Poemas neste tema
Outros
Lucy Teixeira
Elegia Fundamental
Metamorfose,
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
os fundamentos de tua lógica
são cimentados de lâminas vivas,
Voraz, Vastíssima, cujos pé não vejo,
as tuas normas
em que ventre ou motor se organizaram?,
pura dilaceração continuada.
Obsessão cantando o seu nome ininterrupto,
nunca verei a tua face,
negra e fulgurante,
vagarosa e veloz,
impiedosa coisa inabalável
que me namora a coisa mais esplêndida;
ainda não, prestidigitadora,
a divertir-se já com o que me foi
suave raiz cujo perfume queimo
neste campo onde se luta uma lembrança.
Começa o teu sigilado festim,
enquanto as correias do ar,
sustentam o pavilhão onde ficamos
cada vez menos acariciados
e gradualmente aturdidos.
Começa o teu discurso, dragão,
e cresta, e cresta
onde em nós é que dói.
.........................................................
Pela manhã
ergue-se o ervatário
indo colher no campo
vagas ervas medicinais.
Colhe a luz do teu sorriso,
plantador cujas mãos,
cobertas de anéis de areia
agora possuem a Terra.
1 262
1
José Terra
Insegurança
Tenho medo de ti, ó meu irmão,
Dessas palavras mansas tenho medo,
Se até as pedras ouvem o segredo
Guardado nos confins do coração ...
Tenho receio, amor, dessa canção
Que tu me cantas, desse teu enredo
Será teu corpo a nau para o degredo.
Teus braços nus a grade da prisão?
Minha mãe! minha mãe! não te confio
O meu destino e é vão esse teu pranto!
Não trairás acaso o filho amado?
Não me conheço nessa voz que rio,
Espreitam-me os assassinos, e, no entanto,
É um criminoso o que ficar calado!
Dessas palavras mansas tenho medo,
Se até as pedras ouvem o segredo
Guardado nos confins do coração ...
Tenho receio, amor, dessa canção
Que tu me cantas, desse teu enredo
Será teu corpo a nau para o degredo.
Teus braços nus a grade da prisão?
Minha mãe! minha mãe! não te confio
O meu destino e é vão esse teu pranto!
Não trairás acaso o filho amado?
Não me conheço nessa voz que rio,
Espreitam-me os assassinos, e, no entanto,
É um criminoso o que ficar calado!
1 091
1
Leila Cristina de Carvalho
Paradoxo
Meu coração partiu-se
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.
964
1
Lisa Lago
Beijo
Uma batida rouca
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
913
1
Lisa Lago
Beijo
Uma batida rouca
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias
As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam
O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir
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1
Maria Alberta Menéres
Água-Memória
Que súbita alegria me tortura
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?
Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?
Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?
Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?
Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?
2 812
1
Linhares Filho
Das Coisas
Meus cabelos captam a voz das coisas
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
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1
Lya Carvalho Jardim
A Casa
Uma casa deve ser ampla
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.
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1
Leda Costa Lima
Meu Nome é Esperança
Eu sou aquela que afasta
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
1 012
1
Luís Filipe Maçarico
Alentejo
Alentejo terra de vento e silêncio
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
1 250
1
Luís Filipe Maçarico
Alentejo
Alentejo terra de vento e silêncio
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
1 250
1
Luís Filipe Maçarico
Alentejo
Alentejo terra de vento e silêncio
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
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1
Luís Delfino
Eva
Surge Adão: Eva após; Deus os exorta.
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.
A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.
Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;
Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
Tinham no Paraíso eterno encanto;
Roubam O fruto, que é vedado, e entanto
Deles toda a ventura é logo morta.
A vista deles Deus já não suporta,
E envolve a face irada em rubro manto;
Cai-lhes dos olhos o primeiro pranto:
Rangeu, o Éden fechando, a brônzea porta.
Tinham lá dentro sândalos e nardos;
O anjo de Deus em fogo a espada eleva;
O Sol golpeia-os com seus áureos dardos;
Urram leões em torno, ao pé, na treva.
Eriça-lhes a terra urzes e cardos...
Mas ao seu lado... Adão inda tem
1 482
1
Valéry Larbaud
Helenismo
Não sei por onde vou, por onde passo.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.
Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.
Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.
Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.
Caminho pelo tempo como um cego
E aquilo que mais quero já renego
Num ceticismo cheio de cansaço.
Sou livre: não mantenho nenhum laço
Além do que me prende ao mesmo ego.
E não tem porto o mar onde navego
Seguindo rotas que por sonhos traço.
Nem sei se é morte a vida ou vida a morte:
A realidade é um vinho muito forte
Que me entontece e deixa adormecido.
Por isso eu amo a Lua e o seu perfume
E sigo sendo o tal bípede implume
Que descreveu um grego falecido.
952
1
Mário Hélio
16-VI(Niilismo)
a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
1 030
1
Valéry Larbaud
Mesmo
Somos ambos o mesmo:
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
Linhas de um mesmo desenho,
Sombras de um mesmo desejo,
Paisagens de luzes violentas
Que um mesmo sol ilumina.
Deixamos igual rastro sobre a neve
E quando a luz da noite nos concede
Alguma música, algum espanto,
Choram nossos olhos igual lágrima.
858
1
Mário Hélio
25-V(A angústia)
a angústia é um barco
a angústia é um porto
a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber
a angústia é um homem
excessivamente morto
a angústia é um porto
a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber
a angústia é um homem
excessivamente morto
616
1
Luís Veiga Leitão
Corredor
Cem metros à sombra — temperatura
de tantos corpos e almas em rodagem.
Neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.
Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.
E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.
E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha dos railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes no cais.
E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança.
de tantos corpos e almas em rodagem.
Neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.
Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.
E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.
E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha dos railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes no cais.
E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança.
1 469
1
Leda Costa Lima
Trabalhando a Terra
Descendo o barranco,
trilhando o caminho
— caminho de barro,
poeira, cascalho,
vou rumo ao trabalho,
ó vale deserto,
ó vale coberto,
por nuvens de fé!
Porei grãos no seio
da terra-promessa,
da terra-esperança!
Meus campos cultivo,
eu planto, semeio,
trabalho cativo!
Enterro a semente
— semente tão frágil
que quer germinar!
Na minha labuta,
meu corpo na luta,
cavando, cavando,
assim vai jorrando,
suor do meu rosto!
Incrível batalha!
Trabalho com gosto,
o arado trabalha
a terra que geme,
a terra que trema,
que quer florescer!
E a máquina ágil
trabalha feroz,
febril, tão veloz!
O solo enobrece
e a planta floresce!
trilhando o caminho
— caminho de barro,
poeira, cascalho,
vou rumo ao trabalho,
ó vale deserto,
ó vale coberto,
por nuvens de fé!
Porei grãos no seio
da terra-promessa,
da terra-esperança!
Meus campos cultivo,
eu planto, semeio,
trabalho cativo!
Enterro a semente
— semente tão frágil
que quer germinar!
Na minha labuta,
meu corpo na luta,
cavando, cavando,
assim vai jorrando,
suor do meu rosto!
Incrível batalha!
Trabalho com gosto,
o arado trabalha
a terra que geme,
a terra que trema,
que quer florescer!
E a máquina ágil
trabalha feroz,
febril, tão veloz!
O solo enobrece
e a planta floresce!
1 221
1
Marcelo Almeida de Oliveira
Ária para Ariano
Salve guerreiro!
vejo que o tempo
não secou tua alma,
continua ela molhada,
como a verde lama
do mangue cinzento
onde tens morada.
Ferozmente guarda a nascente,
cristalina progenitora,
semente já fora,
agora é raiz;
onde banhava nossos pais,
e onde todos devemos.
Salve irmão!
Continua na luta,
e saibas que
Tu és sua sina
e salvação.
Tu és uno!
Tu és una!
vejo que o tempo
não secou tua alma,
continua ela molhada,
como a verde lama
do mangue cinzento
onde tens morada.
Ferozmente guarda a nascente,
cristalina progenitora,
semente já fora,
agora é raiz;
onde banhava nossos pais,
e onde todos devemos.
Salve irmão!
Continua na luta,
e saibas que
Tu és sua sina
e salvação.
Tu és uno!
Tu és una!
962
1
Machado de Assis
Stella
Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.
Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora
À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.
Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera.
Em lágrimas a pares.
Do amor silencioso.
Místico, doce, puro,
Dos sonhos do futuro,
Da paz, do etéreo gozo,
De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.
A virgem da manhã
Já todo o céu domina . . .
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.
Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora
À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.
Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera.
Em lágrimas a pares.
Do amor silencioso.
Místico, doce, puro,
Dos sonhos do futuro,
Da paz, do etéreo gozo,
De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.
A virgem da manhã
Já todo o céu domina . . .
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.
1 716
1
Torquato Neto
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
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Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
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