Poemas neste tema
Outros
Daniel Lima
Ao nasceres
Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
875
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
762
Francesca Angiolillo
Parêntesis
(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
599
Francesca Angiolillo
Parêntesis
(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
599
Renato Rezende
[Filtros]
Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
844
Renato Rezende
[Ossos]
Eu fazia, fazia e continuava com a sensação de ser nada. Vazio. Enquanto você, sem fazer nada, era. É. Me ensina a ser, assim, já sendo—sem esse constante vir a ser.
Segure o Amor e solte todo o resto.
Solta.
Tudo é perfeito habitando o Amor,
Amor,
Eu te mando pelo correio um grande coração de chocolate, para você devorar de olhos fechados, como se fosse o meu próprio coração apaixonado.
[depois me manda de volta,
num potinho,
o resultado do meu amor no seu sistema digestivo]
eu te amo desta forma ardente porque sei que nosso amor nunca
vai se realizar
eu te amo porque você é impossível
eu te faço impossível para poder te amar
eu gozo no impossível
eu quero o impossível
[eu sou um poeta místico?]
(Fecho os olhos e me deito sob o sol, fora do tempo, sem história ou linguagem)
Meus olhos estão leves, como se flutuassem fora do corpo.
Sou um homem casto e uma mulher devassa
Com doçura imagino ser devorado por demônios, enormes insetos cegos com garras, até que só restem os ossos, o esqueleto ardente
O sol explode no centro do meu coeur.
O mago ordenou entoando em língua de mortos
que cortassem meu corpo
limpassem meus ossos
recobrindo tudo
com carne nova
Vi o corpo todo em fogo. É preciso incendiar o corpo. Preciso
explodir no aqui.
Emergir do lado de lá.
Como reinventar-se? Como dar nascimento a si mesmo?
Não na linguagem, mas no próprio ser?
O corpo é a linguagem.
Quem inspira e expira em mim agora são meus pés.
Segure o Amor e solte todo o resto.
Solta.
Tudo é perfeito habitando o Amor,
Amor,
Eu te mando pelo correio um grande coração de chocolate, para você devorar de olhos fechados, como se fosse o meu próprio coração apaixonado.
[depois me manda de volta,
num potinho,
o resultado do meu amor no seu sistema digestivo]
eu te amo desta forma ardente porque sei que nosso amor nunca
vai se realizar
eu te amo porque você é impossível
eu te faço impossível para poder te amar
eu gozo no impossível
eu quero o impossível
[eu sou um poeta místico?]
(Fecho os olhos e me deito sob o sol, fora do tempo, sem história ou linguagem)
Meus olhos estão leves, como se flutuassem fora do corpo.
Sou um homem casto e uma mulher devassa
Com doçura imagino ser devorado por demônios, enormes insetos cegos com garras, até que só restem os ossos, o esqueleto ardente
O sol explode no centro do meu coeur.
O mago ordenou entoando em língua de mortos
que cortassem meu corpo
limpassem meus ossos
recobrindo tudo
com carne nova
Vi o corpo todo em fogo. É preciso incendiar o corpo. Preciso
explodir no aqui.
Emergir do lado de lá.
Como reinventar-se? Como dar nascimento a si mesmo?
Não na linguagem, mas no próprio ser?
O corpo é a linguagem.
Quem inspira e expira em mim agora são meus pés.
1 048
Francesca Angiolillo
Antropológica
cada mancha do
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
746
Francesca Angiolillo
Antropológica
cada mancha do
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
746
Samarone Lima de Oliveira
Resiliente
Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
645
Renato Rezende
[Re-Nato]
O poder da respiração—entrando e saindo do corpo
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
1 003
Francesca Angiolillo
Uma carta não enviada de Teerã
Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
639
Renato Rezende
[Ensaios]
Saberei renascer em vida?
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
845
Francesca Angiolillo
Na avenida
Como é triste a vida na cidade
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
660
Francesca Angiolillo
Ronchamp
Um pedaço de parede
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando
Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando
Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
549
Francesca Angiolillo
Ronchamp
Um pedaço de parede
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando
Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
simplesmente, só
você
e eu
poderíamos ao vê-lo adivinhar
seu nome mineral.
Torto, meio branco,
meio cinza concreto pedaço
de ideia
de um homem
de apelido
vagamente animal
de pássaro pensativo
de pássaro que cisca buscando
quem
sabe
o quê
um brilho um lampejo o que não se vê um
pedaço de pedra
inventada;
outro dia estiveram lá outros
que não nós
diz que
quebraram um vitral daqueles que o
filme em cores registrou
num ato
de inimaginável
subversão nossa senhora
puniu
– a câmera sumir daquele jeito
sei lá
quando
estivemos nós
éramos nós
e a japonesinha sorridente
saída do nada para lugar algum
e lá ficou
para sempre sentada num monturo de grama
e tudo o que dali
saiu nossa senhora
não viu
– o disco rodando
na vitrola tocando
Something
seus passeios de bicicleta
minhas meias listradas
seus desenhos tão bons os meus tão ruins as
camisinhas numa lata de biscoitos
dinamarqueses era
um luxo o bolo da Maria era
o único final doce
daquelas tardes tão iguais
ter dezoito ou vinte anos e ler poemas
de Neruda e achar
normal o amor
não durar mais
que umas estações
de trem
num mapa.
549
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
664
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
664
Renato Rezende
[Hosana]
Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
1 021
Samarone Lima de Oliveira
Um nome à minha sombra
Eu poderia jogar as mãos no mar
E endurecer porque há o infinito
E me completa.
E poderia recolher
O que disseram ser meu
E baixar os olhos em súplica
Como uma intenção desabitada.
Nada disso me levaria
A pontos extremos
(E sinto a respiração
Dos mesmos pássaros que sonhei).
Acedo. Aquieto.
A imensa ternura, engolfada pelas ondas
Murmura qualquer coisa indecifrável
Que julgava minha.
Elaboro a espera.
Mancho de branco o que restou
(As espumas diriam)
E sei que há um nome à minha sombra.
É quando o mar percebe a súplica.
E tudo devolve.
E endurecer porque há o infinito
E me completa.
E poderia recolher
O que disseram ser meu
E baixar os olhos em súplica
Como uma intenção desabitada.
Nada disso me levaria
A pontos extremos
(E sinto a respiração
Dos mesmos pássaros que sonhei).
Acedo. Aquieto.
A imensa ternura, engolfada pelas ondas
Murmura qualquer coisa indecifrável
Que julgava minha.
Elaboro a espera.
Mancho de branco o que restou
(As espumas diriam)
E sei que há um nome à minha sombra.
É quando o mar percebe a súplica.
E tudo devolve.
636
Renato Rezende
[Chamas]
Por que você não começa com os elefantes? Adoro elefantes.
Vi certa vez um documentário sobre um lugarejo da Índia no qual eles têm rolos de pergaminhos com a história de todo mundo que já viveu e que viverá na terra. Foi um sábio que escreveu há não sei quantos anos. O cara do documentário foi lá só para checar, todo cético, é claro.
Então entrou num lugar que parecia uma lojinha do fim do mundo. O sujeito perguntou o nome dele e disse: Espere um momento. Depois voltou com um rolo... que tinha o nome dele e a história de sua vida até a morte!
será que existe?
[será que nós existimos?]
será que esse lugar existe mesmo?
Sabia que se come mais açúcar no dia de Diwali na Índia do que no resto do mundo o ano todo? E aqueles enormes brigadeirões que eles enfiam na boca dos elefantes?
Ladhus.
Pura doçura
Amor em toneladas!
Tudo o que passa e sempre passou pelos meus olhos foram imagens de festa.
Tudo o que passa e sempre passou pelos meus ouvidos foram sons de festa.
(De paz?)
E de dor, de melancolia, de horror, de desespero,
especialmente de desespero?
Dance com a dor
Um tango, uma valsa
Gire
Tudo pelos meus olhos, festa.
Tudo pelos meus ouvidos, festa.
Festa, frenesi, júbilo, dança de dervixes.
VIDA
Fogo riscado na escuridão.
Elefantes em chamas.
O castelo em chamas.
Bibliotecas em chamas.
Todos os peixes. O oceano em chamas
O fogo do Amor:
O que não é Amor é contra o amor.
Vi certa vez um documentário sobre um lugarejo da Índia no qual eles têm rolos de pergaminhos com a história de todo mundo que já viveu e que viverá na terra. Foi um sábio que escreveu há não sei quantos anos. O cara do documentário foi lá só para checar, todo cético, é claro.
Então entrou num lugar que parecia uma lojinha do fim do mundo. O sujeito perguntou o nome dele e disse: Espere um momento. Depois voltou com um rolo... que tinha o nome dele e a história de sua vida até a morte!
será que existe?
[será que nós existimos?]
será que esse lugar existe mesmo?
Sabia que se come mais açúcar no dia de Diwali na Índia do que no resto do mundo o ano todo? E aqueles enormes brigadeirões que eles enfiam na boca dos elefantes?
Ladhus.
Pura doçura
Amor em toneladas!
Tudo o que passa e sempre passou pelos meus olhos foram imagens de festa.
Tudo o que passa e sempre passou pelos meus ouvidos foram sons de festa.
(De paz?)
E de dor, de melancolia, de horror, de desespero,
especialmente de desespero?
Dance com a dor
Um tango, uma valsa
Gire
Tudo pelos meus olhos, festa.
Tudo pelos meus ouvidos, festa.
Festa, frenesi, júbilo, dança de dervixes.
VIDA
Fogo riscado na escuridão.
Elefantes em chamas.
O castelo em chamas.
Bibliotecas em chamas.
Todos os peixes. O oceano em chamas
O fogo do Amor:
O que não é Amor é contra o amor.
751
Renato Rezende
[Rapina]
É a poesia que traz o homem para a terra.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
983
Renato Rezende
[Rapina]
É a poesia que traz o homem para a terra.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
983
Francesca Angiolillo
Naxos
Melhor teria sido amar
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso
Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar
o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
dó
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso
Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar
o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
dó
640
Renato Rezende
[Santo]
—é essa a humanidade que pulsa agora.
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
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