Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Ode Ao Partido Republicano Mineiro
Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 255
Carlos Drummond de Andrade
Ode Ao Partido Republicano Mineiro
Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 255
Carlos Drummond de Andrade
Ode Ao Partido Republicano Mineiro
Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 255
Carlos Drummond de Andrade
Ode Ao Partido Republicano Mineiro
Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 255
Carlos Drummond de Andrade
Música Protegida
Santa Cecília, anterior aos sindicatos,
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
1 238
Carlos Drummond de Andrade
Redator de Plantão
Opereta no caminho do jornal.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
771
Carlos Drummond de Andrade
Redator de Plantão
Opereta no caminho do jornal.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
771
Carlos Drummond de Andrade
O Senhor Diretor
O fraque do diretor,
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
1 197
Carlos Drummond de Andrade
O Senhor Diretor
O fraque do diretor,
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
1 197
Carlos Drummond de Andrade
O Senhor Diretor
O fraque do diretor,
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
a bengala do diretor,
a paixão atleticana do diretor,
a importância amável do diretor
surgem infalíveis às 8 e meia,
indagam protocolarmente:
— Alguma novidade?
Deu destaque ao aniversário do Presidente?
Sai o retrato dele em três colunas
no alto da primeira página?
No centro da página, é claro?
Não precisa noticiar a partida do Deputado Leleco.
Não está em boas graças no Palácio.
Bem, até amanhã.
Veja lá, Drummond, eu confio em você.
1 197
Carlos Drummond de Andrade
O Chamado
Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.
Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.
E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?
A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.
E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.
Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.
E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?
A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.
E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
1 193
Carlos Drummond de Andrade
Dia de Flor
No Dia da Margarida minha lapela de estudante
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
1 390
Carlos Drummond de Andrade
Dia de Flor
No Dia da Margarida minha lapela de estudante
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
1 390
Carlos Drummond de Andrade
Dia de Flor
No Dia da Margarida minha lapela de estudante
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
1 390
Carlos Drummond de Andrade
Confeitaria Suíça
A baleira da Rua da Bahia
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
1 424
Carlos Drummond de Andrade
Profissão: Enterrado Vivo
Tão linda esta cidade,
tão bem servida de moças de chapéu
e sombrinha,
de fícus, palacetes, lagos, horizontes,
tão limpa, tão verdinha, tão serena,
e vem Great Michelin
jejuar sete dias, agressivo!
Levo soco no estômago. Que ideia,
vender entradas para o espetáculo da fome
no Cine Comércio tão alegre.
Dois metros abaixo do chão a cova aberta
e a tampa de vidro
mostra o rosto cadavérico
do jejuador profissional.
De domingo a domingo esta visão
soturna comercial atrai burgueses
bem alimentados, secretamente desejosos
de que a experiência tenha fim
com a morte do Great Michelin.
No sétimo dia ressuscita,
abre-se o caixão no palco, lavra-se ata
firmada por médicos, delegados, jornalistas,
palmas, palmas, vivas,
discurso do artista Koytakisis
e do próprio Michelin mal falecido.
Dias depois ei-lo fazendo
conferência científica sobre a arte
de ganhar a vida em morte semanal.
15% de renda, generoso,
dá para o Orfanato Santo Antônio.
E aprendo esta verdade:
jejuador nenhum morre de jejum
se souber vender a sua fome.
tão bem servida de moças de chapéu
e sombrinha,
de fícus, palacetes, lagos, horizontes,
tão limpa, tão verdinha, tão serena,
e vem Great Michelin
jejuar sete dias, agressivo!
Levo soco no estômago. Que ideia,
vender entradas para o espetáculo da fome
no Cine Comércio tão alegre.
Dois metros abaixo do chão a cova aberta
e a tampa de vidro
mostra o rosto cadavérico
do jejuador profissional.
De domingo a domingo esta visão
soturna comercial atrai burgueses
bem alimentados, secretamente desejosos
de que a experiência tenha fim
com a morte do Great Michelin.
No sétimo dia ressuscita,
abre-se o caixão no palco, lavra-se ata
firmada por médicos, delegados, jornalistas,
palmas, palmas, vivas,
discurso do artista Koytakisis
e do próprio Michelin mal falecido.
Dias depois ei-lo fazendo
conferência científica sobre a arte
de ganhar a vida em morte semanal.
15% de renda, generoso,
dá para o Orfanato Santo Antônio.
E aprendo esta verdade:
jejuador nenhum morre de jejum
se souber vender a sua fome.
630
Carlos Drummond de Andrade
Profissão: Enterrado Vivo
Tão linda esta cidade,
tão bem servida de moças de chapéu
e sombrinha,
de fícus, palacetes, lagos, horizontes,
tão limpa, tão verdinha, tão serena,
e vem Great Michelin
jejuar sete dias, agressivo!
Levo soco no estômago. Que ideia,
vender entradas para o espetáculo da fome
no Cine Comércio tão alegre.
Dois metros abaixo do chão a cova aberta
e a tampa de vidro
mostra o rosto cadavérico
do jejuador profissional.
De domingo a domingo esta visão
soturna comercial atrai burgueses
bem alimentados, secretamente desejosos
de que a experiência tenha fim
com a morte do Great Michelin.
No sétimo dia ressuscita,
abre-se o caixão no palco, lavra-se ata
firmada por médicos, delegados, jornalistas,
palmas, palmas, vivas,
discurso do artista Koytakisis
e do próprio Michelin mal falecido.
Dias depois ei-lo fazendo
conferência científica sobre a arte
de ganhar a vida em morte semanal.
15% de renda, generoso,
dá para o Orfanato Santo Antônio.
E aprendo esta verdade:
jejuador nenhum morre de jejum
se souber vender a sua fome.
tão bem servida de moças de chapéu
e sombrinha,
de fícus, palacetes, lagos, horizontes,
tão limpa, tão verdinha, tão serena,
e vem Great Michelin
jejuar sete dias, agressivo!
Levo soco no estômago. Que ideia,
vender entradas para o espetáculo da fome
no Cine Comércio tão alegre.
Dois metros abaixo do chão a cova aberta
e a tampa de vidro
mostra o rosto cadavérico
do jejuador profissional.
De domingo a domingo esta visão
soturna comercial atrai burgueses
bem alimentados, secretamente desejosos
de que a experiência tenha fim
com a morte do Great Michelin.
No sétimo dia ressuscita,
abre-se o caixão no palco, lavra-se ata
firmada por médicos, delegados, jornalistas,
palmas, palmas, vivas,
discurso do artista Koytakisis
e do próprio Michelin mal falecido.
Dias depois ei-lo fazendo
conferência científica sobre a arte
de ganhar a vida em morte semanal.
15% de renda, generoso,
dá para o Orfanato Santo Antônio.
E aprendo esta verdade:
jejuador nenhum morre de jejum
se souber vender a sua fome.
630
Carlos Drummond de Andrade
A Ilha
Nos quatro bancos de cimento
da ilha do Parque estão postados
com o maior comedimento
quatro casais de namorados.
Há nas ilhas sempre o convite
a idílios sem falsos recatos,
mas aqui se traça o limite
que separa intenções e atos.
Os casais se entreolham, discretos,
esperando que um deles ouse
libertar instintos inquietos,
acabando com a falsa pose.
Ninguém se atreve a dar a senha
das carícias que sonham ser.
Grossa cortina de estamenha
vela o arrepio de viver.
Tão leve, o dia! O verde, o esquilo,
céu autorizativo, cúmplice…
Mas vê-se bem que tudo aquilo
é cenário de jogo dúplice.
Perde amor mais uma parada
nesta Citera provincial.
Tarde. Fecha-se o Parque. Nada
acontece de bem ou mal.
da ilha do Parque estão postados
com o maior comedimento
quatro casais de namorados.
Há nas ilhas sempre o convite
a idílios sem falsos recatos,
mas aqui se traça o limite
que separa intenções e atos.
Os casais se entreolham, discretos,
esperando que um deles ouse
libertar instintos inquietos,
acabando com a falsa pose.
Ninguém se atreve a dar a senha
das carícias que sonham ser.
Grossa cortina de estamenha
vela o arrepio de viver.
Tão leve, o dia! O verde, o esquilo,
céu autorizativo, cúmplice…
Mas vê-se bem que tudo aquilo
é cenário de jogo dúplice.
Perde amor mais uma parada
nesta Citera provincial.
Tarde. Fecha-se o Parque. Nada
acontece de bem ou mal.
1 600
Carlos Drummond de Andrade
Oposição Sistemática
O jornalzinho oposicionista da Praça da Estação,
onde exalo vagidos literários,
xinga o Presidente, xinga seus Secretários,
xinga o Prefeito. Sem mais ninguém
para xingar,
xinga Leopoldo Fróes, que, no seu entender,
apresentando peças de gênero livre no Municipal,
todas as noites ofende a família mineira
em casas lotadas e entusiásticas.
onde exalo vagidos literários,
xinga o Presidente, xinga seus Secretários,
xinga o Prefeito. Sem mais ninguém
para xingar,
xinga Leopoldo Fróes, que, no seu entender,
apresentando peças de gênero livre no Municipal,
todas as noites ofende a família mineira
em casas lotadas e entusiásticas.
636
Carlos Drummond de Andrade
A Visita do Rei
I
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
1 014
Carlos Drummond de Andrade
A Visita do Rei
I
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
1 014
Carlos Drummond de Andrade
A Visita do Rei
I
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
1 014
Carlos Drummond de Andrade
A Consciência Suja
I
Vadiar, namorar, namorar, vadiar,
escrever sem pensar, sentir sem compreender,
é isso a adolescência? E teu pai mourejando
na fanada fazenda para te sustentar?
Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo,
vai ser isto ou aquilo, ser: não disfarçar.
Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro
ganho por teu esforço, ó meu espelho débil?
Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide,
verso, muito menos. Teus amigos já seguem
o caminho direito: leva à Faculdade,
à pompa estadual e talvez federal.
Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta,
contra teu próprio errar, sem programa de vida.
Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada
a cada esquina de Bahia ou Paraúna.
Ela te avisa que vai fugir, está fugindo,
segunda, terça, torta, quarta, parda, quinta,
sápida, sexta, seca, sábado — passou!
Domingo é soletrar o vácuo de domingo.
Então, sei lá por quê, tu serás farmacêutico.
II
E você continua a perder tempo
do Bar do Ponto à Escola de Farmácia
sem estudar.
Da Escola de Farmácia à doce Praça
da Liberdade
sem trabalhar.
Da Praça novamente ao Bar do Ponto faladeiro,
do Bar do Ponto — é noite — à casa na Floresta
sem levar a sério o sério desta vida,
e é só dormir e namorar e vadiar.
Seus amigos passam de ano,
você não passa.
Ganham salário nas repartições,
você não ganha nada.
O Anatole France que degustam,
o Verlaine, o Gourmont, outras essências
do clair génie français já decadente,
compram com dinheiro do ordenado,
não de fácil mesada.
Se dormem com a Pingo de Ouro, a Jordelina,
pagam do próprio bolso esse prazer,
não de bolsa paterna.
Você pretende o quê?
Ficar nesse remanso a vida inteira?
O tempo vai passando, Clara Weiss
avisa no cartaz: Addio, giovinezza,
e você não vê, você não sente
a mensagem colada ao seu nariz?
Olhe os outros: formados, clinicando,
soltando réus, vencendo causas gordas,
e você aí, à porta do Giacomo
esperando chegar o trem das 10
com seu poeminha em prosa na revista,
que ninguém lerá nem tal merece.
Quem afinal sustenta sua vida?
Bois longínquos, éguas enevoadas
no cinza além da serra, estrume de fazenda,
a colheita de milho, o enramado feijão
e…
Fim.
A raça que já não caça
ela em ti é caçada.
III
Noite montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.
Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?
Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem dinheiro.
Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.
Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.
Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,
ao nosso lado, singra tão longe, boia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?
Luís Vaz perpassa, em voo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.
Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido Alberto,
será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso
queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência
e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,
crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,
fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes
a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.
Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,
com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico
não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?
A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?
Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
Vadiar, namorar, namorar, vadiar,
escrever sem pensar, sentir sem compreender,
é isso a adolescência? E teu pai mourejando
na fanada fazenda para te sustentar?
Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo,
vai ser isto ou aquilo, ser: não disfarçar.
Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro
ganho por teu esforço, ó meu espelho débil?
Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide,
verso, muito menos. Teus amigos já seguem
o caminho direito: leva à Faculdade,
à pompa estadual e talvez federal.
Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta,
contra teu próprio errar, sem programa de vida.
Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada
a cada esquina de Bahia ou Paraúna.
Ela te avisa que vai fugir, está fugindo,
segunda, terça, torta, quarta, parda, quinta,
sápida, sexta, seca, sábado — passou!
Domingo é soletrar o vácuo de domingo.
Então, sei lá por quê, tu serás farmacêutico.
II
E você continua a perder tempo
do Bar do Ponto à Escola de Farmácia
sem estudar.
Da Escola de Farmácia à doce Praça
da Liberdade
sem trabalhar.
Da Praça novamente ao Bar do Ponto faladeiro,
do Bar do Ponto — é noite — à casa na Floresta
sem levar a sério o sério desta vida,
e é só dormir e namorar e vadiar.
Seus amigos passam de ano,
você não passa.
Ganham salário nas repartições,
você não ganha nada.
O Anatole France que degustam,
o Verlaine, o Gourmont, outras essências
do clair génie français já decadente,
compram com dinheiro do ordenado,
não de fácil mesada.
Se dormem com a Pingo de Ouro, a Jordelina,
pagam do próprio bolso esse prazer,
não de bolsa paterna.
Você pretende o quê?
Ficar nesse remanso a vida inteira?
O tempo vai passando, Clara Weiss
avisa no cartaz: Addio, giovinezza,
e você não vê, você não sente
a mensagem colada ao seu nariz?
Olhe os outros: formados, clinicando,
soltando réus, vencendo causas gordas,
e você aí, à porta do Giacomo
esperando chegar o trem das 10
com seu poeminha em prosa na revista,
que ninguém lerá nem tal merece.
Quem afinal sustenta sua vida?
Bois longínquos, éguas enevoadas
no cinza além da serra, estrume de fazenda,
a colheita de milho, o enramado feijão
e…
Fim.
A raça que já não caça
ela em ti é caçada.
III
Noite montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.
Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?
Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem dinheiro.
Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.
Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.
Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,
ao nosso lado, singra tão longe, boia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?
Luís Vaz perpassa, em voo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.
Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido Alberto,
será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso
queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência
e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,
crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,
fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes
a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.
Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,
com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico
não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?
A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?
Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
1 145
Carlos Drummond de Andrade
A Consciência Suja
I
Vadiar, namorar, namorar, vadiar,
escrever sem pensar, sentir sem compreender,
é isso a adolescência? E teu pai mourejando
na fanada fazenda para te sustentar?
Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo,
vai ser isto ou aquilo, ser: não disfarçar.
Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro
ganho por teu esforço, ó meu espelho débil?
Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide,
verso, muito menos. Teus amigos já seguem
o caminho direito: leva à Faculdade,
à pompa estadual e talvez federal.
Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta,
contra teu próprio errar, sem programa de vida.
Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada
a cada esquina de Bahia ou Paraúna.
Ela te avisa que vai fugir, está fugindo,
segunda, terça, torta, quarta, parda, quinta,
sápida, sexta, seca, sábado — passou!
Domingo é soletrar o vácuo de domingo.
Então, sei lá por quê, tu serás farmacêutico.
II
E você continua a perder tempo
do Bar do Ponto à Escola de Farmácia
sem estudar.
Da Escola de Farmácia à doce Praça
da Liberdade
sem trabalhar.
Da Praça novamente ao Bar do Ponto faladeiro,
do Bar do Ponto — é noite — à casa na Floresta
sem levar a sério o sério desta vida,
e é só dormir e namorar e vadiar.
Seus amigos passam de ano,
você não passa.
Ganham salário nas repartições,
você não ganha nada.
O Anatole France que degustam,
o Verlaine, o Gourmont, outras essências
do clair génie français já decadente,
compram com dinheiro do ordenado,
não de fácil mesada.
Se dormem com a Pingo de Ouro, a Jordelina,
pagam do próprio bolso esse prazer,
não de bolsa paterna.
Você pretende o quê?
Ficar nesse remanso a vida inteira?
O tempo vai passando, Clara Weiss
avisa no cartaz: Addio, giovinezza,
e você não vê, você não sente
a mensagem colada ao seu nariz?
Olhe os outros: formados, clinicando,
soltando réus, vencendo causas gordas,
e você aí, à porta do Giacomo
esperando chegar o trem das 10
com seu poeminha em prosa na revista,
que ninguém lerá nem tal merece.
Quem afinal sustenta sua vida?
Bois longínquos, éguas enevoadas
no cinza além da serra, estrume de fazenda,
a colheita de milho, o enramado feijão
e…
Fim.
A raça que já não caça
ela em ti é caçada.
III
Noite montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.
Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?
Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem dinheiro.
Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.
Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.
Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,
ao nosso lado, singra tão longe, boia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?
Luís Vaz perpassa, em voo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.
Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido Alberto,
será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso
queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência
e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,
crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,
fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes
a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.
Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,
com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico
não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?
A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?
Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
Vadiar, namorar, namorar, vadiar,
escrever sem pensar, sentir sem compreender,
é isso a adolescência? E teu pai mourejando
na fanada fazenda para te sustentar?
Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo,
vai ser isto ou aquilo, ser: não disfarçar.
Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro
ganho por teu esforço, ó meu espelho débil?
Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide,
verso, muito menos. Teus amigos já seguem
o caminho direito: leva à Faculdade,
à pompa estadual e talvez federal.
Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta,
contra teu próprio errar, sem programa de vida.
Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada
a cada esquina de Bahia ou Paraúna.
Ela te avisa que vai fugir, está fugindo,
segunda, terça, torta, quarta, parda, quinta,
sápida, sexta, seca, sábado — passou!
Domingo é soletrar o vácuo de domingo.
Então, sei lá por quê, tu serás farmacêutico.
II
E você continua a perder tempo
do Bar do Ponto à Escola de Farmácia
sem estudar.
Da Escola de Farmácia à doce Praça
da Liberdade
sem trabalhar.
Da Praça novamente ao Bar do Ponto faladeiro,
do Bar do Ponto — é noite — à casa na Floresta
sem levar a sério o sério desta vida,
e é só dormir e namorar e vadiar.
Seus amigos passam de ano,
você não passa.
Ganham salário nas repartições,
você não ganha nada.
O Anatole France que degustam,
o Verlaine, o Gourmont, outras essências
do clair génie français já decadente,
compram com dinheiro do ordenado,
não de fácil mesada.
Se dormem com a Pingo de Ouro, a Jordelina,
pagam do próprio bolso esse prazer,
não de bolsa paterna.
Você pretende o quê?
Ficar nesse remanso a vida inteira?
O tempo vai passando, Clara Weiss
avisa no cartaz: Addio, giovinezza,
e você não vê, você não sente
a mensagem colada ao seu nariz?
Olhe os outros: formados, clinicando,
soltando réus, vencendo causas gordas,
e você aí, à porta do Giacomo
esperando chegar o trem das 10
com seu poeminha em prosa na revista,
que ninguém lerá nem tal merece.
Quem afinal sustenta sua vida?
Bois longínquos, éguas enevoadas
no cinza além da serra, estrume de fazenda,
a colheita de milho, o enramado feijão
e…
Fim.
A raça que já não caça
ela em ti é caçada.
III
Noite montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.
Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?
Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem dinheiro.
Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.
Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.
Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,
ao nosso lado, singra tão longe, boia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?
Luís Vaz perpassa, em voo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.
Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido Alberto,
será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso
queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência
e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,
crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,
fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes
a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.
Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,
com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico
não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?
A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?
Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
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