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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Edmir Domingues

Edmir Domingues

Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
833
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
833
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Fala às flores e aos ventos

Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.

Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.

Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.

Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.

Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.

Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.

Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.

Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.

Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.

Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
702
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Fala às flores e aos ventos

Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.

Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.

Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.

Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.

Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.

Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.

Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.

Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.

Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.

Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
702
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cidade Submersa

Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.

Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?

Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.

Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.

Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.

Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.

Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.

Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.

Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.

Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.

Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.

Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede

Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade                                   
há tanto tempo famosa.

Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,                         
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos                       
nos fios da rede elétrica.

Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.

E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.

Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.

Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.

Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.

      Respiro profundamente
      o ar frio da manhã fria,
      e como um peixe me afogo
      no ar que agora me sufoca,
      e morro dessa asfixia
      na mansa luz da manhã.

                                          Recife, janeiro de 1958.
767
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Os esquecidos azuis de cobalto

No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.

É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.

Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.

Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.

Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.

Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.

Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
626
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Chuva e lagunas nos telhados

Eis que súbito a chuva acontecida
fez-se de sopro novo e novo alento
e as invisíveis mãos que nos agitam
prepararam na sombra aquele barco.
A solitária nau, que em plena sombra
a nós será da prata e do vermelho
quando desponte a mansa madrugada
misto de orvalho e sangue, a madrugada.

Um círculo terrível nos envolve
de montanhas de assombro e raiva e medo,
onde em vez de alimento oculta força
semeia cogumelos e os aplica
contra a nossa obstinada resistência
sempre aplicada ao surto do inefável.
E o Deus da chuva e um pássaro de neve
de asas que se desfazem, mas rebentam
de novo, cada vez que se desfazem,
para um mundo talhado no granito
de face avessa aos sopros e aos milagres.
Mas há, no entanto, a vida, o imponderável,
e àqueles que não sabem nós diremos
que há plátanos crescendo nos telhados
e estranhas casuarinas junto deles,
águas negras no chão em que repousam
nos telhados são límpidas lagunas.

Ai, barco nas lagunas que essa chuva
semeia nos telhados desta noite,
seremos teus convivas assombrados
para a decifração do teu mistério,
negada a fronte ao mundo que nos prende
onde a rosa morreu sem que alguém visse,
e os lampiões sem luz jazem partidos
sem óleo nem alguém que o percebesse.
Por certo cairemos dos telhados
sobre esse escuro mundo que nos guarda
- mas a vida é melhor quando se a vive
pelo menos a um palmo dos telhados.

Pois contra a queda e os tristes cogumelos
nos resta apenas vele a providência
das invisíveis mãos que nos dirigem
no mistério do mundo impenetrável,
se mais que amor e risos e cavalos
os segredos do mundo nos fascinam.

Ai, os olhos da aurora em nossas faces
e o mar deitado à margem dos caminhos,
mas não, a chuva molha as nossas luzes
e a esperança que são se apaga e morre,
se os filhos de Caim, disseminados,
engendram outros filhos, de alumínio,
e todos intocados de lirismo
semeiam cogumelos nas esquinas.

No entanto a chuva é já uma esperança.
De que os homens, de súbito, aturdidos,
sintam-se bem, lavados de repente,
e sejam naturais como um sorriso.
742
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Chuva e lagunas nos telhados

Eis que súbito a chuva acontecida
fez-se de sopro novo e novo alento
e as invisíveis mãos que nos agitam
prepararam na sombra aquele barco.
A solitária nau, que em plena sombra
a nós será da prata e do vermelho
quando desponte a mansa madrugada
misto de orvalho e sangue, a madrugada.

Um círculo terrível nos envolve
de montanhas de assombro e raiva e medo,
onde em vez de alimento oculta força
semeia cogumelos e os aplica
contra a nossa obstinada resistência
sempre aplicada ao surto do inefável.
E o Deus da chuva e um pássaro de neve
de asas que se desfazem, mas rebentam
de novo, cada vez que se desfazem,
para um mundo talhado no granito
de face avessa aos sopros e aos milagres.
Mas há, no entanto, a vida, o imponderável,
e àqueles que não sabem nós diremos
que há plátanos crescendo nos telhados
e estranhas casuarinas junto deles,
águas negras no chão em que repousam
nos telhados são límpidas lagunas.

Ai, barco nas lagunas que essa chuva
semeia nos telhados desta noite,
seremos teus convivas assombrados
para a decifração do teu mistério,
negada a fronte ao mundo que nos prende
onde a rosa morreu sem que alguém visse,
e os lampiões sem luz jazem partidos
sem óleo nem alguém que o percebesse.
Por certo cairemos dos telhados
sobre esse escuro mundo que nos guarda
- mas a vida é melhor quando se a vive
pelo menos a um palmo dos telhados.

Pois contra a queda e os tristes cogumelos
nos resta apenas vele a providência
das invisíveis mãos que nos dirigem
no mistério do mundo impenetrável,
se mais que amor e risos e cavalos
os segredos do mundo nos fascinam.

Ai, os olhos da aurora em nossas faces
e o mar deitado à margem dos caminhos,
mas não, a chuva molha as nossas luzes
e a esperança que são se apaga e morre,
se os filhos de Caim, disseminados,
engendram outros filhos, de alumínio,
e todos intocados de lirismo
semeiam cogumelos nas esquinas.

No entanto a chuva é já uma esperança.
De que os homens, de súbito, aturdidos,
sintam-se bem, lavados de repente,
e sejam naturais como um sorriso.
742
Edmir Domingues

Edmir Domingues

A lenda do boi de ouro

Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.

0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas

Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.

O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.

0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.

0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
557
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cantiga, voltando-se.

Sendo os ventos alísios retomados
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.

Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.

No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.

Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.

Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.

Eis que estaremos mortos sem remédio.

E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.

Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
707
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Cantiga, voltando-se.

Sendo os ventos alísios retomados
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.

Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.

No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.

Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.

Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.

Eis que estaremos mortos sem remédio.

E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.

Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
707
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
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