Temas
Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cidade Submersa

Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.

Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?

Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.

Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.

Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.

Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.

Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.

Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.

Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.

Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.

Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.

Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede

Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade                                   
há tanto tempo famosa.

Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,                         
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos                       
nos fios da rede elétrica.

Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.

E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.

Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.

Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.

Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.

      Respiro profundamente
      o ar frio da manhã fria,
      e como um peixe me afogo
      no ar que agora me sufoca,
      e morro dessa asfixia
      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
765
Edmir Domingues

Edmir Domingues

A lenda do boi de ouro

Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.

0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas

Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.

O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.

0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.

0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
555
Edmir Domingues

Edmir Domingues

A lenda do boi de ouro

Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.

0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas

Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.

O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.

0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.

0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
555
Edmir Domingues

Edmir Domingues

A lenda do boi de ouro

Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.

0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas

Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.

O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.

0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.

0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
555
Edmir Domingues

Edmir Domingues

A lenda do boi de ouro

Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.

0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas

Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.

O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.

0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.

0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
555
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Coroa dos sete pecados ou virtudes capitais

I - ORGULHO
Desse prazer que é apenas natureza
pode advir o orgulho da conquista.
Se orgulho é impulsão, essa imprevista
força que leva à frente. Que se preza

de ser o que constrói, deixada a reza
de lado, que apesar de ser benquista
por uns, é para outros a imprevista
petição recebida com frieza.

Quase sempre constrói um vago orgulho
que vem do fundo da alma, num marulho
de mar cansado, esfeito em verdes ondas.

Nascido, muita vez, de uma ansiedade,
(o novelo de antigas anacondas)
o orgulho de ser bom já é bondade.

II- INVEJA
O orgulho de ser bom já é bondade
que muita vez atrai despeito e inveja.
Mas inveja é virtude e há quem veja
que é impulso normal da humanidade.

Também constrói a inveja, desagrade
aos que só vêem pecado, os de alma aneja
que não possuam senso que preveja
que pode vir de ignota enfermidade.

Mas inveja até pode ser proveito
aquele a quem acaso endereçada
que sentiu que seu passo foi perfeito,

que a inveja que causou não foi nociva.
O invejoso invejou mas não foi nada.
Só é pecado a inveja corrosiva.

III - IRA
Só é pecado a inveja corrosiwa
que esta provoca a ira e o desconforto,
faz naufragar o barco já no porto,
faz nascer a vontade negativa.

No dia a dia deste mundo torto
onde vale talvez a tentativa
mais do que o resultado da saliva
das pregações, nos montes ou no horto,

não vale ver na ira o absoluto
mal, inda mesmo quando fere e assusta
no afã diário, o ritmo dissoluto.

Não é bom que esqueçamos a baraça
de Quem se viu tomado de ira justa
quando expulsou os vendilhões da Praça.

IV- PREGUIÇA
Quando expulsou os vendilhões da Praça
do Templo, Ele calmou-se, descansando,
pois fizera correr o triste bando
e a sua cupidez, sua desgraça.

Descansou, sem preguiça, se a arruaça
acabara, e era a paz. Novo comando
imperava. Mas se sentisse um brando
enfaro de preguiça, essa mordaça

interior, não seria nada estranho.
O “doce não fazer"pode ser justo
“ócio com dignidade”, justo ganho,

depois de afã contínuo, grande luta
em que se quis vencer a todo o custo,
preguiça na vitória após disputa.

V - AVAREZA
Preguiça na vitória após disputa
não é então pecado mas virtude.
A prodigalidade nunca ilude,
essa que é tão ruim quanto a cicuta.

Poupar é sempre bom, uma atitude
que o profeta do templo e o da gruta,
o primeiro aconselha, em resoluta
lição, e o outro exerce em mansuetude.

Quem trabalha, e o seu ganho muito custa
sabe emprestar valor a quanto ganha,
e o medo de perdê-lo sempre o assusta.

Se ao avaro uma perda mortifica
e ao pródigo o espalhar é sempre sanha,
o guardar ou gastar não significa.

VI - GULA
O guardar ou gastar não significa
nem a vida gulosa é condenada
sem um motivo forte. A terra arada
dá presentes ao homem, que o enrica.

As primícias da terra (a Terra amada,
um presente do Céu, que mortifica
o frugal que depende da botica
para ter a saúde desejada),

não podem ser pecado. O vinho doce
que nos desperta a fome dos sentidos
que o Criador nos deu, como se fosse

o seu sinal de amor à sua igreja
que ensina os apetites permitidos.
Amar não é luxúria, assim se veja.

VII - LUXÚRIA
Amar não é luxúria, assim se veja,
na grande intensidade que lhe marca
em toda a vida, até que venha a Barca
de Caronte, e nos leve, benfazeja.

Amar com força viva, na peleja
do edredom, do lençol que o duplo abarca,
é seguir todo o ensino do Nomarca
que mandou construir a sua igreja

e fazê-la crescer, multiplicá-la
a base de atrações e convivências
que podem ser um luxo, com certeza.

(Que não são acidentes mas essências
do natural preparo na ante-sala
desse prazer que é apenas natureza.
680