Poemas neste tema
Outros
Herberto Helder
3
Se abro os braços e rodo a toda a volta da luz. Se
a melodia. Se o copo freme na minha boca.
Se o vidro queima.
Se uma chaga.
Uma estrela que me calcina onde sou misterioso,
parado, leve.
Que a linha então com a agonia tão alto transcreve a música.
Porque são os filhos vivos da minha água
vibrante, do meu fôlego, mão a mão dos raios
de quando adormeço. Fibras que latejam
ao arrancarem-se. Com que varejo
trançadas em paus varejo
a árvore astral defronte com as bagas no escuro.
Áureos galhos onde friso as consoantes do canto abalado. Se o canto
perde o ouro.
Não perde o canto munificente o arrepio o baptismo
filho a filho
crispados com um cordão negro. Glóbulos
brilham pelas palavras dentro.
Esse tecido em sangue e incandescência que um hausto enche
filhos — a frase escrita em mim
amargamente às vezes
um tubo de flúor estua e fulgura na substância púrpura
onde se geram os filhos pulsando sem anéis nos dedos —
a melodia. Se o copo freme na minha boca.
Se o vidro queima.
Se uma chaga.
Uma estrela que me calcina onde sou misterioso,
parado, leve.
Que a linha então com a agonia tão alto transcreve a música.
Porque são os filhos vivos da minha água
vibrante, do meu fôlego, mão a mão dos raios
de quando adormeço. Fibras que latejam
ao arrancarem-se. Com que varejo
trançadas em paus varejo
a árvore astral defronte com as bagas no escuro.
Áureos galhos onde friso as consoantes do canto abalado. Se o canto
perde o ouro.
Não perde o canto munificente o arrepio o baptismo
filho a filho
crispados com um cordão negro. Glóbulos
brilham pelas palavras dentro.
Esse tecido em sangue e incandescência que um hausto enche
filhos — a frase escrita em mim
amargamente às vezes
um tubo de flúor estua e fulgura na substância púrpura
onde se geram os filhos pulsando sem anéis nos dedos —
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Dons do Amante
Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
1 231
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 284
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 284
Herberto Helder
9
Uma razão e as suas palavras, não sou leve não tenho
o dom de um paraíso de avenças rutilando
ao frio. Estou defronte na malha arterial da minha roupa rosto
dedada a dedada.
E o sangue nos alvéolos, unhas sexo pêlo.
Tenho dentes de mármore que crescem se falo ou cômo tenho os
dentes
arrefecidos à comemoração da água.
Tu és a mulher profundamente visitada. Dedo
contra dedo. Para que passe
o pneuma:
poder, inocência, morte.
Os sítios nunca param: fileiras de objectos astrais
uns acima dos outros.
Queria chamar a água intensa para cercar-te com uma faixa,
que te fizesses a ti mesma por essa intensidade da água.
Que Deus é súbito diante
quando é mamífera a criatura incandescente, quando é
sangrenta. Exemplo do mundo:
flauta tocada por quem sabe que génio de música.
Porque a razão é ter um galho nos dedos e que,
pelo calor dos dedos, o galho
floresça. Bater com ele no cabelo até ficar iluminado bater
na blusa para a brancura subir no torso:
desentranhar-te as reservas de aura.
E se o galho te roça pela cara, ver como se faz tão cara acima.
E que o espaço se torne visível à volta de galho e mão e cara
sobressaltada. Queria abrir-te a cabeça pela estria dulcíssima do sono
arrancar a estrela hídrica. Em carne
pensadora começar por garganta e língua a razão e as suas
palavras com os raios
em torno. Para que fiquem abertas as entradas: um
ao outro nos levávamos. Nadando nos espelhos sustendo
o fôlego unindo
pelas ramagens as cicatrizes do tórax.
E avançar fundidos num só corpo de canto.
Porque do ouro extraído às cavernas apuro um fio
fecho-te o rosto no fio puro.
Com uma trama pode urdir-se a máscara
moldar o tronco de duas pessoas numa estrela única
podem-se fazer com ouro do abismo
os membros que tem uma estrela para andar até à porta. Um nó de dois
laçado à mão, abrasadora.
Toda a enxameação de nadadores profundos
meu amor do reino animal amor
o inferno —
o dom de um paraíso de avenças rutilando
ao frio. Estou defronte na malha arterial da minha roupa rosto
dedada a dedada.
E o sangue nos alvéolos, unhas sexo pêlo.
Tenho dentes de mármore que crescem se falo ou cômo tenho os
dentes
arrefecidos à comemoração da água.
Tu és a mulher profundamente visitada. Dedo
contra dedo. Para que passe
o pneuma:
poder, inocência, morte.
Os sítios nunca param: fileiras de objectos astrais
uns acima dos outros.
Queria chamar a água intensa para cercar-te com uma faixa,
que te fizesses a ti mesma por essa intensidade da água.
Que Deus é súbito diante
quando é mamífera a criatura incandescente, quando é
sangrenta. Exemplo do mundo:
flauta tocada por quem sabe que génio de música.
Porque a razão é ter um galho nos dedos e que,
pelo calor dos dedos, o galho
floresça. Bater com ele no cabelo até ficar iluminado bater
na blusa para a brancura subir no torso:
desentranhar-te as reservas de aura.
E se o galho te roça pela cara, ver como se faz tão cara acima.
E que o espaço se torne visível à volta de galho e mão e cara
sobressaltada. Queria abrir-te a cabeça pela estria dulcíssima do sono
arrancar a estrela hídrica. Em carne
pensadora começar por garganta e língua a razão e as suas
palavras com os raios
em torno. Para que fiquem abertas as entradas: um
ao outro nos levávamos. Nadando nos espelhos sustendo
o fôlego unindo
pelas ramagens as cicatrizes do tórax.
E avançar fundidos num só corpo de canto.
Porque do ouro extraído às cavernas apuro um fio
fecho-te o rosto no fio puro.
Com uma trama pode urdir-se a máscara
moldar o tronco de duas pessoas numa estrela única
podem-se fazer com ouro do abismo
os membros que tem uma estrela para andar até à porta. Um nó de dois
laçado à mão, abrasadora.
Toda a enxameação de nadadores profundos
meu amor do reino animal amor
o inferno —
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Herberto Helder
9
Uma razão e as suas palavras, não sou leve não tenho
o dom de um paraíso de avenças rutilando
ao frio. Estou defronte na malha arterial da minha roupa rosto
dedada a dedada.
E o sangue nos alvéolos, unhas sexo pêlo.
Tenho dentes de mármore que crescem se falo ou cômo tenho os
dentes
arrefecidos à comemoração da água.
Tu és a mulher profundamente visitada. Dedo
contra dedo. Para que passe
o pneuma:
poder, inocência, morte.
Os sítios nunca param: fileiras de objectos astrais
uns acima dos outros.
Queria chamar a água intensa para cercar-te com uma faixa,
que te fizesses a ti mesma por essa intensidade da água.
Que Deus é súbito diante
quando é mamífera a criatura incandescente, quando é
sangrenta. Exemplo do mundo:
flauta tocada por quem sabe que génio de música.
Porque a razão é ter um galho nos dedos e que,
pelo calor dos dedos, o galho
floresça. Bater com ele no cabelo até ficar iluminado bater
na blusa para a brancura subir no torso:
desentranhar-te as reservas de aura.
E se o galho te roça pela cara, ver como se faz tão cara acima.
E que o espaço se torne visível à volta de galho e mão e cara
sobressaltada. Queria abrir-te a cabeça pela estria dulcíssima do sono
arrancar a estrela hídrica. Em carne
pensadora começar por garganta e língua a razão e as suas
palavras com os raios
em torno. Para que fiquem abertas as entradas: um
ao outro nos levávamos. Nadando nos espelhos sustendo
o fôlego unindo
pelas ramagens as cicatrizes do tórax.
E avançar fundidos num só corpo de canto.
Porque do ouro extraído às cavernas apuro um fio
fecho-te o rosto no fio puro.
Com uma trama pode urdir-se a máscara
moldar o tronco de duas pessoas numa estrela única
podem-se fazer com ouro do abismo
os membros que tem uma estrela para andar até à porta. Um nó de dois
laçado à mão, abrasadora.
Toda a enxameação de nadadores profundos
meu amor do reino animal amor
o inferno —
o dom de um paraíso de avenças rutilando
ao frio. Estou defronte na malha arterial da minha roupa rosto
dedada a dedada.
E o sangue nos alvéolos, unhas sexo pêlo.
Tenho dentes de mármore que crescem se falo ou cômo tenho os
dentes
arrefecidos à comemoração da água.
Tu és a mulher profundamente visitada. Dedo
contra dedo. Para que passe
o pneuma:
poder, inocência, morte.
Os sítios nunca param: fileiras de objectos astrais
uns acima dos outros.
Queria chamar a água intensa para cercar-te com uma faixa,
que te fizesses a ti mesma por essa intensidade da água.
Que Deus é súbito diante
quando é mamífera a criatura incandescente, quando é
sangrenta. Exemplo do mundo:
flauta tocada por quem sabe que génio de música.
Porque a razão é ter um galho nos dedos e que,
pelo calor dos dedos, o galho
floresça. Bater com ele no cabelo até ficar iluminado bater
na blusa para a brancura subir no torso:
desentranhar-te as reservas de aura.
E se o galho te roça pela cara, ver como se faz tão cara acima.
E que o espaço se torne visível à volta de galho e mão e cara
sobressaltada. Queria abrir-te a cabeça pela estria dulcíssima do sono
arrancar a estrela hídrica. Em carne
pensadora começar por garganta e língua a razão e as suas
palavras com os raios
em torno. Para que fiquem abertas as entradas: um
ao outro nos levávamos. Nadando nos espelhos sustendo
o fôlego unindo
pelas ramagens as cicatrizes do tórax.
E avançar fundidos num só corpo de canto.
Porque do ouro extraído às cavernas apuro um fio
fecho-te o rosto no fio puro.
Com uma trama pode urdir-se a máscara
moldar o tronco de duas pessoas numa estrela única
podem-se fazer com ouro do abismo
os membros que tem uma estrela para andar até à porta. Um nó de dois
laçado à mão, abrasadora.
Toda a enxameação de nadadores profundos
meu amor do reino animal amor
o inferno —
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Herberto Helder
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Uma razão e as suas palavras, não sou leve não tenho
o dom de um paraíso de avenças rutilando
ao frio. Estou defronte na malha arterial da minha roupa rosto
dedada a dedada.
E o sangue nos alvéolos, unhas sexo pêlo.
Tenho dentes de mármore que crescem se falo ou cômo tenho os
dentes
arrefecidos à comemoração da água.
Tu és a mulher profundamente visitada. Dedo
contra dedo. Para que passe
o pneuma:
poder, inocência, morte.
Os sítios nunca param: fileiras de objectos astrais
uns acima dos outros.
Queria chamar a água intensa para cercar-te com uma faixa,
que te fizesses a ti mesma por essa intensidade da água.
Que Deus é súbito diante
quando é mamífera a criatura incandescente, quando é
sangrenta. Exemplo do mundo:
flauta tocada por quem sabe que génio de música.
Porque a razão é ter um galho nos dedos e que,
pelo calor dos dedos, o galho
floresça. Bater com ele no cabelo até ficar iluminado bater
na blusa para a brancura subir no torso:
desentranhar-te as reservas de aura.
E se o galho te roça pela cara, ver como se faz tão cara acima.
E que o espaço se torne visível à volta de galho e mão e cara
sobressaltada. Queria abrir-te a cabeça pela estria dulcíssima do sono
arrancar a estrela hídrica. Em carne
pensadora começar por garganta e língua a razão e as suas
palavras com os raios
em torno. Para que fiquem abertas as entradas: um
ao outro nos levávamos. Nadando nos espelhos sustendo
o fôlego unindo
pelas ramagens as cicatrizes do tórax.
E avançar fundidos num só corpo de canto.
Porque do ouro extraído às cavernas apuro um fio
fecho-te o rosto no fio puro.
Com uma trama pode urdir-se a máscara
moldar o tronco de duas pessoas numa estrela única
podem-se fazer com ouro do abismo
os membros que tem uma estrela para andar até à porta. Um nó de dois
laçado à mão, abrasadora.
Toda a enxameação de nadadores profundos
meu amor do reino animal amor
o inferno —
o dom de um paraíso de avenças rutilando
ao frio. Estou defronte na malha arterial da minha roupa rosto
dedada a dedada.
E o sangue nos alvéolos, unhas sexo pêlo.
Tenho dentes de mármore que crescem se falo ou cômo tenho os
dentes
arrefecidos à comemoração da água.
Tu és a mulher profundamente visitada. Dedo
contra dedo. Para que passe
o pneuma:
poder, inocência, morte.
Os sítios nunca param: fileiras de objectos astrais
uns acima dos outros.
Queria chamar a água intensa para cercar-te com uma faixa,
que te fizesses a ti mesma por essa intensidade da água.
Que Deus é súbito diante
quando é mamífera a criatura incandescente, quando é
sangrenta. Exemplo do mundo:
flauta tocada por quem sabe que génio de música.
Porque a razão é ter um galho nos dedos e que,
pelo calor dos dedos, o galho
floresça. Bater com ele no cabelo até ficar iluminado bater
na blusa para a brancura subir no torso:
desentranhar-te as reservas de aura.
E se o galho te roça pela cara, ver como se faz tão cara acima.
E que o espaço se torne visível à volta de galho e mão e cara
sobressaltada. Queria abrir-te a cabeça pela estria dulcíssima do sono
arrancar a estrela hídrica. Em carne
pensadora começar por garganta e língua a razão e as suas
palavras com os raios
em torno. Para que fiquem abertas as entradas: um
ao outro nos levávamos. Nadando nos espelhos sustendo
o fôlego unindo
pelas ramagens as cicatrizes do tórax.
E avançar fundidos num só corpo de canto.
Porque do ouro extraído às cavernas apuro um fio
fecho-te o rosto no fio puro.
Com uma trama pode urdir-se a máscara
moldar o tronco de duas pessoas numa estrela única
podem-se fazer com ouro do abismo
os membros que tem uma estrela para andar até à porta. Um nó de dois
laçado à mão, abrasadora.
Toda a enxameação de nadadores profundos
meu amor do reino animal amor
o inferno —
1 059
Herberto Helder
7
Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
1 127
Herberto Helder
7
Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
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Herberto Helder
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Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
1 127
Herberto Helder
Cinco Poemas Esquimós
Levanto-me da cama com gestos
semelhantes aos golpes de asa
de um corvo rápido.
Levanto-me
para saudar o dia.
Uá, uá!
Minha face afasta-se das trevas da noite
e olha para a aurora
que se abre.
O grande fluxo do oceano põe-me em movimento,
faz-me flutuar.
Flutuo como a alga à superfície das águas.
E a abóbada celeste abala-me e o ar violento
abala o meu espírito
e atira-me sobre a poeira.
E eu tremo de alegria.
Os mortos que sobem ao céu
por degraus sobem ao céu,
por velhos degraus já gastos.
Todos os mortos que sobem ao céu
por degraus gastos,
gastos ao contrário,
gastos por dentro,
sobem ao céu.
Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
— Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
I
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
O invocador te chama.
Vem, e purifica esta terra.
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
Levanto-me:
é no meio dos espíritos que eu me levanto.
Os invocadores me protegem,
conduzem-me por entre os espíritos.
Criança, criança, grande criança,
levanta-te e vem,
grande criança, pequena criança,
aparece entre nós.
II
Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem e
procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.
Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.
Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.
E um espírito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
semelhantes aos golpes de asa
de um corvo rápido.
Levanto-me
para saudar o dia.
Uá, uá!
Minha face afasta-se das trevas da noite
e olha para a aurora
que se abre.
O grande fluxo do oceano põe-me em movimento,
faz-me flutuar.
Flutuo como a alga à superfície das águas.
E a abóbada celeste abala-me e o ar violento
abala o meu espírito
e atira-me sobre a poeira.
E eu tremo de alegria.
Os mortos que sobem ao céu
por degraus sobem ao céu,
por velhos degraus já gastos.
Todos os mortos que sobem ao céu
por degraus gastos,
gastos ao contrário,
gastos por dentro,
sobem ao céu.
Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
— Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
I
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
O invocador te chama.
Vem, e purifica esta terra.
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
Levanto-me:
é no meio dos espíritos que eu me levanto.
Os invocadores me protegem,
conduzem-me por entre os espíritos.
Criança, criança, grande criança,
levanta-te e vem,
grande criança, pequena criança,
aparece entre nós.
II
Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem e
procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.
Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.
Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.
E um espírito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
1 168
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - As Três Claridades
A Lua a leste,
a oeste as Pléiades,
o meu amado
ao meio.
a oeste as Pléiades,
o meu amado
ao meio.
1 069
Herberto Helder
6
Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
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Herberto Helder
6
Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
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Herberto Helder
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Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
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Herberto Helder
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Os lugares uns nos outros — e se alguém está lá dentro com grandes
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
nós de carne:
por cima a cara. Ele disse: esperava que ficasse iluminada.
Queria pintar os anjos.
Levara algumas palavras altas, música.
Ninguém pinta os anjos mas uma força, as formas dessa força
por exemplo: sopram os átomos,
acende-se o cabelo, mãos faiscam: cada
coisa que tocam essa
coisa faísca. Eu precisava de silêncio, disse ele.
A maneira visitada de assim dormir com a noite,
territórios fechados da cabeça, os braços.
Escuta a música: riqueza, dor da memória, jubilação.
As palavras verde na sombra, entusiasmo do branco, ouro
dimanado — música música.
Pinta-se às vezes, sim, às vezes levita-se, outras alguém sussurra ao
ouvido.
De repente fica-se ofuscante.
Por mais janelas que se ponham nesses lugares opacos que nos deram
ninguém sabe.
Basta um nome aprendido a dormir, o movimento dos dedos
em redor do copo. Enche-se por si mesmo,
um copo: visão e mistério e idioma
imaculado. Foi para desentranhar da coisa mental que é a pintura:
os anjos. Que anjos?
Colinas chegam junto à cabeça, a cabeça fica, isto é:
girando do ombro esquerdo para o ombro direito,
a lua silvestre. Um anjo?
A morte tem uma doce habilidade doméstica:
abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos.
Anjo.
Há dias tão difíceis que preciso do arco-íris, diz ele,
trato dos cortiços, as abelhas bruxuleiam no sono, fazem mel, o mel
alucina-me,
escurece-me.
À noite enche-me um gás rutilante, vou para os espelhos astrais,
os espelhos atravessam as minhas câmaras, ardo nas câmaras.
Brilhando, morro.
Poderia pintar os anjos brilhando.
Se ao dedo tirasse o anel, se ao cabelo cortasse a madeixa viva,
se vertesse no papel uma gota do meu sangue.
Trabalho no forno até ficar calcinado
louco
soberano como um negro com boca de ouro,
rodeado por uma tribo de anjos com boca de ouro.
Às vezes basta uma palavra: Deus.
E ouço a música, pinto o inferno.
E uma espécie de inocência ardente, um modo de ir para longe.
Sou elementar, anjos são os primeiros nomes.
Vim para debaixo dos holofotes, queria fulgurar da cabeça aos pés.
Que as abelhas amadurecessem nas campânulas.
Queria um espelho de um tamanho selvagem,
(jue o espelho se vergasse quando eu me abaixava para arrancar
linhas de diaman
era o fulcro, abraso
onde começo.
E então pintava o mundo com as linhas ferozes, paralelos, meridianos
1 093
Herberto Helder
Canções Indonésias
Perdi uma pérola na erva.
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
1 040
Herberto Helder
3
beleza de manhãs arrefecidas sobre o aniquilamento,
paz vertente
passada por manhãs em sopro
de brancura, sob a pressão esplendente do vazio,
sem uma pausa, continuadas, propensas,
num plano difundido, embriaguez estática, êxtase
horizontal, levitante paragem, quase
apaixonamento, quase desgaste para trás,
quase um pouco de tempo na sumptuária ausência
do espaço dessas manhãs, e como de repente
se perfuram de velocidades internas,
como se apressam de uma miriápode troca
de atenção, escarpas no ar bruto,
centro de buracos deslumbrantes,
a convulsa clareira dessas manhãs que se extenuam dentro,
energia,
relampejante textura, uma espécie
de fruta rachada fria, para uma treva sua se retiram
as manhãs respondidas,
toda a beleza assintáctica, uma cara arrasada
por lunações abruptas,
a madeira fulminada pelo tacto doloroso,
pistas de esporões e tramas vivas,
os jactos do néon filtrado a prumo,
e as manhãs ressuscitam, primitivas, surpreendidas
paz vertente
passada por manhãs em sopro
de brancura, sob a pressão esplendente do vazio,
sem uma pausa, continuadas, propensas,
num plano difundido, embriaguez estática, êxtase
horizontal, levitante paragem, quase
apaixonamento, quase desgaste para trás,
quase um pouco de tempo na sumptuária ausência
do espaço dessas manhãs, e como de repente
se perfuram de velocidades internas,
como se apressam de uma miriápode troca
de atenção, escarpas no ar bruto,
centro de buracos deslumbrantes,
a convulsa clareira dessas manhãs que se extenuam dentro,
energia,
relampejante textura, uma espécie
de fruta rachada fria, para uma treva sua se retiram
as manhãs respondidas,
toda a beleza assintáctica, uma cara arrasada
por lunações abruptas,
a madeira fulminada pelo tacto doloroso,
pistas de esporões e tramas vivas,
os jactos do néon filtrado a prumo,
e as manhãs ressuscitam, primitivas, surpreendidas
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Herberto Helder
3
beleza de manhãs arrefecidas sobre o aniquilamento,
paz vertente
passada por manhãs em sopro
de brancura, sob a pressão esplendente do vazio,
sem uma pausa, continuadas, propensas,
num plano difundido, embriaguez estática, êxtase
horizontal, levitante paragem, quase
apaixonamento, quase desgaste para trás,
quase um pouco de tempo na sumptuária ausência
do espaço dessas manhãs, e como de repente
se perfuram de velocidades internas,
como se apressam de uma miriápode troca
de atenção, escarpas no ar bruto,
centro de buracos deslumbrantes,
a convulsa clareira dessas manhãs que se extenuam dentro,
energia,
relampejante textura, uma espécie
de fruta rachada fria, para uma treva sua se retiram
as manhãs respondidas,
toda a beleza assintáctica, uma cara arrasada
por lunações abruptas,
a madeira fulminada pelo tacto doloroso,
pistas de esporões e tramas vivas,
os jactos do néon filtrado a prumo,
e as manhãs ressuscitam, primitivas, surpreendidas
paz vertente
passada por manhãs em sopro
de brancura, sob a pressão esplendente do vazio,
sem uma pausa, continuadas, propensas,
num plano difundido, embriaguez estática, êxtase
horizontal, levitante paragem, quase
apaixonamento, quase desgaste para trás,
quase um pouco de tempo na sumptuária ausência
do espaço dessas manhãs, e como de repente
se perfuram de velocidades internas,
como se apressam de uma miriápode troca
de atenção, escarpas no ar bruto,
centro de buracos deslumbrantes,
a convulsa clareira dessas manhãs que se extenuam dentro,
energia,
relampejante textura, uma espécie
de fruta rachada fria, para uma treva sua se retiram
as manhãs respondidas,
toda a beleza assintáctica, uma cara arrasada
por lunações abruptas,
a madeira fulminada pelo tacto doloroso,
pistas de esporões e tramas vivas,
os jactos do néon filtrado a prumo,
e as manhãs ressuscitam, primitivas, surpreendidas
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
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Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
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Herberto Helder
7
nervuras respirantes, agulhas, veios luzindo
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
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Herberto Helder
7
nervuras respirantes, agulhas, veios luzindo
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
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