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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Carnaval E Moças

Minas Gerais está mudando?
As moças vão para o corso fantasiadas de Malandrinhas.
Não cantam “A malandragem eu não posso deixar”
nem “Eu quero é nota”,
mas do alto dos carros de capota arriada,
sorrindo, atirando serpentinas nos outros carros,
entoam desenvoltas
“Levanta o pé,
esconde a mão,
quero saber se tu gostas de mim
ou não”.

Os pais deixaram.
Aí vem o Bloco Papai Deixou:
as Tamm de Lima, as Franzen de Lima,
as Tamm Bias Fortes, as Tamm Loreto,
irmãs, primas, cunhadas, a família mineira
descobrindo e revelando uma alegria carioca,
a alegria do carnaval.

Moulin Rouge? Assim também não. Mas pode ser Moulin Bleu
com Maria Rosa Pena, Célia de Carvalho,
Iolanda Vieira, Iolanda Bandeira,
outras que vão desfilando, vão cantando
ou, se não cantam, cantam os seus braços.

Cuidado! capitalistas de Belo Horizonte,
a Mão Negra está chegando e ameaçando.
Maria Geralda Sales, Irene e Pequetita Giffoni
fazem tremer o mineiro, que tem sempre
um dinheirinho guardado nas dobras do silêncio
e um pecado, talvez, de todos ignorado.

Felizmente nos salvam os Três
ou as Três Mosqueteiras, galhardas e galantes.
Lúcia Machado é Porthos,
Maria Helena Caldeira é Athos,
e Aramis, Maria Helena Pena.
Cadê o D’Artagnan? Elas respondem:
“Foi ferido no último duelo,
mas nós três damos conta do recado”.

Neste bloco maior vejo as Boêmias,
Ilka e Luizinha Andrada, Lurdes Rocha,
Hilda Borges da Costa, Heloísa Sales,
e Tinice e Clarita e Cidinha e quem mais.
Nomeá-las todas não posso: são dois carros
e é preciso olhar, passando na Avenida,
as Sevilhanas, as Aviadoras,
os Fantasmas da Ópera, as Caçadoras de Corações,
as Senhoritas Barba-Azul, copiadas de Bebé Daniels,
as Funcionárias (da Secretaria das Finanças),
e na calçada os Netos de Gambrinus
fantasiados de Barril de Chope.

Meu Deus, de cada rua
no bloco irrompe, e é tudo animação.
Bailarinas do Xeque, sem o Xeque,
nem eu queria vê-lo: elas sozinhas
cercam de Oriente minha sertanice.
De cada município agora sinto
afluir foliões em sarabanda.
Minas perdeu o sério. Minas pula,
revoluteia, grita, esquece a história
comedida, o severo “vou pensar”.
Minas não pensa mais, Minas se agita
ao som do jazz, ao som do bumbo, zum-zum-zum.

Vejo tudo isto ou estou sonhando
à mesa do Trianon, junto de Emílio,
poeta amigo, e Almeida,
sorvendo uma frappée, lenço molhado
de Rodo, pasárgada dos tímidos?
Ao clube não irei, nem aspirante
de sócio me tornei. Na minha face
gravado foi por lei hereditária:
“Este não dança”. Sei apenas ver,
e o que vejo na Rua da Bahia
é chuva chuva chuva sem parar,
é chuva e guarda-chuva, luva-dilúvio
a envolver os dedos da cidade.
Na cara dos garçons, nas fustigadas
árvores, no desolado cão fuginte,
na deserta calçada noturnal,
esta leitura faço, da sentença:
“Por aqui, a Quaresma
no sábado de carnaval é que começa”.
1 707
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Carnaval E Moças

Minas Gerais está mudando?
As moças vão para o corso fantasiadas de Malandrinhas.
Não cantam “A malandragem eu não posso deixar”
nem “Eu quero é nota”,
mas do alto dos carros de capota arriada,
sorrindo, atirando serpentinas nos outros carros,
entoam desenvoltas
“Levanta o pé,
esconde a mão,
quero saber se tu gostas de mim
ou não”.

Os pais deixaram.
Aí vem o Bloco Papai Deixou:
as Tamm de Lima, as Franzen de Lima,
as Tamm Bias Fortes, as Tamm Loreto,
irmãs, primas, cunhadas, a família mineira
descobrindo e revelando uma alegria carioca,
a alegria do carnaval.

Moulin Rouge? Assim também não. Mas pode ser Moulin Bleu
com Maria Rosa Pena, Célia de Carvalho,
Iolanda Vieira, Iolanda Bandeira,
outras que vão desfilando, vão cantando
ou, se não cantam, cantam os seus braços.

Cuidado! capitalistas de Belo Horizonte,
a Mão Negra está chegando e ameaçando.
Maria Geralda Sales, Irene e Pequetita Giffoni
fazem tremer o mineiro, que tem sempre
um dinheirinho guardado nas dobras do silêncio
e um pecado, talvez, de todos ignorado.

Felizmente nos salvam os Três
ou as Três Mosqueteiras, galhardas e galantes.
Lúcia Machado é Porthos,
Maria Helena Caldeira é Athos,
e Aramis, Maria Helena Pena.
Cadê o D’Artagnan? Elas respondem:
“Foi ferido no último duelo,
mas nós três damos conta do recado”.

Neste bloco maior vejo as Boêmias,
Ilka e Luizinha Andrada, Lurdes Rocha,
Hilda Borges da Costa, Heloísa Sales,
e Tinice e Clarita e Cidinha e quem mais.
Nomeá-las todas não posso: são dois carros
e é preciso olhar, passando na Avenida,
as Sevilhanas, as Aviadoras,
os Fantasmas da Ópera, as Caçadoras de Corações,
as Senhoritas Barba-Azul, copiadas de Bebé Daniels,
as Funcionárias (da Secretaria das Finanças),
e na calçada os Netos de Gambrinus
fantasiados de Barril de Chope.

Meu Deus, de cada rua
no bloco irrompe, e é tudo animação.
Bailarinas do Xeque, sem o Xeque,
nem eu queria vê-lo: elas sozinhas
cercam de Oriente minha sertanice.
De cada município agora sinto
afluir foliões em sarabanda.
Minas perdeu o sério. Minas pula,
revoluteia, grita, esquece a história
comedida, o severo “vou pensar”.
Minas não pensa mais, Minas se agita
ao som do jazz, ao som do bumbo, zum-zum-zum.

Vejo tudo isto ou estou sonhando
à mesa do Trianon, junto de Emílio,
poeta amigo, e Almeida,
sorvendo uma frappée, lenço molhado
de Rodo, pasárgada dos tímidos?
Ao clube não irei, nem aspirante
de sócio me tornei. Na minha face
gravado foi por lei hereditária:
“Este não dança”. Sei apenas ver,
e o que vejo na Rua da Bahia
é chuva chuva chuva sem parar,
é chuva e guarda-chuva, luva-dilúvio
a envolver os dedos da cidade.
Na cara dos garçons, nas fustigadas
árvores, no desolado cão fuginte,
na deserta calçada noturnal,
esta leitura faço, da sentença:
“Por aqui, a Quaresma
no sábado de carnaval é que começa”.
1 707
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Plataforma Política

O noturno mineiro
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
1 016
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Plataforma Política

O noturno mineiro
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
1 016
Carlos Drummond de Andrade

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Plataforma Política

O noturno mineiro
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
1 016
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Plataforma Política

O noturno mineiro
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
1 016
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ode Ao Partido Republicano Mineiro

Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?

Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!

Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.

Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.

Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.

Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.

Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.

Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!

Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.

E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 266
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ode Ao Partido Republicano Mineiro

Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?

Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!

Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.

Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.

Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.

Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.

Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.

Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!

Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.

E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 266
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ode Ao Partido Republicano Mineiro

Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?

Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!

Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.

Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.

Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.

Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.

Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.

Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!

Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.

E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 266
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ode Ao Partido Republicano Mineiro

Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?

Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!

Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.

Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.

Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.

Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.

Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.

Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!

Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.

E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 266
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ode Ao Partido Republicano Mineiro

Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?

Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!

Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.

Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.

Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.

Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.

Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.

Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!

Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.

E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Visita do Rei

I
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Visita do Rei

I
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
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