Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Contemplação
Tudo o que avança ou quer,
afirmação serena,
sobre as fachadas limpas
sem sombra, desoladas.
Igualdade sem normas,
tão larga lassitude,
um homem se eleva lentamente
frente às fachadas lisas.
Contemplada casa
entre verdes disfarces,
luz jovem, luz serena,
na estação recriada.
Um nome acorda o ar.
Instante outro me iguala
à esquecida sombra
bronzeada, desperta.
Regresso quase sem pálpebras,
primeiras folhas altas,
à luminosa vontade
sem esforço, à flor, atenta.
Abro os olhos ao vento.
O que me falta respiro,
o que não tenho sou
esquecidamente firme.
afirmação serena,
sobre as fachadas limpas
sem sombra, desoladas.
Igualdade sem normas,
tão larga lassitude,
um homem se eleva lentamente
frente às fachadas lisas.
Contemplada casa
entre verdes disfarces,
luz jovem, luz serena,
na estação recriada.
Um nome acorda o ar.
Instante outro me iguala
à esquecida sombra
bronzeada, desperta.
Regresso quase sem pálpebras,
primeiras folhas altas,
à luminosa vontade
sem esforço, à flor, atenta.
Abro os olhos ao vento.
O que me falta respiro,
o que não tenho sou
esquecidamente firme.
1 020
António Ramos Rosa
Presentificação
O que quer a sombra
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro
bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro
bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
558
António Ramos Rosa
Presentificação
O que quer a sombra
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro
bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro
bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
558
António Ramos Rosa
Algo Se Forma
Alguém escreve.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
1 038
António Ramos Rosa
Algo Se Forma
Alguém escreve.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
1 038
António Ramos Rosa
Algo Se Forma
Alguém escreve.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
Que lago se forma?
Será a noite menos preciosa?
Ela virá mais cedo?
Quando poderás vir?
Caminhamos para onde?
Algo se forma.
Uma pomba no largo.
Um lago?
Para onde ir?
Algo: uma varanda.
Vamos.
Tudo me espera,
a frescura dum barco,
as árvores que balançam para além do muro.
*
Alguém escreve.
E espera.
Um navio entre as árvores?
A casa que se move?
Uma pedra que sobe?
Alguém entrou.
Alguém está.
Todas as portas abertas
deixam entrar o ar.
*
Uma casa deserta
o vento a atravessa
Uma casa deserta
de janelas abertas
Todas as árvores sussurram
o mar tão perto
*
Crivado de palavras
que atravessam o quarto
elas formam um corpo
que respira e se move
que resiste como o ar
Crivado de palavras
o poema respira
*
Que subsiste agora?
Quem esperavas sempre veio?
Voltaste aonde estavas?
Que segredo se forma?
Ou forma se desvenda?
As árvores que balançam
acenam de outro modo?
Voltaste aonde esperavas?
Um rastro de frescura.
1 038
António Ramos Rosa
Momento 2
Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
1 038
António Ramos Rosa
À Luz Crua
Sob as palavras
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
584
António Ramos Rosa
Na Margem do Dia
Afirmas no quadrado
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
990
António Ramos Rosa
O Fogo Me Inunda
Aí, no fogo, onde o gesto começa e a força rompe. A mão percorre o lombo, o dia cheio, as palavras esvaem-se no céu. Sopra uma árvore. Um tinido breve, uma cadeia de nomes, a brancura no silêncio que ondula. Viver é exalar esta frescura, colmá-la na planície. Ergue-se a crista até ao silêncio do céu, o espaço se abre à anunciação do vazio, um nome canta, chia, tudo é montanha livre, raça, inundação.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
1 120
António Ramos Rosa
Primavera
Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
1 051
António Ramos Rosa
Árvore
Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
1 104
António Ramos Rosa
O Nascimento do Poema
O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
1 147
António Ramos Rosa
O Aparato Silencioso Das Coisas
As coisas surgem vivas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
1 002
António Ramos Rosa
Espaço a Espaço
Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 145
António Ramos Rosa
Espaço a Espaço
Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 145
António Ramos Rosa
À Felicidade Viva
Qual é a cor que dou à pedra imóvel
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!
Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!
Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!
567
António Ramos Rosa
Aderência
A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
1 176
António Ramos Rosa
Aderência
A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
1 176
António Ramos Rosa
Aderência
A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.
Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.
O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.
A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
1 176
António Ramos Rosa
Configurações
A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
1 034
António Ramos Rosa
Configurações
A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
1 034
António Ramos Rosa
As Linhas Matinais
As linhas matinais estão disponíveis
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
1 110
António Ramos Rosa
As Linhas Matinais
As linhas matinais estão disponíveis
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
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