Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Florisvaldo Mattos
Campesino
Como folhas caindo num deserto,
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
1 033
Florisvaldo Mattos
Campesino
Como folhas caindo num deserto,
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.
Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.
Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.
Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.
1 033
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 306
Francisco Inácio Peixoto
Pedreira
Dependurados no espaço
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
837
Francisco Inácio Peixoto
Pedreira
Dependurados no espaço
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
837
Flávio Sátiro Fernandes
A paz não está tão longe
Inúteis as conferências de paz,
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
841
Flávio Sátiro Fernandes
A paz não está tão longe
Inúteis as conferências de paz,
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
841
Flávio Sátiro Fernandes
A paz não está tão longe
Inúteis as conferências de paz,
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
841
Flávio Sátiro Fernandes
A paz não está tão longe
Inúteis as conferências de paz,
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
os acordos, os ajustes
e tudo mais.
Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?
Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.
Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?
Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.
Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.
No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.
841
Flávio Sátiro Fernandes
O Ponto de Cem Réis
O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
809
Flávio Sátiro Fernandes
O Ponto de Cem Réis
O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
809
Flávio Sátiro Fernandes
O Ponto de Cem Réis
O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
809
Flávio Sátiro Fernandes
O Ponto de Cem Réis
O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
809
Fernando José dos Santos Oliveira
Porque será que não sou o que quero?
Porque será que não sou o que quero?
Porque será que não sou o que quero e não consigo mostrar o que sou?
Permito que ouçam, no máximo, barulhos de um apartamento vizinho.
Quero dar mais e não con-
sigo e sigo recebendo - mais e mais.
Quero ser sério e não con-
sigo e sigo disfarçando.
Quero falar - olhos nos olhos - e não con-
sigo e sigo escrevendo.
Quero aceitar as frases feitas e não con-
sigo e sigo duvidando.
Quero ter ânimo para mudar o mundo e não con-
sigo e sigo obedecendo.
Quero não perder o chão e não con-
sigo e sigo tropeçando.
Quero ser importante e não con-
sigo e sigo me importando.
Quero ter coragem e não con-
sigo e sigo me escondendo.
Quero ser digno e não con-
sigo e sigo me indignando.
Quero viver e não con-
sigo e sigo me matando.
Quero ficar à toa e não con-
sigo e sigo me esforçando.
Quero produzir e não con-
sigo e sigo consumindo.
Quero ser um pouquinho só da sua beleza e não con-
sigo e sigo, boquiaberto, admirando.
Quero me libertar e não con-
sigo e sigo Fernando.
Porque será que não sou o que quero e não consigo mostrar o que sou?
Permito que ouçam, no máximo, barulhos de um apartamento vizinho.
Quero dar mais e não con-
sigo e sigo recebendo - mais e mais.
Quero ser sério e não con-
sigo e sigo disfarçando.
Quero falar - olhos nos olhos - e não con-
sigo e sigo escrevendo.
Quero aceitar as frases feitas e não con-
sigo e sigo duvidando.
Quero ter ânimo para mudar o mundo e não con-
sigo e sigo obedecendo.
Quero não perder o chão e não con-
sigo e sigo tropeçando.
Quero ser importante e não con-
sigo e sigo me importando.
Quero ter coragem e não con-
sigo e sigo me escondendo.
Quero ser digno e não con-
sigo e sigo me indignando.
Quero viver e não con-
sigo e sigo me matando.
Quero ficar à toa e não con-
sigo e sigo me esforçando.
Quero produzir e não con-
sigo e sigo consumindo.
Quero ser um pouquinho só da sua beleza e não con-
sigo e sigo, boquiaberto, admirando.
Quero me libertar e não con-
sigo e sigo Fernando.
939
Flávio Sátiro Fernandes
Toilette
1. Quem garante
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?
Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.
Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.
2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.
3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.
O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.
A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.
4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.
Até que a noite
volte a confundi-los.
910
Francisco Orban
Rio de Janeiro
Noite densa de falas e pontes
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
921
Francisco Orban
Rio de Janeiro
Noite densa de falas e pontes
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
921
Francisco Orban
1975
Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
1 095
Francisco Galvão
À Paixão
Porque a tamanhas penas se oferece
pelo pecado alheio e erro insano
o terno Deus? Porque sujeito humano
não pode com o castigo que merece?
Quem padecera as penas que padece,
quem sofrera desonra e tanto dano,
ninguém senão somente o Soberano
que reina, serve, manda e obedece?
Foi a força do homem tão pequena,
que não pode sofrer tanta aspereza,
que não sustém a lei que Deus ordena:
Sofreu aquela imensa fortaleza
por puro amor à nossa vil franqueza;
para o erro foi só, e não p’ra pena.
pelo pecado alheio e erro insano
o terno Deus? Porque sujeito humano
não pode com o castigo que merece?
Quem padecera as penas que padece,
quem sofrera desonra e tanto dano,
ninguém senão somente o Soberano
que reina, serve, manda e obedece?
Foi a força do homem tão pequena,
que não pode sofrer tanta aspereza,
que não sustém a lei que Deus ordena:
Sofreu aquela imensa fortaleza
por puro amor à nossa vil franqueza;
para o erro foi só, e não p’ra pena.
786
Florisvaldo Mattos
Sistema Agrário
Meu canto gravado de um saber oculto de águas
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
1 011
Florisvaldo Mattos
Sistema Agrário
Meu canto gravado de um saber oculto de águas
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
1 011
Florisvaldo Mattos
Sistema Agrário
Meu canto gravado de um saber oculto de águas
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.
Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.
Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas
Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.
1 011
Florisvaldo Mattos
Quarto Monólogo
(O Fel das Roupagens)
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
965
Florisvaldo Mattos
Quarto Monólogo
(O Fel das Roupagens)
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
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