Poemas neste tema
Outros
Fernando Pessoa
XIX - Set the great Flemish hour aflame!
Set the great Flemish hour aflame!
Your senses of all leisure maim!
Cast down with blows that joy even where they hurt
The hands that mock to avert!
All things pick up to bed that lead ye to
Be naked that ye woo!
Tear up, pluck up, like earth who treasure seek,
When the chest's ring doth peep,
The thoughts that cover thoughts of the acts of heat
This great day does intreat!
Now seem all hands pressing the paps as if
They meant them juice to give!
Now seem all things pairing on one another,
Hard flesh soft flesh to smother,
And hairy legs and buttocks balled to split
White legs mid which they shift.
Yet these mixed mere thoughts in each mind but speak
The day's push love to wreak,
The man's ache to have felt possession,
The woman's man to have on,
The abstract surge of life clearly to reach
The bodies' concrete beach.
Yet some work of this doth the real day don.
Now are skirts lifted in the servants' hall,
And the whored belly's stall
Ope to the horse that enters in a rush,
Half late, too near the gush.
And even now doth an elder guest emmesh
A flushed young girl in a dark nook apart,
And leads her slow to move his produced flesh.
Look how she likes with something in her heart
To feel her hand work the protruded dart!
Your senses of all leisure maim!
Cast down with blows that joy even where they hurt
The hands that mock to avert!
All things pick up to bed that lead ye to
Be naked that ye woo!
Tear up, pluck up, like earth who treasure seek,
When the chest's ring doth peep,
The thoughts that cover thoughts of the acts of heat
This great day does intreat!
Now seem all hands pressing the paps as if
They meant them juice to give!
Now seem all things pairing on one another,
Hard flesh soft flesh to smother,
And hairy legs and buttocks balled to split
White legs mid which they shift.
Yet these mixed mere thoughts in each mind but speak
The day's push love to wreak,
The man's ache to have felt possession,
The woman's man to have on,
The abstract surge of life clearly to reach
The bodies' concrete beach.
Yet some work of this doth the real day don.
Now are skirts lifted in the servants' hall,
And the whored belly's stall
Ope to the horse that enters in a rush,
Half late, too near the gush.
And even now doth an elder guest emmesh
A flushed young girl in a dark nook apart,
And leads her slow to move his produced flesh.
Look how she likes with something in her heart
To feel her hand work the protruded dart!
4 565
1
Fernando Pessoa
Ah, como o sono é a verdade, e a única
Ah, como o sono é a verdade, e a única
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
Sperança, és a ilusão a apodrecer.
Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente;
E a alma se desfaça como um peixe
Atado pelos dedos de um demente...
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
Sperança, és a ilusão a apodrecer.
Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente;
E a alma se desfaça como um peixe
Atado pelos dedos de um demente...
4 959
1
Bocage
Desejo Amante
Elmano, de teus mimos anelante,
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
2 728
1
Bocage
Desejo Amante
Elmano, de teus mimos anelante,
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
Elmano em te admirar, meu bem, não erra;
Incomparáveis dons tua alma encerra,
Ornam mil perfeições o teu semblante:
Granjeias sem vontade a cada instante
Claros triunfos na amorosa guerra:
Tesouro que do Céu vieste à Terra,
Não precisas dos olhos de um amante.
Oh!, se eu pudesse, Amor, oh!, se eu pudesse
Cumprir meu gosto! Se em altar sublime
Os incensos de Jove a Lília desse!
Folgara o coração quanto se oprime;
E a Razão, que os excessos aborrece,
Notando a causa, revelara o crime.
2 728
1
Fernando Pessoa
Quinto: D. AFONSO HENRIQUES
QUINTO
D. AFONSO HENRIQUES
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!
D. AFONSO HENRIQUES
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!
8 039
1
Fernando Pessoa
Primeira: D. DUARTE, REI DE PORTUGAL
AS QUINAS
PRIMEIRA
D. DUARTE
REI DE PORTUGAL
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
26/09/1928
PRIMEIRA
D. DUARTE
REI DE PORTUGAL
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
26/09/1928
4 916
1
Vitorino Nemésio
Semântica Electrónica
Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
2 132
1
Camilo Pessanha
Caminho III
Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.
Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...
Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...
Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar --- encher a alma.
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.
Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...
Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...
Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar --- encher a alma.
3 340
1
Fernando Pessoa
Lembro-me bem do seu olhar.
Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.
Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.
Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.
4 909
1
Fernando Pessoa
Tudo que sinto, tudo quanto penso,
Tudo que sinto, tudo quanto penso,
Sem que eu o queira se me converteu
Numa vasta planície, um vago extenso
Onde há só nada sob o nulo céu.
Não existo senão para saber
Que não existo, e, como a recordar,
Vejo boiar a inércia do meu ser
No meu ser sem inércia, inútil mar.
Sargaço fluido de uma hora incerta,
Quem me dará que o tenha por visão?
Nada, nem o que tolda a descoberta
Com o saber que existe o coração.
09/05/1934
Sem que eu o queira se me converteu
Numa vasta planície, um vago extenso
Onde há só nada sob o nulo céu.
Não existo senão para saber
Que não existo, e, como a recordar,
Vejo boiar a inércia do meu ser
No meu ser sem inércia, inútil mar.
Sargaço fluido de uma hora incerta,
Quem me dará que o tenha por visão?
Nada, nem o que tolda a descoberta
Com o saber que existe o coração.
09/05/1934
4 895
1
Fernando Pessoa
Enfia, a agulha,
Enfia, a agulha,
E ergue do colo
A costura enrugada.
Escuta: (volto a folha
Com desconsolo).
Não ouviste nada.
Os meus poemas, este
E os outros que tenho –
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho
Que ouças sem pensar.
Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio
E que ouves sem saber.
Faz um certo agrado.
Dá-me um certo enleio...
E ler é esquecer.
31/08/1930
E ergue do colo
A costura enrugada.
Escuta: (volto a folha
Com desconsolo).
Não ouviste nada.
Os meus poemas, este
E os outros que tenho –
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho
Que ouças sem pensar.
Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio
E que ouves sem saber.
Faz um certo agrado.
Dá-me um certo enleio...
E ler é esquecer.
31/08/1930
4 456
1
Fernando Pessoa
Enfia, a agulha,
Enfia, a agulha,
E ergue do colo
A costura enrugada.
Escuta: (volto a folha
Com desconsolo).
Não ouviste nada.
Os meus poemas, este
E os outros que tenho –
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho
Que ouças sem pensar.
Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio
E que ouves sem saber.
Faz um certo agrado.
Dá-me um certo enleio...
E ler é esquecer.
31/08/1930
E ergue do colo
A costura enrugada.
Escuta: (volto a folha
Com desconsolo).
Não ouviste nada.
Os meus poemas, este
E os outros que tenho –
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho
Que ouças sem pensar.
Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio
E que ouves sem saber.
Faz um certo agrado.
Dá-me um certo enleio...
E ler é esquecer.
31/08/1930
4 456
1
Fernando Pessoa
Melodia triste sem pranto,
Melodia triste sem pranto,
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
4 411
1
Fernando Pessoa
Melodia triste sem pranto,
Melodia triste sem pranto,
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
4 411
1
Fernando Pessoa
Melodia triste sem pranto,
Melodia triste sem pranto,
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
4 411
1
Fernando Pessoa
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
Inclina-se na haste; e depois volta.
Que bem a fantasia se me solta!
Com que vestígios me descobre agora!
Tédio dos interstícios, onde mora
A fazer de lagarto. – O muro escolta
A minha eterna angústia de revolta
E esse muro sou eu e o que em mim chora.
Não digas mais, pois te ignorei cativo...
Teus olhos lembram o que querem ser,
Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo
Langor do poente que me faz esquecer.
Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,
Perco-te, e o som do mar faz-te perder.
1932
4 363
1
Fernando Pessoa
Vinha elegante, depressa,
Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.
No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...
No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.
14/08/1932
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.
No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...
No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.
14/08/1932
4 877
1
Fernando Pessoa
Vinha elegante, depressa,
Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.
No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...
No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.
14/08/1932
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.
No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...
No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.
14/08/1932
4 877
1
Fernando Pessoa
Vinha elegante, depressa,
Vinha elegante, depressa,
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.
No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...
No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.
14/08/1932
Sem pressa e com um sorriso.
E eu, que sinto co a cabeça,
Fiz logo o poema preciso.
No poema não falo dela
Nem como, adulta menina,
Virava a esquina daquela
Rua que é a eterna esquina...
No poema falo do mar,
Descrevo a onda e a mágoa.
Relê-lo faz-me lembrar
Da esquina dura – ou da água.
14/08/1932
4 877
1
Fernando Pessoa
O grande sol na eira
O grande sol na eira
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
4 496
1
Fernando Pessoa
Onde o sossego dorme
Onde o sossego dorme
Como se fosse alguém
E à noite negra e enorme
Nem luar nem dia vem,
Ali, quieto, absorto
Em nada já saber,
Quero, quando for morto,
Consciente esquecer...
Deixada a vida incerta,
Perdido o gozo e a dor,
Sob essa noite aberta
Sonhar sem o supor...
Até que ao fim de uma era
Que o tempo não contou
O que eu não reavera
Se mude no que eu sou.
19/11/1933
Como se fosse alguém
E à noite negra e enorme
Nem luar nem dia vem,
Ali, quieto, absorto
Em nada já saber,
Quero, quando for morto,
Consciente esquecer...
Deixada a vida incerta,
Perdido o gozo e a dor,
Sob essa noite aberta
Sonhar sem o supor...
Até que ao fim de uma era
Que o tempo não contou
O que eu não reavera
Se mude no que eu sou.
19/11/1933
4 917
1
Fernando Pessoa
Onde o sossego dorme
Onde o sossego dorme
Como se fosse alguém
E à noite negra e enorme
Nem luar nem dia vem,
Ali, quieto, absorto
Em nada já saber,
Quero, quando for morto,
Consciente esquecer...
Deixada a vida incerta,
Perdido o gozo e a dor,
Sob essa noite aberta
Sonhar sem o supor...
Até que ao fim de uma era
Que o tempo não contou
O que eu não reavera
Se mude no que eu sou.
19/11/1933
Como se fosse alguém
E à noite negra e enorme
Nem luar nem dia vem,
Ali, quieto, absorto
Em nada já saber,
Quero, quando for morto,
Consciente esquecer...
Deixada a vida incerta,
Perdido o gozo e a dor,
Sob essa noite aberta
Sonhar sem o supor...
Até que ao fim de uma era
Que o tempo não contou
O que eu não reavera
Se mude no que eu sou.
19/11/1933
4 917
1
Fernando Pessoa
Flui, indeciso na bruma,
Flui, indeciso na bruma,
Mais do que a bruma indeciso,
Um ser que é coisa a achar
E a quem nada é preciso.
Quer somente consistir
No nada que o cerca ao ser,
Um começo de existir
Que acabou antes de o ter.
É o sentido que existe
Na aragem que mal se sente
E cuja essência consiste
Em passar incertamente.
26/04/1934
Mais do que a bruma indeciso,
Um ser que é coisa a achar
E a quem nada é preciso.
Quer somente consistir
No nada que o cerca ao ser,
Um começo de existir
Que acabou antes de o ter.
É o sentido que existe
Na aragem que mal se sente
E cuja essência consiste
Em passar incertamente.
26/04/1934
4 697
1