Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
791
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
791
Edmir Domingues
Outubro vegetal
Por fim, descido às águias repousadas
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
786
Edmir Domingues
Outubro vegetal
Por fim, descido às águias repousadas
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
786
Edmir Domingues
Outubro vegetal
Por fim, descido às águias repousadas
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
786
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
709
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
709
Edmir Domingues
Pedra do navio
Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
232
Edmir Domingues
Pedra do navio
Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
232
Edmir Domingues
Pedra do navio
Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
232
Edmir Domingues
Canção amarga II
Acender o cigarro que não fumo
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
689
Ruy Belo
A charneca e a praia
Num dia vagamente de Natal fechado pelo frio
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 272
Ruy Belo
A charneca e a praia
Num dia vagamente de Natal fechado pelo frio
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 272
Edmir Domingues
Terrar
Mudo e triste, conviva cotidiano
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
690
Edmir Domingues
Os gatos
A sombra, a noite, o muro, o gato, o canto,
no silêncio de plumas. Sobre o muro
o gato e o seu noturno olhar na sombra
um reflexo de luz rompendo a noite.
Se a rosa é rosa um gato é sempre um gato
que anda em silêncio sobre pés de plumas.
É de crer haja mesmo o cão sem plumas,
líquido ou não, correndo no seu canto.
Não há, porém, sem plumas, nenhum gato,
nem aqui, nem acaso atrás do muro,
nesta noite global, ou noutra noite,
quer pintado de luz, ou feito em sombra.
Que exista mesmo um gato e sua sombra
é bom. Para que o mundo tenha plumas
e sons, porque dão vida à eterna noite.
No mundo sublunar o áspero canto
monofônico, miados sobre o muro,
Sempre que esteja ali, na sombra, o gato.
No meio da floresta o enorme gato
sob a copa de folhas e de sombra
onde não há nem construção nem muro.
Como se andassem sob chão de plumas
entre urros e grunhidos (são seu canto)
há grandes gatos fulvos sob a noite.
O muro, o imenso muro, esconde a noite,
a sombra, negra e enorme, esconde o gato.
As plumas tornam doce o ácido canto
quando o nosso universo é paz e sombra
- o íntimo travesseiro e suas plumas,
o castelo, o quintal, o quarto, o muro.
Da noite que corrói o velho muro
levantem-se os fantasmas, porque é noite.
Seus passos leves não requerem plumas.
No entanto é requerido sempre o gato,
para que haja ambiente, o gato, a sombra
o coro de uivos lúgubres por canto.
O gato da noite
no muro de canto
nas plumas da sombra.
O gato no canto
do muro, na sombra
das plumas da noite.
O canto do gato
no muro da noite,
na sombra de plumas.
A sombra da noite
no canto do gato,
nas plumas do muro.
No canto do muro
o gato na sombra
da noite de plumas.
No muro de plumas
a noite do canto
e a sombra do gato.
Na sombra do muro
o gato de plumas
e o canto da noite.
janeiro, 1984
no silêncio de plumas. Sobre o muro
o gato e o seu noturno olhar na sombra
um reflexo de luz rompendo a noite.
Se a rosa é rosa um gato é sempre um gato
que anda em silêncio sobre pés de plumas.
É de crer haja mesmo o cão sem plumas,
líquido ou não, correndo no seu canto.
Não há, porém, sem plumas, nenhum gato,
nem aqui, nem acaso atrás do muro,
nesta noite global, ou noutra noite,
quer pintado de luz, ou feito em sombra.
Que exista mesmo um gato e sua sombra
é bom. Para que o mundo tenha plumas
e sons, porque dão vida à eterna noite.
No mundo sublunar o áspero canto
monofônico, miados sobre o muro,
Sempre que esteja ali, na sombra, o gato.
No meio da floresta o enorme gato
sob a copa de folhas e de sombra
onde não há nem construção nem muro.
Como se andassem sob chão de plumas
entre urros e grunhidos (são seu canto)
há grandes gatos fulvos sob a noite.
O muro, o imenso muro, esconde a noite,
a sombra, negra e enorme, esconde o gato.
As plumas tornam doce o ácido canto
quando o nosso universo é paz e sombra
- o íntimo travesseiro e suas plumas,
o castelo, o quintal, o quarto, o muro.
Da noite que corrói o velho muro
levantem-se os fantasmas, porque é noite.
Seus passos leves não requerem plumas.
No entanto é requerido sempre o gato,
para que haja ambiente, o gato, a sombra
o coro de uivos lúgubres por canto.
O gato da noite
no muro de canto
nas plumas da sombra.
O gato no canto
do muro, na sombra
das plumas da noite.
O canto do gato
no muro da noite,
na sombra de plumas.
A sombra da noite
no canto do gato,
nas plumas do muro.
No canto do muro
o gato na sombra
da noite de plumas.
No muro de plumas
a noite do canto
e a sombra do gato.
Na sombra do muro
o gato de plumas
e o canto da noite.
janeiro, 1984
835
Edmir Domingues
Os gatos
A sombra, a noite, o muro, o gato, o canto,
no silêncio de plumas. Sobre o muro
o gato e o seu noturno olhar na sombra
um reflexo de luz rompendo a noite.
Se a rosa é rosa um gato é sempre um gato
que anda em silêncio sobre pés de plumas.
É de crer haja mesmo o cão sem plumas,
líquido ou não, correndo no seu canto.
Não há, porém, sem plumas, nenhum gato,
nem aqui, nem acaso atrás do muro,
nesta noite global, ou noutra noite,
quer pintado de luz, ou feito em sombra.
Que exista mesmo um gato e sua sombra
é bom. Para que o mundo tenha plumas
e sons, porque dão vida à eterna noite.
No mundo sublunar o áspero canto
monofônico, miados sobre o muro,
Sempre que esteja ali, na sombra, o gato.
No meio da floresta o enorme gato
sob a copa de folhas e de sombra
onde não há nem construção nem muro.
Como se andassem sob chão de plumas
entre urros e grunhidos (são seu canto)
há grandes gatos fulvos sob a noite.
O muro, o imenso muro, esconde a noite,
a sombra, negra e enorme, esconde o gato.
As plumas tornam doce o ácido canto
quando o nosso universo é paz e sombra
- o íntimo travesseiro e suas plumas,
o castelo, o quintal, o quarto, o muro.
Da noite que corrói o velho muro
levantem-se os fantasmas, porque é noite.
Seus passos leves não requerem plumas.
No entanto é requerido sempre o gato,
para que haja ambiente, o gato, a sombra
o coro de uivos lúgubres por canto.
O gato da noite
no muro de canto
nas plumas da sombra.
O gato no canto
do muro, na sombra
das plumas da noite.
O canto do gato
no muro da noite,
na sombra de plumas.
A sombra da noite
no canto do gato,
nas plumas do muro.
No canto do muro
o gato na sombra
da noite de plumas.
No muro de plumas
a noite do canto
e a sombra do gato.
Na sombra do muro
o gato de plumas
e o canto da noite.
janeiro, 1984
no silêncio de plumas. Sobre o muro
o gato e o seu noturno olhar na sombra
um reflexo de luz rompendo a noite.
Se a rosa é rosa um gato é sempre um gato
que anda em silêncio sobre pés de plumas.
É de crer haja mesmo o cão sem plumas,
líquido ou não, correndo no seu canto.
Não há, porém, sem plumas, nenhum gato,
nem aqui, nem acaso atrás do muro,
nesta noite global, ou noutra noite,
quer pintado de luz, ou feito em sombra.
Que exista mesmo um gato e sua sombra
é bom. Para que o mundo tenha plumas
e sons, porque dão vida à eterna noite.
No mundo sublunar o áspero canto
monofônico, miados sobre o muro,
Sempre que esteja ali, na sombra, o gato.
No meio da floresta o enorme gato
sob a copa de folhas e de sombra
onde não há nem construção nem muro.
Como se andassem sob chão de plumas
entre urros e grunhidos (são seu canto)
há grandes gatos fulvos sob a noite.
O muro, o imenso muro, esconde a noite,
a sombra, negra e enorme, esconde o gato.
As plumas tornam doce o ácido canto
quando o nosso universo é paz e sombra
- o íntimo travesseiro e suas plumas,
o castelo, o quintal, o quarto, o muro.
Da noite que corrói o velho muro
levantem-se os fantasmas, porque é noite.
Seus passos leves não requerem plumas.
No entanto é requerido sempre o gato,
para que haja ambiente, o gato, a sombra
o coro de uivos lúgubres por canto.
O gato da noite
no muro de canto
nas plumas da sombra.
O gato no canto
do muro, na sombra
das plumas da noite.
O canto do gato
no muro da noite,
na sombra de plumas.
A sombra da noite
no canto do gato,
nas plumas do muro.
No canto do muro
o gato na sombra
da noite de plumas.
No muro de plumas
a noite do canto
e a sombra do gato.
Na sombra do muro
o gato de plumas
e o canto da noite.
janeiro, 1984
835
Edmir Domingues
Soneto das estrelas sem conta
E eu galguei o alcantil tendo-a em meus braços,
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
762
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
1 287
Ruy Belo
Guide Bleu
Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
1 287
Edmir Domingues
Memória da ilha
A casa aberta ao sol, ao vento, e à voz do mar
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
816
Toni Montesinos Gilbert
Vida de areia
Quem dera que fosse feito de pó azul
para me diluir em todas as almas.
Se o meu corpo fosse pó a voar
passagens de céu, com um pouco
de frialdade, mereceria as mortes
irrecuperáveis, para sempre já
empoeirados pela sua ausência histórica.
Perderam-se, ficaram sem sangue.
E foi porque ninguém voltou a chamá-las.
E começaram a sonhar com montanhas,
e mais tarde com pedras, depois com areia
do tempo deserto. E por fim, com pó.
O sonho solitário conduziu-as
a cavar o amor numa estrela,
junto do que nunca puderam ter.
Eu quero chegar a todas as almas,
ser azul para distender o tempo,
ser um horizonte entre vida e morte,
esperar os amanheceres lento,
como se voltasse a nascer, azulado.
Quem dera que estivesse fora do século,
sem correspondência com nenhum espaço
concreto, sentir-me livre como pó
diluído em qualquer das ruas
conhecidas por onde caminhei.
Ser a presença total e absoluta.
Possuir o olhar omnipresente…
Mas apenas sou de carne e osso.
Um dia morrerei e não poderei pensar,
nunca mais, como construir um relógio
para sentir a vida mais extensa.
para me diluir em todas as almas.
Se o meu corpo fosse pó a voar
passagens de céu, com um pouco
de frialdade, mereceria as mortes
irrecuperáveis, para sempre já
empoeirados pela sua ausência histórica.
Perderam-se, ficaram sem sangue.
E foi porque ninguém voltou a chamá-las.
E começaram a sonhar com montanhas,
e mais tarde com pedras, depois com areia
do tempo deserto. E por fim, com pó.
O sonho solitário conduziu-as
a cavar o amor numa estrela,
junto do que nunca puderam ter.
Eu quero chegar a todas as almas,
ser azul para distender o tempo,
ser um horizonte entre vida e morte,
esperar os amanheceres lento,
como se voltasse a nascer, azulado.
Quem dera que estivesse fora do século,
sem correspondência com nenhum espaço
concreto, sentir-me livre como pó
diluído em qualquer das ruas
conhecidas por onde caminhei.
Ser a presença total e absoluta.
Possuir o olhar omnipresente…
Mas apenas sou de carne e osso.
Um dia morrerei e não poderei pensar,
nunca mais, como construir um relógio
para sentir a vida mais extensa.
908
Edmir Domingues
Cidade Submersa
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
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Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
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Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
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