Lista de Poemas

Cigarra

Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.

Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra...
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.

Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.

E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade...
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!


Publicado no livro Evangelho da Sombra e do Silêncio: versos (1911/1912).

In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
2 470

Castelos na Areia

— Que iluminura é aquela, fugidia,
Que o poente à beira-mar beija e incendeia?
— É apenas a criação da fantasia: —
São castelos na areia.

Andam, tontas de sol, brincando as crianças
Como abelhas que voaram da colmeia.
Erguem torreões fictícios de esperanças...
São castelos na areia.

Ao canto de um jardim adormecido:
"Por que não crês no afeto que me enleia?
E as palavras que eu disse ao teu ouvido?"
— São castelos na areia.

E o tempo vai tecendo, da desgraça,
Na roca do destino, a eterna teia.
— "E os beijos que trocamos?" — Tudo passa,
São castelos na areia.

Coração! Por que bates com ansiedade?
Que dor é a grande dor que te golpeia?
Ouve as palavras da Fatalidade:
Ventura, Amor, Sonho, Felicidade,
São castelos na areia.


Publicado no livro Castelos na Areia: poemas (1923).

In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
1 802

A Velha Mangueira

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa...
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa...

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.


Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).

In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
1 294

O Flirt

Retirei um breve instante
Das minhas cogitações,
Para falar-vos do Flirt,
A epidemia elegante
Dos salões.

Nasce de um sorriso mudo,
De um quase nada que, enfim
Vale tudo
Para elas e para mim.

O Flirt. Haverá no mundo
Quem não sinta essa embriaguez
De um momento, de um segundo,
De quinze dias, de um mês?

Ele é efêmero e fortuito,
Vale pouco ou vale muito,
Conforme o Diabo o compôs.
É um simples curto-circuito
Entre dois.

Uma carícia inflamável
Doidinha por incendiar,
Um micróbio insuportável
Que vai de olhar para olhar.

Ou antes: um precipício
Que a gente olha sem pavor.
O divino instante, o início
Do êxtase imenso do amor.

Um galanteio, uma frase
Intencional
Que sendo frívola, é quase
Um madrigal.

A mão que outra mão afaga,
O pé que pisa outro pé.
Carícia lânguida e vaga...
Só quem ama e quem divaga
Pode saber o que isto é.

A orquestra soluça um tango:
Dois. Ela folle, ele fou.
Flor de Tango. — A flor de Tango,
Diz ele baixinho, és tu.

E assim vai num tal crescendo,
Que ela se debate em vão.
Parece que está morrendo
Nos braços do cidadão.

Quando passa o áureo momento,
Vem a tragédia em três atos.
Três atos
Com um epílogo. Depois,
Um noivado, um casamento,
Um bruto arrependimento
E ao fim divórcio entre os dois.


In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
1 143

Fulaninha

Foxtrotando pela rua
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...

Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!

Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!

Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.

— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.

E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!


In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
1 025

O Enamorado das Rosas

Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.

Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.

Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.

1 354

Kremme

Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.

Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.

Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.

E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?

Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.

— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.

E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.

Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.

Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.

1 416

De Papo Pro Á, 1931

I

Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á

II

Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho


In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147

NOTA: Música de Joubert de Carvalh
988

Arco-Íris

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."

De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.


Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).

In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
2 199

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Identificação e contexto básico

Olegário Mariano é um poeta brasileiro. Nasceu em Caxias, Maranhão, e faleceu no Rio de Janeiro. É uma figura importante da poesia brasileira da primeira metade do século XX, associado à chamada "geração de 1910", que buscava uma renovação estética na literatura.

Infância e formação

A sua infância e formação decorreram no Maranhão e, posteriormente, no Rio de Janeiro, para onde se mudou. Teve contacto com a literatura desde cedo, o que influenciou o seu percurso. A educação formal e as leituras de autores da época moldaram o seu gosto literário e a sua vocação poética.

Percurso literário

O percurso literário de Olegário Mariano iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas, que rapidamente chamaram a atenção pela sua qualidade lírica. Evoluiu no sentido de aprimorar a sua arte poética, mantendo um foco na beleza formal e na exploração de temas como o amor, a saudade e a natureza. Colaborou em importantes revistas e jornais literários da época, consolidando a sua posição no cenário poético brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Olegário Mariano é predominantemente lírica e sentimental. Temas como o amor idealizado, a saudade, a beleza da natureza e a efemeridade da vida são centrais. O seu estilo é marcado pela musicalidade, pela elegância formal e por um vocabulário cuidado, refletindo influências do parnasianismo, mas com uma sensibilidade mais intimista e simbolista. Utilizou frequentemente formas poéticas tradicionais, como o soneto, com maestria. A sua voz poética é delicada, melancólica e profundamente emotiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Olegário Mariano viveu em um período de significativas transformações na sociedade e na arte brasileiras. A "geração de 1910" buscava conciliar a tradição com as novas tendências estéticas, e Mariano contribuiu para essa busca com sua poesia. Dialogou com outros escritores contemporâneos, participando dos debates literários da época. Sua obra reflete um certo conservadorismo estético, mas com uma profundidade lírica que lhe garantiu um lugar de destaque.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Olegário Mariano são menos acessíveis. Sabe-se que dedicou a sua vida à poesia e à atividade literária. A sua postura discreta e o foco na sua obra poética caracterizam a sua figura pública.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Olegário Mariano foi um poeta reconhecido em sua época, especialmente pelos seus admiradores do lirismo e da forma poética cuidada. Sua obra foi bem recebida pela crítica e pelo público que apreciava a poesia mais tradicional. Hoje, é lembrado como um representante importante da poesia lírica brasileira do início do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As principais influências de Olegário Mariano foram poetas parnasianos e simbolistas, que o inspiraram no domínio da forma e da musicalidade. O seu legado reside na beleza e na sensibilidade da sua poesia, que continua a encantar leitores pela sua delicadeza e profundidade emocional. Representa uma vertente importante da poesia brasileira que valoriza a arte pela arte e a expressão lírica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Olegário Mariano tem sido interpretada como uma expressão da busca pela beleza ideal e pela perfeição formal. As suas críticas apontam para a sua habilidade em evocar sentimentos e imagens com uma linguagem polida e musical. A sua poesia é vista como um refúgio na contemplação da beleza e dos sentimentos mais puros.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos aspetos anedóticos sobre a vida de Olegário Mariano são amplamente divulgados. O seu rigor na construção poética e a sua dedicação ao ofício de poeta são os aspetos que mais se destacam.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Olegário Mariano faleceu no Rio de Janeiro. A sua memória perdura através da sua obra poética, que continua a ser estudada e apreciada como um exemplo de lirismo e perfeição formal na literatura brasileira. Publicações póstumas e edições de sua obra mantêm viva a sua presença no cânone literário.