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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Georges Emmanuel Clancier

Georges Emmanuel Clancier

Surrealismo: Revolta e Conquista

O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
908
Georges Emmanuel Clancier

Georges Emmanuel Clancier

Surrealismo: Revolta e Conquista

O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
908
Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos

Quarto Monólogo

(O Fel das Roupagens)

Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.

Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.

Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.

É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.

Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam

Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.

Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.

Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.

o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?

O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.

974
Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos

Quarto Monólogo

(O Fel das Roupagens)

Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.

Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.

Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.

É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.

Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam

Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.

Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.

Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.

o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?

O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.

974
Francisco Orban

Francisco Orban

1975

Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia

33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado

33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.

Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975

-Anônimos membros do
degredo unânime-

Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,

músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.

1 107
Firmino Rodrigues da Silva

Firmino Rodrigues da Silva

Nénia

Niterói, Niterói, que é do sorriso
Donoso de ventura, que teus lábios
Outrora enfeitiçava? Cor de jambo
Pelo sol destes céus enrubescido
Já não são tuas faces; nem teus olhos
Lampejam de alegria. — Que é da coroa
De madressilva, de cecéns e rosas,
Que a fronte engrinaldava? — Ei-la de rojo
Trespassada de pranto, e as flores murchas
Mirradas pelo sopro do infortúnio.
De teus formosos olhos se desatam
Dois arroios de lágrimas; — tu choras,
Desventurada mãe, a perda infausta
Do filho teu amado; e que outro filho
Mais sincero chorar há merecido?!

Da noite o furacão prostrou tremendo
Audaz Jequitibá, que ainda na infância
Com a cima excelsa devassava os céus!
— Eu o vi pelos raios matutinos
Do sol apenas nado, auritingido
Ainda sepulta em trevas a floresta!
Eu o vi, e asilou-me a sua sombra.

Também sou filho teu, oh minha pátria,
E o melhor dos amigos hei perdido,
Da minha guarda o anjo... eia deixemos
Amargurado pranto deslizar-se
Por faces, onde o riso só folgara:
Que ele mitigue dor que não tem cura!

Eu disse; — e majestosa e bela ergueu-se
A princesa do vale... Ei-la que os olhos
Crava nos céus, e aos céus as mãos levanta;
De tanta desventura enternecida
A viração da tarde parecia
Com ela suspirar, gemer-lhe em torno,
As luzidias tranças esparzindo-lhe

Pelo moreno colo tão formoso.
O Sol já descambava pra o ocidente,
E em cima das montanhas semelhando
Um círio aceso pela mão dos séculos
A fronte iluminava-lhe: — direis
Que da maternidade o gênio augusto,
Ante do Eterno as aras majestosas
Que a natureza por si mesmo erguera,
Sobrepondo à montanha altos serros,
Lenitivo a seus males implorava.

— Oh! que mais lhe restava no infortúnio,
Senão volver pra o céu olhos maternos,
Para o céu, derradeiro, único abrigo,
Onde a esperança de vê-lo se acoitava? —
Ouvi que ela dizia:
"— Oh! meu filho,
Entre milhares filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?

Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...

Ao donoso raiar da juventude
Vi-o mais belo do que o sol de julho
Que, desfeita a neblina, alto resplende!
De louro mel os lábios borrifou-lhe
Mimosa jataí; — branca açucena
Mais cândida não era que seu peito, —
Puro como os desejos dá inocência
Ingênua simpatia lhe esparzira
Um não sei quê de amável no semblante,
Que vê-lo era prezá-lo; — a fronte augusta
Traía o gênio que alma lhe acendia...
Oh! de meus filhos ufania e glória,

Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Que é feito do condor que o vôo ardido
Arrojava por cima desses Andes?
Dos céus nas sendas transviou-se acaso?
...................................... Ai! quão triste,
Quão sozinha deixou-me na floresta,
Gemendo de saudade! Vem, meu filho,
Consolo de meus males, minha esperança;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —

Tal como o rouco som das rotas vagas
Que contra as penedias bramam fúrias
Confuso burburinho ao longe ecoa
De gente que aproxima: — Ei-los — meus filhos,
Seus semblantes são pálidos; o gênio
Lampeja nos seus olhos cintilantes!
— Marchai avante, prole de esperança,
À glória, à glória, que o futuro é nosso... —
Mas que é dele? Não vai na vossa frente!
Ohl que é feito do rei da mocidade,
Tupá, Tupá, oh numem de meus pais!

Qual majestoso Chimborazo, esbelto
Alcantilado colo dentre os picos
Dos desvairados Andes, oh meu filho,
Em meio dessas turmas avultavas —
Oh Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito!
Não guiarei a turma das donzelas
Quando coréias rápidas tecendo
Por princesa dos jogos me aclamarem.
— Minhas irmãs, eu lhes direi, deixai-me
Na solidão chorar minhas desgraças;
Sem dó, nem compaixão, roubou-me a morte
Do meu cocar a pena mais mimosa;
A jóia peregrina do meu cinto,
O lírio mais formoso das campinas,
O lume de meus olhos! — Oh meu filho,
Ainda canta a araponga, e o rio volve
Na ruiva areia a lôbrega corrente;
Ainda retouca a laranjeira a coma
Verde-negra de flores alvejantes;
E tu já não existes! ..............................

Primeiro volverão séculos e séculos
Que outra palmeira tão gentil se ostente
Nestas florestas altas, gigantescas!
Como estalarão tantas esperanças
Num momento de dor! — Eia, dizei-mo,
Erguidas serras, broncas penedias
Oh! Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito?!...

Não pude mais dizer... por entre as matas
Como um sonho ligeira a vi sumir-se.
E o oco som das vagas nos cachopos,
E o sibilo dos ventos nas florestas,
E o eco das montanhas, e o dos vales,
A modo que num coro majestoso
Ainda as últimas queixas repetiam:
Oh! Tupá! Oh! Tupá! que mal te hei feito

3 175