Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Ona Gaia
A chuva cai
A chuva cai
conforme o clima
as nuvens dançam
ao sabor do vento
e o corpo esquenta
ao calor do toque.
conforme o clima
as nuvens dançam
ao sabor do vento
e o corpo esquenta
ao calor do toque.
866
Osório Dutra
Haicai
Descampado
Barulho, algazarra.
Periquitos esquisitos
nos ares, em farra.
Impressionismo
Nevoeiros que fogem
O monte, o córrego, a ponte
Ninguém na paisagem.
Barulho, algazarra.
Periquitos esquisitos
nos ares, em farra.
Impressionismo
Nevoeiros que fogem
O monte, o córrego, a ponte
Ninguém na paisagem.
945
Osório Dutra
Haicai
Descampado
Barulho, algazarra.
Periquitos esquisitos
nos ares, em farra.
Impressionismo
Nevoeiros que fogem
O monte, o córrego, a ponte
Ninguém na paisagem.
Barulho, algazarra.
Periquitos esquisitos
nos ares, em farra.
Impressionismo
Nevoeiros que fogem
O monte, o córrego, a ponte
Ninguém na paisagem.
945
Ona Gaia
Água
Água
trilhões de gotas d’água
Terra
imenso planeta azul
Fogo
balé de salamandras
ar
o sopro da vida em nós
inconsciente
a luz da escuridão ativa:
ativem o lúdico e tragam
a velocidade instantânea
da imaginação.
trilhões de gotas d’água
Terra
imenso planeta azul
Fogo
balé de salamandras
ar
o sopro da vida em nós
inconsciente
a luz da escuridão ativa:
ativem o lúdico e tragam
a velocidade instantânea
da imaginação.
935
Oscar Rosas
Sereia
Reparem nesse bronze, veia a veia,
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
Cornucópia de seios e de escama,
Obra de um japonês, em que o Fusi-Iama
Adora o mar em enluarada areia.
Canta, e essa harmonia nos golpeia.
É duma triste e solitária gama,
Porém aumenta desse bronze a fama
O olhar amortecido da sereia.
Penso que sonha o pólo e o nevoeiro,
E a pálida talhada de um crescente
Num céu de véus de noiva e jasmineiro.
E, como búzio a referver, ressoa
Numa langue preguiça de serpente,
Num êxtase nostálgico de leoa.
1 354
Olinda Marques de Azevedo
Verão
Suco de manga
a escorrer pelas mãos
pingos de ouro.
Sutis vaga-lumes
acendem suas luzes.
Baile na floresta.
a escorrer pelas mãos
pingos de ouro.
Sutis vaga-lumes
acendem suas luzes.
Baile na floresta.
925
Pe. Osvaldo Chaves
Sonho Medieval
Véspera de São José. Em Fortaleza. No Ceará.
As duas torres magras da Prainha
Estiram os pescoços para cima:
Duas garrafas brancas cheias de luar!
São dois poetas hirtos, absortos no infinito,
Cismando à beira-mar!
E com os olhos perdidos na luz rala
Sonham o sonho medieval
Das grandes catedrais,
Essas catedrais monumentais
Que falando a linguagem
Das ogivas e dos vitrais
Só elas falavam;
Porque naquele tempo o homem
Só ouvia,
Só podia
Entender
o que falasse do grandioso,
Do que há de sublime
No ideal religioso.
E a Prainha está sonhando,
Tão satisfeita por julgar que abriga
O coração da Idade-Média orando!
E as sombras vão cada vez mais baixando...
E a igrejinha, tão linda,
Sonha ainda.
E no sonho levanta um dos seus dedos góticos
Cheios de escamas batidos pelo malho do luar:
Um dedo colegial, taful,
Borrado de tinta azul.
Um dedo sonâmbulo
Que ela põe na boca da noite de asas de jaçanã
Para ao mar reclamar
Um momento de pausa no seu rataplã!
E o mar se cala
Para ouvir a sua fala...
Então diante do silêncio sentinela,
Do silêncio vespertino,
Ele começa dando a palavra
Ao badalo solene dum grande sino,
O Centenário
Que entoa o hino
Milenário
Do universo cristão;
Assim
Para o coração
Da Idade-Média ouvir:
"Adágio, andante, allegro, largo, maestoso..."
E lentamente as badaladas pelo espaço lá se vão...
"Marziale" agora, "prestíssimo, scherzo, molt piano",
Vão também muito além do sentimento humano,
Lá para onde os sinos,
Mínúsculos,
Franzinos,
Da humana razão em vão badalarão!
Este além, porém, aonde elas vão
E a fé que tem o coração cristão
E a melodia que os ares corta, num frenesi,
São acordes sem nomes,
Alguma coisa de Carlos Gomes
No prelúdio do Guarani!
E o Centenário continua,
À luz da lua,
Dobrando, badalando, bimbalhando,
Desmanchando-se em hinos
Ao sonzinho infantil de mais três sinos
Argentinos,
Cristalinos,
Que pulam, pinotam, saracoteiam
Em tomo de si mesmos
De boca aberta, gritando,
Assombrados com o Centenário
Virando e revirando!
De fato
É tão grande o aparato
Daquele declamador de badaladas,
Que quando recita os seus poemas de bronze
Parece com uma boca escancarada
Que engoliu ferozmente o próprio corpo;
Uma boca enorme, colossal,
Cuja língua secou de tanto badalar
Contra os rígidos beiços de metal!
E a Prainha acordou do sonho medieval,
No dia seguinte,
Cheinha de fiéis do século vinte.
Fortaleza, março de 1946.
As duas torres magras da Prainha
Estiram os pescoços para cima:
Duas garrafas brancas cheias de luar!
São dois poetas hirtos, absortos no infinito,
Cismando à beira-mar!
E com os olhos perdidos na luz rala
Sonham o sonho medieval
Das grandes catedrais,
Essas catedrais monumentais
Que falando a linguagem
Das ogivas e dos vitrais
Só elas falavam;
Porque naquele tempo o homem
Só ouvia,
Só podia
Entender
o que falasse do grandioso,
Do que há de sublime
No ideal religioso.
E a Prainha está sonhando,
Tão satisfeita por julgar que abriga
O coração da Idade-Média orando!
E as sombras vão cada vez mais baixando...
E a igrejinha, tão linda,
Sonha ainda.
E no sonho levanta um dos seus dedos góticos
Cheios de escamas batidos pelo malho do luar:
Um dedo colegial, taful,
Borrado de tinta azul.
Um dedo sonâmbulo
Que ela põe na boca da noite de asas de jaçanã
Para ao mar reclamar
Um momento de pausa no seu rataplã!
E o mar se cala
Para ouvir a sua fala...
Então diante do silêncio sentinela,
Do silêncio vespertino,
Ele começa dando a palavra
Ao badalo solene dum grande sino,
O Centenário
Que entoa o hino
Milenário
Do universo cristão;
Assim
Para o coração
Da Idade-Média ouvir:
"Adágio, andante, allegro, largo, maestoso..."
E lentamente as badaladas pelo espaço lá se vão...
"Marziale" agora, "prestíssimo, scherzo, molt piano",
Vão também muito além do sentimento humano,
Lá para onde os sinos,
Mínúsculos,
Franzinos,
Da humana razão em vão badalarão!
Este além, porém, aonde elas vão
E a fé que tem o coração cristão
E a melodia que os ares corta, num frenesi,
São acordes sem nomes,
Alguma coisa de Carlos Gomes
No prelúdio do Guarani!
E o Centenário continua,
À luz da lua,
Dobrando, badalando, bimbalhando,
Desmanchando-se em hinos
Ao sonzinho infantil de mais três sinos
Argentinos,
Cristalinos,
Que pulam, pinotam, saracoteiam
Em tomo de si mesmos
De boca aberta, gritando,
Assombrados com o Centenário
Virando e revirando!
De fato
É tão grande o aparato
Daquele declamador de badaladas,
Que quando recita os seus poemas de bronze
Parece com uma boca escancarada
Que engoliu ferozmente o próprio corpo;
Uma boca enorme, colossal,
Cuja língua secou de tanto badalar
Contra os rígidos beiços de metal!
E a Prainha acordou do sonho medieval,
No dia seguinte,
Cheinha de fiéis do século vinte.
Fortaleza, março de 1946.
932
Ona Gaia
Aos Nubentens
Ao falar agora
não serei breve no sentimento
- de início já vou dizendo -
como é belo e glamouroso este momento !
Pois por abundância de emoções sublimes
atraio um mundo inteiro de visões
e no meio do turbilhão destas atrações
o amor uni-versos e corações.
Que seja terna enquanto dura sua existência.
Que lá do fundo brote o fruto da sua potência.
E por acaso existe erro aqui em alguém ?
Hoje é um dia pra vida suntuoso
dois corpos unidos no mundo é virtuoso
e nada há mais certo pra mim ou pra ninguém !
Na arena solar das sensações
encontram a felicidade entre clarões
os que fazem o futuro além nações.
E muito antes de conhecer o seu lar
de um sonho pouco antes de acordar
você já conhecia o seu par.
Estas palavras pra ele e pra ela
até mesmo numa hora paralela
durante o dia, à noite ou no inverno
serão as cores de um verão eterno.
não serei breve no sentimento
- de início já vou dizendo -
como é belo e glamouroso este momento !
Pois por abundância de emoções sublimes
atraio um mundo inteiro de visões
e no meio do turbilhão destas atrações
o amor uni-versos e corações.
Que seja terna enquanto dura sua existência.
Que lá do fundo brote o fruto da sua potência.
E por acaso existe erro aqui em alguém ?
Hoje é um dia pra vida suntuoso
dois corpos unidos no mundo é virtuoso
e nada há mais certo pra mim ou pra ninguém !
Na arena solar das sensações
encontram a felicidade entre clarões
os que fazem o futuro além nações.
E muito antes de conhecer o seu lar
de um sonho pouco antes de acordar
você já conhecia o seu par.
Estas palavras pra ele e pra ela
até mesmo numa hora paralela
durante o dia, à noite ou no inverno
serão as cores de um verão eterno.
724
Ona Gaia
O barco
O barco
e o nada
entre o ser sendo
sem nem ser o ser
terra ou mar
fogo ou ar
praia, brilho e Sol.
Mas floresta de estrelas
explodindo no céu
é música
não linear
e isto é legal
isto é natural !!!
e o nada
entre o ser sendo
sem nem ser o ser
terra ou mar
fogo ou ar
praia, brilho e Sol.
Mas floresta de estrelas
explodindo no céu
é música
não linear
e isto é legal
isto é natural !!!
732
Ona Gaia
O barco
O barco
e o nada
entre o ser sendo
sem nem ser o ser
terra ou mar
fogo ou ar
praia, brilho e Sol.
Mas floresta de estrelas
explodindo no céu
é música
não linear
e isto é legal
isto é natural !!!
e o nada
entre o ser sendo
sem nem ser o ser
terra ou mar
fogo ou ar
praia, brilho e Sol.
Mas floresta de estrelas
explodindo no céu
é música
não linear
e isto é legal
isto é natural !!!
732
Oscar Rosas
Visão
Tanto brilhava a luz da Lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
1 081
Oscar Rosas
Visão
Tanto brilhava a luz da Lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
1 081
Oscar Rosas
Visão
Tanto brilhava a luz da Lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
1 081
Pe. Osvaldo Chaves
Angelim Intacto
Cearense, 21.10.23, padre católico e
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
1 154
Olegario Schmitt
Rotina
São seis horas da manhã
e acordo para a vida.
Vida... ou pura força de expressão?
São seis horas da manhã
e acordo para aquilo que subentende-se vida.
O sol dourado começa a anunciar a sua presença
no horizonte oposto àquele onde ontem se pôs.
Dez horas se passaram e cá está ele de novo.
Meu Deus, viver é repetir sempre as mesmas coisas
é sempre o mesmo sol
é sempre seis horas e eu acordo
é sempre o relógio apático, automático, como não deixaria de ser
berrando estridente:
SÃO SEIS HORAS, SÃO SEIS HORAS! ACORDA!
O SOL JÁ VAI NASCER!
No calendário se marca um dia a mais,
mas na verdade todos os dias são o mesmo dia,
todas as horas a mesma hora
todos os segundos, renitentes, ficam batendo no mesmo lugar.
Tudo anda em círculos, como a terra, como a lua em torno da terra,
como a terra em torno do sol
como o ponteiro dos segundos, na sua órbita: relógio.
São seis horas da manhã
e morro para o dia: volto a dormir e esqueço do sol.
e acordo para a vida.
Vida... ou pura força de expressão?
São seis horas da manhã
e acordo para aquilo que subentende-se vida.
O sol dourado começa a anunciar a sua presença
no horizonte oposto àquele onde ontem se pôs.
Dez horas se passaram e cá está ele de novo.
Meu Deus, viver é repetir sempre as mesmas coisas
é sempre o mesmo sol
é sempre seis horas e eu acordo
é sempre o relógio apático, automático, como não deixaria de ser
berrando estridente:
SÃO SEIS HORAS, SÃO SEIS HORAS! ACORDA!
O SOL JÁ VAI NASCER!
No calendário se marca um dia a mais,
mas na verdade todos os dias são o mesmo dia,
todas as horas a mesma hora
todos os segundos, renitentes, ficam batendo no mesmo lugar.
Tudo anda em círculos, como a terra, como a lua em torno da terra,
como a terra em torno do sol
como o ponteiro dos segundos, na sua órbita: relógio.
São seis horas da manhã
e morro para o dia: volto a dormir e esqueço do sol.
1 055
Pablo Simpson
VII Ainda há pouco era um desenho que te fiz
Ainda há pouco era um desenho que te fiz,
No qual o retrato - um azul de flores deste dia,
De recolhidas flores, uma a uma, quis
Pô-las furtivas do amor que te pedia.
No que trazê-las fosse então o que queria...
No que roubá-las fosse o gesto mais feliz...
Ainda há pouco era um desenho que fazia,
Onde nas flores misturava azuis-anis.
E ao misturá-los foi que certa hora vi,
Não o teu rosto, este o pintar não me permite,
Mas o cantar de um envergonhado bem-te-vi,
Que no seu canto, em que me via enternecido,
Dizia: - Ah! que dessas flores não imite
O azul, pois este a ti o havia prometido.
No qual o retrato - um azul de flores deste dia,
De recolhidas flores, uma a uma, quis
Pô-las furtivas do amor que te pedia.
No que trazê-las fosse então o que queria...
No que roubá-las fosse o gesto mais feliz...
Ainda há pouco era um desenho que fazia,
Onde nas flores misturava azuis-anis.
E ao misturá-los foi que certa hora vi,
Não o teu rosto, este o pintar não me permite,
Mas o cantar de um envergonhado bem-te-vi,
Que no seu canto, em que me via enternecido,
Dizia: - Ah! que dessas flores não imite
O azul, pois este a ti o havia prometido.
477
Olegário Mariano
O Enamorado das Rosas
Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
1 394
Olegário Mariano
O Enamorado das Rosas
Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.
Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.
Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.
Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.
1 394
Otávio Ramos
O Gato
O gato é a peça mais instigante do jogo de xadrez.
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
Metafísico, despreocupadamente cônscio da altivez de seu
próprio corpo, se espreguiça no tabuleiro ou salta, felino,
pela tela do microcomputador.
O homem é o homem; o gato é um bicho.
À pertinaz burrice das torres.
Ao jogo político dos bispos. Está o gato.
O leve ronronar da fera que näo foi.
És catorze, gato. Quatorze.
Velho sábio chinês.
Piras com maconha, gato. Educada, tua áspera língua lambe
no pires o leite.
Malandro é o gato.
Mias, mias, mias.
Ritmo é o que te liga à vida.
(1990)
1 210
Ona Gaia
Quando a alma
Quando a alma
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
843
Paulo Henrique Góes Souza
Senhorinha
Se ao menos fosse um pequeno
Beija-flor
Voaria ao teu encontro
E, por certo, todos parariam
Para ver a perspicácia de um
Mancebo apaixonado
Que invadiria o teu jardim
Sorrateiramente
E, em teus braços, provaria
O néctar dos lábios teus...
Se ao menos fosse um galho
Caído ao chão,
Jogado ao acaso, sem chamar
Muita atenção,
Comprazer-me-ia em te olhar,
E veria tua doce face,
Que me tiraria do rosto
A expressão da solidão,
Pois tu irias aflorar
Em meu coração...
Não te quero em uma redoma
Não, longe disto!
Quero-a vivaz e graciosa
Para que todos a admirem;
Quero apenas ser o teu humilde
Jardineiro
E se r o único a te tocar,
E te sentir como mulher,
E, assim sendo,
Não mais serás senhorinha,
E te tornarás definitivamente
A senhora de meus sonhos...
Beija-flor
Voaria ao teu encontro
E, por certo, todos parariam
Para ver a perspicácia de um
Mancebo apaixonado
Que invadiria o teu jardim
Sorrateiramente
E, em teus braços, provaria
O néctar dos lábios teus...
Se ao menos fosse um galho
Caído ao chão,
Jogado ao acaso, sem chamar
Muita atenção,
Comprazer-me-ia em te olhar,
E veria tua doce face,
Que me tiraria do rosto
A expressão da solidão,
Pois tu irias aflorar
Em meu coração...
Não te quero em uma redoma
Não, longe disto!
Quero-a vivaz e graciosa
Para que todos a admirem;
Quero apenas ser o teu humilde
Jardineiro
E se r o único a te tocar,
E te sentir como mulher,
E, assim sendo,
Não mais serás senhorinha,
E te tornarás definitivamente
A senhora de meus sonhos...
975
Olinda Marques de Azevedo
Inverno
Como uma mortalha
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
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