Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Edigar de Alencar
Cidade-Sol
Cidade pequena, lavada de sol,
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...
1 074
Bocage
Quer ver uma perdiz chocar um rato,
Quer ver uma perdiz chocar um rato,
Quer ensinar a um burro anatomia,
Exterminar de Goa a senhoria,
Ouvir miar um cão, ladrar um gato;
Quer ir pescar um tubarão no mato,
Namorar nos serralhos da Turquia,
Escaldar uma perna em água fria,
Ver um cobra castiçar coum pato;
Quer ir num dia de Surrate a Roma,
Lograr saúde sem comer dois anos,
Salvar-se por milagre de Mafoma;
Quer despir a bazófia aos Castelhanos,
Das penas infernais fazer a soma,
Quem procura amizade em vis gafanos.
Quer ensinar a um burro anatomia,
Exterminar de Goa a senhoria,
Ouvir miar um cão, ladrar um gato;
Quer ir pescar um tubarão no mato,
Namorar nos serralhos da Turquia,
Escaldar uma perna em água fria,
Ver um cobra castiçar coum pato;
Quer ir num dia de Surrate a Roma,
Lograr saúde sem comer dois anos,
Salvar-se por milagre de Mafoma;
Quer despir a bazófia aos Castelhanos,
Das penas infernais fazer a soma,
Quem procura amizade em vis gafanos.
1 603
Carlyle Martins
A Ninfa
No bosque silencioso em que se inflama
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
2 085
Carlyle Martins
A Ninfa
No bosque silencioso em que se inflama
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.
É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.
Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,
Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.
2 085
Batista Cepelos
Ecce Homo
Trazendo à Natureza uma pujança brava
A doirada sazão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triunfava,
Enquanto o Sol, por toda a esfera, ria... ria...
Ria de flor em flor; no inseto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cava,
Ria; por toda parte, em suma, ria... ria...
E o Rei da Criação, o Homem, pausado e lento,
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...
E, alto, na solidão, que lhe aumentava o porte,
Em meio às expansões joviais da Natureza,
Ele tinha na fronte a palidez da morte...
A doirada sazão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triunfava,
Enquanto o Sol, por toda a esfera, ria... ria...
Ria de flor em flor; no inseto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cava,
Ria; por toda parte, em suma, ria... ria...
E o Rei da Criação, o Homem, pausado e lento,
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...
E, alto, na solidão, que lhe aumentava o porte,
Em meio às expansões joviais da Natureza,
Ele tinha na fronte a palidez da morte...
1 328
Antônio Sales
Pesca da Pérola
O coração é concha bipartida:
Nós guardamos no peito uma metade,
E a outra, quem, o sabe? — anda perdida
Entre as vagas do mar da humanidade.
Do escafandro das ilusões vestida,
Rindo, mergulha a afoita mocidade,
Buscando um ser que lhe complete a vida,
Que lhe povoe do peito a soledade.
Encontra algum essa afeição sonhada
E à tona sobre erguendo a nacarada
Valva que guarda a pérola do amor...
outro, porém, debalde as águas sonda,
Desce, a rolar, aflito, de onda em onda...
E não mais torna o audaz mergulhador!
Nós guardamos no peito uma metade,
E a outra, quem, o sabe? — anda perdida
Entre as vagas do mar da humanidade.
Do escafandro das ilusões vestida,
Rindo, mergulha a afoita mocidade,
Buscando um ser que lhe complete a vida,
Que lhe povoe do peito a soledade.
Encontra algum essa afeição sonhada
E à tona sobre erguendo a nacarada
Valva que guarda a pérola do amor...
outro, porém, debalde as águas sonda,
Desce, a rolar, aflito, de onda em onda...
E não mais torna o audaz mergulhador!
1 863
Antônio Sales
Terra de Sol
O áureo malho do sol bate na incude
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
1 562
Antônio Sales
Terra de Sol
O áureo malho do sol bate na incude
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
1 562
Antônio Sales
Terra de Sol
O áureo malho do sol bate na incude
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.
Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,
É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...
E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.
1 562
Beni Carvalho
Descendo o Jaguaribe
I
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
906
Beni Carvalho
Descendo o Jaguaribe
I
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
906
Beni Carvalho
Descendo o Jaguaribe
I
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.
Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!
Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...
Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...
906
Carlyle Martins
A Loucura do Nosso Amor
"Áurea! Vamos andar pelos caminhos,
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
865
Bocage
Já sobre o coche de ébano estrelado
Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.
Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que está mihalma presa
À vil matéria lânguida, me corte.
Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.
Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que está mihalma presa
À vil matéria lânguida, me corte.
Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.
3 256
Bocage
A Macaca
Em verso alexandrino
Nos serros do Brasil diz certo autor que
havia
Uma namoradeira, uma sagaz bugia.
Milhões de chichisbéus pela tafulguinchavam,
E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.
Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e
louco,
Nas cabeludas mãos lhe apresentava umcoco;
Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;
E qual um ananás, e qual uma banana.
Ela com riso astuto, ela com mil caretas,
Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as
petas;
Os olhos requebrava ao som de um
suspirinho:
A todos prometia o mais fiel carinho,
E, se algum lhe rogava especial favor,
À terna petição dizia: "Sim, senhor."
Mas com muita esperança o fruto eranenhum,
E os pobres animais ficavam em jejum.
Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,
Que nisto não ganha inda a melhor macaca.
Nos serros do Brasil diz certo autor que
havia
Uma namoradeira, uma sagaz bugia.
Milhões de chichisbéus pela tafulguinchavam,
E por não terem asa, o rabo lhe arrastavam.
Qual, caindo-lhe aos pés de amores cego e
louco,
Nas cabeludas mãos lhe apresentava umcoco;
Qual do açúcar brilhante a sumarenta cana;
E qual um ananás, e qual uma banana.
Ela com riso astuto, ela com mil caretas,
Lhe entretinha a paixão, lhe ia doirando as
petas;
Os olhos requebrava ao som de um
suspirinho:
A todos prometia o mais fiel carinho,
E, se algum lhe rogava especial favor,
À terna petição dizia: "Sim, senhor."
Mas com muita esperança o fruto eranenhum,
E os pobres animais ficavam em jejum.
Leitores, há mulher tão destra e tão velhaca,
Que nisto não ganha inda a melhor macaca.
1 586
Carvalho Aranha
Mundo Interior
Faz dias, (quantos?) despertei, chorando.
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.
Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...
Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.
E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.
Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...
Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.
E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...
887
Carvalho Aranha
Vigília
No meu retiro, agora, as lágrimas benditas
De minha santa mãe, pranto mudado em rosas,
Pelas manhãs de sol e nas manhãs brumosas
Hão de, lestas, cair. Alma, por que te agitas?
A paz, a grande paz das coisas silenciosas,
Nostalgias do Além e as curvas infinitas
Do Nirvana fatal em que, sábio, meditas,
Surgem, aos olhos meus, do véu das nebulosas.
Voa um mocho, a chilrar, e a maldição noturna
Do vento ao ciprestal a ramaria esgalha,
Vai rolando a gemer, crebra, de furna em furna;
Enquanto, a palpitar, núcleos de mundos, pelas
Estradas siderais, da luz náurea mortalha,
Giram os eternos sóis e as trêmulas estrelas!
De minha santa mãe, pranto mudado em rosas,
Pelas manhãs de sol e nas manhãs brumosas
Hão de, lestas, cair. Alma, por que te agitas?
A paz, a grande paz das coisas silenciosas,
Nostalgias do Além e as curvas infinitas
Do Nirvana fatal em que, sábio, meditas,
Surgem, aos olhos meus, do véu das nebulosas.
Voa um mocho, a chilrar, e a maldição noturna
Do vento ao ciprestal a ramaria esgalha,
Vai rolando a gemer, crebra, de furna em furna;
Enquanto, a palpitar, núcleos de mundos, pelas
Estradas siderais, da luz náurea mortalha,
Giram os eternos sóis e as trêmulas estrelas!
789
Carvalho Aranha
Vigília
No meu retiro, agora, as lágrimas benditas
De minha santa mãe, pranto mudado em rosas,
Pelas manhãs de sol e nas manhãs brumosas
Hão de, lestas, cair. Alma, por que te agitas?
A paz, a grande paz das coisas silenciosas,
Nostalgias do Além e as curvas infinitas
Do Nirvana fatal em que, sábio, meditas,
Surgem, aos olhos meus, do véu das nebulosas.
Voa um mocho, a chilrar, e a maldição noturna
Do vento ao ciprestal a ramaria esgalha,
Vai rolando a gemer, crebra, de furna em furna;
Enquanto, a palpitar, núcleos de mundos, pelas
Estradas siderais, da luz náurea mortalha,
Giram os eternos sóis e as trêmulas estrelas!
De minha santa mãe, pranto mudado em rosas,
Pelas manhãs de sol e nas manhãs brumosas
Hão de, lestas, cair. Alma, por que te agitas?
A paz, a grande paz das coisas silenciosas,
Nostalgias do Além e as curvas infinitas
Do Nirvana fatal em que, sábio, meditas,
Surgem, aos olhos meus, do véu das nebulosas.
Voa um mocho, a chilrar, e a maldição noturna
Do vento ao ciprestal a ramaria esgalha,
Vai rolando a gemer, crebra, de furna em furna;
Enquanto, a palpitar, núcleos de mundos, pelas
Estradas siderais, da luz náurea mortalha,
Giram os eternos sóis e as trêmulas estrelas!
789
Carlyle Martins
Boiada
Verde largo é o sertão! No claro firmamento
De um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
O sol é um dardo de oiro. E, num tropel violento,
Passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.
Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
No áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
À canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
Vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo
Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
Irmanando-se à paz da imensa natureza,
Têm saudades, talvez: — soltam fundos mugidos...
Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
— Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
Quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!
De um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
O sol é um dardo de oiro. E, num tropel violento,
Passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.
Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
No áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
À canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
Vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo
Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
Irmanando-se à paz da imensa natureza,
Têm saudades, talvez: — soltam fundos mugidos...
Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
— Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
Quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!
1 133
Bocage
O Cão e a Cadela
Em verso alexandrino
Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.
Tinha de uma cadela um cão fome canina,
Ele bom perdigueiro, ela de casta fina:
Mil foscas lhe fazia o terno maganão,
Mas gastava o seu tempo, o seu carinho em
vão.
Dando no chichisbéu dentada e maisdentada,
A fêmea parecia um cadela honrada
E incapaz de ceder às pretensões de amor.
Mas o amante infeliz foi sabedor
De que a mesma, em que via ações tão
desabridas,
Era coum torpe cão fagueira às
escondidas.
Se és sagaz, meu leitor, talvez tenhas visto
Cadelas de dois pés, que também fazem isto.
3 733
Alfredo Castro
A Estátua de Sileno
Longo tempo no parque, entre a alegre verdura,
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
Às carícias do sol, na luz fina e fagueira,
Sileno, o velho deus, guardara a compostura
Firme na sua estátua, enramada em videira.
Mas um dia se espalma a asa pesada e escura
Da borraxa. Do céu vela-se a face inteira.
E um raio que desceu busca o parque, procura
A estátua e lança em terra o deus da bebedeira.
Ao tombar destronada, a figura grotesca,
Num acaso feliz, ficou mesmo com a cara
Encostada na relva umedecida e fresca.
Quem depois transitou por aquele caminho
Certamente pensou que o deus melhor ficara
Estendido no chão para curtir seu vinho!
1 190
Carlyle Martins
Tapera
É quase ruína em meio à selva espessa e bruta,
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
905
Carlyle Martins
Tapera
É quase ruína em meio à selva espessa e bruta,
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
905
Antônio de Godói
Místico
Lua, noiva do azul, Verônica sombria,
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
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