmo.
Míni míni míni míni
ao sol a cigarra zine
diversa de sua mana
que zinia na janela
de Olegário Mariano.
Evtuchenko dedilhando
sua doce balalaica
para Salazar dormir.
E, se ao tédio vem o tédio
se somar, uma guerrilha
depressa, para espertar
quem esteja cochilando.
Angústias de Oriente Médio,
ó fazedores de morte,
que não cansais de fazê-la
em vossa maligna sorte
de redigir pesadelos,
quando deixareis à vida
a chance de ser vivida?
Entre dormido e acordado
entre descrente e dopado
entre vítima e soldado
entre embusteiro e enganado
entre silêncio e protesto
lá vai o meu homenzinho
mini-homem? miniensaio
de mais lúcido, mais gaio
ser convivente, vivente?
Míni nana, nana míni,
até que a vista adivinhe
solo amore per confine.
24/05/1967
1 172
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Falta Um Disco

Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.

Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
891
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Na Semana

Uma semana triste: em Rio Claro,
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
710
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Na Semana

Uma semana triste: em Rio Claro,
calou-se a voz, o doce timbre raro
de Cristina Maristany. Que pena
perdermos tal soprano assim em plena
bobagem musical do iê-iê-iê.
Guarnieri, Mignone, tudo que
é música florindo no Brasil,
e Villa, Ovalle, nosso cancioneiro
ganhava nessa intérprete gentil
um perfume de rosa ou jasmineiro…
Morre também um amigo dos livros
(o que para mim dispensa adjetivos).
Era Adir Guimarães: lembrança boa
de sua biblioteca na Lagoa
deixa mesmo em quem nunca o visitou,
pois ao livro serviu, o livro amou.
Mal lembrado, isto sim, é o tal aumento
de cadeiras em nosso parlamento
guanabarino da praça Floriano.
Já ninguém pode com o trânsito urbano
e vem mais essa turma de cartolas
com suas chapas-brancas? Ora bolas,
venha o controle da natalidade
parlamentar, e salve-se a cidade!
Olhemos para a rua. Tanta criança
desce do morro e corre e quase dança
um balé de miséria e de doçura:
Cosme e Damião — um sonho que não dura
a cada um distribui um caramelo,
um doce, uma ilusão de belo-belo.
Mas o doce melhor, a torta, o creme
que vem na porcelana do Congresso,
quem ganha de colher, compadre, crê-me,
é Seu Artur, por um novo processo
de eleger suprimindo-se a eleição.
Por mais que a gente queira, oh, essa não.
E viva o Feriado Nacional,
que aos meninos e a mim nunca fez mal.
Enquanto se nomeia o Presidente,
que por desgraça não é meu parente,
vou à praia, ao cinema, ao faz de conta,
e, repousando essa cabeça tonta,
descubro, entre gloríolas festivas:
entrou a lei em férias coletivas.
Resta dizer, com Vinicius: “Pois É”,
e a ti, meu chapa e meu leitor: até.
02/10/1966
710
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira Pedestre

Vamos — eis um projeto de domingo —
legalizar nosso prezado bingo?
Boa ideia: cartões fiscalizados,
prendas, prêmios, carinhos e cuidados,
o azar livre de fraude — e de capricho.
(Outlaw, coitado, só jogo do bicho,
que, por ser instituto nacional,
bem merecia trânsito legal.)
A rima em al lembra outra rima em ília:
Amigos, que faremos de Brasília?
Ela é e não é: no shakespeariano
dilema, junta engano e desengano,
e tendo tão bonita arquitetura
vai ser tapera de ouro na planura?
Já de volta o Governo se pretende,
já cessa a dobradinha, já se estende
o véu de sombra sobre o róseo sonho
da terra do futuro… Os olhos ponho
em ti, Brasília, em tuas avenidas,
trevos, jardins e quadras doloridas.
Nunca te vi de perto; agora vejo
e sinto e apalpo e todo o meu desejo
é que sejas em tudo uma cidade
completa, firme, aberta à humanidade,
e tão naturalmente capital
como o Rio é uma coisa sem igual.
Cresce e viceja, pois, e ministérios
e seus papéis, tapetes e mistérios,
IAPês, siglas, telex, senadores,
ministros, embaixadas, assessores
e tudo mais que é símbolo de mando,
comando e glória, fique te adornando,
pois ao Rio nos basta a praia clara,
o gosto de viver, a joia rara
de um modo especialíssimo de ser,
de amar o amor, amar até morrer…
Eia, Brasília, luta por teu título!
E tenho despachado este capítulo.
Mas resta o subsídio do petróleo,
que, se não cortam, dizem que ele engole o
Brasil e toda a nossa economia.
E, se cortam, é fogo… Virg’Maria!
O dr. Rui de Almeida telefona
e, como se pedisse uma azeitona,
aos colegas sugere: Um trilhãozinho
ao pobre do Tesouro, coitadinho.
A turma não escuta: Alô? Alô?
Ah, que aparelho! Pronto: desligou.
10/05/1964
1 048
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira Pedestre

Vamos — eis um projeto de domingo —
legalizar nosso prezado bingo?
Boa ideia: cartões fiscalizados,
prendas, prêmios, carinhos e cuidados,
o azar livre de fraude — e de capricho.
(Outlaw, coitado, só jogo do bicho,
que, por ser instituto nacional,
bem merecia trânsito legal.)
A rima em al lembra outra rima em ília:
Amigos, que faremos de Brasília?
Ela é e não é: no shakespeariano
dilema, junta engano e desengano,
e tendo tão bonita arquitetura
vai ser tapera de ouro na planura?
Já de volta o Governo se pretende,
já cessa a dobradinha, já se estende
o véu de sombra sobre o róseo sonho
da terra do futuro… Os olhos ponho
em ti, Brasília, em tuas avenidas,
trevos, jardins e quadras doloridas.
Nunca te vi de perto; agora vejo
e sinto e apalpo e todo o meu desejo
é que sejas em tudo uma cidade
completa, firme, aberta à humanidade,
e tão naturalmente capital
como o Rio é uma coisa sem igual.
Cresce e viceja, pois, e ministérios
e seus papéis, tapetes e mistérios,
IAPês, siglas, telex, senadores,
ministros, embaixadas, assessores
e tudo mais que é símbolo de mando,
comando e glória, fique te adornando,
pois ao Rio nos basta a praia clara,
o gosto de viver, a joia rara
de um modo especialíssimo de ser,
de amar o amor, amar até morrer…
Eia, Brasília, luta por teu título!
E tenho despachado este capítulo.
Mas resta o subsídio do petróleo,
que, se não cortam, dizem que ele engole o
Brasil e toda a nossa economia.
E, se cortam, é fogo… Virg’Maria!
O dr. Rui de Almeida telefona
e, como se pedisse uma azeitona,
aos colegas sugere: Um trilhãozinho
ao pobre do Tesouro, coitadinho.
A turma não escuta: Alô? Alô?
Ah, que aparelho! Pronto: desligou.
10/05/1964
1 048
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira Pedestre

Vamos — eis um projeto de domingo —
legalizar nosso prezado bingo?
Boa ideia: cartões fiscalizados,
prendas, prêmios, carinhos e cuidados,
o azar livre de fraude — e de capricho.
(Outlaw, coitado, só jogo do bicho,
que, por ser instituto nacional,
bem merecia trânsito legal.)
A rima em al lembra outra rima em ília:
Amigos, que faremos de Brasília?
Ela é e não é: no shakespeariano
dilema, junta engano e desengano,
e tendo tão bonita arquitetura
vai ser tapera de ouro na planura?
Já de volta o Governo se pretende,
já cessa a dobradinha, já se estende
o véu de sombra sobre o róseo sonho
da terra do futuro… Os olhos ponho
em ti, Brasília, em tuas avenidas,
trevos, jardins e quadras doloridas.
Nunca te vi de perto; agora vejo
e sinto e apalpo e todo o meu desejo
é que sejas em tudo uma cidade
completa, firme, aberta à humanidade,
e tão naturalmente capital
como o Rio é uma coisa sem igual.
Cresce e viceja, pois, e ministérios
e seus papéis, tapetes e mistérios,
IAPês, siglas, telex, senadores,
ministros, embaixadas, assessores
e tudo mais que é símbolo de mando,
comando e glória, fique te adornando,
pois ao Rio nos basta a praia clara,
o gosto de viver, a joia rara
de um modo especialíssimo de ser,
de amar o amor, amar até morrer…
Eia, Brasília, luta por teu título!
E tenho despachado este capítulo.
Mas resta o subsídio do petróleo,
que, se não cortam, dizem que ele engole o
Brasil e toda a nossa economia.
E, se cortam, é fogo… Virg’Maria!
O dr. Rui de Almeida telefona
e, como se pedisse uma azeitona,
aos colegas sugere: Um trilhãozinho
ao pobre do Tesouro, coitadinho.
A turma não escuta: Alô? Alô?
Ah, que aparelho! Pronto: desligou.
10/05/1964
1 048
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira Pedestre

Vamos — eis um projeto de domingo —
legalizar nosso prezado bingo?
Boa ideia: cartões fiscalizados,
prendas, prêmios, carinhos e cuidados,
o azar livre de fraude — e de capricho.
(Outlaw, coitado, só jogo do bicho,
que, por ser instituto nacional,
bem merecia trânsito legal.)
A rima em al lembra outra rima em ília:
Amigos, que faremos de Brasília?
Ela é e não é: no shakespeariano
dilema, junta engano e desengano,
e tendo tão bonita arquitetura
vai ser tapera de ouro na planura?
Já de volta o Governo se pretende,
já cessa a dobradinha, já se estende
o véu de sombra sobre o róseo sonho
da terra do futuro… Os olhos ponho
em ti, Brasília, em tuas avenidas,
trevos, jardins e quadras doloridas.
Nunca te vi de perto; agora vejo
e sinto e apalpo e todo o meu desejo
é que sejas em tudo uma cidade
completa, firme, aberta à humanidade,
e tão naturalmente capital
como o Rio é uma coisa sem igual.
Cresce e viceja, pois, e ministérios
e seus papéis, tapetes e mistérios,
IAPês, siglas, telex, senadores,
ministros, embaixadas, assessores
e tudo mais que é símbolo de mando,
comando e glória, fique te adornando,
pois ao Rio nos basta a praia clara,
o gosto de viver, a joia rara
de um modo especialíssimo de ser,
de amar o amor, amar até morrer…
Eia, Brasília, luta por teu título!
E tenho despachado este capítulo.
Mas resta o subsídio do petróleo,
que, se não cortam, dizem que ele engole o
Brasil e toda a nossa economia.
E, se cortam, é fogo… Virg’Maria!
O dr. Rui de Almeida telefona
e, como se pedisse uma azeitona,
aos colegas sugere: Um trilhãozinho
ao pobre do Tesouro, coitadinho.
A turma não escuta: Alô? Alô?
Ah, que aparelho! Pronto: desligou.
10/05/1964
1 048
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canção do Fico

Minha cidade do Rio,
meu castelo de água e sol,
a dois meses de mudança
dos dirigentes de prol;

minha terra de nascença
terceira, pois foi aqui,
em êxtase, alumbramento,
que o mar e seus mundos vi;

minha fluida sesmaria
de léguas de cisma errante,
meu anel verde, meu cravo
solferino, mel do instante;

saci oculto nos morros,
mapa aberto à luz das praias,
códice de piada e gíria,
coxas libertas de saias;

favelas portinarescas
onde o samba se arredonda,
e claustro beneditino,
sal de batismo na onda;

cinemeiro Rio, atlético,
flamengo ou vasco, porosa
urna plena do noivado
de uísque com manga-rosa;

meu terreiro de São Jorge,
meu parlamento das ruas,
andaraís, méiers, gáveas,
sob a unção de oitenta luas;

Cristo em névoa corcovádica,
bondinho do Pão de Açúcar
e pescarias na barra
— louca rima — da Tíjúcar (!);

Rio de ontem: Rui Barbosa,
na Rua de São Clemente,
mantendo acesa a candeia,
ciceronianamente;

Dr. Campos Porto, no horto
botânico, em meio a palmas
imperiais, que ao crepúsculo
são aves minerais, calmas;

minha igrejinha do Outeiro,
que Rodrigo zela tanto,
e entre cujos azulejos
esvoaça o Espírito Santo;

meus livros velhos nos “sebos”,
meu chafariz do Lagarto,
e esse tostão de paisagem
da janela de meu quarto;

e a tarde, imensa, pairando:
lá longe o Dedo de Deus;
calor, e sorriso, e brisa
que alisa os cuidados meus;

cidade que tantos bens
deste a todos, e tão pouco,
em gratidão e carinho,
agora te dão em troco;

malvestida, mal comida,
descalça, “dependurada”,
e conservando no rosto,
como cristais de orvalhada,

não sei que beleza infante,
gosto de viver, e graça:
pouco importa que te levem
o que, no fundo, é fumaça.

Rio antigo, Rio eterno,
Rio-oceano, Rio amigo,
o Governo vai-se? Vá-se!
Tu ficarás, e eu contigo.
21/02/1960
1 434
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canção do Fico

Minha cidade do Rio,
meu castelo de água e sol,
a dois meses de mudança
dos dirigentes de prol;

minha terra de nascença
terceira, pois foi aqui,
em êxtase, alumbramento,
que o mar e seus mundos vi;

minha fluida sesmaria
de léguas de cisma errante,
meu anel verde, meu cravo
solferino, mel do instante;

saci oculto nos morros,
mapa aberto à luz das praias,
códice de piada e gíria,
coxas libertas de saias;

favelas portinarescas
onde o samba se arredonda,
e claustro beneditino,
sal de batismo na onda;

cinemeiro Rio, atlético,
flamengo ou vasco, porosa
urna plena do noivado
de uísque com manga-rosa;

meu terreiro de São Jorge,
meu parlamento das ruas,
andaraís, méiers, gáveas,
sob a unção de oitenta luas;

Cristo em névoa corcovádica,
bondinho do Pão de Açúcar
e pescarias na barra
— louca rima — da Tíjúcar (!);

Rio de ontem: Rui Barbosa,
na Rua de São Clemente,
mantendo acesa a candeia,
ciceronianamente;

Dr. Campos Porto, no horto
botânico, em meio a palmas
imperiais, que ao crepúsculo
são aves minerais, calmas;

minha igrejinha do Outeiro,
que Rodrigo zela tanto,
e entre cujos azulejos
esvoaça o Espírito Santo;

meus livros velhos nos “sebos”,
meu chafariz do Lagarto,
e esse tostão de paisagem
da janela de meu quarto;

e a tarde, imensa, pairando:
lá longe o Dedo de Deus;
calor, e sorriso, e brisa
que alisa os cuidados meus;

cidade que tantos bens
deste a todos, e tão pouco,
em gratidão e carinho,
agora te dão em troco;

malvestida, mal comida,
descalça, “dependurada”,
e conservando no rosto,
como cristais de orvalhada,

não sei que beleza infante,
gosto de viver, e graça:
pouco importa que te levem
o que, no fundo, é fumaça.

Rio antigo, Rio eterno,
Rio-oceano, Rio amigo,
o Governo vai-se? Vá-se!
Tu ficarás, e eu contigo.
21/02/1960
1 434
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canção do Fico

Minha cidade do Rio,
meu castelo de água e sol,
a dois meses de mudança
dos dirigentes de prol;

minha terra de nascença
terceira, pois foi aqui,
em êxtase, alumbramento,
que o mar e seus mundos vi;

minha fluida sesmaria
de léguas de cisma errante,
meu anel verde, meu cravo
solferino, mel do instante;

saci oculto nos morros,
mapa aberto à luz das praias,
códice de piada e gíria,
coxas libertas de saias;

favelas portinarescas
onde o samba se arredonda,
e claustro beneditino,
sal de batismo na onda;

cinemeiro Rio, atlético,
flamengo ou vasco, porosa
urna plena do noivado
de uísque com manga-rosa;

meu terreiro de São Jorge,
meu parlamento das ruas,
andaraís, méiers, gáveas,
sob a unção de oitenta luas;

Cristo em névoa corcovádica,
bondinho do Pão de Açúcar
e pescarias na barra
— louca rima — da Tíjúcar (!);

Rio de ontem: Rui Barbosa,
na Rua de São Clemente,
mantendo acesa a candeia,
ciceronianamente;

Dr. Campos Porto, no horto
botânico, em meio a palmas
imperiais, que ao crepúsculo
são aves minerais, calmas;

minha igrejinha do Outeiro,
que Rodrigo zela tanto,
e entre cujos azulejos
esvoaça o Espírito Santo;

meus livros velhos nos “sebos”,
meu chafariz do Lagarto,
e esse tostão de paisagem
da janela de meu quarto;

e a tarde, imensa, pairando:
lá longe o Dedo de Deus;
calor, e sorriso, e brisa
que alisa os cuidados meus;

cidade que tantos bens
deste a todos, e tão pouco,
em gratidão e carinho,
agora te dão em troco;

malvestida, mal comida,
descalça, “dependurada”,
e conservando no rosto,
como cristais de orvalhada,

não sei que beleza infante,
gosto de viver, e graça:
pouco importa que te levem
o que, no fundo, é fumaça.

Rio antigo, Rio eterno,
Rio-oceano, Rio amigo,
o Governo vai-se? Vá-se!
Tu ficarás, e eu contigo.
21/02/1960
1 434
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Pico de Itabirito

O Pico de Itabirito
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.

Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido

ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.

St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,

nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.

A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.

Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!

Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã

acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)

— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.

Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.

St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?

— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!

Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas

que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.

Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.

E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!

E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
1 126
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Pico de Itabirito

O Pico de Itabirito
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.

Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido

ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.

St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,

nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.

A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.

Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!

Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã

acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)

— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.

Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.

St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?

— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!

Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas

que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.

Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.

E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!

E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
1 126
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Pico de Itabirito

O Pico de Itabirito
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.

Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido

ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.

St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,

nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.

A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.

Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!

Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã

acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)

— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.

Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.

St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?

— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!

Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas

que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.

Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.

E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!

E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
1 126
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Pico de Itabirito

O Pico de Itabirito
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.

Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido

ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.

St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,

nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.

A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.

Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!

Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã

acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)

— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.

Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.

St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?

— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!

Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas

que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.

Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.

E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!

E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
1 126
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos Negros (Mas Nem Tanto)

Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.

Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
698
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos Negros (Mas Nem Tanto)

Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.

Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
698
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos Negros (Mas Nem Tanto)

Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.

Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
698
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos Negros (Mas Nem Tanto)

Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.

Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
698
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Jornal Em Verso

Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
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