Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Manuel Bandeira
O Espelho
Ardo em desejo na tarde que arde!
Oh, como é belo dentro de mim
Teu corpo de ouro no fim da tarde:
Teu corpo que arde dentro de mim
Que ardo contigo no fim da tarde!
Num espelho sobrenatural,
No infinito (e esse espelho é o infinito?...)
Vejo-te nua, como num rito,
À luz também sobrenatural,
Dentro de mim, nua no infinito!
De novo em posse da virgindade,
— Virgem, mas sabendo toda a vida —
No ambiente da minha soledade,
De pé, toda nua, na virgindade
Da revelação primeira da vida!
Oh, como é belo dentro de mim
Teu corpo de ouro no fim da tarde:
Teu corpo que arde dentro de mim
Que ardo contigo no fim da tarde!
Num espelho sobrenatural,
No infinito (e esse espelho é o infinito?...)
Vejo-te nua, como num rito,
À luz também sobrenatural,
Dentro de mim, nua no infinito!
De novo em posse da virgindade,
— Virgem, mas sabendo toda a vida —
No ambiente da minha soledade,
De pé, toda nua, na virgindade
Da revelação primeira da vida!
1 727
Manuel Bandeira
Sob o Céu Todo Estrelado
As estrelas, no céu muito límpido, brilhavam, divinamente distantes.
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
1 955
Manuel Bandeira
Sob o Céu Todo Estrelado
As estrelas, no céu muito límpido, brilhavam, divinamente distantes.
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
1 955
Manuel Bandeira
Sob o Céu Todo Estrelado
As estrelas, no céu muito límpido, brilhavam, divinamente distantes.
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
1 955
Manuel Bandeira
Sob o Céu Todo Estrelado
As estrelas, no céu muito límpido, brilhavam, divinamente distantes.
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
1 955
Manuel Bandeira
À Maneira de Olegário Mariano
Triste flor de milonga ao abandono,
Betsabé, Betsabé, que mal me fazes!
Ontem, a coqueluche dos rapazes,
E agora? pobre pássaro sem dono.
Primavera e verão foram-se. O outono
Chegou. Folhas no chão... Névoas falazes...
E aí vem o inverno... O fim das lindas frases...
O último sonho, e após, o último sono!
As cigarras calaram-se. Era tarde!
E hoje que no teu sangue já não arde
O fogo em que tanta alma se abrasou,
Choras, sem compreenderes que a saudade
É um bem maior do que a felicidade,
Porque é a felicidade que ficou!
Betsabé, Betsabé, que mal me fazes!
Ontem, a coqueluche dos rapazes,
E agora? pobre pássaro sem dono.
Primavera e verão foram-se. O outono
Chegou. Folhas no chão... Névoas falazes...
E aí vem o inverno... O fim das lindas frases...
O último sonho, e após, o último sono!
As cigarras calaram-se. Era tarde!
E hoje que no teu sangue já não arde
O fogo em que tanta alma se abrasou,
Choras, sem compreenderes que a saudade
É um bem maior do que a felicidade,
Porque é a felicidade que ficou!
778
Manuel Bandeira
Edmée
Que delícia na mata o fio d'água
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
1 156
Manuel Bandeira
O Grilo
Grilo, toca aí um solo de flauta.
— De flauta? Você me acha com cara de flautista?
— A flauta é um belo instrumento. Não gosta?
— Troppo dolce!
— De flauta? Você me acha com cara de flautista?
— A flauta é um belo instrumento. Não gosta?
— Troppo dolce!
1 533
Manuel Bandeira
Murmúrio D'água
Murmúrio d'água, és tão suave a meus ouvidos...
Faz tanto bem à minha dor teu refrigério!
Nem sei passar sem teu murmúrio a meus ouvidos,
Sem teu suave, teu afável refrigério.
Água de fonte... água de oceano... água de pranto...
Água de rio...
Água de chuva, água cantante das lavadas...
Têm para mim, todas, consolos de acalanto,
À que sorrio...
À que sorri a minha cínica descrença.
À que sorri o meu opróbrio de viver.
A que sorri o mais profundo desencanto
Do mais profundo e mais recôndito em meu ser!
Sorriem como aqueles cegos de nascença
Aos quais Jesus de súbito fazia ver...
A minha mãe ouvi dizer que era minh'ama
Tranquila e mansa.
Talvez ouvi, quando criança,
Cantigas tristes que cantou à minha cama.
Talvez por isso eu me comova a aquela mágoa.
Talvez por isso eu me comova tanto à mágoa
Do teu rumor, murmúrio d'água...
A meiga e triste rapariga
Punha talvez nessa cantiga
A sua dor e mais a dor de sua raça...
Pobre mulher, sombria filha da desgraça!
— Murmúrio d'água, és a cantiga de minh'ama.
Faz tanto bem à minha dor teu refrigério!
Nem sei passar sem teu murmúrio a meus ouvidos,
Sem teu suave, teu afável refrigério.
Água de fonte... água de oceano... água de pranto...
Água de rio...
Água de chuva, água cantante das lavadas...
Têm para mim, todas, consolos de acalanto,
À que sorrio...
À que sorri a minha cínica descrença.
À que sorri o meu opróbrio de viver.
A que sorri o mais profundo desencanto
Do mais profundo e mais recôndito em meu ser!
Sorriem como aqueles cegos de nascença
Aos quais Jesus de súbito fazia ver...
A minha mãe ouvi dizer que era minh'ama
Tranquila e mansa.
Talvez ouvi, quando criança,
Cantigas tristes que cantou à minha cama.
Talvez por isso eu me comova a aquela mágoa.
Talvez por isso eu me comova tanto à mágoa
Do teu rumor, murmúrio d'água...
A meiga e triste rapariga
Punha talvez nessa cantiga
A sua dor e mais a dor de sua raça...
Pobre mulher, sombria filha da desgraça!
— Murmúrio d'água, és a cantiga de minh'ama.
1 674
Manuel Bandeira
Murmúrio D'água
Murmúrio d'água, és tão suave a meus ouvidos...
Faz tanto bem à minha dor teu refrigério!
Nem sei passar sem teu murmúrio a meus ouvidos,
Sem teu suave, teu afável refrigério.
Água de fonte... água de oceano... água de pranto...
Água de rio...
Água de chuva, água cantante das lavadas...
Têm para mim, todas, consolos de acalanto,
À que sorrio...
À que sorri a minha cínica descrença.
À que sorri o meu opróbrio de viver.
A que sorri o mais profundo desencanto
Do mais profundo e mais recôndito em meu ser!
Sorriem como aqueles cegos de nascença
Aos quais Jesus de súbito fazia ver...
A minha mãe ouvi dizer que era minh'ama
Tranquila e mansa.
Talvez ouvi, quando criança,
Cantigas tristes que cantou à minha cama.
Talvez por isso eu me comova a aquela mágoa.
Talvez por isso eu me comova tanto à mágoa
Do teu rumor, murmúrio d'água...
A meiga e triste rapariga
Punha talvez nessa cantiga
A sua dor e mais a dor de sua raça...
Pobre mulher, sombria filha da desgraça!
— Murmúrio d'água, és a cantiga de minh'ama.
Faz tanto bem à minha dor teu refrigério!
Nem sei passar sem teu murmúrio a meus ouvidos,
Sem teu suave, teu afável refrigério.
Água de fonte... água de oceano... água de pranto...
Água de rio...
Água de chuva, água cantante das lavadas...
Têm para mim, todas, consolos de acalanto,
À que sorrio...
À que sorri a minha cínica descrença.
À que sorri o meu opróbrio de viver.
A que sorri o mais profundo desencanto
Do mais profundo e mais recôndito em meu ser!
Sorriem como aqueles cegos de nascença
Aos quais Jesus de súbito fazia ver...
A minha mãe ouvi dizer que era minh'ama
Tranquila e mansa.
Talvez ouvi, quando criança,
Cantigas tristes que cantou à minha cama.
Talvez por isso eu me comova a aquela mágoa.
Talvez por isso eu me comova tanto à mágoa
Do teu rumor, murmúrio d'água...
A meiga e triste rapariga
Punha talvez nessa cantiga
A sua dor e mais a dor de sua raça...
Pobre mulher, sombria filha da desgraça!
— Murmúrio d'água, és a cantiga de minh'ama.
1 674
Charles Bukowski
Cinzas
peguei as cinzas dele, ela disse, e as lancei
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
ao mar e as espalhei e
elas nem sequer pareciam cinzas
e
o que dava peso à urna eram os
seixos verdes e azuis...
ele não lhe deixou nem um centavo de seus
milhões?
nada, ela disse.
mesmo depois de todos aqueles cafés da manhã
e almoços e jantares ao lado dele? depois
de ter escutado toda a merda que ele falava?
ele era um homem brilhante.
você sabe do que estou falando.
seja como for, eu fiquei com as cinzas. e você comeu
minhas irmãs.
nunca comi suas irmãs.
comeu sim.
comi uma delas.
qual?
a lésbica, respondi, ela me pagou o jantar e as bebidas,
não tive muita escolha.
estou indo, ela disse.
não se esqueça do frasco.
ela entrou para buscá-lo.
sobra tão pouco de você, ela disse, que quando você morre e eles te queimam precisam acrescentar uma porção de seixos verdes e azuis.
está bem, eu disse.
vejo você daqui a 6 meses! ela gritou e bateu a porta.
bem, pensei, creio que para me livrar dela terei que
comer a outra irmã. caminhei até o quarto e comecei a dar
uma olhada nos números de telefone. tudo o que eu
[lembrava
era que ela
vivia em San Mateo e tinha um ótimo
emprego.
1 166
Manuel Bandeira
Elegia de Verão
O sol é grande. O coisas
Todas vas, todas mudaves!
(Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis"
E já não rima com "aves".)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d'água vermelha de ferrugem;
Saibro cintilante...
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.
Todas vas, todas mudaves!
(Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis"
E já não rima com "aves".)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d'água vermelha de ferrugem;
Saibro cintilante...
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.
1 353
Manuel Bandeira
Elegia de Verão
O sol é grande. O coisas
Todas vas, todas mudaves!
(Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis"
E já não rima com "aves".)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d'água vermelha de ferrugem;
Saibro cintilante...
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.
Todas vas, todas mudaves!
(Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis"
E já não rima com "aves".)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d'água vermelha de ferrugem;
Saibro cintilante...
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.
1 353
Manuel Bandeira
À Maneira de Augusto Frederico Schmidt
I
Daqui a trezentos anos
Não existirei mais.
Outros amarão e serão amados,
Outros terão livrarias católicas,
Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais:
Eu não existirei mais.
Seja, não importa, Senhor!
Sou um pobre gordo.
Mas sei que eles também não serão felizes.
Eu sim, o serei então.
Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos,
Não existir mais.
II
Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo.
Porém de repente será talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo não vi,
Com estrelas de um brilho incrível,
De uma pureza incalculável, incrível.
A poesia voltará de novo ao meu coração
Como a chuva caindo na terra queimada.
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes.
A poesia voltará de novo, única solução para mim,
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as soluções terem falhado:
O amor, os seguros, a água, a borracha.
A poesia voltará de novo, consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas de virgem,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.
Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente.
Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto,
A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido.
À poesia cairá em mim como um raio.
Daqui a trezentos anos
Não existirei mais.
Outros amarão e serão amados,
Outros terão livrarias católicas,
Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais:
Eu não existirei mais.
Seja, não importa, Senhor!
Sou um pobre gordo.
Mas sei que eles também não serão felizes.
Eu sim, o serei então.
Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos,
Não existir mais.
II
Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo.
Porém de repente será talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo não vi,
Com estrelas de um brilho incrível,
De uma pureza incalculável, incrível.
A poesia voltará de novo ao meu coração
Como a chuva caindo na terra queimada.
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes.
A poesia voltará de novo, única solução para mim,
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as soluções terem falhado:
O amor, os seguros, a água, a borracha.
A poesia voltará de novo, consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas de virgem,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.
Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente.
Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto,
A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido.
À poesia cairá em mim como um raio.
1 477
Manuel Bandeira
Poema Encontrado Por Thiago de Mello no Itinerário de Pasárgada
Vênus luzia sobre nós tão grande
Tão intensa, tão bela, que chegava
A parecer escandalosa, e dava
Vontade de morrer.
Tão intensa, tão bela, que chegava
A parecer escandalosa, e dava
Vontade de morrer.
1 216
Manuel Bandeira
Noturno da Mosela
A noite... O silêncio...
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não pára! que não pára!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge — e sinto que foge inutilmente!
O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...
Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!
Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.
Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...
No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...
Petrópolis, 1921
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não pára! que não pára!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge — e sinto que foge inutilmente!
O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...
Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!
Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.
Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...
No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...
Petrópolis, 1921
1 738
Manuel Bandeira
Mar Bravo
Mar que ouvi sempre cantar murmúrios
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz das minhas melancolias:
Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!
Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondas que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amuragem!
As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!
Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.
Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfêmias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
De corrompidas desesperanças!...
1913
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz das minhas melancolias:
Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!
Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondas que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amuragem!
As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!
Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.
Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfêmias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
De corrompidas desesperanças!...
1913
1 730
Manuel Bandeira
O Obelisco
Um obelisco monolítico é a verdade nua em praça pública. A nudez dos obeliscos é mais inteira, mais estreme, mais escorreita, mais franca, mais sincera, mais lisa, mais pura, mais ingênua do que a da mulher mais bem feita.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
1 303
Manuel Bandeira
Adivinha
O animal deu nome às ilhas:
Estas deram nome à ave.
O animal como se chama?
Como se chamam as ilhas?
E como se chama a ave?
— Responda, senhor ou dama.
Estas deram nome à ave.
O animal como se chama?
Como se chamam as ilhas?
E como se chama a ave?
— Responda, senhor ou dama.
1 229
Manuel Bandeira
Três Letras para Melodias de Villa-lobos
1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
1 403
Manuel Bandeira
Três Letras para Melodias de Villa-lobos
1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
1 403
Manuel Bandeira
Itaperuna
Primeiro houve entradas para pegar índio
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café
Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado
Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto
Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!
Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!
Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista
Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas
Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.
Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café
Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado
Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto
Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!
Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!
Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista
Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas
Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.
Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
1 224
Manuel Bandeira
Astéria
O Mestre me ensinou:
Fáculas nitentes
Como metal luzidio
Bordam as manchas
— Abismos de remoinhos electromagnéticos
A verrumar a espessura solar.
Massas de nuvens
Em colunatas coesas de fímbrias froculares
Atestam lá longe a despesa ignescente da estrela
No vômito de suas ondas
Despedidas e soltas.
O oceano celeste
Outrora tido por oco
Está cheio dessas como lavas vulcânicas
Pairando invisíveis no cosmos.
E eu as detecto no meu registro natural e inédito
— O esqueleto e modelo exterior do corpo radiário de Astéria.
Fáculas nitentes
Como metal luzidio
Bordam as manchas
— Abismos de remoinhos electromagnéticos
A verrumar a espessura solar.
Massas de nuvens
Em colunatas coesas de fímbrias froculares
Atestam lá longe a despesa ignescente da estrela
No vômito de suas ondas
Despedidas e soltas.
O oceano celeste
Outrora tido por oco
Está cheio dessas como lavas vulcânicas
Pairando invisíveis no cosmos.
E eu as detecto no meu registro natural e inédito
— O esqueleto e modelo exterior do corpo radiário de Astéria.
1 086
Manuel Bandeira
Trovas para Adelmar
A Academia anda triste,
Triste, triste (para mim):
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim.
Falta lá a flor mais gostosa
De se cheirar num jardim,
Pois das brasileiras flores
A mais cheirosa é o jasmim,
Basta um jasmim pequenino
Para encher todo um jardim.
Adelmar, na Academia,
Ês tu, meu caro, o jasmim.
A Academia anda triste...
Nunca a vi tão triste assim!
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim!
Triste, triste (para mim):
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim.
Falta lá a flor mais gostosa
De se cheirar num jardim,
Pois das brasileiras flores
A mais cheirosa é o jasmim,
Basta um jasmim pequenino
Para encher todo um jardim.
Adelmar, na Academia,
Ês tu, meu caro, o jasmim.
A Academia anda triste...
Nunca a vi tão triste assim!
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim!
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