Temas
Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Pablo Neruda

Pablo Neruda

A Estação Se Inaugura

Quando sob a terra
se preparam
as estações,
as seivas, as raízes,
as sementes,
o fogo,
a água
falam
buscando-se adereços,
polindo a caoba
da castanha futura,
endurecendo o níveo
marfim das amêndoas,
combinando os fios
das trepadeiras,
levantando o açúcar
verde dos cachos,
então
tudo está preparado:
o outono de mãos rubras,
ou a primavera pura,
ou o verão nos rios,
ou o inverno cor de estrela,
e França abre as portas:
inaugura-se o tempo.
 
Porque ali são mais belos
os bailes das folhas,
a seda crepitante
do outono nos bosques.
Ali as águas sabem
cantar de acordo
com o violino do vento.
Catedral e campina
faz já muitos anos
florescem recebendo
o mesmo beijo dúplice da chuva.
Ali no país de França
nasceu o vinho,
logo na transparência da taça
as palavras acharam
forma e som de cristal maduro
e os homens cantaram.
 
Ali
sempre os homens cantaram.
 
Chegou a guerra
como um alcatrão implacável,
mas do luto
a França saltou cantando.
Cantaram os valentes no muro
dos fuzilamentos. Cantaram
os comunistas da Comuna.
Cantou, decapitada,
a filha de Jean Richard. Canta
o povo da França,
enquanto os mercadores
atlânticos
vão preparando a carnificina.
 
Mas não apenas sala de espaçoso outono
ou primaveril pedraria
és, jardim
da França, rua
da França,
combatente,
escreveste com pedra e sangue
teu nome na muralha
do destino,
e como em ti os rios são seguros
de sua harmoniosa abundância,
assim teu povo,
rumo à plenitude, de margem a margem,
cumulado de lutas e dons,
restaurará, cantando,
a alegria.
 
1 268
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Crescem Os Anos

Hungria,
duplo é teu rosto como uma medalha.
Eu te encontrei no verão
e era
teu perfil bosque e trigo:
o rápido verão
com seu manto de ouro
teu doce corpo verde recobria.
Mais tarde
te vi cheia de neve,
oh bela rosada
de dentes brancos e coroa branca,
estrela do inverno,
pátria da brancura!
 
E assim teu duplo rosto de medalha
amei passando sobre tuas pupilas
meus beijos bem-vindos na aurora,
porque construías
o sol que ia nascendo,
tua bandeira,
o passo de teu povo
nas estepes,
as ferramentas puras
da libertação, o aço
com que se forjaram as estrelas.
Junto a mim cresce
este tempo,
esta época
como um rápido bosque,
como planta vulcânica
cheia de vida e folhas,
minha época
de sangue e claridade, de noite fria
e esplendor matutino.
Novas cidades crescem,
amanhecem bandeiras,
se afirmam as repúblicas
do socialismo em marcha,
Vietnam palpita
porque em sangue e dores
nasce uma nova vida.
 
Minha época
loureiro e lua cheia,
amor e pólvora!
 
Eu vi
nascer, crescer os anos,
parir a velha terra
robustas, novas coisas.
Penso
no homem perdido
de outro tempo
que não viu nascer nada,
que se precipitou de rua em rua,
de noite em noite fria,
subiu escadas,
encheu-se de fumaça,
e nunca viu onde terminavam
os degraus nem a fumaça.
Aquele homem
foi como um cogumelo na selva,
na umidade escura
dissipou suas heranças,
não viu sobre o bosque a altura
tatuada com estrelas,
não vislumbrou sob seus pés
entrelaçar-se todos
os germes do bosque.
Eu sinto, olho, toco
o crescimento
do que sobrevêm,
vou de uma terra a outra constatando,
somando o indelével,
acrescendo os passos,
reunindo as sílabas
do canto do vento na terra.
 
1 268