Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

1901–1978 · viveu 76 anos PT PT

Vitorino Nemésio foi um proeminente poeta, romancista e ensaísta português, cuja obra se destaca pela profundidade lírica e pela exploração da identidade açoriana e portuguesa. A sua escrita é marcada por uma linguagem rica e musical, frequentemente evocando a paisagem e a cultura das ilhas onde nasceu. Nemésio foi também uma figura importante no mundo académico e cultural, tendo deixado um legado duradouro na literatura lusófona.

n. 1901-12-19, Praia da Vitória · m. 1978-02-20, Lisboa

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A Concha

A Concha

A minha casa é concha.Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés,a sonhos e lixos,

O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O orgulho carregado de inocência

Se às vezes dá uma varanda,vence-a

O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro,e escadarias

Frágeis,cobertas de hera,on bronze falso!

Lareira aberta ao vento,as salas frias.

A minha casa...Mas é outra história:

Sou eu ao vento e à chuva,aqui descalço,

Sentado numa pedra de memória.

de O Bicho Harmonioso

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Biografia

Identificação e contexto básico

Vitorino Máximo de Sousa Freire Nemésio era um escritor português, conhecido principalmente pela sua poesia, mas também autor de romances e ensaios. Nasceu nos Açores, em Praia da Vitória, Terceira, a 21 de fevereiro de 1901, e faleceu em Lisboa, a 2 de março de 1978. A sua obra está intrinsecamente ligada à sua identidade açoriana, que explora com profundidade e afeto, entrelaçando-a com a identidade portuguesa mais ampla. Escreveu em português.

Infância e formação

Nascido numa família com posses e ligações à política local, Nemésio teve uma infância marcada pela beleza e isolamento do arquipélago dos Açores. A sua formação intelectual foi sólida, tendo concluído o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Desde cedo, manifestou um grande interesse pela literatura e pela cultura, absorvendo influências que iriam moldar a sua visão de mundo e a sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Vitorino Nemésio começou cedo, com a publicação dos seus primeiros poemas ainda na juventude. Ao longo da sua vida, publicou uma vasta obra poética, que evoluiu em termos de estilo e temática, mas manteve sempre uma forte ligação à sua terra natal e a uma lírica de grande sensibilidade. Foi também professor universitário e teve um papel ativo na divulgação da cultura portuguesa, colaborando em diversas publicações e antologias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais conhecidas encontram-se "O Bicho Harmonioso" (1938), "Nem Mais Um Dia" (1940), "A Secreta Viagem" (1950) e "Oração de Panorama" (1958). Nemésio explora temas como o amor, a saudade, a passagem do tempo, a natureza exuberante dos Açores, a identidade e a condição humana. O seu estilo caracteriza-se por uma linguagem culta mas acessível, por uma musicalidade notável e pelo uso de imagens vívidas e evocativas. Frequentemente recorreu a formas mais tradicionais, como o soneto, mas também experimentou com o verso livre. A sua poesia tem um tom predominantemente lírico e confessional, mas também pode ser marcadamente reflexiva e elegíaca.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Vitorino Nemésio viveu e escreveu durante um período significativo da história portuguesa, abrangendo a Ditadura Militar, o Estado Novo e os anos de transição para a democracia. A sua obra reflete, de forma subtil, as preocupações existenciais e identitárias de um Portugal em transformação. Foi contemporâneo de outros grandes nomes da literatura portuguesa, com os quais partilhou um cenário cultural efervescente, mas manteve sempre uma voz autêntica e distintiva.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Vitorino Nemésio foi casado e teve filhos. A sua ligação aos Açores foi uma constante ao longo da vida, sendo um embaixador da cultura insular em Portugal continental. Foi professor universitário, dedicando-se ao ensino e à investigação na área da Filologia Românica, o que influenciou a sua profunda cultura literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Nemésio é amplamente reconhecido como um dos grandes poetas portugueses do século XX. A sua obra tem sido objeto de estudo e admiração tanto em Portugal como no estrangeiro. Recebeu diversos prémios e honrarias ao longo da sua carreira, consolidando o seu lugar no cânone da literatura de língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por autores como Fernando Pessoa e Camilo Pessanha, Vitorino Nemésio, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas com a sua sensibilidade lírica e a sua forma única de expressar a açorianidade. O seu legado reside na forma como conseguiu fundir a paisagem e a alma dos Açores com a universalidade da experiência humana, deixando uma obra de inegável valor estético e emocional.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Nemésio tem sido analisada sob diversas perspetivas, desde a exploração da identidade regional até à reflexão sobre temas universais como a finitude e a busca por sentido. A sua poesia é frequentemente vista como um testemunho da relação intrínseca entre o indivíduo, a terra e o cosmos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua faceta de poeta e professor, Nemésio foi um apaixonado pela cultura e história dos Açores, dedicando-se à investigação e divulgação do património insular. A sua obra poética, embora muitas vezes melancólica, está também impregnada de uma profunda vitalidade e de um amor pela vida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Vitorino Nemésio faleceu em Lisboa, em 1978. A sua memória é celebrada através da sua obra, que continua a ser lida e estudada, e pela sua relevância como um dos mais importantes poetas portugueses do século XX, com um lugar de destaque na literatura dos Açores.

Poemas

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A Concha

A Concha

A minha casa é concha.Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés,a sonhos e lixos,

O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O orgulho carregado de inocência

Se às vezes dá uma varanda,vence-a

O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro,e escadarias

Frágeis,cobertas de hera,on bronze falso!

Lareira aberta ao vento,as salas frias.

A minha casa...Mas é outra história:

Sou eu ao vento e à chuva,aqui descalço,

Sentado numa pedra de memória.

de O Bicho Harmonioso

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Morte Pensada

Experimentei a Morte na cabeça

(No coração,só se ele parasse).

Mas,por mais que a conheça,

Não se pensa a Morte:dá-se.

Que a morte não é ser,sendo ela tudo,

Nem pessoa será,que tantas leva:

É um lá ou além,último som agudo

A que não chega a voz de vivo.Nem

Chove ou neva

Onde campa é a terra de ninguém.
Não morremos sequer:matamos a alma

Enternecida pelo corpo terno.

E ela lá vai,sua alma sua palma,

Que nem morre no Inferno.

de Sapateia Açoriana E Mais
Poemas

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A Árvore do silêncio

Se a nossa voz crescesse,onde era a árvore?

Em que pontas,a corola do silêncio?

Coração já cansado,és a raiz:

Uma ave te passe a outro páis.

Coisas de terra são palavra.

Semeia o que calou.

Não faz sentido quem lavra

Se o não colhe do que amou.

Assim,sílaba e folha,porque não

Num só ramo levá-las

com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)

de Canto De Véspera

2 574

Versos a uma cabrinha que eu tive

Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo 
Equilibrado.

 
2 776

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Poesia, 1935-1940)

3 297

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

5 529

Requiescat

Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.

Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.

15 de junho de 1971

(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)

1 804

Navio

Tenho a carne dorida

Do pousar de umas aves

Que não sei de onde são:

Só sei que gostam de vida

Picada em meu coração.

Quando vêm,vêm suaves;

Partindo,tão gordas vão!
Como eu gosto de estar

Aqui na minha janela

A dar miolos às aves!

Ponho-me a olhar para o mar:

-Olha-me um navio sem rumo!

E,de vê-lo,dá-lho a vela,

Ou sejam meus cílios tristes:

A ave e a nave,em resumo,

Aqui,na minha janela.

de Nem Toda A Noite A
Vida

2 365

O recorte de um cão,na areia,ao luar,

Seu passo imprime

O cuidado miúdo e honesto de passar.

Mas que tristeza oprime

Tanto cão que vai uivar a tanta eira?

Que longo e liso,o fio da noite!

-E amar,esperar desta maneira!

Numa cidade deserta

(Talvez outra,ou Nínive)

Encontrei um anel,uma oferta,

Da vértebra de um cão,

Para uma mulher que já não vive.

Mas tudo isso foi em vão,

E até nem sei se esse osso tive.

de Eu,Comovido A
Oeste

1 751

Regresso

Ao coronel Sacadura

Cavalo e cavaleiro o vento adornam

Com uma pata e uma pluma;

À tarde unidos tornam,

Um estame de sangue numa rosa de espuma.

Tanta pressa,para coisa nenhuma.

de O Cavalo Encantado

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