Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Pablo Neruda
Integrações
Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
2 011
Pablo Neruda
Buscar
Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
1 121
Pablo Neruda
Gatos Noturnos
Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
1 497
Pablo Neruda
Gatos Noturnos
Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
1 497
Pablo Neruda
Gatos Noturnos
Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.
Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.
A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.
E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.
Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.
Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.
1 497
Pablo Neruda
Manhã - XXXII
A casa na manhã com a verdade revolta
de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direção, errante como uma pobre barca,
entre os horizontes da ordem e do sonho.
As coisas querem arrastar vestígios,
aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer continuar seu ontem.
Ordenadora, passas vibrando como abelha
tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.
E se constrói então de novo a claridade:
obedecem as coisas ao vento da vida
e a ordem estabelece seu pão e sua pomba.
de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direção, errante como uma pobre barca,
entre os horizontes da ordem e do sonho.
As coisas querem arrastar vestígios,
aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer continuar seu ontem.
Ordenadora, passas vibrando como abelha
tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.
E se constrói então de novo a claridade:
obedecem as coisas ao vento da vida
e a ordem estabelece seu pão e sua pomba.
776
Pablo Neruda
Outra Coisa
Sucedem-se tão poucas coisas
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
1 161
Pablo Neruda
Filosofia
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
1 170
Pablo Neruda
Filosofia
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
1 170
Pablo Neruda
Filosofia
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
1 170
Pablo Neruda
Quando Eu Decidi
Quando eu decidi ficar límpido
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
1 112
Pablo Neruda
Quando Eu Decidi
Quando eu decidi ficar límpido
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
1 112
Pablo Neruda
Quando Eu Decidi
Quando eu decidi ficar límpido
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
nu nuvem e no silêncio.
Esta é Matilde,
desde Chillán
chama-se assim,
e chova ou troveje
ou saia o dia com seu pêlo azul
ou a noite delgada,
ela,
sempre-sempre,
pronta para minha pele,
para meu espaço,
abrindo todas as janelas do mar
para que a palavra escrita voe,
para que se cubram os móveis
de signos silenciosos,
de fogo verde.
1 112
Pablo Neruda
Um Animal Pequeno
Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
1 166
Pablo Neruda
Um Animal Pequeno
Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
1 166
Pablo Neruda
Um Animal Pequeno
Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
1 166
Pablo Neruda
Um Animal Pequeno
Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
1 166
Pablo Neruda
Ode E Germinações
I
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 481
Pablo Neruda
Chegaram Uns Argentinos
Chegaram uns argentinos,
eram de Jujuy-e Mendoza,
um engenheiro, um médico,
três filhos como três uvas.
Eu não tinha nada que dizer.
Tampouco meus desconhecidos.
Então não nos dissemos nada.
Só respiramos juntos
o ar brusco do Pacífico sul,
o ar verde
da pampa líquida.
Talvez o levaram de volta
às suas cidades
como quem leva um cão de outro pais,
ou umas asas estranhas,
uma ave palpitante.
eram de Jujuy-e Mendoza,
um engenheiro, um médico,
três filhos como três uvas.
Eu não tinha nada que dizer.
Tampouco meus desconhecidos.
Então não nos dissemos nada.
Só respiramos juntos
o ar brusco do Pacífico sul,
o ar verde
da pampa líquida.
Talvez o levaram de volta
às suas cidades
como quem leva um cão de outro pais,
ou umas asas estranhas,
uma ave palpitante.
1 136
Pablo Neruda
4
Eis a manhã cheia de tempestade
no coração do verão.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens,
e o vento sacode-as com suas mãos viajantes.
Inumerável coração do vento
batendo em nosso silêncio enamorado.
Zunindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido arroubo a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
Irrompe e submerge seu volume de beijos
batendo na porta do vento do verão.
no coração do verão.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens,
e o vento sacode-as com suas mãos viajantes.
Inumerável coração do vento
batendo em nosso silêncio enamorado.
Zunindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido arroubo a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
Irrompe e submerge seu volume de beijos
batendo na porta do vento do verão.
1 344
Pablo Neruda
4
Eis a manhã cheia de tempestade
no coração do verão.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens,
e o vento sacode-as com suas mãos viajantes.
Inumerável coração do vento
batendo em nosso silêncio enamorado.
Zunindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido arroubo a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
Irrompe e submerge seu volume de beijos
batendo na porta do vento do verão.
no coração do verão.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens,
e o vento sacode-as com suas mãos viajantes.
Inumerável coração do vento
batendo em nosso silêncio enamorado.
Zunindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido arroubo a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
Irrompe e submerge seu volume de beijos
batendo na porta do vento do verão.
1 344
Pablo Neruda
4
Eis a manhã cheia de tempestade
no coração do verão.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens,
e o vento sacode-as com suas mãos viajantes.
Inumerável coração do vento
batendo em nosso silêncio enamorado.
Zunindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido arroubo a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
Irrompe e submerge seu volume de beijos
batendo na porta do vento do verão.
no coração do verão.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens,
e o vento sacode-as com suas mãos viajantes.
Inumerável coração do vento
batendo em nosso silêncio enamorado.
Zunindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido arroubo a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
Irrompe e submerge seu volume de beijos
batendo na porta do vento do verão.
1 344
Pablo Neruda
Declaro Quatro Cães
Declaro quatro cães:
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
1 048
Pablo Neruda
Madrigal Escrito No Inverno
No fundo do mar profundo,
na noite de longas listas,
como um cavalo correndo atravessa
o teu calado calado nome.
Aloja-me às tuas costas, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, subitamente,
sobre a folha solitária, nocturna,
brotando do obscuro, por trás de ti.
Flor da doce luz completa,
socorre-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.
Agora então, a toda a largura,
de um esquecimento a outro residem comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a obscura noite preserva.
Acolhe-me na tarde fiandeira,
quando ao anoitecer trabalha
a sua roupa e no céu lateja
uma estrela cheia de vento.
Abeira de mim a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, tapando-me os olhos,
cruza comigo a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.
na noite de longas listas,
como um cavalo correndo atravessa
o teu calado calado nome.
Aloja-me às tuas costas, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, subitamente,
sobre a folha solitária, nocturna,
brotando do obscuro, por trás de ti.
Flor da doce luz completa,
socorre-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.
Agora então, a toda a largura,
de um esquecimento a outro residem comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a obscura noite preserva.
Acolhe-me na tarde fiandeira,
quando ao anoitecer trabalha
a sua roupa e no céu lateja
uma estrela cheia de vento.
Abeira de mim a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, tapando-me os olhos,
cruza comigo a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.
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