Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Punição
“74, fique de coluna.”
Lá vou eu, de castigo, contemplar
por meia hora o ermo da parede.
Meia hora de pé, ante o reboco,
na insensibilidade das colunas
de ferro (inaciano?) me resgata.
Eis que eu mesmo converto-me em coluna,
e já não é castigo, é fuga e sonho.
Não me atinge a sentença punitiva.
Se pensam condenar-me, estão ilusos.
A liberdade invade minha estátua
e no recreio ganho o azul distância.
Lá vou eu, de castigo, contemplar
por meia hora o ermo da parede.
Meia hora de pé, ante o reboco,
na insensibilidade das colunas
de ferro (inaciano?) me resgata.
Eis que eu mesmo converto-me em coluna,
e já não é castigo, é fuga e sonho.
Não me atinge a sentença punitiva.
Se pensam condenar-me, estão ilusos.
A liberdade invade minha estátua
e no recreio ganho o azul distância.
1 205
Carlos Drummond de Andrade
Passeio Geral
Uma vez por mês
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
856
Carlos Drummond de Andrade
Passeio Geral
Uma vez por mês
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
856
Carlos Drummond de Andrade
Bar
Ciprestes e castanheiros
em torno deste bar rústico
vão tornando mais ilustre
o consumo de cerveja.
Mas são ciprestes pirâmides
e castanheiros truncados
em volta de mãos vorazes,
tecendo ramas polêmicas.
Como se papa um sanduíche,
a decoração se come?
Este lugar, eu o amo
ou não se fala mais nisto?
em torno deste bar rústico
vão tornando mais ilustre
o consumo de cerveja.
Mas são ciprestes pirâmides
e castanheiros truncados
em volta de mãos vorazes,
tecendo ramas polêmicas.
Como se papa um sanduíche,
a decoração se come?
Este lugar, eu o amo
ou não se fala mais nisto?
1 057
Carlos Drummond de Andrade
Jornal Falado No Salão Vivacqua
Garotas de Cachoeiro civilizam
nosso mineiro burgo relaxado.
No salão todo luz chega o perfume
das roseiras da Praça. Burburinho.
Aqui, a se sorrirem, vejo os máximos
escritores da nova geração.
São jornalistas esta noite. A bela Angélica,
a suave Edelmira, a grácil Mariquinha
assim o determinam. Milton Campos
abre o Jornal Falado. Flui a verve
de seu editorial. Na sua voz,
a política é um jogo divertido
de punhais cetinosos que se cravam
sem derrame de sangue — e a vítima nem sabe,
perremisticamente golpeada,
que já morreu: continua deputado.
De Abgar, primeira página, o soneto,
mais lapidado que diamante,
recebe aplausos invejosos. Oh, quem soubera
tanger assim o lírico instrumento,
decerto conquistara
todas as do planeta moças lindas!
Um êmulo romântico se aproxima:
é Batista decassílabo Santiago:
“Ah, saudade que vive me enganando
e faz que eu ouça a tua voz, ouvindo
as folhas mortas em que vou pisando…”.
Jornal é só poesia? Nada disso.
João Dornas traça a viva reportagem
urbana. Que parada,
achar acontecimentos onde nada
acontece, depois de Rui Barbosa!
Ele inventa, ele cria? Fatos raros
baixam do lustre, pulam no tapete
e Nava, prodigioso desenhista,
risca os perfis, os gestos, os lugares.
Delorizano, grave,
fala de ciência,
o Romeu de Avelar conta do Norte.
Aquiles é o cronista social:
noivados e potins e flertes surpreendidos
na segunda sessão do Odeon… Caluda!
Alguém pode não gostar. João Guimarães
é o nosso humorista. João Alphonsus
inicia o romance-folhetim:
em minutos tem princípio, meio e fim.
Eis chega a minha vez. A minha vez?
Mas como? se eu esperava não chegasse
e lá pela meia-noite o sono embaciasse
os anúncios da quarta página, final…
Não sei o que dizer. Digo: “Um acidente
nas oficinas impediu
saísse a minha crônica. Perdeu-se. Até amanhã”.
nosso mineiro burgo relaxado.
No salão todo luz chega o perfume
das roseiras da Praça. Burburinho.
Aqui, a se sorrirem, vejo os máximos
escritores da nova geração.
São jornalistas esta noite. A bela Angélica,
a suave Edelmira, a grácil Mariquinha
assim o determinam. Milton Campos
abre o Jornal Falado. Flui a verve
de seu editorial. Na sua voz,
a política é um jogo divertido
de punhais cetinosos que se cravam
sem derrame de sangue — e a vítima nem sabe,
perremisticamente golpeada,
que já morreu: continua deputado.
De Abgar, primeira página, o soneto,
mais lapidado que diamante,
recebe aplausos invejosos. Oh, quem soubera
tanger assim o lírico instrumento,
decerto conquistara
todas as do planeta moças lindas!
Um êmulo romântico se aproxima:
é Batista decassílabo Santiago:
“Ah, saudade que vive me enganando
e faz que eu ouça a tua voz, ouvindo
as folhas mortas em que vou pisando…”.
Jornal é só poesia? Nada disso.
João Dornas traça a viva reportagem
urbana. Que parada,
achar acontecimentos onde nada
acontece, depois de Rui Barbosa!
Ele inventa, ele cria? Fatos raros
baixam do lustre, pulam no tapete
e Nava, prodigioso desenhista,
risca os perfis, os gestos, os lugares.
Delorizano, grave,
fala de ciência,
o Romeu de Avelar conta do Norte.
Aquiles é o cronista social:
noivados e potins e flertes surpreendidos
na segunda sessão do Odeon… Caluda!
Alguém pode não gostar. João Guimarães
é o nosso humorista. João Alphonsus
inicia o romance-folhetim:
em minutos tem princípio, meio e fim.
Eis chega a minha vez. A minha vez?
Mas como? se eu esperava não chegasse
e lá pela meia-noite o sono embaciasse
os anúncios da quarta página, final…
Não sei o que dizer. Digo: “Um acidente
nas oficinas impediu
saísse a minha crônica. Perdeu-se. Até amanhã”.
818
Carlos Drummond de Andrade
Vigília
A qualquer hora do dia ou da noite,
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
1 189
Carlos Drummond de Andrade
Vigília
A qualquer hora do dia ou da noite,
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
1 189
Carlos Drummond de Andrade
O Grande Filme
Vejo Intolerância, de Griffith,
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
1 014
Carlos Drummond de Andrade
O Grande Filme
Vejo Intolerância, de Griffith,
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
no Cinema Pathé.
Estudante já não vale nada.
Pago entrada comum, preço incomum:
2 mil-réis e mais 100 réis de imposto.
Os habitués foram preparados
por anúncios maiores no Minas Gerais:
“Procurem compreender, não somos gananciosos.
O filme tem 50 mil comparsas,
15 mil cavalos, 30 artistas
famosos, quatro romances, 14 partes.
Construiu-se um templo colossal
(1500 metros de fundo),
a orquestra executa partitura
escrita especialmente…”.
Intolerância
ou a luta do amor através das idades,
Cristo, Babilônia, São Bartolomeu noturno…
É grandioso demais para a minúscula
visão minha da História, e tudo aquilo
se passa num mundo estranho a Minas
e à nossa ordem sacramental, sob a tutela
do nosso bom Governo, iluminado
por Deus.
Esmaga-se esse monstro de mil patas.
Saio em fragmentos, respiro o ar
puríssimo de todas as montanhas.
Intolerância? Aqui no alto, não,
desde que se vote no Governo.
1 014
Carlos Drummond de Andrade
Rebelião
A empresa Gomes Nogueira
dobrou o preço do ingresso.
Alega que a nova fita
é de beleza infinita.
Aos estudantes recusa
direito de meia-entrada,
esse direito imortal,
escrito na lei falada.
Tamanho abuso levanta
as pedrinhas do passeio.
Até mancebos serenos
protestam; nem é pra menos.
Vamos entrar assim mesmo,
protestar não adianta,
e a fita, diz Cena Muda,
tem um mistério que espanta.
Mas tamanho desagrado
na algibeira estudantil
gera rumor, logo mil
ruídos vão se encorpando.
Ninguém vê o preto e branco
enrolo das peripécias
do dramalhão Paramount.
A bagunça, num arranco,
toma conta do recinto,
malhando cadeira e tudo
quanto é peça de madeira.
Acende-se a luz. E sinto
que é hora de grande alvitre:
levar essa massa humana
para a reforma do mundo.
Começar? Já, num segundo,
deixar a sala-ratoeira
(pois a Polícia é finória)
e sair, queimando bondes,
que nada têm com essa história.
Os bondes, mas logo os bondes,
providência de estudantes?
Isso mesmo: velho impulso,
a destruição dos amantes.
Do cinema em polvorosa,
na turba, sai o anarquista.
A noite, incendida rosa,
abre um clarão na Lagoinha.
dobrou o preço do ingresso.
Alega que a nova fita
é de beleza infinita.
Aos estudantes recusa
direito de meia-entrada,
esse direito imortal,
escrito na lei falada.
Tamanho abuso levanta
as pedrinhas do passeio.
Até mancebos serenos
protestam; nem é pra menos.
Vamos entrar assim mesmo,
protestar não adianta,
e a fita, diz Cena Muda,
tem um mistério que espanta.
Mas tamanho desagrado
na algibeira estudantil
gera rumor, logo mil
ruídos vão se encorpando.
Ninguém vê o preto e branco
enrolo das peripécias
do dramalhão Paramount.
A bagunça, num arranco,
toma conta do recinto,
malhando cadeira e tudo
quanto é peça de madeira.
Acende-se a luz. E sinto
que é hora de grande alvitre:
levar essa massa humana
para a reforma do mundo.
Começar? Já, num segundo,
deixar a sala-ratoeira
(pois a Polícia é finória)
e sair, queimando bondes,
que nada têm com essa história.
Os bondes, mas logo os bondes,
providência de estudantes?
Isso mesmo: velho impulso,
a destruição dos amantes.
Do cinema em polvorosa,
na turba, sai o anarquista.
A noite, incendida rosa,
abre um clarão na Lagoinha.
1 016
Carlos Drummond de Andrade
Rebelião
A empresa Gomes Nogueira
dobrou o preço do ingresso.
Alega que a nova fita
é de beleza infinita.
Aos estudantes recusa
direito de meia-entrada,
esse direito imortal,
escrito na lei falada.
Tamanho abuso levanta
as pedrinhas do passeio.
Até mancebos serenos
protestam; nem é pra menos.
Vamos entrar assim mesmo,
protestar não adianta,
e a fita, diz Cena Muda,
tem um mistério que espanta.
Mas tamanho desagrado
na algibeira estudantil
gera rumor, logo mil
ruídos vão se encorpando.
Ninguém vê o preto e branco
enrolo das peripécias
do dramalhão Paramount.
A bagunça, num arranco,
toma conta do recinto,
malhando cadeira e tudo
quanto é peça de madeira.
Acende-se a luz. E sinto
que é hora de grande alvitre:
levar essa massa humana
para a reforma do mundo.
Começar? Já, num segundo,
deixar a sala-ratoeira
(pois a Polícia é finória)
e sair, queimando bondes,
que nada têm com essa história.
Os bondes, mas logo os bondes,
providência de estudantes?
Isso mesmo: velho impulso,
a destruição dos amantes.
Do cinema em polvorosa,
na turba, sai o anarquista.
A noite, incendida rosa,
abre um clarão na Lagoinha.
dobrou o preço do ingresso.
Alega que a nova fita
é de beleza infinita.
Aos estudantes recusa
direito de meia-entrada,
esse direito imortal,
escrito na lei falada.
Tamanho abuso levanta
as pedrinhas do passeio.
Até mancebos serenos
protestam; nem é pra menos.
Vamos entrar assim mesmo,
protestar não adianta,
e a fita, diz Cena Muda,
tem um mistério que espanta.
Mas tamanho desagrado
na algibeira estudantil
gera rumor, logo mil
ruídos vão se encorpando.
Ninguém vê o preto e branco
enrolo das peripécias
do dramalhão Paramount.
A bagunça, num arranco,
toma conta do recinto,
malhando cadeira e tudo
quanto é peça de madeira.
Acende-se a luz. E sinto
que é hora de grande alvitre:
levar essa massa humana
para a reforma do mundo.
Começar? Já, num segundo,
deixar a sala-ratoeira
(pois a Polícia é finória)
e sair, queimando bondes,
que nada têm com essa história.
Os bondes, mas logo os bondes,
providência de estudantes?
Isso mesmo: velho impulso,
a destruição dos amantes.
Do cinema em polvorosa,
na turba, sai o anarquista.
A noite, incendida rosa,
abre um clarão na Lagoinha.
1 016
Carlos Drummond de Andrade
Sacrifício
— Otávio, Otávio, que negócio é este?
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
1 229
Carlos Drummond de Andrade
Sacrifício
— Otávio, Otávio, que negócio é este?
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
1 229
Carlos Drummond de Andrade
O Artista
Alvorada de estrelas?
Alucinação de um sonho?
Canhoto domina o palco da Rua Caetés.
Seu violão cava um abismo de rosas
no triste carnaval de Belo Horizonte.
Alucinação de um sonho?
Canhoto domina o palco da Rua Caetés.
Seu violão cava um abismo de rosas
no triste carnaval de Belo Horizonte.
1 104
Carlos Drummond de Andrade
Esplendor E Declínio da Rapadura
Os meninos cariocas e paulistas
de alta prosopopeia
nunca tinham comido rapadura.
Provam com repugnância
o naco oferecido pelo mineiro.
Pedem mais.
Mais.
Ao acabar, há um pequeno tumulto.
Daí por diante todos encomendam
rapadura.
Fazem-se negócios em torno de rapadura.
Há furtos de rapadura.
Conflitos por causa de rapadura.
Até que o garoto de Botafogo parte um dente
da cristalina coleção que Deus lhe deu
e a rapadura é proscrita
como abominável invenção de mineiros.
de alta prosopopeia
nunca tinham comido rapadura.
Provam com repugnância
o naco oferecido pelo mineiro.
Pedem mais.
Mais.
Ao acabar, há um pequeno tumulto.
Daí por diante todos encomendam
rapadura.
Fazem-se negócios em torno de rapadura.
Há furtos de rapadura.
Conflitos por causa de rapadura.
Até que o garoto de Botafogo parte um dente
da cristalina coleção que Deus lhe deu
e a rapadura é proscrita
como abominável invenção de mineiros.
789
Carlos Drummond de Andrade
O Colegial E a Cidade
Fizeram bem os suíços
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
617
Carlos Drummond de Andrade
O Colegial E a Cidade
Fizeram bem os suíços
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
617
Carlos Drummond de Andrade
Fórmula de Saudação
“As flores orvalhadas
parecem pressurosas
de ofertar
ao amado Reitor
ao bondoso Ministro
ao querido Prefeito
a fragrância de suas pétalas.
Colhei-as e aspirai-as
e que o suave olor
por elas derramado
vos permita esquecer
pequenos dissabores
passageiros desgostos
que nossa irreflexão
já vos tenham causado.
Arrependidos pois,
ousamos implorar
um indulto completo,
bem assim prometemos
envidar mil esforços
para que dora em diante
nosso procedimento
só vos desperte júbilo
como indenização
pelo passado.
Feliz aniversário,
muitas felicidades!”
parecem pressurosas
de ofertar
ao amado Reitor
ao bondoso Ministro
ao querido Prefeito
a fragrância de suas pétalas.
Colhei-as e aspirai-as
e que o suave olor
por elas derramado
vos permita esquecer
pequenos dissabores
passageiros desgostos
que nossa irreflexão
já vos tenham causado.
Arrependidos pois,
ousamos implorar
um indulto completo,
bem assim prometemos
envidar mil esforços
para que dora em diante
nosso procedimento
só vos desperte júbilo
como indenização
pelo passado.
Feliz aniversário,
muitas felicidades!”
751
Carlos Drummond de Andrade
A Hora Final
O funcionário smart da Delegacia do Tesouro Nacional,
o escrevente do cartório de protesto de títulos,
o moço bacharel violento mas generoso,
o poeta revisor do Minas Gerais,
o chefe político do Mutum aguardando há seis meses
(falhou na última eleição)
ser recebido no Palácio da Liberdade,
os velhos e novos frequentadores da noite,
lenta noite apitada de guardas-civis nas esquinas de sono,
as moças do cabaré com seus últimos bocejantes clientes
estão todos sentados
no restaurante Guarani da madrugada
comendo o mesmo indefectível,
arquitetônico, monumental
bife a cavalo de 1920.
o escrevente do cartório de protesto de títulos,
o moço bacharel violento mas generoso,
o poeta revisor do Minas Gerais,
o chefe político do Mutum aguardando há seis meses
(falhou na última eleição)
ser recebido no Palácio da Liberdade,
os velhos e novos frequentadores da noite,
lenta noite apitada de guardas-civis nas esquinas de sono,
as moças do cabaré com seus últimos bocejantes clientes
estão todos sentados
no restaurante Guarani da madrugada
comendo o mesmo indefectível,
arquitetônico, monumental
bife a cavalo de 1920.
1 001
Carlos Drummond de Andrade
Somem Canivetes
Fica proibido o canivete
em aula, no recreio, em qualquer parte,
pois num país civilizado,
entre estudantes civilizadíssimos,
a nata do Brasil,
o canivete é mesmo indesculpável.
Recolham-se pois os canivetes
sob a guarda do irmão da Portaria.
Fica permitido o canivete
nos passeios à chácara
para cortar algum cipó
descascar laranja
e outros fins de rural necessidade.
Restituam-se pois os canivetes
a seus proprietários
com obrigação de serem recolhidos
na volta do passeio, e tenho dito.
Só que na volta do passeio
verificou-se com surpresa:
no matinho ralo da chácara
todos os canivetes tinham sumido.
em aula, no recreio, em qualquer parte,
pois num país civilizado,
entre estudantes civilizadíssimos,
a nata do Brasil,
o canivete é mesmo indesculpável.
Recolham-se pois os canivetes
sob a guarda do irmão da Portaria.
Fica permitido o canivete
nos passeios à chácara
para cortar algum cipó
descascar laranja
e outros fins de rural necessidade.
Restituam-se pois os canivetes
a seus proprietários
com obrigação de serem recolhidos
na volta do passeio, e tenho dito.
Só que na volta do passeio
verificou-se com surpresa:
no matinho ralo da chácara
todos os canivetes tinham sumido.
1 127
Carlos Drummond de Andrade
Somem Canivetes
Fica proibido o canivete
em aula, no recreio, em qualquer parte,
pois num país civilizado,
entre estudantes civilizadíssimos,
a nata do Brasil,
o canivete é mesmo indesculpável.
Recolham-se pois os canivetes
sob a guarda do irmão da Portaria.
Fica permitido o canivete
nos passeios à chácara
para cortar algum cipó
descascar laranja
e outros fins de rural necessidade.
Restituam-se pois os canivetes
a seus proprietários
com obrigação de serem recolhidos
na volta do passeio, e tenho dito.
Só que na volta do passeio
verificou-se com surpresa:
no matinho ralo da chácara
todos os canivetes tinham sumido.
em aula, no recreio, em qualquer parte,
pois num país civilizado,
entre estudantes civilizadíssimos,
a nata do Brasil,
o canivete é mesmo indesculpável.
Recolham-se pois os canivetes
sob a guarda do irmão da Portaria.
Fica permitido o canivete
nos passeios à chácara
para cortar algum cipó
descascar laranja
e outros fins de rural necessidade.
Restituam-se pois os canivetes
a seus proprietários
com obrigação de serem recolhidos
na volta do passeio, e tenho dito.
Só que na volta do passeio
verificou-se com surpresa:
no matinho ralo da chácara
todos os canivetes tinham sumido.
1 127
Carlos Drummond de Andrade
A Tentação de Comprar
Com anúncios de página inteira
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
1 048
Carlos Drummond de Andrade
A Tentação de Comprar
Com anúncios de página inteira
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
1 048
Carlos Drummond de Andrade
O Não Dançarino
Não alcancei o Clube das Violetas,
delicado demais para durar.
À minha frente só o Clube Belo Horizonte,
onde dançam o belo Ferola, o formoso Dario
com senhoritas mui prendadas
sob o olhar magnético de pais, mães, irmãos,
e o invisível mas ubíquo e potente
estatuto mineiro de costumes.
Dançam no segundo andar as valsas lânguidas
que o violino de Flausino faz etéreas.
Não sei dançar.
O Clube não frequento.
É meu clube a calçada.
A calçada sem música.
A porta do cinema, a porta do Giácomo,
a porta sem espera, a porta sem esperança,
a porta.
delicado demais para durar.
À minha frente só o Clube Belo Horizonte,
onde dançam o belo Ferola, o formoso Dario
com senhoritas mui prendadas
sob o olhar magnético de pais, mães, irmãos,
e o invisível mas ubíquo e potente
estatuto mineiro de costumes.
Dançam no segundo andar as valsas lânguidas
que o violino de Flausino faz etéreas.
Não sei dançar.
O Clube não frequento.
É meu clube a calçada.
A calçada sem música.
A porta do cinema, a porta do Giácomo,
a porta sem espera, a porta sem esperança,
a porta.
1 150