Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Edgar Allan Poe
A Cidade no Mar
Olhai! a Morte edificou seu trono
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres
(torres que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.
Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oecano lívido
invade dos torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portenhosa
dos ídolos com olhos de diamente,
nem das jóias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas nào contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.
Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
e dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.
numa estranha cidade solitária
por entre as sombras do longínquo oeste.
Lá, os bons, os maus, os piores e os melhores,
foram todos buscar repouso eterno.
Seus monumentos, catedrais e torres
(torres que o tempo rói e não vacilam!)
em nada se parecem com os humanos.
E em volta, pelos ventos olvidadas,
olhando o firmamento, silenciosas
e calmas, dormem águas melancólicas.
Ah! luz nenhuma cai do céu sagrado
sobre a cidade, em sua imensa noite.
Mas um clarão que vem do oecano lívido
invade dos torreões, silentemente,
e sobe, iluminando capitéis,
pórticos régios, cúpulas e cimos,
templos e babilônicas muralhas;
sobe aos arcos templos magníficos, sem conta,
onde os frios se enroscam e entretecem
de vinhedos, violetas, sempre-vivas.
Olhando o firmamento, silenciosas,
calmas, dormem as águias melancólicas.
Torreões e sombras tanto se confundem
que é tudo como solto nos espaços.
E a Morte, do alto de soberba torre,
contempla, gigantesca, o panorama.
Lá, os sepulcros e os templos se escancaram
mesmo ao nível das águas luminosas;
mas não pode a riqueza portenhosa
dos ídolos com olhos de diamente,
nem das jóias que riem sobre os mortos,
tirar as vagas de seu leito imóvel;
pois, ai! nem leve movimento ondula
esse imenso deserto cristalino!
Nem ondas falam de possíveis ventos
sobre mares distantes, mais felizes;
ondas nào contam que existiram ventos
em mar de menos espantosa calma.
Mas, vede! Um frêmito percorre os ares.
Uma onda... Fez-se ali um movimento!
e dir-se-ia que as torres vacilaram
e afundaram de leve na água turva,
abrindo com seus cumes, debilmente,
um vazio nos céus enevoados.
As ondas têm, agora, luz mais rubra,
as horas fluem, lânguidas e fracas.
E quando, entre gemidos sobre-humanos,
a cidade submersa for fixar-se no fundo,
o Inferno, erguido de mil tronos,
curvar-se-á, reverente.
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2
Raimundo Correia
Ofélia
Num recesso da selva ínvia e sombria,
Estrelada de flores, vicejante,
Onde um rio entre seixos, espumante,
Cursando o vale, túrgido, fluía;
A coma esparsa, lívido o semblante,
Desvairados os olhos, como fria
Aparição dos túmulos, um dia
Surgiu de Hamlet a lacrimosa amante;
Símplices flores o seu porte lindo
Ornavam... como um pranto, iam caindo
As folhas de um salgueiro na corrente...
E na corrente ela também tombando,
Foi-se-lhe o corpo alvíssimo boiando
Por sobre as águas indolentemente.
Publicado no livro Sinfonias (1882). Primeiro da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.142
Estrelada de flores, vicejante,
Onde um rio entre seixos, espumante,
Cursando o vale, túrgido, fluía;
A coma esparsa, lívido o semblante,
Desvairados os olhos, como fria
Aparição dos túmulos, um dia
Surgiu de Hamlet a lacrimosa amante;
Símplices flores o seu porte lindo
Ornavam... como um pranto, iam caindo
As folhas de um salgueiro na corrente...
E na corrente ela também tombando,
Foi-se-lhe o corpo alvíssimo boiando
Por sobre as águas indolentemente.
Publicado no livro Sinfonias (1882). Primeiro da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.142
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Raimundo Correia
Ofélia
Num recesso da selva ínvia e sombria,
Estrelada de flores, vicejante,
Onde um rio entre seixos, espumante,
Cursando o vale, túrgido, fluía;
A coma esparsa, lívido o semblante,
Desvairados os olhos, como fria
Aparição dos túmulos, um dia
Surgiu de Hamlet a lacrimosa amante;
Símplices flores o seu porte lindo
Ornavam... como um pranto, iam caindo
As folhas de um salgueiro na corrente...
E na corrente ela também tombando,
Foi-se-lhe o corpo alvíssimo boiando
Por sobre as águas indolentemente.
Publicado no livro Sinfonias (1882). Primeiro da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.142
Estrelada de flores, vicejante,
Onde um rio entre seixos, espumante,
Cursando o vale, túrgido, fluía;
A coma esparsa, lívido o semblante,
Desvairados os olhos, como fria
Aparição dos túmulos, um dia
Surgiu de Hamlet a lacrimosa amante;
Símplices flores o seu porte lindo
Ornavam... como um pranto, iam caindo
As folhas de um salgueiro na corrente...
E na corrente ela também tombando,
Foi-se-lhe o corpo alvíssimo boiando
Por sobre as águas indolentemente.
Publicado no livro Sinfonias (1882). Primeiro da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.142
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2
Guilherme de Almeida
Cinema
Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.
Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.
E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.
Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.
E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;
são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...
É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5. p. 60-6
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.
Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.
E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.
Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.
E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;
são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...
É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5. p. 60-6
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2
Fernando Pessoa
[2] Uma Asa do Grifo: D. JOÃO O SEGUNDO
Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidavel vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidavel vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
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2
Raul Pompéia
Inverno
Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.
J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).
Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.
Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazon.
J. DE ESPRONCEDA.
(El Diablo mundo).
Inverno! inverno! inverno!
Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal,
descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente,
para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve
a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da
cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a
miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão,
desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o
frio inverno da vida.
Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares
onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.
Nem ao menos a letargia acorda ao clarão de falsas auroras, nem
uma vez ao menos a cúpula unida das névoas abre um postigo para o
outro céu, a região dos astros. Nada! Nada! Procuramos encontrar
fora de nós alguma coisa do que nos falta e os pobres olhos cansados
não vão além dos cabelos brancos que caem pela fronte; sofre-se
o desengano do invernado que da fria choupana contasse ver a seara
loura dos bons dias por entre as franjas de neve que os tetos babam
ao frio.
Tudo sombrio e triste. Triste o derradeiro consolo do inverno que
embriaga entretanto como o último vinho dos condenados: a recordação
dos dias idos, a acerba saudade da primavera.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.53. (Vera Cruz, 324c
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2
Mafalda Veiga
Charco
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
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Mafalda Veiga
Charco
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
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2
Joaquim Cardozo
Visão do Último Trem Subindo ao Céu
II
As locomotivas na rotunda
Olhavam para a noite do pátio da noite, imóveis, silenciosas
— Molossos deitados, dóceis, esperando: os olhos apagados os
[faróis.
Qual seria, seria, qual dentre elas
A que conduziria aquele trem, aquele que era o trem
E o último seria?
Qual delas ouviria a voz do Senhor?
Quando houve um trilo no ar: uma luz brilhou
No ar noturno — carvão do dia —
E uma dentre todas sentiu, de repente,
O alento do calor;
Alento que se estendeu do fogo,
E que lhe veio em sangue ardente,
Em respiração rumorosa de brancos vapores.
Uma dentre elas
Que era preta, violentamente, luzidia;
Que era preta, vagarosamente preta;
Preta e lentamente e luzidia;
Avançando, transpôs o virador;
E foi!
Foi um touro selvagem a princípio
Depois se fez um boi pesado e manso
Correndo as linhas de trilhos: as fitas, os fios, os trilhos de
[linha.
À sua aproximação as agulhas se abriram —
Porteiras de um curral — furos do espaço, aberturas
Para distâncias possíveis... aberturas, costuras
De rápidas passagens em direções ocultas.
Pouco e pouco, mais pouco, pouco a pouco
Ao trem se atrela, ao trem ligando o engate, os freios
Ajustando... ao trem disposto ao longo
Da plataforma — platimorfa, platibanda, alegrete
Canteiro cultivado — florido de gente.
E logo e depois, justo depois ficou imóvel
À espera, no ante-ritmo da espera
No anseio da esperaesperança:
Harmônicos da espera (intervalo! Vocalises do intervalo).
— Foi assim que se fez a composição daquele trem.
Daquele que era o trem, e o último seria.
Publicado no livro Poesias Completas (1971). Poema composto de onze partes.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.124-125
As locomotivas na rotunda
Olhavam para a noite do pátio da noite, imóveis, silenciosas
— Molossos deitados, dóceis, esperando: os olhos apagados os
[faróis.
Qual seria, seria, qual dentre elas
A que conduziria aquele trem, aquele que era o trem
E o último seria?
Qual delas ouviria a voz do Senhor?
Quando houve um trilo no ar: uma luz brilhou
No ar noturno — carvão do dia —
E uma dentre todas sentiu, de repente,
O alento do calor;
Alento que se estendeu do fogo,
E que lhe veio em sangue ardente,
Em respiração rumorosa de brancos vapores.
Uma dentre elas
Que era preta, violentamente, luzidia;
Que era preta, vagarosamente preta;
Preta e lentamente e luzidia;
Avançando, transpôs o virador;
E foi!
Foi um touro selvagem a princípio
Depois se fez um boi pesado e manso
Correndo as linhas de trilhos: as fitas, os fios, os trilhos de
[linha.
À sua aproximação as agulhas se abriram —
Porteiras de um curral — furos do espaço, aberturas
Para distâncias possíveis... aberturas, costuras
De rápidas passagens em direções ocultas.
Pouco e pouco, mais pouco, pouco a pouco
Ao trem se atrela, ao trem ligando o engate, os freios
Ajustando... ao trem disposto ao longo
Da plataforma — platimorfa, platibanda, alegrete
Canteiro cultivado — florido de gente.
E logo e depois, justo depois ficou imóvel
À espera, no ante-ritmo da espera
No anseio da esperaesperança:
Harmônicos da espera (intervalo! Vocalises do intervalo).
— Foi assim que se fez a composição daquele trem.
Daquele que era o trem, e o último seria.
Publicado no livro Poesias Completas (1971). Poema composto de onze partes.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.124-125
3 782
2
Affonso Ávila
Os Negros de Itaverava
Três negros de Itaverava,
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
1 654
2
Raul Pompéia
Verão
La Débauche et la Mort sont deux animables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l'éternel labeur n'a jamais enfanté.
C. BAUDELAIRE
O verão é o êxtase do fogo.
Desabrocha francamente a primavera púbere. O esplendor
viçoso das formas da juventude aguarda a carícia da asa do
estio que aquece e fecunda. Chega então a festa do amor, a
orgia do fogo.
Fulge no abrasado zênite o sol, como um troféu de espadas
nuas e a natureza enleada pelas serpentes da lascívia estival,
debate-se à luz, vencida, — bela amante que sucumbe
ao amor carnívoro, pungente de um semideus guerreiro, na
própria tenda de campanha, bêbedo ainda do furor do recontro,
excitado pelo cheiro cruento da matança.
Ser amada assim! suspirava a selvagem Rute, meiga e
aérea criança, no fundo misterioso do sangue.
Amor de verão!
Viver a intensidade mortal da vida, arder, arder e morrer,
como o fogo que cresce, cresce e de si mesmo morre, enfermo
do seu triunfo.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.56. (Vera Cruz, 324c
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l'éternel labeur n'a jamais enfanté.
C. BAUDELAIRE
O verão é o êxtase do fogo.
Desabrocha francamente a primavera púbere. O esplendor
viçoso das formas da juventude aguarda a carícia da asa do
estio que aquece e fecunda. Chega então a festa do amor, a
orgia do fogo.
Fulge no abrasado zênite o sol, como um troféu de espadas
nuas e a natureza enleada pelas serpentes da lascívia estival,
debate-se à luz, vencida, — bela amante que sucumbe
ao amor carnívoro, pungente de um semideus guerreiro, na
própria tenda de campanha, bêbedo ainda do furor do recontro,
excitado pelo cheiro cruento da matança.
Ser amada assim! suspirava a selvagem Rute, meiga e
aérea criança, no fundo misterioso do sangue.
Amor de verão!
Viver a intensidade mortal da vida, arder, arder e morrer,
como o fogo que cresce, cresce e de si mesmo morre, enfermo
do seu triunfo.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série II - Amar.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.56. (Vera Cruz, 324c
2 950
2
Augusto dos Anjos
As Montanhas
I
Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!
Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!
Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,
Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!
II
Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!
No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!
Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,
Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!
Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!
Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!
Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,
Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!
II
Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!
No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!
Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,
Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!
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2
Antero de Quental
Lacrimae Rerum
Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!
Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?
Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas…
É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas…
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2
Augusto dos Anjos
Idealização da humanidade futura
Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímppetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímppetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
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2
Fernando Pessoa
III. PADRÃO
O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
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2
Chico Buarque
Mar e Lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
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Chico Buarque
Mar e Lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
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Rosa Lobato de Faria
Vimos chegar as andorinhas
Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão do teu nascimento
tranqüilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão do teu nascimento
tranqüilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.
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Augusto dos Anjos
Versos a um cão
Que força pôde, adstrita a embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!
Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes
Cão! - alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...
E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!
Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes
Cão! - alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...
E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!
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2
Augusto dos Anjos
Alucinação à Beira Mar
Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o telúrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!
Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!... O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus números negros me assombrava!
Mas a alga usufructuária dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,
No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!
Noite alta. Ante o telúrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!
Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!... O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus números negros me assombrava!
Mas a alga usufructuária dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,
No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!
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2
Augusto dos Anjos
O morcego
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede;
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferroolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede;
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferroolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
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Octavio Paz
Irmandade
Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Porém olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.
e é enorme a noite.
Porém olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.
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2
Augusto dos Anjos
A um carneiro morto
Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que fore seu herdeiro!
Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!
Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos - fontes de perdão - perdoaram!
Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que fore seu herdeiro!
Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!
Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos - fontes de perdão - perdoaram!
Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!
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