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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Castro Alves

Castro Alves

Estrofes do Solitário

Basta de covardia! A hora soa...
Voz ignota e fatídica revoa,
Que vem... Donde? De Deus.
A nova geração rompe da terra,
E, qual Minerva armada para a guerra,
Pega a espada... olha os céus.

Sim, de longe, das raias do futuro,
Parte um grito, pra — os homens surdo, obscuro
Mas para - os moços, não!
É que, em meio das lutas da cidade,
Não ouvis o clarim da Eternidade,
Que troa namplidão!

Quando as praias se ocultam na neblina,
E como a garça, abrindo a asa latina,
Corre a barca no mar,
Se então sem freios se despenha o norte,
É impossível — parar... volver — é morte
Só lhe resta marchar.

E o povo é como - a barca em plenas vagas,
A tirania - é o tremedal das plagas,
O porvir - a amplidão.
Homens! Esta lufada que rebenta
É o furor da mais lôbrega tormenta. .
- Ruge a revolução.

E vós cruzais os braços... Covardia!
E murmurais com fera hipocrisia:
— É preciso esperar...
Esperar? Mas o quê? Que a populaça,
Este vento que os tronos despedaça,
Venha abismos cavar?

Ou quereis, como o sátrapa arrogante,
Que o porvir, nante-sala, espere o instante
Em que o deixeis subir?!
Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,
O oceano, o condor, os elementos...
Porém nunca o porvir!

Meu Deus! Da negra lenda que se inscreve
Coo sangue de um Luís, no chão da Grève,
Não resta mais um som!...
Em vão nos deste, pra maior lembrança,
Do mundo - a Europa, mas dEuropa - a França.
Mas da França - um Bourbon!

Desvario das frontes coroadas!
Na página das púrpuras rasgadas
Ninguém mais estudou!
E no sulco do tempo, embalde dorme
A cabeça dos reis - semente enorme
Que a multidão plantou! ...

No entanto fora belo nesta idade
Desfraldar o estandarte da igualdade,
De Byron ser o irmão...
E pródigo - a esta Grécia brasileira,
Legar no testamento - uma bandeira,
E ao mundo - uma nação.

Soltar ao vento a inspiração de Graco
Envolver-se no manto de Spartaco,
Dos servos entre a grei;
Lincoln - o Lázaro acordar de novo,
E da tumba da ignomínia erguer um povo,
Fazer de um verme - um rei!

Depois morrer - que a vida está completa,
- Rei ou tribuno, César ou poeta,
Que mais quereis depois?
Basta escutar, do fundo lá da cova,
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós ...

2 006
Castro Alves

Castro Alves

Estrofes do Solitário

Basta de covardia! A hora soa...
Voz ignota e fatídica revoa,
Que vem... Donde? De Deus.
A nova geração rompe da terra,
E, qual Minerva armada para a guerra,
Pega a espada... olha os céus.

Sim, de longe, das raias do futuro,
Parte um grito, pra — os homens surdo, obscuro
Mas para - os moços, não!
É que, em meio das lutas da cidade,
Não ouvis o clarim da Eternidade,
Que troa namplidão!

Quando as praias se ocultam na neblina,
E como a garça, abrindo a asa latina,
Corre a barca no mar,
Se então sem freios se despenha o norte,
É impossível — parar... volver — é morte
Só lhe resta marchar.

E o povo é como - a barca em plenas vagas,
A tirania - é o tremedal das plagas,
O porvir - a amplidão.
Homens! Esta lufada que rebenta
É o furor da mais lôbrega tormenta. .
- Ruge a revolução.

E vós cruzais os braços... Covardia!
E murmurais com fera hipocrisia:
— É preciso esperar...
Esperar? Mas o quê? Que a populaça,
Este vento que os tronos despedaça,
Venha abismos cavar?

Ou quereis, como o sátrapa arrogante,
Que o porvir, nante-sala, espere o instante
Em que o deixeis subir?!
Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,
O oceano, o condor, os elementos...
Porém nunca o porvir!

Meu Deus! Da negra lenda que se inscreve
Coo sangue de um Luís, no chão da Grève,
Não resta mais um som!...
Em vão nos deste, pra maior lembrança,
Do mundo - a Europa, mas dEuropa - a França.
Mas da França - um Bourbon!

Desvario das frontes coroadas!
Na página das púrpuras rasgadas
Ninguém mais estudou!
E no sulco do tempo, embalde dorme
A cabeça dos reis - semente enorme
Que a multidão plantou! ...

No entanto fora belo nesta idade
Desfraldar o estandarte da igualdade,
De Byron ser o irmão...
E pródigo - a esta Grécia brasileira,
Legar no testamento - uma bandeira,
E ao mundo - uma nação.

Soltar ao vento a inspiração de Graco
Envolver-se no manto de Spartaco,
Dos servos entre a grei;
Lincoln - o Lázaro acordar de novo,
E da tumba da ignomínia erguer um povo,
Fazer de um verme - um rei!

Depois morrer - que a vida está completa,
- Rei ou tribuno, César ou poeta,
Que mais quereis depois?
Basta escutar, do fundo lá da cova,
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós ...

2 006
Castro Alves

Castro Alves

Ao Dia Dous de Julho

Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos

PARTE PRIMEIRA

O CATIVO

QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...

Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.

Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.

Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.

Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.

Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...

E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...

PARTE SEGUNDA

A Vingança

Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...

Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.

E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.

A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................

PARTE TERCEIRA

SAUDAÇÃO

Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...

Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.

E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...

E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.

E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...

E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."

E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...

É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.

Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...

1 535
Castro Alves

Castro Alves

Ao Dia Dous de Julho

Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos

PARTE PRIMEIRA

O CATIVO

QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...

Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.

Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.

Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.

Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.

Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...

E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...

PARTE SEGUNDA

A Vingança

Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...

Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.

E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.

A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................

PARTE TERCEIRA

SAUDAÇÃO

Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...

Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.

E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...

E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.

E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...

E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."

E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...

É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.

Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...

1 535
Castro Alves

Castro Alves

Ao Dia Dous de Julho

Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos

PARTE PRIMEIRA

O CATIVO

QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...

Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.

Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.

Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.

Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.

Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...

E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...

PARTE SEGUNDA

A Vingança

Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...

Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.

E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.

A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................

PARTE TERCEIRA

SAUDAÇÃO

Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...

Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.

E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...

E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.

E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...

E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."

E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...

É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.

Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...

1 535
Castro Alves

Castro Alves

Ao Dia Dous de Julho

Versos recitados em uma reunião de estudantes baianos

PARTE PRIMEIRA

O CATIVO

QUE CÉU tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...

Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.

Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.

Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.

Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.

Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...

E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho pla senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...

PARTE SEGUNDA

A Vingança

Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...

Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Coa mão descarnada e fria.

E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste croa do infeliz...
Pedem castigo pra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.

A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lhera mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
.....................................
.....................................

PARTE TERCEIRA

SAUDAÇÃO

Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...

Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.

E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...

E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.

E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as croas nas frontes...

E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
"Já somos nós livres, já somos nação!..."
Coas águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — "Sou livre em meu chão!..."

E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...

É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que dalma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.

Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...

1 535
Castro Alves

Castro Alves

Ao Sr Furtado Coelho

Tu és, artista, quem revive as eras
Quem reanima pálidos perfis,
Gênio elevado - idéias tu geras
Gênio! este nono quanto vales, diz!
Franklin Dória

DO GÊNIO a estrada é difícil,
Mas é brilhante também,
Se o gênio marcha entre cardos,
Marcha entre a rosa — a cecém.
Ao vê-lo o mundo então pasma,
No peito a inveja marasma,
E cala-se o ódio ignavo,
E quem tem fogo na fronte,
Quem tem nalma rica fonte
De amores, ergue o seu bravo.

Ergueste a voz em Dalila,
Contigo o artista adorei;
Depois em Lúcia choraste,
Contigo Lúcia chorei.
Falaste após, duro e frio,
No Cinismo — um calafrio
Passou-me gelado naima.
Eia, pois, Proteu da arte,
Que assim sabes transformar-te
Que a Proteu levas a palma.

Eia! o povo já admira
O gênio que em ti transluz,
Nem passa o gênio sem palmas
Na terra da Santa Cruz
Na terra das primaveras,
As glórias não são quimeras,
Nem o talento é um nome.
Aqui se admira o gênio,
Aqui se adora o proscênio,
Aqui se eleva um renome.

É bem risonha esta estrada
Das glórias ao brilho santo,
Ao ouvir vivos aplausos,
De — hosanas — a ouvir um canto;
Em cada dia uma palma,
Em cada momento umalma
Teu gênio sabe alcançar;
Deus ungiu-te a altiva fronte,
E, apontando-te o horizonte
Disse: "Eia! podes voar..."

Quanto és grande, — dizem todos
Que tem à arte, amor e fé;
Quanto és grande — di-lo o povo
Que ardente e sincero é.
Quanto és grande — o alaúde
Que entoa só canto rude,
Dizer-te procura em vão;
Que ao gênio só se admira...
Retratar não pode a lira
Mesmo em toda a inspiração.

Eia, avante! que o talento
Brilha sempre triunfal,
Como o sol ardente a pino
Aclara a montanha e o val.
Eia! Darte ó viajante
Coa fronte de luz brilhante
Vais ornado de lauréis;
Tens croas em vez de espinho
E, pois, no pó do caminho,
Lanço uma flor a teus pés.

1 496
Castro Alves

Castro Alves

Originais

Destruição de Jerusalém

I

"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...

"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.

"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.

"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.

II

Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.

Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.

À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!

Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.

Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.

Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.

III

E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.

Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.

Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.

Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.

Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.

E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!

3 227
Castro Alves

Castro Alves

Originais

Destruição de Jerusalém

I

"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...

"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.

"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.

"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.

II

Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.

Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.

À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!

Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.

Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.

Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.

III

E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.

Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.

Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.

Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.

Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.

E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!

3 227
Castro Alves

Castro Alves

Originais

Destruição de Jerusalém

I

"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...

"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.

"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.

"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.

II

Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.

Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.

À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!

Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.

Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.

Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.

III

E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.

Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.

Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.

Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.

Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.

E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!

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