Temas
Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Pico de Itabirito

O Pico de Itabirito
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.

Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido

ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.

St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,

nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.

A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.

Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!

Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã

acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)

— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.

Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.

St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?

— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!

Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas

que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.

Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.

E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!

E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
1 092
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Crônica de Janeiro

Onde está o janeireiro
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
936
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canção do Fico

Minha cidade do Rio,
meu castelo de água e sol,
a dois meses de mudança
dos dirigentes de prol;

minha terra de nascença
terceira, pois foi aqui,
em êxtase, alumbramento,
que o mar e seus mundos vi;

minha fluida sesmaria
de léguas de cisma errante,
meu anel verde, meu cravo
solferino, mel do instante;

saci oculto nos morros,
mapa aberto à luz das praias,
códice de piada e gíria,
coxas libertas de saias;

favelas portinarescas
onde o samba se arredonda,
e claustro beneditino,
sal de batismo na onda;

cinemeiro Rio, atlético,
flamengo ou vasco, porosa
urna plena do noivado
de uísque com manga-rosa;

meu terreiro de São Jorge,
meu parlamento das ruas,
andaraís, méiers, gáveas,
sob a unção de oitenta luas;

Cristo em névoa corcovádica,
bondinho do Pão de Açúcar
e pescarias na barra
— louca rima — da Tíjúcar (!);

Rio de ontem: Rui Barbosa,
na Rua de São Clemente,
mantendo acesa a candeia,
ciceronianamente;

Dr. Campos Porto, no horto
botânico, em meio a palmas
imperiais, que ao crepúsculo
são aves minerais, calmas;

minha igrejinha do Outeiro,
que Rodrigo zela tanto,
e entre cujos azulejos
esvoaça o Espírito Santo;

meus livros velhos nos “sebos”,
meu chafariz do Lagarto,
e esse tostão de paisagem
da janela de meu quarto;

e a tarde, imensa, pairando:
lá longe o Dedo de Deus;
calor, e sorriso, e brisa
que alisa os cuidados meus;

cidade que tantos bens
deste a todos, e tão pouco,
em gratidão e carinho,
agora te dão em troco;

malvestida, mal comida,
descalça, “dependurada”,
e conservando no rosto,
como cristais de orvalhada,

não sei que beleza infante,
gosto de viver, e graça:
pouco importa que te levem
o que, no fundo, é fumaça.

Rio antigo, Rio eterno,
Rio-oceano, Rio amigo,
o Governo vai-se? Vá-se!
Tu ficarás, e eu contigo.
21/02/1960
1 401
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Tartaruga

No abismo do terciário
a tartaruga gigante
tem um mínimo de pássaro
que se pusesse a rastejar,
no anel de placa óssea dos olhos,
na ausência pacífica de dentes,
testudo gigas emergindo
de Brejo dos Sonhos,
lá vem trazendo seu recado
de plena paz por entre guerras.
Tão fiel a si mesma, que o retrato
da moça tartaruga do Amazonas
repete o essencial do figurino.
Esta é a elefantina,
por gracioso artifício, que não muda
a linha imemorial,
e esta, sem vaidade, a grega,
e esta outra a mauritânia,
tão suave e lembrada de seus pagos,
que onde quer que a deixem volta sempre
a um apelo de flauta ou de jardim.
O cacto, o líquen seco
nutre as últimas netas dos colossos
vizinhos do Hominídeo
e na solidão dos Galápagos
vai mirrando essa imagem de grandeza,
delicado organismo,
blindada flor que filosofa e pensa
o mundo sem rancor, e nos ensina
que a rude carapaça mais protege
o amor do que o repele.
Lição que nada vale,
pois o que sabe ao paladar corrupto
não é da tartaruga o calmo ser
e florescer à flor da areia ou n’água,
mas a carne fechada
em seu fundo segredo,
a carne monacal
de tanto se vestir de solitude.
E vem a tartaruga de avião
para os ritos da morte em nobre estilo.
Fotografada, anunciada, promovida,
será sopa amanhã, por entre árvores
de velho parque onde quisera
antes viver seu tempo meditado.
Levam-na ao Top Clube para exame
de olhos gulosos,
prévia degustação, de faz de conta.
Uma cidade inteira quer comê-la,
mas poucos a merecem por seu preço.
Comer a tartaruga é ato bento
e pobres já desmorrem com sua morte.
Mas vale, vale a pena
matar para ajudar?
Recusa-se o mestre-cuca a ser verdugo,
leva-se a tartaruga para a Urca
em compasso de espera. O tempo urge,
esta tartaruga vai morrer,
de qualquer jeito matemo-la, que o fim
é nobre, e sua sopa uma delícia.
A tevê entrevista a pobrezinha,
que mantém um silêncio de andorinha.
Lya Cavalcanti, a sempre alerta
em defesa do vivo e sofredor,
ergue a voz comovida: dois partidos
se enfrentam, linha dura
e linha humanitária.
A tartaruga, sem uma ruga
no pétreo manto além do seu riscado
multissecular, tão pomba e mansa
em seu dulçor de frágil fortaleza,
vê chegado o momento da tortura,
mas eis que uma criança,
que com ela brincou e soube ver
a maravilha do ato de existir,
se levanta da relva e pede em pranto
à mãe, na hora fatal:
“Não deixa ela morrer!” — e a tartaruga
é salva, por encanto.
08/11/1964
1 781
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Louvor da Miniblusa

Hoje vai a antiga musa
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.
12/01/1969
1 029
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cariocas

Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
1 317
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cariocas

Como vai ser este verão, querida,
com a praia aumentada/diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.
Fogem banhistas para o Posto Seis,
o Posto Vinte… Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).
Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.
Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro,
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a)mo(r)cidade.
Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar… a frente é interminável.
A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?
Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!
Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos…
Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)
Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?
Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!
A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?
A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor da flor em cor e albor.
Uma rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto
de metralhadora, de sequestro e bomba?
29/11/1969
1 317
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Semana

Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 016
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Prece do Brasileiro

Meu Deus,
só me lembro de vós para pedir,
mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
Desculpai vosso filho, que se veste
de humildade e esperança
e vos suplica: Olhai para o Nordeste,
onde há fome, Senhor, e desespero
rodando nas estradas
entre esqueletos de animais.

Em Iguatu, Parambu, Baturité,
Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?),
vede as espectrais
procissões de braços estendidos,
assaltos, sobressaltos, armazéns
arrombados e — o que é pior — não tinham nada.
Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
aquela que, florindo e reflorindo, soa
qual cantata de Bach em vossa glória
e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
ao pobre sertanejo destruído
no que tem de mais doce e mais cruel:
a terra estorricada sempre amada.

Fazei chover, Senhor, e já!, numa certeira
ordem às nuvens. Ou desobedecem
a vosso mando, as revoltosas? Tudo
é pois contestação? Fosse eu Vieira
(o padre) e vos diria, malcriado,
muitas e boas… mas sou vosso fã
omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e, matreiro, rogo, não
ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre),
mas ao Deus que Bandeira, com carinho,
botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.
E mudo até o tratamento: por que vós,
tão gravata-e-colarinho, tão
vossa excelência?
O você comunica muito mais
e, se agora o trato de você,
ficamos perto, vamos papeando
como dois camaradas bem legais,
um, puro; o outro, aquela coisa,
quase que maldito,
mas amizade é isso mesmo: salta
o vale, o muro, o abismo do infinito.
Meu querido Jesus, que é que há?
Faz sentido deixar o Ceará
sofrer em ciclo a mesma eterna pena?

E você me responde suavemente:
Escute, meu cronista e meu cristão:
essa cantiga é antiga
e de tão velha não entoa, não.
Você tem a Sudene abrindo frentes
de trabalho de emergência, antes fechadas.
Tem a ONU, que manda toneladas
de pacotes à espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena
dolorosamente repetida
no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.

No entanto, você sabe,
você lê os jornais, vai ao cinema,
até um livro de vez em quando lê,
se o Buzaid não criar problema:
Em Israel, minha primeira pátria
(a segunda é a Bahia),
desertos se transformam em jardins,
em pomares, em fontes, em riquezas.
E não é por milagre:
obra do homem e da tecnologia.

Você, meu brasileiro,
não acha que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?

Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.
Fiquei, confesso, muito encabulado,
mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.
Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar
noutro caso, mais sério, mais urgente.

Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
batendo pelos músculos de Gérson,
a unha de Tostão, a ronha de Pelé,
a cuca de Zagalo, a calma de Leão
e tudo mais que liga o meu país
a uma bola no campo e uma taça de ouro.
Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça
sem milagre ou com ele nos pertença
para sempre, assim seja… Do contrário
ficará a Nação tão malincônica,
tão roubada em seu sonho e seu ardor
que nem sei como feche a minha crônica.
30/05/1970
5 255
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 159
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Epístola

E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
997
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Outra Face

Por onde erra Jules Laforgue,
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
1 272
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Isto E Aquilo

“Zefa, chegou o inverno”, diz o Poeta.
Chegou mesmo? chegada tão discreta
que pouca gente viu e tomou nota.
Esse frio que aí está não vale um iota.
O tempo, como tudo, anda inseguro,
até parece o Lott, que seu futuro
indaga en effeuillant la marguerite:
“Aceito ou não aceito esse convite
que o Último de Carvalho me apresenta
para a pátria salvar, firme, em 60?
Que dizem os partidos?” (Os partidos
disfarçaram, com seus rabos torcidos.)
E para seduzir o PSD,
o PTB e o P não sei o quê,
redige-se um anúncio longo e exato:
“Quem quer um marechal pra candidato?
Não é muito falante nem grandíloquo,
mas a gente contrata um bom ventríloquo.
Se ele é meio zangado? Ora, com jeito
se leva quem nos quer levar no peito.
E é hora de aprender a regra esconsa:
quem não tem mesmo cão caça com onça”.
Os pobres dos partidos, assustados,
quanto mais inquiridos, mais calados,
e, quanto mais calados, mais partidos
em mil pedaços, mil indecisões
de outras tantas mimosas ambições.
JK, pairando alto, em serenata,
deixa cair, sob o luar de prata,
uma jura de amor, meiga, solene,
por sobre a donzelice da UDN.
A Bahia e o Palácio da Alvorada
namoram-se da noite na calada.
Pra casar ou pra quê? Altos mistérios,
elucidai-os vós, cronistas sérios.
Medita Jango uma reforma agrária
em que, graças à Empresa Funerária,
seja a terra de todos — loteamento
com casinhas de mármore e cimento
em lugares tranquilos, onde grilos
não irrompam munidos de escrituras.
Votantes, ocupai as sepulturas!
E que mais, na semana? Amigo, se
a água te falta, vai a Meriti,
leva tua moringa, fura um cano,
e volta ao Rio, abastecido e ufano.
Eu bebo de outra fonte, linfa eterna,
e curvo-me à Poesia: não governa
o mundo hostil, mas torna a vida cheia
de suave tremor. Fino Correia,
nobre Raimundo, salve: nos teus versos
há mágicos, ocultos universos
de musical melancolia errante…
Penso em ti com ternura, neste instante.
17/05/1959
1 600
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ao Sol da Praia

Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.

O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.

O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,

filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.

O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,

aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).

Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.

Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.

E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.

Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.

(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta

e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.

Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.

É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.

Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 400
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ao Sol da Praia

Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.

O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.

O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,

filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.

O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,

aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).

Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.

Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.

E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.

Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.

(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta

e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.

Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.

É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.

Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 400
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ao Sol da Praia

Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.

O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.

O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,

filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.

O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,

aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).

Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.

Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.

E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.

Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.

(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta

e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.

Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.

É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.

Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 400
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Quase Elegia

No tempo dos afonsinhos
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.

Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.

Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.

Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.

Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.

Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.

Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.

Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.

Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.

Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.

Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.

Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,

pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.

Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.

Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.

Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.

Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.

Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.

Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”

Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.

Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)

As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.

Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?

E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.

Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.

Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.

Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)

Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
1 243
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mosaico

Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 172
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mosaico

Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 172
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fábula

Foi em março, ao findar das férias, quase à entrada
do Congresso,
que onças apareceram de mansinho,
começando a soltar miados leves.
Na praça atormentada,
onde sangue raiava pluma e arminho,
pombos em pânico pediam
ao céu que os libertasse
da garra de um gavião pouco distinto,
falco mato-grossensis, tão faminto.
Vendo as malhadas bichas
chegarem pela estrada de Belém
(com escala em Brasília),
exclamaram em coro: “Eis que aí vem
a nossa salvação, em forma de onça!
Ei, oncinhas, benzocas, já, depressa,
caçai o caçador que nos devora
e que num desafio pousa agora
lá no alto daquela geringonça!”
Ouvem as onças a arrulhante súplica
e, profissionalmente puladeiras,
já se aprestam à grande prova pública:
pegar o gavião
em seu voo rasante ou no relógio
aéreo, onde medita o necrológio
de suas vítimas, e zomba de alçapão.
E cada qual mais pincha e sacoleja,
disfarça, uiva, fareja,
sem vero resultado.
Aquelas, mais sabidas, se consultam
e convocam o falco, em tom matreiro,
a um fino ajantarado.
Baixa o gavião, e bica ali,
aqui, além, o pinto ao molho pardo,
um nadinha de bife, enxuga o chope,
mas tão rápido e alígero, dir-se-ia
um locutor da rádio do Berardo.
À mole sobremesa,
eis que as onças, uivando um sustenido
(com a assistência amável do Penido),
saltam, felinas — pá!
e na fereza
do bote julgam morto o gavião.
Que nada. A ave desguia, em pleno azul,
grasnindo: “Eu volto já”,
toma, sereno, o rumo do Japão.

Aprenda no colégio a aluna onça
que todo gavião é ave sonsa.
08/03/1959
776
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Verão

Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
2 423
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destino: Brasília

Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.

Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.

Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.

Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.

Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.

Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.

Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.

Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.

Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.

Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?

Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.

Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?

Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.

Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.

É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…

Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.

Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,

Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.

Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.

E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.

Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 598