Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
O Busto
Mário Melo, Mário Melo,
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto
espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?
Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.
Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.
Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,
e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.
Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.
Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.
Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui
e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.
Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.
Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?
Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?
Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.
Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas
morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.
A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale
como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.
Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;
pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,
não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?
Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,
e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto
espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?
Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.
Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.
Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,
e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.
Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.
Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.
Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui
e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.
Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.
Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?
Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?
Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.
Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas
morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.
A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale
como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.
Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;
pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,
não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?
Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,
e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
1 318
Carlos Drummond de Andrade
Duração
O tempo era bom? Não era.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.
873
Carlos Drummond de Andrade
Violinha
IRGA
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
553
Carlos Drummond de Andrade
Violinha
IRGA
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
553
Carlos Drummond de Andrade
Violinha
IRGA
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
553
Carlos Drummond de Andrade
De Ontem, de Hoje
E lá se foi o Gordo, enquanto o Magro
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
990
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 392
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 392
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 392
Carlos Drummond de Andrade
De 7 Dias
Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
568
Carlos Drummond de Andrade
De 7 Dias
Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
568
Carlos Drummond de Andrade
Verão
Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
2 423
Carlos Drummond de Andrade
Sete Dias
Ó Musa semanária, que divisas
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
579
Carlos Drummond de Andrade
Sete Dias
Ó Musa semanária, que divisas
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
579
Carlos Drummond de Andrade
O Museu Vivo
O Museu de Erros passeia pelo mundo
estátuas andróginas
quadros despidos de moldura pintura tela
mas ativos
ideias conversíveis
planos tão racionais que chegam à vertigem do pensamento puro
embriões humanos
in vitro
a sexalegria industrializada em artigos de supermercado.
Buzina
profecias de devastação para devaneio
dos que esperam escapar,
e em caprichado definitivo arco-íris
revela
o esplendor da verdade
sem verdade.
O museu moderno por excelência
viajeiro visita
o interior das vísceras
conta horror, beleza
melodia, paz narcótica, novo horror.
As coleções têm a variedade
do que ainda não foi imaginado nem sentido.
O catálogo impresso em grito
lê, antes de ser lido,
visitantes apatetados
e nega-se a referir
o que é arte de amar sem computador.
O museu infiltra-se na plataforma submarina
onde se refugiam os derradeiros
homens e mulheres com cara de gente, irreconhecíveis.
Fulmina-os com seu raio, só existe agora o museu.
Sobe acima da Lua, videofixa
a miséria estelar, novas espécies
do mal pré-histórico, presidente
imemorial da Natureza.
O museu muge eufórico
assume solenemente
o papel de deus-universo, espetáculo de si mesmo.
estátuas andróginas
quadros despidos de moldura pintura tela
mas ativos
ideias conversíveis
planos tão racionais que chegam à vertigem do pensamento puro
embriões humanos
in vitro
a sexalegria industrializada em artigos de supermercado.
Buzina
profecias de devastação para devaneio
dos que esperam escapar,
e em caprichado definitivo arco-íris
revela
o esplendor da verdade
sem verdade.
O museu moderno por excelência
viajeiro visita
o interior das vísceras
conta horror, beleza
melodia, paz narcótica, novo horror.
As coleções têm a variedade
do que ainda não foi imaginado nem sentido.
O catálogo impresso em grito
lê, antes de ser lido,
visitantes apatetados
e nega-se a referir
o que é arte de amar sem computador.
O museu infiltra-se na plataforma submarina
onde se refugiam os derradeiros
homens e mulheres com cara de gente, irreconhecíveis.
Fulmina-os com seu raio, só existe agora o museu.
Sobe acima da Lua, videofixa
a miséria estelar, novas espécies
do mal pré-histórico, presidente
imemorial da Natureza.
O museu muge eufórico
assume solenemente
o papel de deus-universo, espetáculo de si mesmo.
1 279
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 171
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 171
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 171
Carlos Drummond de Andrade
Fábula
Foi em março, ao findar das férias, quase à entrada
do Congresso,
que onças apareceram de mansinho,
começando a soltar miados leves.
Na praça atormentada,
onde sangue raiava pluma e arminho,
pombos em pânico pediam
ao céu que os libertasse
da garra de um gavião pouco distinto,
falco mato-grossensis, tão faminto.
Vendo as malhadas bichas
chegarem pela estrada de Belém
(com escala em Brasília),
exclamaram em coro: “Eis que aí vem
a nossa salvação, em forma de onça!
Ei, oncinhas, benzocas, já, depressa,
caçai o caçador que nos devora
e que num desafio pousa agora
lá no alto daquela geringonça!”
Ouvem as onças a arrulhante súplica
e, profissionalmente puladeiras,
já se aprestam à grande prova pública:
pegar o gavião
em seu voo rasante ou no relógio
aéreo, onde medita o necrológio
de suas vítimas, e zomba de alçapão.
E cada qual mais pincha e sacoleja,
disfarça, uiva, fareja,
sem vero resultado.
Aquelas, mais sabidas, se consultam
e convocam o falco, em tom matreiro,
a um fino ajantarado.
Baixa o gavião, e bica ali,
aqui, além, o pinto ao molho pardo,
um nadinha de bife, enxuga o chope,
mas tão rápido e alígero, dir-se-ia
um locutor da rádio do Berardo.
À mole sobremesa,
eis que as onças, uivando um sustenido
(com a assistência amável do Penido),
saltam, felinas — pá!
e na fereza
do bote julgam morto o gavião.
Que nada. A ave desguia, em pleno azul,
grasnindo: “Eu volto já”,
toma, sereno, o rumo do Japão.
Aprenda no colégio a aluna onça
que todo gavião é ave sonsa.
08/03/1959
do Congresso,
que onças apareceram de mansinho,
começando a soltar miados leves.
Na praça atormentada,
onde sangue raiava pluma e arminho,
pombos em pânico pediam
ao céu que os libertasse
da garra de um gavião pouco distinto,
falco mato-grossensis, tão faminto.
Vendo as malhadas bichas
chegarem pela estrada de Belém
(com escala em Brasília),
exclamaram em coro: “Eis que aí vem
a nossa salvação, em forma de onça!
Ei, oncinhas, benzocas, já, depressa,
caçai o caçador que nos devora
e que num desafio pousa agora
lá no alto daquela geringonça!”
Ouvem as onças a arrulhante súplica
e, profissionalmente puladeiras,
já se aprestam à grande prova pública:
pegar o gavião
em seu voo rasante ou no relógio
aéreo, onde medita o necrológio
de suas vítimas, e zomba de alçapão.
E cada qual mais pincha e sacoleja,
disfarça, uiva, fareja,
sem vero resultado.
Aquelas, mais sabidas, se consultam
e convocam o falco, em tom matreiro,
a um fino ajantarado.
Baixa o gavião, e bica ali,
aqui, além, o pinto ao molho pardo,
um nadinha de bife, enxuga o chope,
mas tão rápido e alígero, dir-se-ia
um locutor da rádio do Berardo.
À mole sobremesa,
eis que as onças, uivando um sustenido
(com a assistência amável do Penido),
saltam, felinas — pá!
e na fereza
do bote julgam morto o gavião.
Que nada. A ave desguia, em pleno azul,
grasnindo: “Eu volto já”,
toma, sereno, o rumo do Japão.
Aprenda no colégio a aluna onça
que todo gavião é ave sonsa.
08/03/1959
776
Carlos Drummond de Andrade
Correio Municipal
De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade
Correio Municipal
De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade
Correio Municipal
De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade
Correio Municipal
De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade
Correio Municipal
De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094