Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Elisa Sayeg
Visita
Santa Alva trazia no peito
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
929
Dílson Catarino
Cores e Odores
As cores se renovam.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
Renovam-se os odores.
As cores,
as dores se renovam.
Renovam-se as dores.
As cores,
os odores se renovam.
Renovam-se as cores.
Quereria não mais sentir as dores
que a gente, quando sente,
se sente eternamente doente
Noite diferente
Noite atraente
O que me atrai é a noite ardente
arde a noite
à noite me arde o desejo obscuro,
mas puro.
O desejo puro, a noite obscura.
Te juro
Nada tão puro quanto minhas ardências
Nada é obscuro na minha essência.
As dores se evidenciam.
Evidenciam-se os odores.
As cores prevalecem sobre as dores.
889
Edmundo de Bettencourt
Canção
Não te deites, coração,
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
A sombra dos teus amores.
Não durmas, olha por eles,
Com alegrias e dores.
Não tenhas medo. O calor
Que vem das serras ao mar,
Erguendo incêndios, não queima
O que não é de queimar.
Agradece ao vento frio
Que traz chuva miudinha:
É neve que se aproxima,
Tormenta que se avizinha...
Nos incêndios naturais
Queima ramos de saudades
E faz a tua canção
Do grito das tempestades!
1 167
Carla Dias
Ar
Há de ficar olhando o mar
e observar a vida,
sentir o vento
batendo e fazendo
a água gritar.
Há de estar sereno
e ser a própria
tranquilidade ...
que, intranquila,
atravessa a madrugada.
Há de pisar na terra molhada,
rodopiar,
mesmo em silêncio,
caminhar sem rumo.
Há de beber das cachoeiras
o vinho da magia intensa
que é perder-se no ar ...
que merece a imensidão
do espaço.
e observar a vida,
sentir o vento
batendo e fazendo
a água gritar.
Há de estar sereno
e ser a própria
tranquilidade ...
que, intranquila,
atravessa a madrugada.
Há de pisar na terra molhada,
rodopiar,
mesmo em silêncio,
caminhar sem rumo.
Há de beber das cachoeiras
o vinho da magia intensa
que é perder-se no ar ...
que merece a imensidão
do espaço.
958
Carla Dias
Ar
Há de ficar olhando o mar
e observar a vida,
sentir o vento
batendo e fazendo
a água gritar.
Há de estar sereno
e ser a própria
tranquilidade ...
que, intranquila,
atravessa a madrugada.
Há de pisar na terra molhada,
rodopiar,
mesmo em silêncio,
caminhar sem rumo.
Há de beber das cachoeiras
o vinho da magia intensa
que é perder-se no ar ...
que merece a imensidão
do espaço.
e observar a vida,
sentir o vento
batendo e fazendo
a água gritar.
Há de estar sereno
e ser a própria
tranquilidade ...
que, intranquila,
atravessa a madrugada.
Há de pisar na terra molhada,
rodopiar,
mesmo em silêncio,
caminhar sem rumo.
Há de beber das cachoeiras
o vinho da magia intensa
que é perder-se no ar ...
que merece a imensidão
do espaço.
958
Débora Novaes de Castro
Haicai
concha perolada
descoberta pelos ventos
soprar das areias
varando nuvens,
levando sonhos d’ouro
cavalo alado
descoberta pelos ventos
soprar das areias
varando nuvens,
levando sonhos d’ouro
cavalo alado
939
Débora Novaes de Castro
Haicai
concha perolada
descoberta pelos ventos
soprar das areias
varando nuvens,
levando sonhos d’ouro
cavalo alado
descoberta pelos ventos
soprar das areias
varando nuvens,
levando sonhos d’ouro
cavalo alado
939
Diamond
O Mar
Lambendo com gosto a areia,
Nesse amor de vai e vem,
Num gozo de muita espuma,
Molha o meu amor, também.
Nesse amor de vai e vem,
Num gozo de muita espuma,
Molha o meu amor, também.
952
Dutra e Melo
A Noite
Luminoso esteirão mal deixa ao longe,
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
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Dutra e Melo
A Noite
Luminoso esteirão mal deixa ao longe,
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
De ouro e púrpura aceso, o vasto carro
Em que o Dia cercado de seus raios
Pelo éter passeia:
E a Noite melancólica e sombria,
Colhendo sobre a fronte, os soltos cachos
Dos úmidos cabelos,
Em tomo aos ombros ajeitando o manto
Lança às rédeas a mão, solta a carreira
A seus negros ginetes.
Enquanto despeitosa murcham, pendem
Nas campinas as flores,
Enquanto um suspirar surdo e longínquo
Lamenta a ausência do esplendor do dia,
Lúcidas brilham trêmulas estrelas
De faróis lhe servindo — Ai! como é triste
A solitária marcha da amargura
Que abatida percorre a linda noite!
Seus negros olhos e a carroça ebânea
Que pelos céus a tira,
As suas lonas roupas tenebrosas,
Olhos desviam que o fulgor da Aurora
Rutilante convida.
Oh! ninguém busca vê-la — Aves e plantas,
Homens, tudo a abandona! Ingratos, fogem
Como ao leito mortal do extinto amigo.
Tú és, ó Dia, o predileto encanto
Da natureza inteira;
Todos amam colher as áureas flores
Que as rodas do teu carro à terra lançam;
Para o teu rutilar voltam-me os olhos,
E ninguém busca a Noite. — O sono os prende
Enquanto vagaroso vai seu plaustro
As campinas do céu plácido arando.
Mas tu me és sempre deleitosa e cara,
Noite melancólica; a minha alma
Atrativos em ti descobre ansiosa.
Não ama o pirilampo a luz do dia,
Nem as aves da morte então soluçam!
Noite amiga dos homens! — No silêncio,
Na calma vaporosa que desdobras,
No sossego dos campos, das florestas
A vida interna saboreio ardente.
Só então vive o espírito do homem;
Tenaz rebenta o pensamento algemas;
Linguagem da ternura e sentimento
Lhe fala o coração nas doces horas;
Surge a contemplação dos seios da alma
Em cujas dobras cerra-se aos combates
Da vida labiríntica do mundo;
E fresca mão na fronte vem pousar-nos
Mansa a filosofia animadora.
Noite amiga dos homens! — Teus mistérios
Coração de quem ama não deslembra.
Podem muitos cantar-te em liras de ouro
Enlaçadas de brancas sempre-viva,
De perlas, não de lágrimas, bordada;
Sons de fogo arrancar das lisas cordas,
Confiá-los à brisa das cidades,
Sem que um riso de mofa os enregele;
Correr dedos na lira olhando uns olhos,
E ver descer um beijo, e as mãos queimar-lhes.
Mas eu na harpa de bronze dos finados,
Onde a roxa Perpétua, onde o suspiro
Abrançando a saudade entrelaçam,
Donde um véu cor da morte à terra desce,
Eu só posso cantar fúnebres cantos,
Carpidas nênias que o feliz desama,
Só, no campo, e lá quando abrindo as asas
Tu me acolhes saudosa, ó Noite, esperto
Essa lembrança que só tu conheces,
Que eu guardo, e que uma tumba nos comparte.
Noite amiga dos homens! Quando imperas,
Maior o Criador se nos antolha.
Que importa do teu Sol a pompa, ó Dia?
Essa luz triunfal de resplendores,
Esse golfo da vida pra os sentidos?
Que importa esse brilhar da atmosfera,
Esse vário matiz que adorna a terra?
Perde-se a alma encarando o firmamento,
Quando, ó Noite, o sombreias. — Vê brilhando
Milhões de estrelas, que a distância imensa
Minora a vista luminosa facha,
Que em tomo a infindos sóis, infindos mundos
Abismando a razão, lhe patenteia.
E tu, mágica chave das ciências,
Tu, vasta analogia,
Que véus não rasgas, desdobrando à vista
Mistérios que o entrever mais engrandece!
Noite, ó Noite formosa! — Eu, que amo os astros,
Eu, que neles suspeito mais que as luzes,
Não sei te abandonar, pois, refletindo,
Prezo ver nesses globos outros mundos
Mais felizes que o nosso — onde outros seres
Mal, dor, pecado e morte não conheçam;
Onde o sopro da dúvida não tolde
A argêntea luz da cândida verdade;
E onde a hipótese louca e ambiciosa
Criações moribundas não produza.
Noite amiga dos homens! — Teus altares
Não se mancham de tantos malefícios
Com que as aras do Dia se deturpam.
Unes o esposo à esposa, e aos dois a prole;
A família vê juntos os seus membros,
Irmãos, imito, em doce entretimento,
Fruem prazeres que interrompe o Dia.
Riso, amizade, e gosto sobrevoa
Nessa amena tranqüila sociedade.
A alma se acrisola e purifica
Das escórias que o Dia lhe injetara.
Noite amiga dos homens! — Grato o sono
De teu carro debruça-se na terra;
Quem fadigas e penas por minutos
Contou no dia, — quem deseja a morte,
Quem deseja acalmar o pensamento,
Pertinaz suicida, espelho ustório
Onde os raios de mim longes desgraças
Vêm franger-se e abrasar uma alma fraca;
Quem deseja num caos submergir-se,
Ver o que ama, fugir o que detesta,
Busca a sombra propícia do teu manto.
Então é que ele frui tréguas aos males;
Então é que o sossego alguns momentos
Visita o coração do desditoso;
Que essas almas que os homens não conhecem,
Lassas do mundo já na tenra idade,
Sob as asas do sono o mundo olvidam.
Noite amiga dos homens! — Pensa o vate,
Supremo fogo desce-lhe na fronte,
Quando plácida reinas. — Turbulentas,
Mil imagens descrevem-se nos ares,
Ante a vista em figuras deslumbrosas:
A lucerna do sábio, radiando,
Assiste à criação daltos mistérios,
Lucubrações do gênio, ardente estudo,
Em que os séculos pálidos, mirrados,
Pelas mágicas fórmulas de análise,
Recompondo o esqueleto, ressuscitam.
Noite amiga dos homens! – Quando a Lua
Iluminaste a rota solitária,
Então vibras destalma a última corda.
Então nem mesmo tu, ó poesia,
Nem tu, divina música, soltaras
Som que os sons imitasse desse harpejo;
O céu cheio de nuvens como o oceano,
Que devora uma nau, cheia de espólios;
O mar, em que argentina se prolonga
Essa imagem da luz — e ela tão linda,
Tão sã, tão melancólica, tão pura!...
Noite, ó Noite formosa! — mesmo quando
Não tivesses tão grande majestade,
Bastara o melancólico silêncio,
O calmo rutilar de teu luzeiro,
Para minhalma te sagrar seus hinos;
Bastara duma lágrima a lembrança,
O passado surgindo ante meus olhos,
E esse nome que então murmuram sempre
A aragem frouxa, as ondas sonolentas.
Tu, só tu, bem no âmago do peito,
Vês a serpe roer-me o engenho e a vida;
Vês gotejarem sangue ainda as fridas
De punhal traiçoeiro em mão de amigo.
Oh! vem pois com teu bálsamo saná-las;
Vem, ó Noite propícia, consolar-me,
Té que a Noite no túmulo me salve
De um mundo que me esmaga, e que eu detesto.
1 135
Carla Dias
Chove
Chove tuas lágrimas ...
tingem de azul minha visão,
de que a paz é frágil
e a febre é da paixão.
Onde caminham tuas estórias,
descabidas, íntegras estórias?
Passam pela vida e marcam hora
para virar destino ... cada estória.
Chove e tuas mãos jogam-se ao vento,
encharcam de calor um corpo tenso.
Tocam os fantasmas e os devoram ...
apresentam minutos feito horas.
Ensina-me a ser sereno e louco,
controvérsia explícita,
que desfaz enganos e dá de ombros
às mais piegas feridas.
Como viver tão triste e sem cantar,
não escrever versos?
E até patrocinar o esquecimento ...
parir pseudo tédio?
Chove dos teus olhos a madrugada ...
chove tua sina.
Chove e ainda quer enxergar o mar
que cai do céu na tua vida.
tingem de azul minha visão,
de que a paz é frágil
e a febre é da paixão.
Onde caminham tuas estórias,
descabidas, íntegras estórias?
Passam pela vida e marcam hora
para virar destino ... cada estória.
Chove e tuas mãos jogam-se ao vento,
encharcam de calor um corpo tenso.
Tocam os fantasmas e os devoram ...
apresentam minutos feito horas.
Ensina-me a ser sereno e louco,
controvérsia explícita,
que desfaz enganos e dá de ombros
às mais piegas feridas.
Como viver tão triste e sem cantar,
não escrever versos?
E até patrocinar o esquecimento ...
parir pseudo tédio?
Chove dos teus olhos a madrugada ...
chove tua sina.
Chove e ainda quer enxergar o mar
que cai do céu na tua vida.
930
Edmundo de Bettencourt
Ondulação
O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
1 076
Edmundo de Bettencourt
Ondulação
O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .
Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.
E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!
1 076
Da Costa Santos
Vem, Poesia
Vem para mim, de leve, na surpresa,
das veredas do amor indefinido,
que te cinge a cabeça, com leveza,
através do caminho percorrido.
Vem para mim, do azul da natureza,
ou desse mar chorando arrependido;
põe o teu manto feito de tristeza,
veste de luz o tempo já perdido.
Vem para mim, velada de mistérios,
flor dos jardins lunares de Verona,
lua de amor vestindo os hemisférios,
Eu te darei a glória do renovo:
— vem para mim, nos braços da Madona,
"Estrela da Manhã", "Rosa do povo!"
das veredas do amor indefinido,
que te cinge a cabeça, com leveza,
através do caminho percorrido.
Vem para mim, do azul da natureza,
ou desse mar chorando arrependido;
põe o teu manto feito de tristeza,
veste de luz o tempo já perdido.
Vem para mim, velada de mistérios,
flor dos jardins lunares de Verona,
lua de amor vestindo os hemisférios,
Eu te darei a glória do renovo:
— vem para mim, nos braços da Madona,
"Estrela da Manhã", "Rosa do povo!"
1 476
Deborah Brennand
Declaração de Amor
Ontem disseste
sisudo, como todo saber
— Esta flor é da família das violáceas
o nome correto é — violeta tricolor.
Eu disse — é amor perfeito...
Amarelo e roxo
salpicado de negror
severamente reclamando
gotas de terra nas folhas.
Pensei — será isto perfeito?
sisudo, como todo saber
— Esta flor é da família das violáceas
o nome correto é — violeta tricolor.
Eu disse — é amor perfeito...
Amarelo e roxo
salpicado de negror
severamente reclamando
gotas de terra nas folhas.
Pensei — será isto perfeito?
1 179
Duarte Galvão
Tocador de Piana
Negro tocador de canções
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
são lamentos febris sem eco
na noite das casuarinas dizem ...
Ah! mas dizem tanta coisa sem sentido
Negro tocador ...
A vida permanece num beco
sem saída, e a idéia dos sermões
morre no próprio templo.
Geme, pois, tuas canções tristes,
apertando nos lábios a "piana"
Na noite das casuarinas
Não morrem teus lamentos,
digo-te: outro negro tocador
anônimo, de olhos vendados ou não,
tocará outras canções tristes!
970
Cynara Novaes
Meu barquinho
Meu barquinho
saiu para o mar
vela ao vento
vento a levar
verde a água
Meu barquinho
um pingo
no alto mar
Vento vinha
Vento ia
Meu barquinho
sorridente
se atracou
com o porto
Coitadinho...
não sabia nadar.
saiu para o mar
vela ao vento
vento a levar
verde a água
Meu barquinho
um pingo
no alto mar
Vento vinha
Vento ia
Meu barquinho
sorridente
se atracou
com o porto
Coitadinho...
não sabia nadar.
1 165
Cynara Novaes
Meus noturnos
Meus noturnos
amanhecem
em tuas alvoradas
e continuam dia a fora
noite a dentro
invetendo fuso horários
enlouquecidos pela
falta das estrelas.
amanhecem
em tuas alvoradas
e continuam dia a fora
noite a dentro
invetendo fuso horários
enlouquecidos pela
falta das estrelas.
913
Donizete Galvão
Anel Caucasiano
Olha para o anel de ferro
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.
e mantém acesa a lembrança.
Lembra-te dos dez mil anos
no miolo escuro do rochedo.
Lembra-te, depois, da visitante
e do barulho de suas asas.
Lembra-te da humilhação
de revelar o que era segredo.
Lembra-te de tudo
antes que todos se esqueçam dessa história
e, mero acidente geográfico,
reste apenas a montanha de pedra.
1 093
Debora Bottcher
Naufrágio
E quando te conheci
Descobri que tinhas medo da Vida,
Do mundo, do futuro.
Tinhas os pés no chão,
Pisavas em terra firme.
Nada de delírios, nem de paixões.
Mas, cruzei o teu caminho.
Assustado, comparavas-me ao Mar:
Azul e calmo, às vezes,
E cinza e intempestivo em outras.
Não lhe oferecia garantias
Como a Terra,
Mas te mostrei que era bem mais gostoso
Navegar...
Porém, não se pode ter a Terra e o Mar.
E então, fizestes tua escolha.
Deste então, neste Mar,
Nunca mais navegaram.
Por causa deste naufrágio...
Descobri que tinhas medo da Vida,
Do mundo, do futuro.
Tinhas os pés no chão,
Pisavas em terra firme.
Nada de delírios, nem de paixões.
Mas, cruzei o teu caminho.
Assustado, comparavas-me ao Mar:
Azul e calmo, às vezes,
E cinza e intempestivo em outras.
Não lhe oferecia garantias
Como a Terra,
Mas te mostrei que era bem mais gostoso
Navegar...
Porém, não se pode ter a Terra e o Mar.
E então, fizestes tua escolha.
Deste então, neste Mar,
Nunca mais navegaram.
Por causa deste naufrágio...
1 061
Daniel Cruz Filho
Canto do Homem no Kósmos
Canto I
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
474
Daniel Cruz Filho
Canto do Homem no Kósmos
Canto I
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
474
Daniel Cruz Filho
Canto do Homem no Kósmos
Canto I
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?
palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto
a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura
a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar
mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra
inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela
ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar
pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol
outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece
é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça
mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora
Canto II
afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento
é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível
ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue
o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação
mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical
no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem
acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!
acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!
o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.
Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa
dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba
Canto III
o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba
e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la
mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?
o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)
o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil
ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba
mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?
A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!
ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz
o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco
lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue
Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue
doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva
e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!
o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida
Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado
infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal
prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas
sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!
arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol
— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol
rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?
Canto V
meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar
ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!
erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados
ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)
o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura
a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?
eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo
o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar
porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem
linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
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Chagas Val
Poema 10
A vida reinventada
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
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