Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Castro Alves
A Eugênia Câmara
AINDA UMA VEZ tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
4 417
Castro Alves
Aos Estudantes Voluntários
(RECITATIVO)
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
1 975
Castro Alves
Aos Estudantes Voluntários
(RECITATIVO)
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
Poesia recitada no Teatro Santa Isabel
na noite do oferecimento da Academia.
O CÉU é alma... O relâmpago
É uma idéia de luz,
Que pelo crânio do espaço
Perpassa, brilha e reluz...
Depois o trovão — é o verbo.
Segue-o o raio — gládio acerbo,
Que se desdobra soberbo
Pelos páramos azuis.
Ação e idéia — são gêmeos,
Quem as pudera apartar?...
O fato — é a vaga agitada
Do pensamento — que é o mar...
Cisma o oceano curvado,
Mas da procela vibrado,
Solta as crinas indomado,
Parece o espaço escalar.
Assim sois vós!... Nem se pense
Que o livro enfraquece a mão.
Troca-se a pena com o sabre,
Ontem — Numa... Hoje — Catão...
É o mesmo... Se a pena é espada
Por mão de Homero vibrada,
Com o gládio — epopéia ousada
Traça mundos — Napoleão...
Que importa os raios trovejem
Nas florestas do existir
Parti, pois! Homens do livro!
Podeis ousados partir!
Pois sereis. . ., vindo com glória,
Ou morrendo na vitória...
Homens do livro da História
Dessa Bíblia do porvir!
1 975
Cândida Alves
Contradições do Óbvio
Nos bares
caras e caretas
bêbados e ninfetas
liberam os seus demônios
Quem diria
que desses inferninhos
saem santos matrimônios
caras e caretas
bêbados e ninfetas
liberam os seus demônios
Quem diria
que desses inferninhos
saem santos matrimônios
1 130
Castro Alves
Soneto
Á artista a Sra. D. JESUFNA MONTÁNI
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
1 454
Castro Alves
Originais
Destruição de Jerusalém
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
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Castro Alves
Originais
Destruição de Jerusalém
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
3 232
Castro Alves
Originais
Destruição de Jerusalém
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
3 232
Castro Alves
Pesadelo de Humaitá
Poesia recitada no Rio de Janeiro.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
2 196
Castro Alves
Pesadelo de Humaitá
Poesia recitada no Rio de Janeiro.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
I
Ao som dos rinchos dos cavalos bravos,
Que soltos passam nos sertões remotos,
Ao múrmur triste do cativo rio
Que solta gritos sepulcrais, ignotos;
Acorda um dia Humaitá sentindo
Que a morte vibra-lhe o pesado arnês.
Treme-lhe o manto dos gerais extensos,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés.
II
"Quem é que acorda a cidadela enorme
Que a testa cinge de fatais ameias?"
Brada arrogante do deserto a esposa,
Sentindo o sangue lhe correr nas veias.
"Dizei, condores, que voais do norte!
Dizei, ó ventos, que do céu rompeis!
Por que é que a brisa em seu broquei soluça
E o vil tirano se me agarra aos pés?"
III
"Silêncio! Escuta! lhe responde trêmulo.
Silêncio! diz-lhe do deserto a voz.
Silêncio! É ele. . . — o Brasileiro Atlante,
De um grande povo a legião feroz.
Desceu dos Andes... da Bahia altiva...
De Guanabara — esta mansão de reis...
Treme, ó cidade!... Se o Brasil caminha
O vil tirano se lhe agarra aos pés...
IV
Como o viajante da legenda Hebraica,
Na terra imprime o gigantesco passo
DÁtila monta no ginete fero...
São-lhe as batalhas do caminho o traço
Se pisa o Prata - Riachuelo brilha,
Se estende o braço - Uruguaiana fez
Oh! vibre o pulso o derradeiro golpe,
E o vil tirano se lhe agarra aos pés".
V
Eis já no fumo os batalhões sentestam,
Solto o estandarte no combate novo...
Trincheiras, fortes, baluartes quebram-se,
Ao férreo embate de um potente povo
É um raio — a esquadra... As legiões retumbam,
Ruge a refrega com seus mil tropéis...
... Bravo!... Vitória!... Viva o povo imenso,
O vil tirano há de beijar-lhe os pés!
VI
Fere estes ares, estandarte invicto!
Povo, abre o peito para nova vida!
Talvez agora o pavilhão da pátria
Açoite altivo Humaitá rendida.
Sim! pela campa dos soldados mortos;
Sim! pelo trono dos heróis, dos reis;
Sim! peio berço dos futuros bravos,
O vil tirano há de beijar-lhes os pés.
2 196
Castro Alves
Ao Sr Furtado Coelho
Tu és, artista, quem revive as eras
Quem reanima pálidos perfis,
Gênio elevado - idéias tu geras
Gênio! este nono quanto vales, diz!
Franklin Dória
DO GÊNIO a estrada é difícil,
Mas é brilhante também,
Se o gênio marcha entre cardos,
Marcha entre a rosa — a cecém.
Ao vê-lo o mundo então pasma,
No peito a inveja marasma,
E cala-se o ódio ignavo,
E quem tem fogo na fronte,
Quem tem nalma rica fonte
De amores, ergue o seu bravo.
Ergueste a voz em Dalila,
Contigo o artista adorei;
Depois em Lúcia choraste,
Contigo Lúcia chorei.
Falaste após, duro e frio,
No Cinismo — um calafrio
Passou-me gelado naima.
Eia, pois, Proteu da arte,
Que assim sabes transformar-te
Que a Proteu levas a palma.
Eia! o povo já admira
O gênio que em ti transluz,
Nem passa o gênio sem palmas
Na terra da Santa Cruz
Na terra das primaveras,
As glórias não são quimeras,
Nem o talento é um nome.
Aqui se admira o gênio,
Aqui se adora o proscênio,
Aqui se eleva um renome.
É bem risonha esta estrada
Das glórias ao brilho santo,
Ao ouvir vivos aplausos,
De — hosanas — a ouvir um canto;
Em cada dia uma palma,
Em cada momento umalma
Teu gênio sabe alcançar;
Deus ungiu-te a altiva fronte,
E, apontando-te o horizonte
Disse: "Eia! podes voar..."
Quanto és grande, — dizem todos
Que tem à arte, amor e fé;
Quanto és grande — di-lo o povo
Que ardente e sincero é.
Quanto és grande — o alaúde
Que entoa só canto rude,
Dizer-te procura em vão;
Que ao gênio só se admira...
Retratar não pode a lira
Mesmo em toda a inspiração.
Eia, avante! que o talento
Brilha sempre triunfal,
Como o sol ardente a pino
Aclara a montanha e o val.
Eia! Darte ó viajante
Coa fronte de luz brilhante
Vais ornado de lauréis;
Tens croas em vez de espinho
E, pois, no pó do caminho,
Lanço uma flor a teus pés.
Quem reanima pálidos perfis,
Gênio elevado - idéias tu geras
Gênio! este nono quanto vales, diz!
Franklin Dória
DO GÊNIO a estrada é difícil,
Mas é brilhante também,
Se o gênio marcha entre cardos,
Marcha entre a rosa — a cecém.
Ao vê-lo o mundo então pasma,
No peito a inveja marasma,
E cala-se o ódio ignavo,
E quem tem fogo na fronte,
Quem tem nalma rica fonte
De amores, ergue o seu bravo.
Ergueste a voz em Dalila,
Contigo o artista adorei;
Depois em Lúcia choraste,
Contigo Lúcia chorei.
Falaste após, duro e frio,
No Cinismo — um calafrio
Passou-me gelado naima.
Eia, pois, Proteu da arte,
Que assim sabes transformar-te
Que a Proteu levas a palma.
Eia! o povo já admira
O gênio que em ti transluz,
Nem passa o gênio sem palmas
Na terra da Santa Cruz
Na terra das primaveras,
As glórias não são quimeras,
Nem o talento é um nome.
Aqui se admira o gênio,
Aqui se adora o proscênio,
Aqui se eleva um renome.
É bem risonha esta estrada
Das glórias ao brilho santo,
Ao ouvir vivos aplausos,
De — hosanas — a ouvir um canto;
Em cada dia uma palma,
Em cada momento umalma
Teu gênio sabe alcançar;
Deus ungiu-te a altiva fronte,
E, apontando-te o horizonte
Disse: "Eia! podes voar..."
Quanto és grande, — dizem todos
Que tem à arte, amor e fé;
Quanto és grande — di-lo o povo
Que ardente e sincero é.
Quanto és grande — o alaúde
Que entoa só canto rude,
Dizer-te procura em vão;
Que ao gênio só se admira...
Retratar não pode a lira
Mesmo em toda a inspiração.
Eia, avante! que o talento
Brilha sempre triunfal,
Como o sol ardente a pino
Aclara a montanha e o val.
Eia! Darte ó viajante
Coa fronte de luz brilhante
Vais ornado de lauréis;
Tens croas em vez de espinho
E, pois, no pó do caminho,
Lanço uma flor a teus pés.
1 497
Castro Alves
Loucura Divina
—"SABES que voz é esta?"
Ela cismava!...
— "Sabes, Maria?
— "É uma canção de amores.
Que além gemeu!"
— "É o abismo, criança!..."
A moça rindo
Enlaçou-lhe o pescoço:
— "Oh! não! não mintas!
Bem sei que é o céu!"
—"Doida! Doida! É a voragem que nos chama!..."
—"Eu ouço a Liberdade!"
— "É a morte, infante!
— "Erraste. É a salvação!"
—Negro fantasma é quem me embala o esquife!"
—"Loucura! É tua Mãe ... O esquife é um berço,
Que bóia namplidão!..."
— "Não vês os panos dágua como alvejam
Nos penedos? Que gélido sudário
O rio nos talhou!"
— "Veste-me o cetim branco do noivado...
Roupas alvas de prata... albentes dobras...
Veste-me!... Eu aqui estou."
—JÁ na proa espadana, salta a espuma... "
—São as flores gentis da laranjeira
Que o pego vem nos dar...
Oh! névoa! Eu amo teu sendal de gaze!...
Abram-se as ondas como virgens louras,
Para a Esposa passar!...
"As estrelas palpitam! — São as tochas!
Os rochedos murmuram!... São os monges!
Reza um órgão nos céus!
Que incenso! — Os rolos que do abismo voam!
Que turíbulo enorme — Paulo Afonso!
Que sacerdote! — Deus..."
Ela cismava!...
— "Sabes, Maria?
— "É uma canção de amores.
Que além gemeu!"
— "É o abismo, criança!..."
A moça rindo
Enlaçou-lhe o pescoço:
— "Oh! não! não mintas!
Bem sei que é o céu!"
—"Doida! Doida! É a voragem que nos chama!..."
—"Eu ouço a Liberdade!"
— "É a morte, infante!
— "Erraste. É a salvação!"
—Negro fantasma é quem me embala o esquife!"
—"Loucura! É tua Mãe ... O esquife é um berço,
Que bóia namplidão!..."
— "Não vês os panos dágua como alvejam
Nos penedos? Que gélido sudário
O rio nos talhou!"
— "Veste-me o cetim branco do noivado...
Roupas alvas de prata... albentes dobras...
Veste-me!... Eu aqui estou."
—JÁ na proa espadana, salta a espuma... "
—São as flores gentis da laranjeira
Que o pego vem nos dar...
Oh! névoa! Eu amo teu sendal de gaze!...
Abram-se as ondas como virgens louras,
Para a Esposa passar!...
"As estrelas palpitam! — São as tochas!
Os rochedos murmuram!... São os monges!
Reza um órgão nos céus!
Que incenso! — Os rolos que do abismo voam!
Que turíbulo enorme — Paulo Afonso!
Que sacerdote! — Deus..."
1 990
Castro Alves
Último Abraço
"Filho, adeus! Já sinto a morte,
Que me esfria o coração.
Vem cá... Dá-me tua mão...
Bem vês que nem mesmo tu
Podes dar-lhe novo alento!...
Filho, é o último momento...
A morte — a separação!
Ao desamparo, sem ninho,
Ficas, pobre passarinho,
Neste deserto profundo,
Pequeno, cativo e nu!...
"Que sina, meu Deus! que sina
Foi a minha neste mundo!
Presa ao céu — pelo desejo,
Presa à terra — pelo amor!...
Que importa! é tua vontade?
Pois seja feita, Senhor!
"Pequei!... foi grande o meu crime,
Mas é maior o castigo...
Ai! não bastava a amargura
Das noites ao desabrigo;
De espedaçaram-me as carnes
O tronco, o açoite, a tortura,
De tudo quanto sofri.
Era preciso mais dores,
Inda maior sacrifício...
Filho! bem vês meu suplício...
Vão separar-me de ti!
"Chega-te perto... mais perto;
Nas trevas procura ver-te
Meu olhar, que treme incerto,
Perturbado, vacilante...
Deixa em meus braços prender-te
Pra não morrer neste instante;
Inda tenho que fazer-te
Uma triste confissão...
Vou revelar-te um segredo
Tão negro, que tenho medo
De não ter o teu perdão!...
Mas não!
Quando um padre nos perdoa,
Quando Deus tem piedade
De um filho no coração
Uma mãe não bate à toa.
Que me esfria o coração.
Vem cá... Dá-me tua mão...
Bem vês que nem mesmo tu
Podes dar-lhe novo alento!...
Filho, é o último momento...
A morte — a separação!
Ao desamparo, sem ninho,
Ficas, pobre passarinho,
Neste deserto profundo,
Pequeno, cativo e nu!...
"Que sina, meu Deus! que sina
Foi a minha neste mundo!
Presa ao céu — pelo desejo,
Presa à terra — pelo amor!...
Que importa! é tua vontade?
Pois seja feita, Senhor!
"Pequei!... foi grande o meu crime,
Mas é maior o castigo...
Ai! não bastava a amargura
Das noites ao desabrigo;
De espedaçaram-me as carnes
O tronco, o açoite, a tortura,
De tudo quanto sofri.
Era preciso mais dores,
Inda maior sacrifício...
Filho! bem vês meu suplício...
Vão separar-me de ti!
"Chega-te perto... mais perto;
Nas trevas procura ver-te
Meu olhar, que treme incerto,
Perturbado, vacilante...
Deixa em meus braços prender-te
Pra não morrer neste instante;
Inda tenho que fazer-te
Uma triste confissão...
Vou revelar-te um segredo
Tão negro, que tenho medo
De não ter o teu perdão!...
Mas não!
Quando um padre nos perdoa,
Quando Deus tem piedade
De um filho no coração
Uma mãe não bate à toa.
3 171
Castro Alves
Ao Dia Dous de Julho
Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
1 537
Castro Alves
Ao Dia Dous de Julho
Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
1 537
Castro Alves
Ao Dia Dous de Julho
Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
1 537
Castro Alves
Ao Dia Dous de Julho
Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
PARTE PRIMEIRA
O CATIVO
QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA
A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................
PARTE TERCEIRA
SAUDAÇÃO
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
1 537
Angela Carneiro
Poevivendo
lendo poesia
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
de dia
me vêm
idéias loucas
roucas
louças
leio a morte
vejo-me morta
eu sem corpo
corpo torto
"oh! Sombra fútil chamada gente não fazes falta
a ninguém e ninguém faz falta a ti!"
Fernando Pessoa ressoa
é pessoa chamada gente.
E se me chamasse Raimundo?
É mundo o contrário de imundo?
Casa empilhada
em casais
casamento
acasalamentos.
lendo poesia
de dia
o dia vira noite
se é noite do poeta
Amo a bandeira
beijada baouçante
de Castro Alves
em Espumas Flutuantes
Flutuo eu também
para o futuro que vem
escrevo cartas a Luiz
amigos do Castro
nem tão casto
nem tão alvo
amo infinitamente o soneto
e me meto
na moradia
da poesia
de Vinícius de Morais
Tomo sorvete
sorvo palavras
de Cruz e Souza
Cruz Credo!
Tanto branco de um preto
que fico preta
sou Irene
entro no céu
como uma bandeira
do Manuel
E quero ter tudo
o anel e a luva
a luz brilha
sinto-me Cecília
Descubro oBrasil
melado em palavras novas
morro e vivo com
João Cabral
Que pais é este?
indago nas preces a Santa Ana
Com um pé em Colônia
outro em Roma
vou a Paris
e me enamoro
bonitinho como a poesia
do dia a dia
de Geraldy
e na volta do parque
vejo Dorothy
e sofro ser mulher
Volto para o Rio
e me rio
calo a boca
lutando contra moinhos
do Chico Buarque
Chega de tanto poema
sinto a métrica
a rima
o tema
teimosa leitora
de tantas letras
e tantas gentes
acordo
escovo os dentes.
1 040
Castro Alves
A Atriz Eugênio Câmara
No dia seguinte ao de uma vaia
sofrida no Teatro Santa Isabel, no
Recife.
HOJE ESTAMOS unidos a adorar-te
Tu és a nossa glória, a nossa fé,
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!...
Ontem a infâmia te cobria de lama
Mas pra insultar-te se cobriu de pó! ...
Miseráveis que ferem a fraqueza
De uma pobre mulher inerme, só!
Tu és tão grande como é grande o gênio
És tão brilhante como a própria luz,
Dentre os infames do calvário darte,
Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz! ...
Mas estamos unidos a adorar-te!
Tu és a nossa glória, a nossa fé!
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!
sofrida no Teatro Santa Isabel, no
Recife.
HOJE ESTAMOS unidos a adorar-te
Tu és a nossa glória, a nossa fé,
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!...
Ontem a infâmia te cobria de lama
Mas pra insultar-te se cobriu de pó! ...
Miseráveis que ferem a fraqueza
De uma pobre mulher inerme, só!
Tu és tão grande como é grande o gênio
És tão brilhante como a própria luz,
Dentre os infames do calvário darte,
Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz! ...
Mas estamos unidos a adorar-te!
Tu és a nossa glória, a nossa fé!
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!
2 493
Castro Alves
Se Eu Te Dissesse
SE EU te dissesse que cindindo os mares,
Triste, pendido sobre a vítrea vaga,
Eu desfolhava de teu nome as pétalas
Ao salso vento, que as marés afaga...
Se eu te dissesse que por ermos cimos,
Por ínvios trilhos de uni país distante,
Teu casto riso, teu olhar celeste
Ungia o lábio ao viajor errante;
Se eu te dissesse que do alvergue à ermida,
Do monte ao vale, da chapada à selva,
Junta comigo vagueou tua alma;
Junta comigo pernoitou na relva;
Se eu te dissesse que ao relento frio
Dei minha fronte à viração gemente,
E olhando o rumo de teu lar — saudoso,
Molhei as trevas de meu pranto algente;
Se eu te dissesse, bela flor das saias!
Que eu dei teu nome dos sertões às flores!...
E ousei, na trova em que os pastores gemem,
Por ti, senhora, improvisar de amores;
Se eu te dissesse que tu foste a concha
Que o peregrino traz da Terra Santa,
Mago amuleto que no seio mora,
Doce relíquia... talismã que encanta!... ;
Se eu te dissesse que tu foste a rosa
Que ornava a gorra ao menestrel divino;
Cruz que o Templário conchegava ao peito
Quando nas naves reboava o hino;
Se eu te dissse que tu és, criança!
O anjo-da-guarda que me orvalha as preces...;
Se eu te disserte... — Foi talvez mentira! —
Se eu te dissesse... Tu talvez dissesses...
Triste, pendido sobre a vítrea vaga,
Eu desfolhava de teu nome as pétalas
Ao salso vento, que as marés afaga...
Se eu te dissesse que por ermos cimos,
Por ínvios trilhos de uni país distante,
Teu casto riso, teu olhar celeste
Ungia o lábio ao viajor errante;
Se eu te dissesse que do alvergue à ermida,
Do monte ao vale, da chapada à selva,
Junta comigo vagueou tua alma;
Junta comigo pernoitou na relva;
Se eu te dissesse que ao relento frio
Dei minha fronte à viração gemente,
E olhando o rumo de teu lar — saudoso,
Molhei as trevas de meu pranto algente;
Se eu te dissesse, bela flor das saias!
Que eu dei teu nome dos sertões às flores!...
E ousei, na trova em que os pastores gemem,
Por ti, senhora, improvisar de amores;
Se eu te dissesse que tu foste a concha
Que o peregrino traz da Terra Santa,
Mago amuleto que no seio mora,
Doce relíquia... talismã que encanta!... ;
Se eu te dissesse que tu foste a rosa
Que ornava a gorra ao menestrel divino;
Cruz que o Templário conchegava ao peito
Quando nas naves reboava o hino;
Se eu te dissse que tu és, criança!
O anjo-da-guarda que me orvalha as preces...;
Se eu te disserte... — Foi talvez mentira! —
Se eu te dissesse... Tu talvez dissesses...
2 867
Castro Alves
O Livro e a América
ao grêmio literário
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
2 050
Castro Alves
O Livro e a América
ao grêmio literário
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
2 050
Castro Alves
O Livro e a América
ao grêmio literário
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... coos firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar coa espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"
Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O seclo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo nalma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
2 050
Castro Alves
Frades
Mel in ore, verba lactis,
Fel in corde, fraus in factis.
Mas a mão que assim tece o linho aos pés da Glória?
Como Hércules também esmaga a hidra...
E depois de aspergir o tumlo dos heróis
Pega de Juvenal na vergasta feroz
E os monges hodiernos açoita sem piedade
Como o Divino Mestre o fez na antiguidade!...
Fel in corde, fraus in factis.
Mas a mão que assim tece o linho aos pés da Glória?
Como Hércules também esmaga a hidra...
E depois de aspergir o tumlo dos heróis
Pega de Juvenal na vergasta feroz
E os monges hodiernos açoita sem piedade
Como o Divino Mestre o fez na antiguidade!...
1 780