Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Reinaldo Ferreira
Não sei porquê
Não sei porquê,
Sabê-lo, era saber o meu caminho,
Sabê-lo, era deixar de ser ceguinho!
O meu olhar, se sonha, pára e vê,
Não sei porquê,
Uma casa de alvíssima fachada,
Prontinha mas cerrada,
Esperando não sei quê
Debalde o meu olhar,
Batendo à porta,
Se faz mais pequenino para entrar
Naquela casa morta.
Naquela casa morta, não
Naquela casa à espera
Dum peregrino, alguém
Que já demora
Naquela casa à espera
Dum outro não sei quem,
Por quem a casa chora
Oh! moradia hermética dum Outro!
Oh! casa dos telhados sonhadores
Fitando amargurada a estrada nua
Deixa-me encher o teu jardim de flores!
Não fiques tola e triste, assim na lua,
À espera desse alguém
Que nunca vem!
Oh! casa do portão sempre cerrado,
Se não me deixas ser eu o Desejado,
Que o tempo arrebatou e já não vem,
Recolhe o meu olhar à tua esperança,
Que eu prometo ficar muito calado
À espera desse alguém
Sabê-lo, era saber o meu caminho,
Sabê-lo, era deixar de ser ceguinho!
O meu olhar, se sonha, pára e vê,
Não sei porquê,
Uma casa de alvíssima fachada,
Prontinha mas cerrada,
Esperando não sei quê
Debalde o meu olhar,
Batendo à porta,
Se faz mais pequenino para entrar
Naquela casa morta.
Naquela casa morta, não
Naquela casa à espera
Dum peregrino, alguém
Que já demora
Naquela casa à espera
Dum outro não sei quem,
Por quem a casa chora
Oh! moradia hermética dum Outro!
Oh! casa dos telhados sonhadores
Fitando amargurada a estrada nua
Deixa-me encher o teu jardim de flores!
Não fiques tola e triste, assim na lua,
À espera desse alguém
Que nunca vem!
Oh! casa do portão sempre cerrado,
Se não me deixas ser eu o Desejado,
Que o tempo arrebatou e já não vem,
Recolhe o meu olhar à tua esperança,
Que eu prometo ficar muito calado
À espera desse alguém
1 919
Reinaldo Ferreira
Há que morrer no convés
Há que morrer no convés
Do seu previsto naufrágio.
Tremem-lhe as tábuas aos pés,
Cheira a presságio.
Negros augúrios com asas
Cruzam agoiros nos mastros.
Os ventos sabem a brasas.
Recusam-se astros.
Já o Piloto que ruma
A proa dos embaraços,
Pressentiu que além da bruma
Esperam sargaços.
A agulha mentiu o norte,
Mas o Piloto sabia.
Quem busca as rotas da Morte
Não de desvia!
Não de desvia!
Do seu previsto naufrágio.
Tremem-lhe as tábuas aos pés,
Cheira a presságio.
Negros augúrios com asas
Cruzam agoiros nos mastros.
Os ventos sabem a brasas.
Recusam-se astros.
Já o Piloto que ruma
A proa dos embaraços,
Pressentiu que além da bruma
Esperam sargaços.
A agulha mentiu o norte,
Mas o Piloto sabia.
Quem busca as rotas da Morte
Não de desvia!
Não de desvia!
1 858
Jazzim
Poema II
Onda
solitária na areia parida
na ausência dos teus braços
desaparecendo na imensa noite gélida
Invade-a a saudade do teu mar
perfumando, perfumando-a a cada gota
derramada em tua pele, mulher!
De regresso a um outro mar
(salgado e perdido)
é só água
que na água se confunde
solitária na areia parida
na ausência dos teus braços
desaparecendo na imensa noite gélida
Invade-a a saudade do teu mar
perfumando, perfumando-a a cada gota
derramada em tua pele, mulher!
De regresso a um outro mar
(salgado e perdido)
é só água
que na água se confunde
888
Reinaldo Ferreira
Rosa, a mulata, desperta
Rosa, a mulata, desperta
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.
E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.
E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.
2 032
Reinaldo Ferreira
Oh! vós, que dominais vossos instintos
Oh! vós, que dominais vossos instintos
Como se fossem cavalos!
Oh! vós, que os amestrais, para exibi-los
Como se fossem ursos!
Oh! vós, que, infatigáveis domadores de impulsos,
Exibindo-os, colheis aplausos, contratos e elogios!
Glória a vós! Glória a vós, represadores
Do caudal,
Que eu não domino,
Do real.
Glória a vós, dominadores do natural!
Como se fossem cavalos!
Oh! vós, que os amestrais, para exibi-los
Como se fossem ursos!
Oh! vós, que, infatigáveis domadores de impulsos,
Exibindo-os, colheis aplausos, contratos e elogios!
Glória a vós! Glória a vós, represadores
Do caudal,
Que eu não domino,
Do real.
Glória a vós, dominadores do natural!
1 825
Reinaldo Ferreira
No amplo e ermo degredo
No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
1 945
Reinaldo Ferreira
Quando as fachadas, tumulares, de pardas
Quando as fachadas, tumulares, de pardas,
Defendem sonolências impassíveis,
Sou livre pra as boémias intangíveis
- E a noite intui-me cúmplices mansardas...
Franzino e ruivo, o céu todo tem sardas
E atraente nudez de impossíveis...
Eu sou talvez pintor de nus horríveis,
Zombo dos mestres e odeio as fardas!
Mas mal, estéril, assoma o brilho frio
- Que sempre a madrugada me frustrou
O contacto iminente ao fugidio -
Tenho medo de quem nocturno sou,
Da minha afinidade a um desvario
Que o outro mais casto em mim repudiou!
Defendem sonolências impassíveis,
Sou livre pra as boémias intangíveis
- E a noite intui-me cúmplices mansardas...
Franzino e ruivo, o céu todo tem sardas
E atraente nudez de impossíveis...
Eu sou talvez pintor de nus horríveis,
Zombo dos mestres e odeio as fardas!
Mas mal, estéril, assoma o brilho frio
- Que sempre a madrugada me frustrou
O contacto iminente ao fugidio -
Tenho medo de quem nocturno sou,
Da minha afinidade a um desvario
Que o outro mais casto em mim repudiou!
1 361
Reinaldo Ferreira
Haja névoa
Haja névoa!
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.
1 933
Reinaldo Ferreira
Haja névoa
Haja névoa!
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.
Dancem os véus na minha alma
(E externos nas luzes próximas,
Que se recusam como estrelas na distância).
Haja névoa!
Paire nela a memória dos maníacos
Sonhando na penumbra dos portais
Assassínios brutais.
Haja, haja névoa!
Aqui e além no mar.
No mar, nos mares, para que todas as viagens,
Para que todos os barcos em todas as paragens,
Na iminência dos naufrágios improváveis
- Improváveis, possíveis -,
Se gastem nos avisos aflitos
Das luzes, dos rádios, dos radares,
Dos gritos
Dos apitos.
Haja, haja névoa...
Desgastem-se os contornos
Das coisas excessivamente conhecidas.
Não haja céu sequer.
Névoa, só névoa!
E eu, nas ruas distorcidas,
Livre e tão leve
Como se fosse eu próprio a névoa
Da noite longa duma existência breve.
1 933
Reinaldo Ferreira
Triste, a paisagem tem ciprestes só
Triste, a paisagem tem ciprestes só.
Órbitas cegas, de chorar por água,
Os tanques estancam sua sede em pó
E o seu silêncio enche o jardim de mágoa.
Ao buxo, há muito que ninguém dá norma,
Só répteis amam, no caramanchel.
E o velho fauno branco, hoje sem forma,
Envolto dhera, toma a cor do fel.
Galgos, cisnes, pavões, festivas flores,
Tudo se foi. No vácuo, o tempo escorre.
Folha arrastada aos vergéis exteriores,
Transposto o muro, inda que verde morre.
Órbitas cegas, de chorar por água,
Os tanques estancam sua sede em pó
E o seu silêncio enche o jardim de mágoa.
Ao buxo, há muito que ninguém dá norma,
Só répteis amam, no caramanchel.
E o velho fauno branco, hoje sem forma,
Envolto dhera, toma a cor do fel.
Galgos, cisnes, pavões, festivas flores,
Tudo se foi. No vácuo, o tempo escorre.
Folha arrastada aos vergéis exteriores,
Transposto o muro, inda que verde morre.
1 785
Reinaldo Ferreira
O essencial é ter o vento
O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
1 515
Reinaldo Ferreira
O essencial é ter o vento
O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.
1 515
Reinaldo Ferreira
A tua mão é que desperta Abril
A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
1 560
Reinaldo Ferreira
Quanto mistério na semente
Quanto mistério na semente
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
1 752
Rogério Bessa
Do Canto V:
Viagem Dentro e ao Redor de um Canteiro/
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
844
Tobias Pinheiro
O Rio
Ele parece mais um boi cansado,
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
881
Tobias Pinheiro
O Rio
Ele parece mais um boi cansado,
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
881
Raimundo Fontenele
O Cavalo das Horas
era um cavalo negro sem tamanho
no prado sul do mundo onde corria
o sangue dos ginetes destroçados
era um cavalo grosso reluzente
varando espaços fortes velozmente
tangido a um prado e a outro sempre-sempre
era um cavalo branco frio mudo
em cujos olhos crianças se atiravam
na sela da manhã no chão no limbo
era um cavalo horáculo fogoso
sustentando o peito três medalhas
de heróis tombados sobre o véu do muro
era um cavalo azul de tanto medo
de patas farejando o firmamento
onde pessoas e prantos misturaram-se
era um cavalo verde só de sono
que carregava os tristes para um outro
campo de plantação devasso / puro
era um cavalo novo nova idade
secular instrumento da discórdia
que não subia ao céu nem ia à terra
no prado sul do mundo onde corria
o sangue dos ginetes destroçados
era um cavalo grosso reluzente
varando espaços fortes velozmente
tangido a um prado e a outro sempre-sempre
era um cavalo branco frio mudo
em cujos olhos crianças se atiravam
na sela da manhã no chão no limbo
era um cavalo horáculo fogoso
sustentando o peito três medalhas
de heróis tombados sobre o véu do muro
era um cavalo azul de tanto medo
de patas farejando o firmamento
onde pessoas e prantos misturaram-se
era um cavalo verde só de sono
que carregava os tristes para um outro
campo de plantação devasso / puro
era um cavalo novo nova idade
secular instrumento da discórdia
que não subia ao céu nem ia à terra
987
Sidney Neto
O Solar dos Heróis
Cearenses, vocês querem ver
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
367
Sidney Neto
O Solar dos Heróis
Cearenses, vocês querem ver
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
367
Zito Batista
Monólogo de um Cego
Falaram-me do sol! Maravilhoso o sol
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
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Zito Batista
Monólogo de um Cego
Falaram-me do sol! Maravilhoso o sol
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
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Raul Machado
Póstuma
Noite fechada, lúgubre, sombria.
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
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Raul Machado
Póstuma
Noite fechada, lúgubre, sombria.
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
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