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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nova Rua São José

Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.

Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.

De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.

É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.

Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.

A flor, em flor, na rua — que convite
ao passante angustiado: “Para um pouco.
Dez ou quinze minutos de far niente
e voltarás depois ao mundo louco.

Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.

Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.

Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei”.

Assim murmura a flor, e corre a brisa,
“Apoiado”, ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar

(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.

11/08/1973
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Rio Em Flor de Janeiro

A gente passa, a gente olha, a gente para
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignolli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)
Iúca! Iúca, meu amor deste verão,
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.

A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
— Círio de Nossa Senhora… (ou de Iemanjá?).
— Vela de pureza, outra acrescenta.
— Lanceta é que se chama. — Não, baioneta.
— Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants,
que em toda a sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar, para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

22/01/1980
2 806
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Rio Em Flor de Janeiro

A gente passa, a gente olha, a gente para
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignolli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)
Iúca! Iúca, meu amor deste verão,
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.

A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
— Círio de Nossa Senhora… (ou de Iemanjá?).
— Vela de pureza, outra acrescenta.
— Lanceta é que se chama. — Não, baioneta.
— Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants,
que em toda a sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar, para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

22/01/1980
2 806
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Liquidação de Inverno

Olha o ajuntamento na calçada,
o bolo humano denso, silencioso,
a paralisia coletiva…
Que foi que aconteceu?
Crime, suicídio, bomba, um novo deus?

Calma, não te assustes.
Precisas acostumar-te com a cidade
e seus ritos pendulares.
Não viste nos jornais aquele grito
e nas vitrinas as vermelhas tiras
anunciando em voz e cifra
Liquidação
Liquidação?

Agora vejo que esse grupo
indecifrado logo se esclarece.
Homem nenhum, ou quase. Só mulheres,
pois só mulheres sabem quando é hora
de (formigas) comprar para guardar.

A porta está fechada? Mas no aquário
de lãs tricôs camurças couros
quatro consumidoras são servidas,
outras quatro, cá fora, esperam vez.
Esperar resignado
de quem sabe que tudo anda difícil
e até os ossos do festim
têm que ser disputados como pérolas.

Outras quatro mais quatro vão entrando
no longo dia lento, frio.
O casaco de acrílico de 1000
961 por 900
e 84, uma pechincha. A calça jeans
para menina, a camisola, a jardineira,
meu Deus, o casacão, o plush,
tudo ficou barato de repente
ou dá a ilusão de ser barato,
convida, chama, intima:
Me compra rapidinho, enquanto o inverno
faz que vai mas não vai, e está gelado
o corpo, o quarto, o amor e tudo mais.

Liquidação, palavra mágica,
seu fundo de negrume e seu clarão.
Liquida-se um império,
uma política, um chefe, uma doutrina,
e nas vazias prateleiras outras formas
se acumulam, aguardam
o tempo de murchar, o desapreço
do preço baixo, a remarcada
voga da estação, como se tudo
durasse um quarto de ano: juramentos,
códigos, angústias, braceletes,
sandálias, planos…
E dura, e dura mais?

... e seu clarão.
Liquidadas as modas sazonais,
restaura-se a esperança na vitrina.
O jogo do futuro nos cativa.
A primavera, juro, vai trazer
o inolvidável prêmio de existir.
Seremos todos jovens. Ninguém mais
se lançará da ponte, ou traficâncias
fará contra a sorte dos humildes.
Todos serão humildes, na alegria
de um tempo verdejante…

Calma, não sonhes tanto.
Liquidação é apenas
porta deixando passar
compradores de saldos.
Se queres o brinquedo
de jogar com palavras, preferível
esta, que te dou entre dois goles
de papo vespertino: liquidâmbar.
Gostaste? Seu olor resinoso
o nariz te penetra e reconforta
a poluída garganta? Esquece, esquece
as liquidações que não liquidam
a carga de injustiça e desamor
pairante sobre a vida,
seja inverno ou verão, outono ou primavera.

01/08/1981
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pré-Inverno

— E vem um novo inverno todo em vês
ou todo em is? de frio fino e… — Flora!
Este babado de poetar já era.
Agora
a coisa tem que ser assim:
In
ver no par que o ver de
ar pi pila.
— Traduza para mim. — Pois não:
Inverno. Parque. O verde ar pipila.

— Não era o par que pipilava amores
no verde parque?
— Como quiser. O jogo é múltiplo.
Seja também assim:
Noverin pardever que lapipi.
— Parece nome de remédio!
— E daí? Os mais lindos sons da língua
são nomes de remédio, e cobram royalties.

Ah, declaro o papo fin-
do, antes que inverno pegue fogo.
Muito melhor ouvir o Tom Jobim
cantar, pianoviolão,
no Jardim das rosas, de sonho e medo,
no clarão das águas, no deserto negro,
enquanto, lerê, lará,
o Matita Perê negaceia:
“Eu quero ver, eu quero ver
você me pegar.”
Quem pega Tom Jobim, no Rancho das nuvens,
de Nuvens douradas? Leva Ana Luísa
no Trem para Cordisburgo. Conta-lhe
a Crônica da casa assassinada.
Fala de Milagres e palhaços,
e se é Tempo de mar, com Pedrinho de Morais,
Chora o coração de Vinicius de Moraes.
Fluem, fluem
as Águas de março e vai fluindo
em poesia rosiana
o límpido som
de Tom,
na palma da mão, cor do Brasil.

Vejo camisolas de algodão
(modelos decotados) nas vitrinas;
frente única de lã, e barriguinhas
de fora, desfilando na calçada.
É um frio maroto, com saudade
do verão, ou o verão reincidente
a infiltrar-se, maroto, neste inverno?
De pés de lã, brotos de Lan
mimam na praia o rito carioca:
(in) verniverão.
O rito?
O mito?
Esta cidade é um tanto periquito
australiano, de assobio colorido
especialmente alegre todo ano,
e faz do pré-inverno pré-estreia
do calor de dezembro a florescer
na rosinha do umbigo das garotas.

Cai um pingo de chuva nesta página?
Salta do solo o Sol e sela a sala
de ouro.
— Não é nada disto (protesta o Poet/Sintétiko),
Negó seguin:

RIO RAIO RISTE
PRAIA SPRAY
SOL
SAL
SUL
SAL MAIOR
SUL MELHOR
SOL BEMOL

12/05/1973
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