Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
António Ramos Rosa
E Vem o Dia
E vem o dia, as casas juntas,
a evidência das calçadas, dos planos,
árvores presentes, verdes, gente andando,
uma planura no vento, esquinas breves,
uma rapariga dúctil e sonora acaso,
a claridade metálica, o estrépito do sol,
a água cerrada dum amor da cidade.
*
Não construo. Apenas cedo a este desejo
vago que infunde o ar.
Sou renovado e liso, sou, não sou,
ganho-me na espera e no desejo
de ser já ser, não ser, outro que sou
fora da miséria, na miséria, vivo,
respirando, abrindo-me, perdendo-me,
cedendo.
*
É esta a noite, este o dia já,
este o viver,
roubado ou não, lavado, sim,
de suores, de punhos, desta calma
aberta em si, total, amanhecida,
na noite próxima, devagar, assim.
a evidência das calçadas, dos planos,
árvores presentes, verdes, gente andando,
uma planura no vento, esquinas breves,
uma rapariga dúctil e sonora acaso,
a claridade metálica, o estrépito do sol,
a água cerrada dum amor da cidade.
*
Não construo. Apenas cedo a este desejo
vago que infunde o ar.
Sou renovado e liso, sou, não sou,
ganho-me na espera e no desejo
de ser já ser, não ser, outro que sou
fora da miséria, na miséria, vivo,
respirando, abrindo-me, perdendo-me,
cedendo.
*
É esta a noite, este o dia já,
este o viver,
roubado ou não, lavado, sim,
de suores, de punhos, desta calma
aberta em si, total, amanhecida,
na noite próxima, devagar, assim.
554
António Ramos Rosa
Pássaro de Braque
Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
971
António Ramos Rosa
Pássaro de Braque
Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
971
António Ramos Rosa
O Homem de Abril
a José Gomes Ferreira
Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
De fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.
Sentou-se ao pé dum muro.
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!
Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
De fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.
Sentou-se ao pé dum muro.
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!
1 111
António Ramos Rosa
Sobre o Rosto da Terra
a Maria Alberta Menéres
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver
deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver
deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
1 345
António Ramos Rosa
Um Outro Sol, Um Outro Pão
Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
763
António Ramos Rosa
E Certas Palavras
a Fernand Verhesen
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
1 035
António Ramos Rosa
Nós Somos
Como uma pequena lâmpada subsiste
e caminha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem.
e caminha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem.
824
António Ramos Rosa
Para Respirar Um Pouco
Na tábua em que escrevo
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
1 204
António Ramos Rosa
Entre Hoje E Amanhã
Somos quantos? Uns e outros
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro
Os nossos sonhos brilham nas valetas
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro
Os nossos sonhos brilham nas valetas
964
Antônio Ribeiro dos Santos
Epístola
Assim é, assim é, ó Serra amigo,
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
640
Antônio Ribeiro dos Santos
Epístola
Assim é, assim é, ó Serra amigo,
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
640
Antônio Ribeiro dos Santos
Epístola
Assim é, assim é, ó Serra amigo,
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
640
Natasha Tinet
mice follies
nunca tive um olho mágico que funcionasse
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
757
António Ramos Rosa
A Ciência Das Canções
a Alberto de Lacerda
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
1 162
Francisco Mallmann
III
não te esquece hora alguma
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
701
Francisco Mallmann
III
não te esquece hora alguma
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
701
Natasha Tinet
Mãe
A pele viscosa de marisco contra a correnteza
de umbigos, pernas ásperas, suores salobres
hálitos embriagados pela urgência de cervejas
mulheres de biquínis molhados sob as roupas
coçam discretamente suas virilhas e vulvas
sonham morar com vista pro mar, cooper toda a manhã
a maresia corroendo os eletrodomésticos seria a grande tragédia
do horário nobre, assim que o ônibus lotado desvia do cartão postal,
os intervalos comerciais as trazem à realidade, a cada curva
sua mão aperta meus dedos contra a barra de alumínio,
faço biquinho, peço socorro, quero voltar ao mar
onde me perco e me confundo com outros banhistas
e seus olhos anseiam por mim
ela me ama como perda,
não para de apertar minhas mãos entre as suas
mesmo em casa, quando me ensina a expulsar o sal da cabeça
esfregando shampoo de babosa debaixo do chuveiro, alguns fios
se despedem pelo ralo, não umedecerão o travesseiro, não
receberão o sermão: “não deite de cabelo molhado”.
ela me ama como doença crônica
ela me ama como peso de porta: eu
uma tartaruga marinha encalhada
engasgada com uma lista de compras.
de umbigos, pernas ásperas, suores salobres
hálitos embriagados pela urgência de cervejas
mulheres de biquínis molhados sob as roupas
coçam discretamente suas virilhas e vulvas
sonham morar com vista pro mar, cooper toda a manhã
a maresia corroendo os eletrodomésticos seria a grande tragédia
do horário nobre, assim que o ônibus lotado desvia do cartão postal,
os intervalos comerciais as trazem à realidade, a cada curva
sua mão aperta meus dedos contra a barra de alumínio,
faço biquinho, peço socorro, quero voltar ao mar
onde me perco e me confundo com outros banhistas
e seus olhos anseiam por mim
ela me ama como perda,
não para de apertar minhas mãos entre as suas
mesmo em casa, quando me ensina a expulsar o sal da cabeça
esfregando shampoo de babosa debaixo do chuveiro, alguns fios
se despedem pelo ralo, não umedecerão o travesseiro, não
receberão o sermão: “não deite de cabelo molhado”.
ela me ama como doença crônica
ela me ama como peso de porta: eu
uma tartaruga marinha encalhada
engasgada com uma lista de compras.
797
António Ramos Rosa
Sujei o Teu Nome
Sujei o teu nome
para me libertar de ti
o sujo foi sombra
teu nome esqueci-o
O sujo era ferida
e eu falso cantava
Não reconheci a minha voz
Ai que deserta liberdade
Preso de novo
que rede tamanha
de laços e vozes
Um eco talvez
Um eco incessante
para me libertar de ti
o sujo foi sombra
teu nome esqueci-o
O sujo era ferida
e eu falso cantava
Não reconheci a minha voz
Ai que deserta liberdade
Preso de novo
que rede tamanha
de laços e vozes
Um eco talvez
Um eco incessante
1 359
António Ramos Rosa
O Tempo Concreto
O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
772
António Ramos Rosa
Da Inocência à Confiança
Da inocência à confiança
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
1 126
António Ramos Rosa
Em Miseráveis Quartos
Em miseráveis quartos
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
1 184
Louise Glück
Parábola da fera
O gato anda em círculos na cozinha
com o passarinho morto,
sua nova possessão.
Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:
nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.
Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.
com o passarinho morto,
sua nova possessão.
Alguém deveria discutir
ética com o gato enquanto ele
perscruta o débil passarinho:
nesta casa
nós não exercemos
a força deste jeito.
Diga isso ao animal,
seus dentes já
fundos na carne de outro animal.
1 143
Knut Hamsun
Em cem anos, tudo estará esquecido
Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
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