Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Castro Alves
No Meeting Du Comité du Pain
JÁ QUE A TERRA estacou nórbita imensa,
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
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Castro Alves
No Meeting Du Comité du Pain
JÁ QUE A TERRA estacou nórbita imensa,
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
1 603
Castro Alves
No Meeting Du Comité du Pain
JÁ QUE A TERRA estacou nórbita imensa,
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
1 603
Castro Alves
No Meeting Du Comité du Pain
JÁ QUE A TERRA estacou nórbita imensa,
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
Já que tudo mentiu — a glória! a crença!
A liberdade! a cruz!
E o Sísifo dos séclos — assombrado —
Viu rolar-lhe do dorso ensangüentado
O rochedo de luz...
Já que o amor transmudou-se em ódio acerbo,
Que a eloqüência — é o canhão, a bala — o verbo.
O ideal — o horror!
E nos fastos do século, os tiranos
Traçam coa ferradura dos ulanos
O ciclo do terror,
Já que, igual ao florete de Gennaro,
Um sabre arranca do presente ignaro
Este letreiro — Luz —,
Já que a Glória recua (cousa horrenda),
E Átila vai de Washington na senda,
E Sisa após Jesus!
Já que a Rousseau sucede Machiavelo,
Já que a Europa de altar fez-se escabelo,
Da guerra meretriz,
Já que o sonho de Canning era falso,
Já que após abolir-se o cadafalso,
Crucificam Paris.
Já que é mentira a voz da Humanidade,
Já que riscam da Bíblia a Caridade,
E d’alma o coração...
E a noite da descrença desce feia
E, tropeçando em ossos, cambaleia
Dos povos a razão! ...
...........................................
Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir.
Não deixemos, Hebreus, que a destra dos tiranos
Manche a arca ideal das nossas ilusões.
A herança do suor, vertido em dois mil anos,
Há de intacta chegar às novas gerações!
Nós, que somos a raça eleita do futuro,
O filho que o Senhor amou, qual Benjamim,
Que faremos de nós. . . se é tudo falso, impuro,
Se é mentira - o Progresso! e o Erro não tem fim?
Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! — escreva-se ao canhão!
Falemos de Justiça — em frente à Mortandade!
Falemos do Direito — ao gládio que reluz!
Se eles dizem — Rancor, dizei — Fraternidade!
Se erguem a meia lua, ergamos nós a Cruz!
Digamos à Criança — O Mestre ama esta idade!
Digamos à Velhice: — Honra às vossas cãs! —
Digamos à Miséria, à Fome e à Orfandade:
É vosso o nosso lar... vós sois nossas irmãs.
Digamos a Strasburgo: "Mereces do Universo!"
Digamos... Não! Silêncio em frente de Paris...
O Amazonas que leve o nosso pranto imerso
À glória das Vestais! à herdeira das Judites.
...............................................
Ó França! deste a luz que de teu ser jorrava!
Ó França! acolhe agora em recompensa... o pão.
O Cristo no deserto os pães multiplicava,
Faça agora o milagre, ó França, o coração!
E, se acaso alta noite, em noite de invernada,
Enquanto no horizonte a chama lambe o ar,
Uma débil criança, esquálida e gelada,
Por ti, Pátria, encontrar abrigo, pão e lar...
Quando aquele inocente, a sós no campo I escuro,
Abençoar de longe os brasileiros céus
Sabe que este menino — é o símbolo do futuro!
E aquela frágil mão... oculta a mão de Deus...
1 603
Castro Alves
A Órfã na Sepultura
Minha mãe, a noite é fria,
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.
Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?
Foi ontem que à Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...
Sentei-me junto ao teu leito,
Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.
Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.
Apenas nascera o dia,
À voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.
Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...
Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez f iz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:
"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,
"Tu que dás à flor o orvalho,
"Às aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;
"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;
"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clícia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;
"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.
"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"Ó Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."
Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".
Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.
Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
Pra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...
E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.
É muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.
Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta
Minha mãe... meu céu... meu Deus...
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.
Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?
Foi ontem que à Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...
Sentei-me junto ao teu leito,
Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.
Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.
Apenas nascera o dia,
À voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.
Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...
Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez f iz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:
"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,
"Tu que dás à flor o orvalho,
"Às aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;
"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;
"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clícia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;
"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.
"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"Ó Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."
Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".
Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.
Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
Pra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...
E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.
É muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.
Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta
Minha mãe... meu céu... meu Deus...
3 039
Castro Alves
Qual Leão
Recitada pelo aluno Antônio de Castro Alves
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
1 593
Castro Alves
Qual Leão
Recitada pelo aluno Antônio de Castro Alves
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
1 593
Castro Alves
Qual Leão
Recitada pelo aluno Antônio de Castro Alves
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
no Outeiro que teve lugar no Ginásio Baiano
a 3 de julho de 1861
I
Qual leão encostado à dura rocha
Da grande serra, onde o senhor habita,
Vestido de áurea juba reluzente,
O débil caçador ao longe fita;
E grande e generosa que podia
De momento em seu sangue se banhar,
Deixa-o seguir com pena o seu destino
Sem seu poder e forças lhe mostrar:
Tal o Brasil sentado junto às margens
Do verde oceano que seus pés lhe beija,
E recostado sobre o alto Ande
Que além nos ares, pelo céu flameja.
Vestido desse manto lindo e belo
Que nunca o frio inverno desbotou;
Bordado dos diamantes, do ouro fino,
Das lindas flores com que Deus o ornou;
Viu chegar-se de Lísia a cruel gente
Batida pelos ventos e tufão,
Débeis de forças, débeis de esperança,
E apenas merecendo compaixão;
Deixa-os entrar nos bosques gigantescos;
Deixa-os gozar dos puros céus de anil;
Deixa-os fruir de todas as riquezas,
Que o mundo antigo inveja do Brasil.
II
Mas o gigante que amigo
Unira alegre consigo
O peregrino estrangeiro,
Em breve sentiu, raivoso,
Seu colo altivo, orgulhoso,
Sob triste cativeiro.
Sentiu em breve o grilhão
Da mais torpe servidão
Atar-lhe a fronte sobrana;
Essa fronte majestosa
A quem coroa formosa
Dava a gente Americana!
Mas perdendo o sangue frio,
Recordando o antigo brio,
O seu antigo valor;
Sergue súbito da terra
E exclama com voz que aterra
Ardente dira e furor:
"Lísia, que fostes o horror
Dos povos de outro equador
Com teu imenso poder;
Que com as tuas falanges
Às Índias, que banha o Ganges,
Fizeste humilde tremer;
"Sabe que a Índia de agora
Tem outra mais bela aurora;
São Índias, mas do Amazonas,
Sabe que eu sou o Brasil;
Tenho povo senhoril
Como não têm outras zonas.
"Se o índio, o negro africano,
E mesmo o perito Hispano
Tem sofrido servidão;
Ah! Não pode ser escravo
Quem nasceu no solo bravo
Da brasileira região!
E ei-lo já arrojante
De sangue imigo espumante
A destruir, a matar;
Busca de todos os lados
Os mandões que, amedrontados,
Caem na terra e no mar.
Uns Lusitanos já correm,
Outros aos golpes já morrem
Deste novo Adamastor;
Não podendo já mostrar
O seu valor militar
Tremem feridos de horror.
Em Pirajá, em Cabrito,
De Lísia já se ouve o grito,
Surdos gemidos de dor;
Já nem se lembram de glória,
Esquecem té a memória
Dos seus feitos de valor.
Uns acham vida fugindo,
Outros morrem, mas sentindo
Os pulsos do Brasileiro;
Então conhecem, medrosos,
Que para peitos briosos
É quimera o cativeiro.
Então soberbo o gigante
Com sua fronte brilhante
As suas armas deixou;
E levantando os troféus
Clama ousado para os céus:
— Lísia, sim, já livre sou —.
1 593
Castro Alves
Jesuítas e Frades
Que o mundo antigo serga e lance a maldição
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.
É justo! . . .
A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...
Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...
A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...
Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!
Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!
Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.
É justo! . . .
A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...
Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...
A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...
Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!
Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!
Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...
1 695
Castro Alves
Jesuítas e Frades
Que o mundo antigo serga e lance a maldição
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.
É justo! . . .
A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...
Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...
A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...
Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!
Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!
Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.
É justo! . . .
A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...
Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...
A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...
Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!
Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!
Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...
1 695
Castro Alves
Jesuítas e Frades
Que o mundo antigo serga e lance a maldição
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.
É justo! . . .
A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...
Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...
A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...
Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!
Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!
Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...
Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,
A hidra escura e vil da vil Teocracia,
O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...
Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,
Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,
Colombo a soluçar, a gemer Galileu...
De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...
Que a maldição vos lance a pena do Gaulês
Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...
Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.
É justo! . . .
A História cega, aquentando o estilete
Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,
Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,
Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...
Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,
Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo
Irá vos embalar do sepulcro no solo...
A América por vós reza de pólo a pólo!
Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,
Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...
A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,
O amor paternal, a castidade pura
Destes homens que vinham, envoltos no burel,
A derramar dos lábios o amor — divino mel,
O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,
E o Deus da caridade - o pródigo Jesus! ...
Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano
Vos deve sepultar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!
Se aqui houve cativos — eles os libertaram.
Se aqui houve selvagens — eles os educaram.
Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.
Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.
Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.
Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!
Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano
Vos deve amortalhar no verso soberano
— Pano negro que tem por lágrimas de prata
As lágrimas que a musa inspirada desata!...
1 695
Castro Alves
Súplica
La nègre marqué au signe de Dieu comme vous passera désormais du
berceau à la fosse, la nuit sur son âme, la nuít sur la figure.
PELLETAN
Senhor Deus, dá que a boca da inocência
Possa ao menos sorrir,
Como a flor da granada abrindo as petlas
Da alvorada ao surgir.
Dá que um dedo de mãe aponte ao filho
O caminho dos céus,
E seus lábios derramem como pérolas
Dois nomes — filho e Deus.
Que a donzela não manche em leito impuro
A grinalda do amor.
Que a honra não se compre ao carniceiro
Que se chama senhor.
Dá que o brio não cortem como o cardo
Filho do coração.
Nem o chicote acorde o pobre escravo
A cada aspiração.
Insultam e desprezam da velhice
A coroa de cãs.
Ante os olhos do irmão em prostitutas
Transformam-se as irmãs.
A esposa é bela... Um dia o pobre escravo
Solitário acordou;
E o vício quebra e ri do nó perpétuo
Que a mão de Deus atou.
Do abismo em pego, de desonra em crime
Rola o mísero a sós.
Da lei sangrento o braço rasga as vísceras
Como o abutre feroz.
Vê!... A inocência, o amor, o brio, a honra,
E o velho no balcão.
Do berço à sepultura a infâmia escrita...
Senhor Deus! compaixão!...
berceau à la fosse, la nuit sur son âme, la nuít sur la figure.
PELLETAN
Senhor Deus, dá que a boca da inocência
Possa ao menos sorrir,
Como a flor da granada abrindo as petlas
Da alvorada ao surgir.
Dá que um dedo de mãe aponte ao filho
O caminho dos céus,
E seus lábios derramem como pérolas
Dois nomes — filho e Deus.
Que a donzela não manche em leito impuro
A grinalda do amor.
Que a honra não se compre ao carniceiro
Que se chama senhor.
Dá que o brio não cortem como o cardo
Filho do coração.
Nem o chicote acorde o pobre escravo
A cada aspiração.
Insultam e desprezam da velhice
A coroa de cãs.
Ante os olhos do irmão em prostitutas
Transformam-se as irmãs.
A esposa é bela... Um dia o pobre escravo
Solitário acordou;
E o vício quebra e ri do nó perpétuo
Que a mão de Deus atou.
Do abismo em pego, de desonra em crime
Rola o mísero a sós.
Da lei sangrento o braço rasga as vísceras
Como o abutre feroz.
Vê!... A inocência, o amor, o brio, a honra,
E o velho no balcão.
Do berço à sepultura a infâmia escrita...
Senhor Deus! compaixão!...
1 586
Castro Alves
Súplica
La nègre marqué au signe de Dieu comme vous passera désormais du
berceau à la fosse, la nuit sur son âme, la nuít sur la figure.
PELLETAN
Senhor Deus, dá que a boca da inocência
Possa ao menos sorrir,
Como a flor da granada abrindo as petlas
Da alvorada ao surgir.
Dá que um dedo de mãe aponte ao filho
O caminho dos céus,
E seus lábios derramem como pérolas
Dois nomes — filho e Deus.
Que a donzela não manche em leito impuro
A grinalda do amor.
Que a honra não se compre ao carniceiro
Que se chama senhor.
Dá que o brio não cortem como o cardo
Filho do coração.
Nem o chicote acorde o pobre escravo
A cada aspiração.
Insultam e desprezam da velhice
A coroa de cãs.
Ante os olhos do irmão em prostitutas
Transformam-se as irmãs.
A esposa é bela... Um dia o pobre escravo
Solitário acordou;
E o vício quebra e ri do nó perpétuo
Que a mão de Deus atou.
Do abismo em pego, de desonra em crime
Rola o mísero a sós.
Da lei sangrento o braço rasga as vísceras
Como o abutre feroz.
Vê!... A inocência, o amor, o brio, a honra,
E o velho no balcão.
Do berço à sepultura a infâmia escrita...
Senhor Deus! compaixão!...
berceau à la fosse, la nuit sur son âme, la nuít sur la figure.
PELLETAN
Senhor Deus, dá que a boca da inocência
Possa ao menos sorrir,
Como a flor da granada abrindo as petlas
Da alvorada ao surgir.
Dá que um dedo de mãe aponte ao filho
O caminho dos céus,
E seus lábios derramem como pérolas
Dois nomes — filho e Deus.
Que a donzela não manche em leito impuro
A grinalda do amor.
Que a honra não se compre ao carniceiro
Que se chama senhor.
Dá que o brio não cortem como o cardo
Filho do coração.
Nem o chicote acorde o pobre escravo
A cada aspiração.
Insultam e desprezam da velhice
A coroa de cãs.
Ante os olhos do irmão em prostitutas
Transformam-se as irmãs.
A esposa é bela... Um dia o pobre escravo
Solitário acordou;
E o vício quebra e ri do nó perpétuo
Que a mão de Deus atou.
Do abismo em pego, de desonra em crime
Rola o mísero a sós.
Da lei sangrento o braço rasga as vísceras
Como o abutre feroz.
Vê!... A inocência, o amor, o brio, a honra,
E o velho no balcão.
Do berço à sepultura a infâmia escrita...
Senhor Deus! compaixão!...
1 586
Castro Alves
Partida do meu Mestre do Coração
O Exmo. Sr. D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará
Oh! Que silêncio expressivo!
Que triste melancolia!
Tudo nos diz dores;
Tudo nos diz agonia!
Chora terno o caro mestre,
O disciplo também chora;
Que todos sofrem agora!
Apenas ouço soluços
Arrancados dentre prantos!
Tristes ais, filhos da dor,
Partidos de peitos tantos!
Frases puras que bem dizem
O sofrer, as aflições,
Que pungem tais corações!...
Mas por que todos conjuntos,
Estais assim a chorar?
Que motivo vossas almas
Pôde assim sensibilizar?
Que motivo vossos peitos
Faz assim starem sofrendo;
Tantas dores padecendo?
Ai! É que a ausência penosa
Já pouco tarda a chegar!
É que impiedoso o destino
Dos olhos vai nos roubar
O mestre, o mestre querido,
Que nos sabia ensinar
A nosso Deus adorar!
Ai! É que dentro em breve
(Talvez pra sempre, oh! meu Deus!)
Não possamos mais ouvir
Os santos conselhos seus!
Ele tão bom nos guiava
A salvo por entre a lida
Desta tão custosa vida!
Chora, bem triste, Ginásio,
Derrama pranto sem fim!
Ah! Chora que isto consola
A quem sofre dor assim!.
Chora, que não mais verás
Unido alegre contigo
O teu mestre, o teu amigo!
Chora, chora, meu Ginásio.
Eis a hora de partir,
Dhora em diante saudades
Cruéis vos hão de ferir!
Que a nós juntos como agora
Não mais há de alumiar
Este sol, que vês brilhar.
A pátria nos tira o mestre
É — nos preciso ceder;
Mas nos não proíbe o pranto,
Nem no-lo pode tolher;
Que então seria matar
Fé de amigo os sentimentos
E aumentar-nos os tormentos!...
Ginásio Baiano. 14 de julho de 1861.
O discípulo amigo do coração
Oh! Que silêncio expressivo!
Que triste melancolia!
Tudo nos diz dores;
Tudo nos diz agonia!
Chora terno o caro mestre,
O disciplo também chora;
Que todos sofrem agora!
Apenas ouço soluços
Arrancados dentre prantos!
Tristes ais, filhos da dor,
Partidos de peitos tantos!
Frases puras que bem dizem
O sofrer, as aflições,
Que pungem tais corações!...
Mas por que todos conjuntos,
Estais assim a chorar?
Que motivo vossas almas
Pôde assim sensibilizar?
Que motivo vossos peitos
Faz assim starem sofrendo;
Tantas dores padecendo?
Ai! É que a ausência penosa
Já pouco tarda a chegar!
É que impiedoso o destino
Dos olhos vai nos roubar
O mestre, o mestre querido,
Que nos sabia ensinar
A nosso Deus adorar!
Ai! É que dentro em breve
(Talvez pra sempre, oh! meu Deus!)
Não possamos mais ouvir
Os santos conselhos seus!
Ele tão bom nos guiava
A salvo por entre a lida
Desta tão custosa vida!
Chora, bem triste, Ginásio,
Derrama pranto sem fim!
Ah! Chora que isto consola
A quem sofre dor assim!.
Chora, que não mais verás
Unido alegre contigo
O teu mestre, o teu amigo!
Chora, chora, meu Ginásio.
Eis a hora de partir,
Dhora em diante saudades
Cruéis vos hão de ferir!
Que a nós juntos como agora
Não mais há de alumiar
Este sol, que vês brilhar.
A pátria nos tira o mestre
É — nos preciso ceder;
Mas nos não proíbe o pranto,
Nem no-lo pode tolher;
Que então seria matar
Fé de amigo os sentimentos
E aumentar-nos os tormentos!...
Ginásio Baiano. 14 de julho de 1861.
O discípulo amigo do coração
1 791
Castro Alves
Quem dá aos pobres, empresta a Deus
Eu, que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Duas grandezas neste instante cruzam-sel
Duas realezas hoje aqui se abraçam!
Uma — é um livro laureado em luzes
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam
Nem cora o livro de ombrear coo sabre
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos —,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravosl"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram —foi no chão da história
Se tropeçaram — foi na eternidade
Se naufragaram — foi no mar da glória
E hoje o que resta dos heróis gigantes?
Aqui — os filhos que vos pedem pão
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissesses para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos — os rebentos novos —!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão! ...
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Duas grandezas neste instante cruzam-sel
Duas realezas hoje aqui se abraçam!
Uma — é um livro laureado em luzes
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam
Nem cora o livro de ombrear coo sabre
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos —,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravosl"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram —foi no chão da história
Se tropeçaram — foi na eternidade
Se naufragaram — foi no mar da glória
E hoje o que resta dos heróis gigantes?
Aqui — os filhos que vos pedem pão
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissesses para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos — os rebentos novos —!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão! ...
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Castro Alves
Quem dá aos pobres, empresta a Deus
Eu, que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Duas grandezas neste instante cruzam-sel
Duas realezas hoje aqui se abraçam!
Uma — é um livro laureado em luzes
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam
Nem cora o livro de ombrear coo sabre
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos —,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravosl"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram —foi no chão da história
Se tropeçaram — foi na eternidade
Se naufragaram — foi no mar da glória
E hoje o que resta dos heróis gigantes?
Aqui — os filhos que vos pedem pão
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissesses para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos — os rebentos novos —!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão! ...
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Duas grandezas neste instante cruzam-sel
Duas realezas hoje aqui se abraçam!
Uma — é um livro laureado em luzes
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam
Nem cora o livro de ombrear coo sabre
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos —,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravosl"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram —foi no chão da história
Se tropeçaram — foi na eternidade
Se naufragaram — foi no mar da glória
E hoje o que resta dos heróis gigantes?
Aqui — os filhos que vos pedem pão
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissesses para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos — os rebentos novos —!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão! ...
1 812
Castro Alves
Quem dá aos pobres, empresta a Deus
Eu, que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Duas grandezas neste instante cruzam-sel
Duas realezas hoje aqui se abraçam!
Uma — é um livro laureado em luzes
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam
Nem cora o livro de ombrear coo sabre
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos —,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravosl"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram —foi no chão da história
Se tropeçaram — foi na eternidade
Se naufragaram — foi no mar da glória
E hoje o que resta dos heróis gigantes?
Aqui — os filhos que vos pedem pão
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissesses para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos — os rebentos novos —!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão! ...
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes...
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes...,
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande NADA dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Duas grandezas neste instante cruzam-sel
Duas realezas hoje aqui se abraçam!
Uma — é um livro laureado em luzes
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam
Nem cora o livro de ombrear coo sabre
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
— Mulher fecunda, que não cria escravos —,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
"Parti — soldados, mas voltai-me — bravosl"
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram —foi no chão da história
Se tropeçaram — foi na eternidade
Se naufragaram — foi no mar da glória
E hoje o que resta dos heróis gigantes?
Aqui — os filhos que vos pedem pão
Além — a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro —
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece
É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!...
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
— O rir do infante, — o descansar do morto...
O berço — é a barca, que encalhou na vida,
A cova — é a barca do sidéreo porto...
E vós dissesses para o berço — Avante! —
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as âncoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos — os rebentos novos —!
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão! ...
1 812
Castro Alves
Maciel Pinheiro
Dieu soit en aide au pieux pèlerin.
BOUCHARD
Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símblo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
BOUCHARD
Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símblo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
2 096
Castro Alves
Maciel Pinheiro
Dieu soit en aide au pieux pèlerin.
BOUCHARD
Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símblo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
BOUCHARD
Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símblo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
2 096
Castro Alves
PELAS SOMBRAS
Ao Padre Francisco de Paula
Cest que je suis frappé du doute.
Cest que létoile de la foi
Néclaire plus ma noire route.
Tout est abime autour de moi!
La Morvonnais
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos.
Ladram na escuridão das Circes as cadelas...
As lívidas marés atiram, a meus olhos,
Cadáveres, que riem à face das estrelas!
Da garça do oceano as ensopadas penas
O mórbido suor enxugam-me da testa.
Na aresta do rochedo o pé se firma apenas...
No entanto ouço do abismo a rugidora festa! ...
Nas orlas de meu manto o vendaval senrola. . .
Como invisível destra açoita as faces minhas...
Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...
"Quem foi?" perguntam rindo as solidões marinhas.
Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante.
A treva me assoberba... O Deus! dá-me um clarão!
————
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!"
...........................................................................
Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;
Mas quando os vendavais, rugindo, passam nalma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?
Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada
Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva,
Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada
A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.
Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria!
Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara!
Na fronte do oceano — acende uma ardentia!
Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!
Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante —
Deixaste assoberbar-me em funda escuridão! ...
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! a Fé no coração!..."
Cest que je suis frappé du doute.
Cest que létoile de la foi
Néclaire plus ma noire route.
Tout est abime autour de moi!
La Morvonnais
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos.
Ladram na escuridão das Circes as cadelas...
As lívidas marés atiram, a meus olhos,
Cadáveres, que riem à face das estrelas!
Da garça do oceano as ensopadas penas
O mórbido suor enxugam-me da testa.
Na aresta do rochedo o pé se firma apenas...
No entanto ouço do abismo a rugidora festa! ...
Nas orlas de meu manto o vendaval senrola. . .
Como invisível destra açoita as faces minhas...
Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...
"Quem foi?" perguntam rindo as solidões marinhas.
Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante.
A treva me assoberba... O Deus! dá-me um clarão!
————
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!"
...........................................................................
Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;
Mas quando os vendavais, rugindo, passam nalma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?
Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada
Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva,
Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada
A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.
Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria!
Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara!
Na fronte do oceano — acende uma ardentia!
Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!
Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante —
Deixaste assoberbar-me em funda escuridão! ...
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! a Fé no coração!..."
2 100
Castro Alves
OITAVAS A NAPOLEÃO
(Tradução do espanhol, de LOZANO)
Águia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses
Quem recebeu teus últimos adeuses?
Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E coas ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... te aclararam...
Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...
A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema — os sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...
Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto, na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...
Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...
Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.
Águia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses
Quem recebeu teus últimos adeuses?
Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E coas ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... te aclararam...
Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...
A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema — os sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...
Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto, na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...
Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...
Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.
2 047
Castro Alves
OITAVAS A NAPOLEÃO
(Tradução do espanhol, de LOZANO)
Águia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses
Quem recebeu teus últimos adeuses?
Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E coas ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... te aclararam...
Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...
A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema — os sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...
Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto, na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...
Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...
Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.
Águia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses
Quem recebeu teus últimos adeuses?
Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E coas ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... te aclararam...
Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...
A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema — os sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...
Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto, na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...
Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...
Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.
2 047
Castro Alves
A Criança
Que veux-tu, fleur, beau fruit, ou loiseau merveilleux?
Ami, dit lenfant grec, dit lenfant aux yeux bleus,
Je veux de Ia poudre et des balles.
VICTOR HUGO (Les Orientales)
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
Ami, dit lenfant grec, dit lenfant aux yeux bleus,
Je veux de Ia poudre et des balles.
VICTOR HUGO (Les Orientales)
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
1 796
Castro Alves
A Criança
Que veux-tu, fleur, beau fruit, ou loiseau merveilleux?
Ami, dit lenfant grec, dit lenfant aux yeux bleus,
Je veux de Ia poudre et des balles.
VICTOR HUGO (Les Orientales)
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
Ami, dit lenfant grec, dit lenfant aux yeux bleus,
Je veux de Ia poudre et des balles.
VICTOR HUGO (Les Orientales)
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
1 796