Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Aymar Mendonça
Busca
Um quadro futurista
uma mosca pousada na parede
um barbante enroscado no chão
O pensamento busca mistérios
cria mantras
enquanto a realidade transita
entre o barulho da máquina de lavar
e uma réstea de sol varando o vidro.
uma mosca pousada na parede
um barbante enroscado no chão
O pensamento busca mistérios
cria mantras
enquanto a realidade transita
entre o barulho da máquina de lavar
e uma réstea de sol varando o vidro.
963
Francisco Batista de Lima
Kalynos
E os sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repetente erguem-se, — e os mais amantes
as prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
(Américo Faço, in Os Sátiros)
Se o vento
que me beija a boca,
beijasse também a tua,
então, extáticos, beijar-nos-íamos,
in ævo.
Se o desejo que te fela o sexo,
fosse o teu desejo que é o meu
avidamente também fela,
então, no símbolo do câncer,
felar-nos-ímos...
A realidade, porém, é bem outra:
asperges-me com teu hissope vivificador
e na floresta, teu pai, vetusto sátiro
toca sua flauta concupiscente
e encante, e enlouquece,
e possui a Ninfa que em mim
hás encarnado pelos sortilégios —
ao sabor da ambrosia,
ardente beijo famélico & rude —
que a velha Grécia tos ensinou.
Passagem, de repetente erguem-se, — e os mais amantes
as prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
(Américo Faço, in Os Sátiros)
Se o vento
que me beija a boca,
beijasse também a tua,
então, extáticos, beijar-nos-íamos,
in ævo.
Se o desejo que te fela o sexo,
fosse o teu desejo que é o meu
avidamente também fela,
então, no símbolo do câncer,
felar-nos-ímos...
A realidade, porém, é bem outra:
asperges-me com teu hissope vivificador
e na floresta, teu pai, vetusto sátiro
toca sua flauta concupiscente
e encante, e enlouquece,
e possui a Ninfa que em mim
hás encarnado pelos sortilégios —
ao sabor da ambrosia,
ardente beijo famélico & rude —
que a velha Grécia tos ensinou.
871
Bruno Araújo de Melo
O Tempo de um Poema
Abro o jornal
E a guerra é a mesma de ontem:
Gente que tem família
Filhos, netos e amor;
Habitantes de uma ilha
Onde todo o medo
Se faz.
Me traz um pouco de café
Que ainda é cedo e tenho um compromisso!
Será que hoje vai chover?
Tomara que aconteça isso.
Estou atrasado...
Por que eles buzinam tanto?
E esse engarrafamento!
Uma batida aconteceu
Lá fora.
Porque a luz veio tão alta?
Vocês pensam que tenho grana?
Depois a gente bate um papo, filha!
Agora o telefone toca...
Esqueço a hora e o relógio.
Esqueço que tudo o que se faz
Termina em nada,
E tiro o paletó,
E folgo a gravata,
E toco os pés no chão.
Não quero me perder
Do que sou,
Do que somos
Puros
Grupos de retirantes.
Numa estrada,
Buscando
O tempo de um poema
Como um vírus de computador.
E a guerra é a mesma de ontem:
Gente que tem família
Filhos, netos e amor;
Habitantes de uma ilha
Onde todo o medo
Se faz.
Me traz um pouco de café
Que ainda é cedo e tenho um compromisso!
Será que hoje vai chover?
Tomara que aconteça isso.
Estou atrasado...
Por que eles buzinam tanto?
E esse engarrafamento!
Uma batida aconteceu
Lá fora.
Porque a luz veio tão alta?
Vocês pensam que tenho grana?
Depois a gente bate um papo, filha!
Agora o telefone toca...
Esqueço a hora e o relógio.
Esqueço que tudo o que se faz
Termina em nada,
E tiro o paletó,
E folgo a gravata,
E toco os pés no chão.
Não quero me perder
Do que sou,
Do que somos
Puros
Grupos de retirantes.
Numa estrada,
Buscando
O tempo de um poema
Como um vírus de computador.
897
Bruno Araújo de Melo
O Tempo de um Poema
Abro o jornal
E a guerra é a mesma de ontem:
Gente que tem família
Filhos, netos e amor;
Habitantes de uma ilha
Onde todo o medo
Se faz.
Me traz um pouco de café
Que ainda é cedo e tenho um compromisso!
Será que hoje vai chover?
Tomara que aconteça isso.
Estou atrasado...
Por que eles buzinam tanto?
E esse engarrafamento!
Uma batida aconteceu
Lá fora.
Porque a luz veio tão alta?
Vocês pensam que tenho grana?
Depois a gente bate um papo, filha!
Agora o telefone toca...
Esqueço a hora e o relógio.
Esqueço que tudo o que se faz
Termina em nada,
E tiro o paletó,
E folgo a gravata,
E toco os pés no chão.
Não quero me perder
Do que sou,
Do que somos
Puros
Grupos de retirantes.
Numa estrada,
Buscando
O tempo de um poema
Como um vírus de computador.
E a guerra é a mesma de ontem:
Gente que tem família
Filhos, netos e amor;
Habitantes de uma ilha
Onde todo o medo
Se faz.
Me traz um pouco de café
Que ainda é cedo e tenho um compromisso!
Será que hoje vai chover?
Tomara que aconteça isso.
Estou atrasado...
Por que eles buzinam tanto?
E esse engarrafamento!
Uma batida aconteceu
Lá fora.
Porque a luz veio tão alta?
Vocês pensam que tenho grana?
Depois a gente bate um papo, filha!
Agora o telefone toca...
Esqueço a hora e o relógio.
Esqueço que tudo o que se faz
Termina em nada,
E tiro o paletó,
E folgo a gravata,
E toco os pés no chão.
Não quero me perder
Do que sou,
Do que somos
Puros
Grupos de retirantes.
Numa estrada,
Buscando
O tempo de um poema
Como um vírus de computador.
897
Argemiro de Paula Garcia Filho
Estação Paraíso
Não tenho um jornal
Não trouxe um livro
Não tenho inspiração
pra uma poesia.
Que engarrafamento mais besta!
Ônibus lançam
fuligem e monóxido
de carbono
dando um sono
terrível nos passageiros
seres que neles se penduram.
Pernas por trás de panos
translúcidos
pelos por trás de panos
opacos
pensamentos sensuais
encobertos pelos cabelos
escorrem gota a gota
de suor e óleo diesel.
S.Paulo, 14/2/85
Não trouxe um livro
Não tenho inspiração
pra uma poesia.
Que engarrafamento mais besta!
Ônibus lançam
fuligem e monóxido
de carbono
dando um sono
terrível nos passageiros
seres que neles se penduram.
Pernas por trás de panos
translúcidos
pelos por trás de panos
opacos
pensamentos sensuais
encobertos pelos cabelos
escorrem gota a gota
de suor e óleo diesel.
S.Paulo, 14/2/85
1 012
António Arnaut
O Comicio
Da tribuna envergonhada
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
1 404
António Arnaut
O Comicio
Da tribuna envergonhada
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
1 404
Argemiro de Paula Garcia Filho
Pedido de Desligamento
Senhor CAlex,
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
1 032
Argemiro de Paula Garcia Filho
Pedido de Desligamento
Senhor CAlex,
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
1 032
António Arnaut
Dia de Portugal
Dia de Portugal. Dia de Camões
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
1 261
António Arnaut
Dia de Portugal
Dia de Portugal. Dia de Camões
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
1 261
António Arnaut
Os Títulos
Rei de Portugal e dos Algarves
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
1 308
Antonio Roberval Miketen
Oportunidad de la Rosa
I
El Canto de João Moura
EI torero gritaba del centro de la arena
y el caballo danzaba del fondo del miedo.
II
Picasso deseaba pintar una plaza
de toros del tamaño natural, exacto,
con Miuras de picos de agujas, talladas
por sobre la brillantez de negras montañas.
En los paneles del pintor se avecinan agüeros:
en Guernica pintó Él el triunfo dei toro?
Repara que las arenas son rosas humanas
listas para romperse en la furia de la sangre.
Si el sueño de Picasso no fuese un absurdo,
Manolete, con certeza, en su traje de luces,
recordando a Linares, se daría al toro:
haría Él, otra vez, la faena de la rosa?
III
Por qué ponemos en el toro la evidencia de la espera,
en ese palomo de la suerte, inocente en ser fiera?
IV
En el momento en que el cuerpo se viste de luces
el calor de las mortajas aumenta la desnudez.
V
Tragedia de "YIYO"
En la mortal lacerada del clavo en la carne
del torero brotaba la belleza brutal.
VI
Veré el día en que el toro tendrá su suerte,
en la flor del vientre falso de osada verónica?
El Canto de João Moura
EI torero gritaba del centro de la arena
y el caballo danzaba del fondo del miedo.
II
Picasso deseaba pintar una plaza
de toros del tamaño natural, exacto,
con Miuras de picos de agujas, talladas
por sobre la brillantez de negras montañas.
En los paneles del pintor se avecinan agüeros:
en Guernica pintó Él el triunfo dei toro?
Repara que las arenas son rosas humanas
listas para romperse en la furia de la sangre.
Si el sueño de Picasso no fuese un absurdo,
Manolete, con certeza, en su traje de luces,
recordando a Linares, se daría al toro:
haría Él, otra vez, la faena de la rosa?
III
Por qué ponemos en el toro la evidencia de la espera,
en ese palomo de la suerte, inocente en ser fiera?
IV
En el momento en que el cuerpo se viste de luces
el calor de las mortajas aumenta la desnudez.
V
Tragedia de "YIYO"
En la mortal lacerada del clavo en la carne
del torero brotaba la belleza brutal.
VI
Veré el día en que el toro tendrá su suerte,
en la flor del vientre falso de osada verónica?
858
Antunes da Silva
Passsei o Tejo à Noitinha
Passei o Tejo à noitinha
e vi o Tejo calado,
trago um barco de papel
pró deitar no mar salgado.
Quando o barco se romper
deito no Tejo uma estrela
e a estrela branca lá fica
e nunca mais torno a vê-la...
Dizem os homens e mulheres
que nas águas deste Tejo
barra fora lá seguiram
camponeses do Alentejo
que nesse tempo sentiram
o que era a triste vida
feita de nada de nada
e por demais permitida...
Falam os homens mais velhos
que neste rio -ó desgraça! -
partiu barco e partiu povo
rumo a Timor e Mombaça
passando pelo mar alto
pró Bié e Tarrafal,
gente de boa presença
que nunca a ninguém fez mal!
Diziam os homens mais velhos
com espanto e em segredo,
que nas águas do rio Tejo
partiu gente pro degredo:
Timor, Bié, Tarrafal,
no tempo do salazar
as barcas seguiam cheias
a navegar, a navegar,
com homens em cativeiro,
Timor, Bié, Tarrafal,
e regressavam com ferro,
coco, amendoim e sisal...
Passo o Tejo à noitinha
e já ninguém me faz mal!
e vi o Tejo calado,
trago um barco de papel
pró deitar no mar salgado.
Quando o barco se romper
deito no Tejo uma estrela
e a estrela branca lá fica
e nunca mais torno a vê-la...
Dizem os homens e mulheres
que nas águas deste Tejo
barra fora lá seguiram
camponeses do Alentejo
que nesse tempo sentiram
o que era a triste vida
feita de nada de nada
e por demais permitida...
Falam os homens mais velhos
que neste rio -ó desgraça! -
partiu barco e partiu povo
rumo a Timor e Mombaça
passando pelo mar alto
pró Bié e Tarrafal,
gente de boa presença
que nunca a ninguém fez mal!
Diziam os homens mais velhos
com espanto e em segredo,
que nas águas do rio Tejo
partiu gente pro degredo:
Timor, Bié, Tarrafal,
no tempo do salazar
as barcas seguiam cheias
a navegar, a navegar,
com homens em cativeiro,
Timor, Bié, Tarrafal,
e regressavam com ferro,
coco, amendoim e sisal...
Passo o Tejo à noitinha
e já ninguém me faz mal!
969
Antunes da Silva
Passsei o Tejo à Noitinha
Passei o Tejo à noitinha
e vi o Tejo calado,
trago um barco de papel
pró deitar no mar salgado.
Quando o barco se romper
deito no Tejo uma estrela
e a estrela branca lá fica
e nunca mais torno a vê-la...
Dizem os homens e mulheres
que nas águas deste Tejo
barra fora lá seguiram
camponeses do Alentejo
que nesse tempo sentiram
o que era a triste vida
feita de nada de nada
e por demais permitida...
Falam os homens mais velhos
que neste rio -ó desgraça! -
partiu barco e partiu povo
rumo a Timor e Mombaça
passando pelo mar alto
pró Bié e Tarrafal,
gente de boa presença
que nunca a ninguém fez mal!
Diziam os homens mais velhos
com espanto e em segredo,
que nas águas do rio Tejo
partiu gente pro degredo:
Timor, Bié, Tarrafal,
no tempo do salazar
as barcas seguiam cheias
a navegar, a navegar,
com homens em cativeiro,
Timor, Bié, Tarrafal,
e regressavam com ferro,
coco, amendoim e sisal...
Passo o Tejo à noitinha
e já ninguém me faz mal!
e vi o Tejo calado,
trago um barco de papel
pró deitar no mar salgado.
Quando o barco se romper
deito no Tejo uma estrela
e a estrela branca lá fica
e nunca mais torno a vê-la...
Dizem os homens e mulheres
que nas águas deste Tejo
barra fora lá seguiram
camponeses do Alentejo
que nesse tempo sentiram
o que era a triste vida
feita de nada de nada
e por demais permitida...
Falam os homens mais velhos
que neste rio -ó desgraça! -
partiu barco e partiu povo
rumo a Timor e Mombaça
passando pelo mar alto
pró Bié e Tarrafal,
gente de boa presença
que nunca a ninguém fez mal!
Diziam os homens mais velhos
com espanto e em segredo,
que nas águas do rio Tejo
partiu gente pro degredo:
Timor, Bié, Tarrafal,
no tempo do salazar
as barcas seguiam cheias
a navegar, a navegar,
com homens em cativeiro,
Timor, Bié, Tarrafal,
e regressavam com ferro,
coco, amendoim e sisal...
Passo o Tejo à noitinha
e já ninguém me faz mal!
969
António Arnaut
Gloria Efémera
O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
1 275
António Arnaut
Gloria Efémera
O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
1 275
Manuel Apolinario
Duas Panças de Respeito
Vinha a Rosa da igreja
Com seu passo ligeirinho,
Quando encontrou no caminho
O doutor da freguesia.
Sabia-se que o letrado
Gostava de caçoar
Ao ponto de abusar
As regras da cortesia.
- Com que então foste à Igreja?...
Ele assim disse prá Rosa.
- Até ficas mais formosa
Depois duma confissão.
Eu por mim, nunca lá vou
E não me falta abastança...
Esta minha rica pança
Prova que eu tenho razão.
- Oiça lá, senhor Doutor,
Disse a Rosa com desdém,
A pança que você tem
Não me faz nenhuma inveja...
Pois nós temos num curral
Um porco para a matança
Que também tem rica pança
E nunca vai à igreja!
Com seu passo ligeirinho,
Quando encontrou no caminho
O doutor da freguesia.
Sabia-se que o letrado
Gostava de caçoar
Ao ponto de abusar
As regras da cortesia.
- Com que então foste à Igreja?...
Ele assim disse prá Rosa.
- Até ficas mais formosa
Depois duma confissão.
Eu por mim, nunca lá vou
E não me falta abastança...
Esta minha rica pança
Prova que eu tenho razão.
- Oiça lá, senhor Doutor,
Disse a Rosa com desdém,
A pança que você tem
Não me faz nenhuma inveja...
Pois nós temos num curral
Um porco para a matança
Que também tem rica pança
E nunca vai à igreja!
960
Manuel Apolinario
Duas Panças de Respeito
Vinha a Rosa da igreja
Com seu passo ligeirinho,
Quando encontrou no caminho
O doutor da freguesia.
Sabia-se que o letrado
Gostava de caçoar
Ao ponto de abusar
As regras da cortesia.
- Com que então foste à Igreja?...
Ele assim disse prá Rosa.
- Até ficas mais formosa
Depois duma confissão.
Eu por mim, nunca lá vou
E não me falta abastança...
Esta minha rica pança
Prova que eu tenho razão.
- Oiça lá, senhor Doutor,
Disse a Rosa com desdém,
A pança que você tem
Não me faz nenhuma inveja...
Pois nós temos num curral
Um porco para a matança
Que também tem rica pança
E nunca vai à igreja!
Com seu passo ligeirinho,
Quando encontrou no caminho
O doutor da freguesia.
Sabia-se que o letrado
Gostava de caçoar
Ao ponto de abusar
As regras da cortesia.
- Com que então foste à Igreja?...
Ele assim disse prá Rosa.
- Até ficas mais formosa
Depois duma confissão.
Eu por mim, nunca lá vou
E não me falta abastança...
Esta minha rica pança
Prova que eu tenho razão.
- Oiça lá, senhor Doutor,
Disse a Rosa com desdém,
A pança que você tem
Não me faz nenhuma inveja...
Pois nós temos num curral
Um porco para a matança
Que também tem rica pança
E nunca vai à igreja!
960
Artur Eduardo Benevides
Morreste
1.
Morreste, afinal, ó poeta geral,
ou prossegues, lívido, a cantar
à paz de teu silêncio
e ao verde-azul
do mar?
Se ponho — sim, estás vivendo em mim.
Se digo — não, contemplo-te em canção,
qual fantasma, insone, a vagar
em nossa solidão.
Se morreste, também morreu Ricardo
e Álvaro se foi, partiu Alberto.
Ou todos esses e quantos mais tu foste
— como as máscaras gregas da tragédia —
só viveram no poema, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?
Pode um poeta perder o seu futuro
ou a morte não passa de interlúdio
no resfolgar fatal de seus ginetes?
E o fingimento? E todo o sal do mar
nascido das guitarras marinheiras
na hora de cantar?
Ai, cantar e chorar
são sempre a mesma cousa!
Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa
que vai cobrir o que de essência somos.
E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego,
por que tão perto estás e és cacto com medo
a perecer no meio de um deserto?
Oh, o teu verso tão certo a brilhar
sobre os homens e o mar
português!
Teu verso que se fez
de sono, mito, encantação e olhar.
Mesmo não crendo, creste. E assim criavas
novas formas de fé que alimentavam
a lenta sombra rubra da existência.
E foste na tarde a sobretarde
e no real/irreal a consciência
em fome de verdade.
E cantaste da vida a brevidade
entre o sempre e o jamais, a mágoa
e a História.
E nossa foi
tua vasta visão premonitória.
2.
É certo: em brumas sobrevéns
de Alcácer-Quibir.
Foi-te dado com isso pressentir
o mistério do tempo e da memória,
o lá-dentro das cousas e o lá-fora,
a estrada de Delfos e de Ofir.
Então, se tal se deu, nunca morreste.
Estás nos tombadilhos, a boreste,
com capa e pince-nez, a viajar.
E aqui ficamos a te reinventar
como as nuvens inventam sua sombra
de naves fantásticas no mar.
O mar de Camões. O reino das canções.
A concha dos mistérios e navegações.
E aqui te esperamos.
Virás — quem sabe — de qualquer ilhota
(ao lado de Almada e Sá-Carneiro)
no solitário voar das gaivotas.
Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora,
de algum poema teu, à luz de auroras.
Ou talvez desardomeças num soneto
inglês. E todos de uma vez
gritaremos teu nome que não some
e é camerata, e luz, e dor, e ritmo,
ou sagrado logaritmo
nas álgebras
do poema.
3.
No tempo te saúdo. Não te enxergo
na morte silenciosa. E só estás mudo.
A tua voz se oculta entre as ramagens
da árvore da vida. A tua voz
ferida. A tua voz
tão perto e tão distante.
Voz, como os perfumes, caminhante,
na curva e contracurva de algum fado.
E aqui estou, igual a ti, parado,
a louvar tua face essencial.
Teu sonho delirante e teu naval
olhar.
Ou o teu guitarreio e suspirar.
Ou o maldizer. Ou o teu saber.
Ou o teu grito crescendo em solidão
no reino de Netuno ou de Plutão.
Morreste, afinal, ó poeta geral,
ou prossegues, lívido, a cantar
à paz de teu silêncio
e ao verde-azul
do mar?
Se ponho — sim, estás vivendo em mim.
Se digo — não, contemplo-te em canção,
qual fantasma, insone, a vagar
em nossa solidão.
Se morreste, também morreu Ricardo
e Álvaro se foi, partiu Alberto.
Ou todos esses e quantos mais tu foste
— como as máscaras gregas da tragédia —
só viveram no poema, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?
Pode um poeta perder o seu futuro
ou a morte não passa de interlúdio
no resfolgar fatal de seus ginetes?
E o fingimento? E todo o sal do mar
nascido das guitarras marinheiras
na hora de cantar?
Ai, cantar e chorar
são sempre a mesma cousa!
Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa
que vai cobrir o que de essência somos.
E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego,
por que tão perto estás e és cacto com medo
a perecer no meio de um deserto?
Oh, o teu verso tão certo a brilhar
sobre os homens e o mar
português!
Teu verso que se fez
de sono, mito, encantação e olhar.
Mesmo não crendo, creste. E assim criavas
novas formas de fé que alimentavam
a lenta sombra rubra da existência.
E foste na tarde a sobretarde
e no real/irreal a consciência
em fome de verdade.
E cantaste da vida a brevidade
entre o sempre e o jamais, a mágoa
e a História.
E nossa foi
tua vasta visão premonitória.
2.
É certo: em brumas sobrevéns
de Alcácer-Quibir.
Foi-te dado com isso pressentir
o mistério do tempo e da memória,
o lá-dentro das cousas e o lá-fora,
a estrada de Delfos e de Ofir.
Então, se tal se deu, nunca morreste.
Estás nos tombadilhos, a boreste,
com capa e pince-nez, a viajar.
E aqui ficamos a te reinventar
como as nuvens inventam sua sombra
de naves fantásticas no mar.
O mar de Camões. O reino das canções.
A concha dos mistérios e navegações.
E aqui te esperamos.
Virás — quem sabe — de qualquer ilhota
(ao lado de Almada e Sá-Carneiro)
no solitário voar das gaivotas.
Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora,
de algum poema teu, à luz de auroras.
Ou talvez desardomeças num soneto
inglês. E todos de uma vez
gritaremos teu nome que não some
e é camerata, e luz, e dor, e ritmo,
ou sagrado logaritmo
nas álgebras
do poema.
3.
No tempo te saúdo. Não te enxergo
na morte silenciosa. E só estás mudo.
A tua voz se oculta entre as ramagens
da árvore da vida. A tua voz
ferida. A tua voz
tão perto e tão distante.
Voz, como os perfumes, caminhante,
na curva e contracurva de algum fado.
E aqui estou, igual a ti, parado,
a louvar tua face essencial.
Teu sonho delirante e teu naval
olhar.
Ou o teu guitarreio e suspirar.
Ou o maldizer. Ou o teu saber.
Ou o teu grito crescendo em solidão
no reino de Netuno ou de Plutão.
1 448
Manuel Apolinario
A Zebra Curiosa
Uma zebra curiosa
Desertou, um certo dia,
Do circo onde vivia
E aos montes foi parar.
Lá encontrou certo burro
De pelo fino e lustroso
Que a olhou curioso
E continuou a pastar.
- Eu sou artista de circo!
Disse a zebra com vaidade.
- Sou menina da cidade
E por todos respeitada...
Toda a gente me conhece
E eu conheço toda a gente.
Assim vivo alegremente,
Não tenho falta de nada...
E tu, burro, para que serves?!
Sei que não vives do vento,
Mas tenho pressentimento
Que nem vales tuta e meia...
Disse a zebra curiosa,
Talvez sem se aperceber
Que estava a tentar meter
O nariz na vida alheia.
O burro, embora ofendido
Com a zebra impertinente,
respondeu-lhe, simplesmente:
- Sou burro de criação!
Mas despe, fazes favor,
O teu pijama riscado
Que eu te mostro com agrado
Qual a minha profissão...
Desertou, um certo dia,
Do circo onde vivia
E aos montes foi parar.
Lá encontrou certo burro
De pelo fino e lustroso
Que a olhou curioso
E continuou a pastar.
- Eu sou artista de circo!
Disse a zebra com vaidade.
- Sou menina da cidade
E por todos respeitada...
Toda a gente me conhece
E eu conheço toda a gente.
Assim vivo alegremente,
Não tenho falta de nada...
E tu, burro, para que serves?!
Sei que não vives do vento,
Mas tenho pressentimento
Que nem vales tuta e meia...
Disse a zebra curiosa,
Talvez sem se aperceber
Que estava a tentar meter
O nariz na vida alheia.
O burro, embora ofendido
Com a zebra impertinente,
respondeu-lhe, simplesmente:
- Sou burro de criação!
Mas despe, fazes favor,
O teu pijama riscado
Que eu te mostro com agrado
Qual a minha profissão...
1 718
Antônio de Oliveira
Soneto
Qual seria maior glória a Trajano,
O vencer, sem triunfar, pois perde a vida,
Ou na estátua triunfar enobrecida
Que póstuma lhe faz o Rei Romano?
Intrincada questão, se não me engano,
Pois gloreia a vitória já adquirida
Tanto, quanto uma estátua alta, e subida
Pode um lustre causar mais soberano.
Mas contudo eu defendo, que a vitória
(Por ser parto feliz da própria espada)
Mais que o triunfo, a Trajano dá mais glória;
Porque a glória da estátua levantada
Dada foi a Trajano: e mais memória
A glória própria tem, que a glória dada.
O vencer, sem triunfar, pois perde a vida,
Ou na estátua triunfar enobrecida
Que póstuma lhe faz o Rei Romano?
Intrincada questão, se não me engano,
Pois gloreia a vitória já adquirida
Tanto, quanto uma estátua alta, e subida
Pode um lustre causar mais soberano.
Mas contudo eu defendo, que a vitória
(Por ser parto feliz da própria espada)
Mais que o triunfo, a Trajano dá mais glória;
Porque a glória da estátua levantada
Dada foi a Trajano: e mais memória
A glória própria tem, que a glória dada.
804
José Armelim
Augusta
A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
977
José Armelim
Augusta
A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
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