Lenda
Um dia o sol levantou-se aborrecido
e resolveu mudar de ares.
Descambou para as bandas
do nordeste brasileiro
e foi parar numa terra hospitaleira,
onde a desgraça pouca é bobagem
e os homens amarelos e magros
dão surra em onça com o chapéu de couro.
A gente da terra
despertou a atenção do sol,
que começou a corricar pelas praias,
e pelos campos sem fim,
bebendo os riachos todos,
estorricando os caminhos,
derramando ouro
sobre as matas imensas,
cheias de xexéus e periquitos.
E o astro vagabundo gostou tanto
que nunca mais abandonou a terra.
Balada do Cearense
— Mamãe, eu vou pro Amazonas,
não quero ficar aqui,
já estou cansado de tudo,
não suporto essa leseira.
— Meu filho, não diz besteira!
— Mamãe, eu quero embarcar,
vou pro Acre, vou pro diabo,
aqui eu não fico mais,
não posso viver assim,
sem dinheiro, maltrapilho,
isso aqui parece o inferno,
quero ir pro paraíso.
— Meu filho, toma juízo!
— Mamãe, tenha paciência,
vou-me embora pro Amazonas,
que me importa com sezões,
com maleita, com febrões,
aqui eu morro de fome,
não posso mais vender bicho
que a policia prende a gente.
Mamãe, não me dê conselho
que fala pra banda mouca.
— Meu filho, cala essa boca!
— Mamãe, é hoje o meu dia,
preparei minha tipóia,
vou ganhar muito dinheiro,
vou comprar um seringal,
um dia eu volto, mamãe,
e trago a felicidade!
— Nossa Senhora te ajude,
São José seja teu pai!
Vai com Deus, meu filho, vai...
Cidade-Sol
Cidade pequena, lavada de sol,
de ruas que não têm fim,
alinhadas como os versos de um soneto.
Para tua iluminação diurna
devem trabalhar
todas as usinas do universo.
Fortaleza,
espelho fiel de nossa gente:
esbanjas tanta luz durante o dia
que à noite ficas no escuro...