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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Edmir Domingues

Edmir Domingues

Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
833
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
833
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
833
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Fala às flores e aos ventos

Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.

Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.

Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.

Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.

Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.

Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.

Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.

Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.

Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.

Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
702
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cidade Submersa

Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.

Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?

Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.

Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.

Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.

Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.

Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.

Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.

Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.

Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.

Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.

Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede

Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade                                   
há tanto tempo famosa.

Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,                         
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos                       
nos fios da rede elétrica.

Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.

E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.

Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.

Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.

Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.

      Respiro profundamente
      o ar frio da manhã fria,
      e como um peixe me afogo
      no ar que agora me sufoca,
      e morro dessa asfixia
      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
767
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
750
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
750
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cidade Submersa

CIDADE SUBMERSA

 

 Acordo súbito, é tarde

e a surpresa me surpreende,

encheu-se-me de água o quarto

os livros bóiam no teto

grandes peixes taciturnos

espiam-me o sono imenso.

 Desperto pondero os fatos

não sei por que não sei como

respiro não tendo guelras

no centro das águas mansas

e a vida se me parece

como antes naturalmente.


Mas o quarto submarino

nunca o vira nem soubera

e entanto as águas estavam

lá dentro literalmente.

 Será que a guerra dos mundos

no meu sono começara?

ou que o degelo dos pólos

se fizera num momento?

 Os russos e americanos

também contidos nas águas

será que enfim maldiriam

do tempo da guerra fria?

 

Fria mesmo era a água fria

que me estava enchendo o quarto.

Levanto-me e já percorro

a casa e a casa era toda

o aquário onde os bichos d'água

faziam do seu passeio.


Saio à rua e não há rua

que a cidade está submersa

e o longo painel das águas

se desenrola no tempo.


Ah que eu sempre suspeitara

que esta cidade tão plana

seria um dia contida

no dorso verde do mar.

que o mar guardava os seus mangues

como espias traiçoeiros

como cúmplices danados

mesmo no seio da incauta.

 

Percorro a cidade toda

cidade não há, se acaso

não se há de dizer cidade

das águas que a devoraram,

porém é um mundo de mágica

o aquário onde vejo e sinto

toda a fauna do mistério

desenvolvendo o seu jogo.


Eis que com pouco me encontro

no Parque Treze de Maio

ao lado do qual dormia

a sombra da Faculdade.

As antigas namoradas

travestidas de sereias

será que estão pela praça

com suas caudas de peixe?

Já percorro a praça toda

como em domingos antigos

mas o parque está deserto

ninguém que veja o meu passo.


 Ninguém não, porque estão peixes

 nadando tranqüilamente

 iluminando o passeio

 nessa luz difusa e vaga

 que é sempre própria dos peixes.

 Calamares cor de cinza

 envolvem os seus tentáculos

 como as estrelas do inferno

 nos seios de bronze escuro

 das estátuas no silêncio.

 Será que apenas eu vivo

 existo em toda a cidade?

 Ou aquelas que eu buscara

 estão vivendo do sono

 porquanto é tarde da noite?

 (Impossível ter certeza

 se a vida nos nega sempre

 certeza plena das coisas.)

 Resta que eu viva pesquisa

 nesta cidade afogada

 num campo de mar - pai nosso

 cruzado da reconquista.

 

Procuro o rio, ora o ri

é uma ficção tão somente

junto das formas estranhas

das pontes debaixo d água.


Arcos (as pontes) ligando

dois pontos mal divisados

neste instante em que eu os vejo

já me parecem mais belos

dessa beleza mais pura

que vem da inutilidade.


Mas sinto que sofro muito

sabendo o rio afogado,

e somente então percebo

o quanto amava esse rio

que amor só se sente pleno

depois do instante da perda.


Cruzo a ponte, na avenida

cefalópodes descansam

as suas formas fantásticas

a um passo do meio-fio.

Larvas, actinias, estrelas

do mar, no que fora terra,

emprestam a tudo o aspecto

de um quadro sobre a parede


Microplantas iluminam

com suas roupas de fósforo

os meus passos no passeio

de ver a cidade minha.

Percebe-se no ambiente

tão grandes luminescências

que eu na verdade suspeito

que os peixes que têm luz própria

subiram todos do abismo

para ver esta cidade                                   

há tanto tempo famosa.


Na rua Nova lagostas

deslizam contornos vagos,

mexilhões no calçamento

enfeitam de novo brilho

o pouso onde os pés descansam,

sifonóforos, retidos,
                            
têm espasmos de agonia

com seus tentáculos presos                       

nos fios da rede elétrica.

 

Busco o Pátio de São Pedro

para a surpresa feliz,

porque são peixes barrocos

os que em cardume se encontram

neste recinto sagrado,

respeitando a arquitetura

e o nosso próprio respeito.


E em tudo reina um silêncio

que talvez não seja unânime,

mas que é a realidade

para os ouvidos que tenho

mal refeitos da surpresa,

mas ah ouvidos escutam

um sino batendo ao longe

e uma canção se espalhando

pela espessura das águas.

Procuro seguir o rumo

da voz do sino e percebo

- milagre de São Francisco -

tocando o sino da Penha

tangido pelas correntes

marinhas, ou por si próprios,

lembrando que a fé subsiste

mesmo no íntimo das águas.

 

Oh bairro de São José

pedaço da minha infância,

das tuas ruas tão tristes

somente uma rua triste

entre as ruas da cidade

(a rua das Águas Verdes)

não hã de trocar de nome.

 

Nesta altura já percebo

toda a cidade submersa

pelo que já não me sobra

mais a razão de viver.


 
Subo à tona onde me ferem

as flechas da madrugada

que vem surgindo do mar.

Nem as copas das palmeiras

emergem do lençol d água

e apenas se vê no extremo

alguns dos montes de Olinda.

 

      Respiro profundamente

      o ar frio da manhã fria,

      e como um peixe me afogo

      no ar que agora me sufoca,

      e morro dessa asfixia

      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
1 062
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cidade Submersa

CIDADE SUBMERSA

 

 Acordo súbito, é tarde

e a surpresa me surpreende,

encheu-se-me de água o quarto

os livros bóiam no teto

grandes peixes taciturnos

espiam-me o sono imenso.

 Desperto pondero os fatos

não sei por que não sei como

respiro não tendo guelras

no centro das águas mansas

e a vida se me parece

como antes naturalmente.


Mas o quarto submarino

nunca o vira nem soubera

e entanto as águas estavam

lá dentro literalmente.

 Será que a guerra dos mundos

no meu sono começara?

ou que o degelo dos pólos

se fizera num momento?

 Os russos e americanos

também contidos nas águas

será que enfim maldiriam

do tempo da guerra fria?

 

Fria mesmo era a água fria

que me estava enchendo o quarto.

Levanto-me e já percorro

a casa e a casa era toda

o aquário onde os bichos d'água

faziam do seu passeio.


Saio à rua e não há rua

que a cidade está submersa

e o longo painel das águas

se desenrola no tempo.


Ah que eu sempre suspeitara

que esta cidade tão plana

seria um dia contida

no dorso verde do mar.

que o mar guardava os seus mangues

como espias traiçoeiros

como cúmplices danados

mesmo no seio da incauta.

 

Percorro a cidade toda

cidade não há, se acaso

não se há de dizer cidade

das águas que a devoraram,

porém é um mundo de mágica

o aquário onde vejo e sinto

toda a fauna do mistério

desenvolvendo o seu jogo.


Eis que com pouco me encontro

no Parque Treze de Maio

ao lado do qual dormia

a sombra da Faculdade.

As antigas namoradas

travestidas de sereias

será que estão pela praça

com suas caudas de peixe?

Já percorro a praça toda

como em domingos antigos

mas o parque está deserto

ninguém que veja o meu passo.


 Ninguém não, porque estão peixes

 nadando tranqüilamente

 iluminando o passeio

 nessa luz difusa e vaga

 que é sempre própria dos peixes.

 Calamares cor de cinza

 envolvem os seus tentáculos

 como as estrelas do inferno

 nos seios de bronze escuro

 das estátuas no silêncio.

 Será que apenas eu vivo

 existo em toda a cidade?

 Ou aquelas que eu buscara

 estão vivendo do sono

 porquanto é tarde da noite?

 (Impossível ter certeza

 se a vida nos nega sempre

 certeza plena das coisas.)

 Resta que eu viva pesquisa

 nesta cidade afogada

 num campo de mar - pai nosso

 cruzado da reconquista.

 

Procuro o rio, ora o ri

é uma ficção tão somente

junto das formas estranhas

das pontes debaixo d água.


Arcos (as pontes) ligando

dois pontos mal divisados

neste instante em que eu os vejo

já me parecem mais belos

dessa beleza mais pura

que vem da inutilidade.


Mas sinto que sofro muito

sabendo o rio afogado,

e somente então percebo

o quanto amava esse rio

que amor só se sente pleno

depois do instante da perda.


Cruzo a ponte, na avenida

cefalópodes descansam

as suas formas fantásticas

a um passo do meio-fio.

Larvas, actinias, estrelas

do mar, no que fora terra,

emprestam a tudo o aspecto

de um quadro sobre a parede


Microplantas iluminam

com suas roupas de fósforo

os meus passos no passeio

de ver a cidade minha.

Percebe-se no ambiente

tão grandes luminescências

que eu na verdade suspeito

que os peixes que têm luz própria

subiram todos do abismo

para ver esta cidade                                   

há tanto tempo famosa.


Na rua Nova lagostas

deslizam contornos vagos,

mexilhões no calçamento

enfeitam de novo brilho

o pouso onde os pés descansam,

sifonóforos, retidos,
                            
têm espasmos de agonia

com seus tentáculos presos                       

nos fios da rede elétrica.

 

Busco o Pátio de São Pedro

para a surpresa feliz,

porque são peixes barrocos

os que em cardume se encontram

neste recinto sagrado,

respeitando a arquitetura

e o nosso próprio respeito.


E em tudo reina um silêncio

que talvez não seja unânime,

mas que é a realidade

para os ouvidos que tenho

mal refeitos da surpresa,

mas ah ouvidos escutam

um sino batendo ao longe

e uma canção se espalhando

pela espessura das águas.

Procuro seguir o rumo

da voz do sino e percebo

- milagre de São Francisco -

tocando o sino da Penha

tangido pelas correntes

marinhas, ou por si próprios,

lembrando que a fé subsiste

mesmo no íntimo das águas.

 

Oh bairro de São José

pedaço da minha infância,

das tuas ruas tão tristes

somente uma rua triste

entre as ruas da cidade

(a rua das Águas Verdes)

não hã de trocar de nome.

 

Nesta altura já percebo

toda a cidade submersa

pelo que já não me sobra

mais a razão de viver.


 
Subo à tona onde me ferem

as flechas da madrugada

que vem surgindo do mar.

Nem as copas das palmeiras

emergem do lençol d água

e apenas se vê no extremo

alguns dos montes de Olinda.

 

      Respiro profundamente

      o ar frio da manhã fria,

      e como um peixe me afogo

      no ar que agora me sufoca,

      e morro dessa asfixia

      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

À cadelinha navegante do espaço

Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.

Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.

Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.

Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.

Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.

Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.

Mas nunca foste só no teu caminho.

Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.

Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.

Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
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