Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Francisco José Rodrigues
Amarugens
Trazem as ondas amarugens fortes
Que banham o meu corpo já amargo;
Trazem as ondas amarugens tais
Que se unem mais às amarugens minhas.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
E de amarugens duplamente vindas
Da própria vida e das origens nossas...
Por certo, de ondas faz-se a vida e o tempo.
São ondas que se quebram, ondas fortes
Quem em sal se exaurem ou na branca escuma
Que o vento arrasta em sua boca enorme.
Trazem as ondas amarugens, só.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
— Ondas tão fortes mas que em sal se exaurem!
Que banham o meu corpo já amargo;
Trazem as ondas amarugens tais
Que se unem mais às amarugens minhas.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
E de amarugens duplamente vindas
Da própria vida e das origens nossas...
Por certo, de ondas faz-se a vida e o tempo.
São ondas que se quebram, ondas fortes
Quem em sal se exaurem ou na branca escuma
Que o vento arrasta em sua boca enorme.
Trazem as ondas amarugens, só.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
— Ondas tão fortes mas que em sal se exaurem!
976
Fernando Cereja
Cheiros de Flores
os cheiros de flores
confundem meu nariz
e boca
queria comer a
primavera
mastigar flor por flor
e ver se o verão
nasceria em mim.
confundem meu nariz
e boca
queria comer a
primavera
mastigar flor por flor
e ver se o verão
nasceria em mim.
942
Fernando Cereja
Cheiros de Flores
os cheiros de flores
confundem meu nariz
e boca
queria comer a
primavera
mastigar flor por flor
e ver se o verão
nasceria em mim.
confundem meu nariz
e boca
queria comer a
primavera
mastigar flor por flor
e ver se o verão
nasceria em mim.
942
Fernando Braga
Longe Noturno
Meus olhos emigraram para São Luís
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
271
Fernando Guedes
O Fruto
Nos caminhos da aldeia
germina a lama que o Inverno semeou.
Soltos, cabelos grossos cobrem corpos mortos.
Faminta, a criança trinca inutilmente
a murcha flor do cardo.
No lagar, homens sem vindima
esmagam grainhas ressequidas.
Pelos montes, uma recordação tênue
agita o feno levemente;
a mulher mais velha
guarda na memória a imagem de uma avó,
um coração ardendo na lareira.
Acendem-se as lâmpadas ao escurecer,
antes da primeira estrela.
Para lá de janelas abertas
desconhecidos encontram-se nos leitos.
Os carros de bois passam vazios no caminho,
sem ruído, na lama.
Paz sem espada.
Só na torre a torre,
uma rosa mantendo seu perfume.
Pela porta inviolada
escapam-se as palavras,
uma a uma,
formando o discurso,
o canto, o cântico da flor
possuída no princípio dos caminhos:
Firmei minhas raízes
sobre a tua cabeça
e elevei-me,
oliveira a florir no campo,
plátano junto ao rio.
Cedo ao discurso, ao canto,
para encaminhar teu ardor
para o meu perfume
forte, sedutor como a canela.
Sou a torre e a porta,
sou a rosa.
E coloca um sinal sobre o teu coração:
por ti nasceu a novilha
entre o tojo rapado.
Efigênia fugiu mas eu fiquei
— em breve terás vento,
apresta teus navios prá batalha.
No golpe mais forte de uma espada,
na lama que o teu ódio levantar,
na hora do saque, tu me encontrarás:
sou mais ágil do que o teu movimento
e todas as riquezas estão em minhas mãos.
Repousa na vitória deste encontro.
Trago comigo as tuas sete feridas:
vou levar-te para a tua tenda,
cobrir o teu sono com os meus cabelos.
Passados os três dias e as noites,
ao acordar, ver-me-ás no centro da luz,
sentada à tua porta.
Não procures a torre
nem a flâmula da rosa:
eu estou
como sempre fui,
e a minha formosura
te deslumbrará.
germina a lama que o Inverno semeou.
Soltos, cabelos grossos cobrem corpos mortos.
Faminta, a criança trinca inutilmente
a murcha flor do cardo.
No lagar, homens sem vindima
esmagam grainhas ressequidas.
Pelos montes, uma recordação tênue
agita o feno levemente;
a mulher mais velha
guarda na memória a imagem de uma avó,
um coração ardendo na lareira.
Acendem-se as lâmpadas ao escurecer,
antes da primeira estrela.
Para lá de janelas abertas
desconhecidos encontram-se nos leitos.
Os carros de bois passam vazios no caminho,
sem ruído, na lama.
Paz sem espada.
Só na torre a torre,
uma rosa mantendo seu perfume.
Pela porta inviolada
escapam-se as palavras,
uma a uma,
formando o discurso,
o canto, o cântico da flor
possuída no princípio dos caminhos:
Firmei minhas raízes
sobre a tua cabeça
e elevei-me,
oliveira a florir no campo,
plátano junto ao rio.
Cedo ao discurso, ao canto,
para encaminhar teu ardor
para o meu perfume
forte, sedutor como a canela.
Sou a torre e a porta,
sou a rosa.
E coloca um sinal sobre o teu coração:
por ti nasceu a novilha
entre o tojo rapado.
Efigênia fugiu mas eu fiquei
— em breve terás vento,
apresta teus navios prá batalha.
No golpe mais forte de uma espada,
na lama que o teu ódio levantar,
na hora do saque, tu me encontrarás:
sou mais ágil do que o teu movimento
e todas as riquezas estão em minhas mãos.
Repousa na vitória deste encontro.
Trago comigo as tuas sete feridas:
vou levar-te para a tua tenda,
cobrir o teu sono com os meus cabelos.
Passados os três dias e as noites,
ao acordar, ver-me-ás no centro da luz,
sentada à tua porta.
Não procures a torre
nem a flâmula da rosa:
eu estou
como sempre fui,
e a minha formosura
te deslumbrará.
1 256
Fernando Guedes
O Fruto
Nos caminhos da aldeia
germina a lama que o Inverno semeou.
Soltos, cabelos grossos cobrem corpos mortos.
Faminta, a criança trinca inutilmente
a murcha flor do cardo.
No lagar, homens sem vindima
esmagam grainhas ressequidas.
Pelos montes, uma recordação tênue
agita o feno levemente;
a mulher mais velha
guarda na memória a imagem de uma avó,
um coração ardendo na lareira.
Acendem-se as lâmpadas ao escurecer,
antes da primeira estrela.
Para lá de janelas abertas
desconhecidos encontram-se nos leitos.
Os carros de bois passam vazios no caminho,
sem ruído, na lama.
Paz sem espada.
Só na torre a torre,
uma rosa mantendo seu perfume.
Pela porta inviolada
escapam-se as palavras,
uma a uma,
formando o discurso,
o canto, o cântico da flor
possuída no princípio dos caminhos:
Firmei minhas raízes
sobre a tua cabeça
e elevei-me,
oliveira a florir no campo,
plátano junto ao rio.
Cedo ao discurso, ao canto,
para encaminhar teu ardor
para o meu perfume
forte, sedutor como a canela.
Sou a torre e a porta,
sou a rosa.
E coloca um sinal sobre o teu coração:
por ti nasceu a novilha
entre o tojo rapado.
Efigênia fugiu mas eu fiquei
— em breve terás vento,
apresta teus navios prá batalha.
No golpe mais forte de uma espada,
na lama que o teu ódio levantar,
na hora do saque, tu me encontrarás:
sou mais ágil do que o teu movimento
e todas as riquezas estão em minhas mãos.
Repousa na vitória deste encontro.
Trago comigo as tuas sete feridas:
vou levar-te para a tua tenda,
cobrir o teu sono com os meus cabelos.
Passados os três dias e as noites,
ao acordar, ver-me-ás no centro da luz,
sentada à tua porta.
Não procures a torre
nem a flâmula da rosa:
eu estou
como sempre fui,
e a minha formosura
te deslumbrará.
germina a lama que o Inverno semeou.
Soltos, cabelos grossos cobrem corpos mortos.
Faminta, a criança trinca inutilmente
a murcha flor do cardo.
No lagar, homens sem vindima
esmagam grainhas ressequidas.
Pelos montes, uma recordação tênue
agita o feno levemente;
a mulher mais velha
guarda na memória a imagem de uma avó,
um coração ardendo na lareira.
Acendem-se as lâmpadas ao escurecer,
antes da primeira estrela.
Para lá de janelas abertas
desconhecidos encontram-se nos leitos.
Os carros de bois passam vazios no caminho,
sem ruído, na lama.
Paz sem espada.
Só na torre a torre,
uma rosa mantendo seu perfume.
Pela porta inviolada
escapam-se as palavras,
uma a uma,
formando o discurso,
o canto, o cântico da flor
possuída no princípio dos caminhos:
Firmei minhas raízes
sobre a tua cabeça
e elevei-me,
oliveira a florir no campo,
plátano junto ao rio.
Cedo ao discurso, ao canto,
para encaminhar teu ardor
para o meu perfume
forte, sedutor como a canela.
Sou a torre e a porta,
sou a rosa.
E coloca um sinal sobre o teu coração:
por ti nasceu a novilha
entre o tojo rapado.
Efigênia fugiu mas eu fiquei
— em breve terás vento,
apresta teus navios prá batalha.
No golpe mais forte de uma espada,
na lama que o teu ódio levantar,
na hora do saque, tu me encontrarás:
sou mais ágil do que o teu movimento
e todas as riquezas estão em minhas mãos.
Repousa na vitória deste encontro.
Trago comigo as tuas sete feridas:
vou levar-te para a tua tenda,
cobrir o teu sono com os meus cabelos.
Passados os três dias e as noites,
ao acordar, ver-me-ás no centro da luz,
sentada à tua porta.
Não procures a torre
nem a flâmula da rosa:
eu estou
como sempre fui,
e a minha formosura
te deslumbrará.
1 256
Fernanda Benevides
Visita da Solidão
Eis que a solidão me visita.
Recebo-a feliz.
Ficamos a sós.
Um brinde a nós!
Há uma perfeita simbiose
entre mim e a solidão.
Sempre que chega,
saúdo-a alegre,
feliz assim...
A sensação é inexplicável!
Algo parecido com voar, soltar, libertar...
Um indescritível bem-estar,
satisfação plena.
Um clima de pureza,
paz,
algo mais...
Vivo-a intensamente.
Convivemos de forma salutar,
sobretudo quando junto ao mar,
perto do céu,
sol,
sal,
crepúsculo,
luar...
Respiro o ar despoluído da simplicidade,
simplesmente,
como sou.
( in, POEIRA DA ESTRADA)
Fortaleza - Ce, 1984
Recebo-a feliz.
Ficamos a sós.
Um brinde a nós!
Há uma perfeita simbiose
entre mim e a solidão.
Sempre que chega,
saúdo-a alegre,
feliz assim...
A sensação é inexplicável!
Algo parecido com voar, soltar, libertar...
Um indescritível bem-estar,
satisfação plena.
Um clima de pureza,
paz,
algo mais...
Vivo-a intensamente.
Convivemos de forma salutar,
sobretudo quando junto ao mar,
perto do céu,
sol,
sal,
crepúsculo,
luar...
Respiro o ar despoluído da simplicidade,
simplesmente,
como sou.
( in, POEIRA DA ESTRADA)
Fortaleza - Ce, 1984
760
Fernando Guedes
A Flor
Intercepção globular
No ponto infinitamente repetido
a existência cessa
em cada instante.
Aqui. No caule ou na folha,
no golpe da enxada,
em mim ou em ti,
no lento mover da roda, no fruto,
construí a cidade.
Ceifaras no campo todo o dia
e de noite vieste ao meu encontro.
Entre o que foi e o que será
alterou-se o número
e a posição do movimento.
Nas ruas desertas
furtivos espreitam os velhos
pelos óculos das portas.
Viram-te chegar,
sabem a cor dos teus olhos
e vão dizer que és pura,
quando for meio-dia,
junto à porta grande da cidade.
Não importa que sejas estrangeira
— sou eu tua nação.
Procurei-te entre as casas,
na roda movente,
entre os grãos de milho torturado;
passei o bosque, o rio,
adormecida te encontrei
no espaço absoluto,
no vazio sempre pronto a mais vazio,
e, crescidos, teus cabelos eram um rebanho de cabras
deixando a planície.
Sete rosas marcam tua vida,
dispostas em losangos, dois losangos:
seis flores úmidas, uma de bondade,
brancas, flores brancas.
Quem te encontrar saberá
que existe um corpo existindo na distância,
fora de nós,
para lá de Andrômeda,
contemporâneo do passado,
permanente na sucessão ilimitada e necessária,
uniformemente transeunte.
No ponto infinitamente repetido
a existência cessa
em cada instante.
Aqui. No caule ou na folha,
no golpe da enxada,
em mim ou em ti,
no lento mover da roda, no fruto,
construí a cidade.
Ceifaras no campo todo o dia
e de noite vieste ao meu encontro.
Entre o que foi e o que será
alterou-se o número
e a posição do movimento.
Nas ruas desertas
furtivos espreitam os velhos
pelos óculos das portas.
Viram-te chegar,
sabem a cor dos teus olhos
e vão dizer que és pura,
quando for meio-dia,
junto à porta grande da cidade.
Não importa que sejas estrangeira
— sou eu tua nação.
Procurei-te entre as casas,
na roda movente,
entre os grãos de milho torturado;
passei o bosque, o rio,
adormecida te encontrei
no espaço absoluto,
no vazio sempre pronto a mais vazio,
e, crescidos, teus cabelos eram um rebanho de cabras
deixando a planície.
Sete rosas marcam tua vida,
dispostas em losangos, dois losangos:
seis flores úmidas, uma de bondade,
brancas, flores brancas.
Quem te encontrar saberá
que existe um corpo existindo na distância,
fora de nós,
para lá de Andrômeda,
contemporâneo do passado,
permanente na sucessão ilimitada e necessária,
uniformemente transeunte.
1 021
Fernanda de Castro
Asa no Espaço
Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
1 774
Fernanda de Castro
Asa no Espaço
Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
1 774
Fernandes Soares
Haicai
Chuva de verão.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
1 009
Fernandes Soares
Haicai
Chuva de verão.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
1 009
Fernandes Soares
Haicai
Chuva de verão.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
O rio, num desafio,
é um vagalhão.
A velha mangueira.
Apito de trem. Aflito
ranger de porteira.
1 009
Fernanda Botelho
Esplanada
É o processo da forma seca e pobre
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.
Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.
Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.
1 425
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 306
Francisco Inácio Peixoto
Pedreira
Dependurados no espaço
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
836
Moacyr Felix
Auto-Retrato
Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.
[C.T., 1959.1
1 606
Fernanda Benevides
Encontro com a Solidão
Eis que me deparo com a solidão
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
775
Fernanda Benevides
Encontro com a Solidão
Eis que me deparo com a solidão
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...
A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.
Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.
775
Fernanda Benevides
Eu e Brisa
Eis que o ciciar da brisa matinal
acariciou-me o ouvido
- acordou em mim uma melodia.
Ecos vibrantes eclodiram,
plenetraram-me,
invadiram-me...
Ah! Essa brisa matinal
me trouxe um viço,
uma inquietação,
um rebuliço!...
acariciou-me o ouvido
- acordou em mim uma melodia.
Ecos vibrantes eclodiram,
plenetraram-me,
invadiram-me...
Ah! Essa brisa matinal
me trouxe um viço,
uma inquietação,
um rebuliço!...
924
Fernanda Benevides
A Flor das Ruínas
Eis que uma flor despontou nas ruínas
de um templo desmoronado
e te enterneceu.
Era uma rosa pálida
que não queria fenecer
e tímida
gritava para sobreviver...
Transportaste-a ao solo fértil
do teu coração
e ela renasceu rubra
em tuas mãos...
de um templo desmoronado
e te enterneceu.
Era uma rosa pálida
que não queria fenecer
e tímida
gritava para sobreviver...
Transportaste-a ao solo fértil
do teu coração
e ela renasceu rubra
em tuas mãos...
877
Fernando Batinga de Mendonça
Soneto
para Carlos Cunha
vi planícies ampliadas
e formas verdes, completas
— nas estradas já traçadas
não mais cor, facões trafegam.
vi enxadas, dinamites
vi balões, os exilados
vi azul das explosões
ouvi céus encarcerados
vi silêncio decomposto
que não sendo lentamente,
mas que é em plano oposto.
vi das coisas se faltando:
o de fora, perfeição
o de dentro, se buscando.
vi planícies ampliadas
e formas verdes, completas
— nas estradas já traçadas
não mais cor, facões trafegam.
vi enxadas, dinamites
vi balões, os exilados
vi azul das explosões
ouvi céus encarcerados
vi silêncio decomposto
que não sendo lentamente,
mas que é em plano oposto.
vi das coisas se faltando:
o de fora, perfeição
o de dentro, se buscando.
993
Fernando Guedes
O Caule
Cinzentas procuras interceptam
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa.
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingênua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa.
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingênua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
1 218