Poemas neste tema
Outros
Renato Rezende
Solta
Quando a música mais doce chegar,
o murmúrio do gozo
da amada
a se contorcer contra o seu corpo,
não faça nada
que de cor já saiba.
A mente calada
colada no calor do outro
abre a porta
para o salto.
AGORA: SALTA!
o murmúrio do gozo
da amada
a se contorcer contra o seu corpo,
não faça nada
que de cor já saiba.
A mente calada
colada no calor do outro
abre a porta
para o salto.
AGORA: SALTA!
1 064
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
957
Renato Rezende
Para Uma Cruz Na Estrada
Carrego dentro de mim, esquecido
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
946
Renato Rezende
Dasein 04.02.05
Acordo durante a noite para mijar e envolto em manchas de luz azul percebo que a alegria
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
968
Renato Rezende
Fim da Trilha
Não faça nada:
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
sente
nesta praça às margens
do mundo
e deixe
a dor cortar fundo.
Faca
in-su-por-tá-vel.
Eu tenho seguido suas pegadas
pelos caminhos mais gelados, amor.
– ABRE!
992
Renato Rezende
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
956
Renato Rezende
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
956
Renato Rezende
História
Ontem revi o livro História do Brasil
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
994
Renato Rezende
História
Ontem revi o livro História do Brasil
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
994
Renato Rezende
No Meio do Caminho
Um desses momentos
em lugar nenhum...
estás à beira da estrada...
e és novamente um recém-nascido.
Nunca fizestes nada.
O bordado
da tua vida
encontra o bordado
do teu destino.
Estás calado,
caminhas
entre pedras e pedregulhos,
flores silvestres, abelhas,
e uma pequena poça d'água....
Sob o sol eterno,
alheio aos carros que passam,
diante do teu futuro,
aqui estás,
presente—
ao mesmo tempo claro e escuro.
Nova York, 11 de julho 1995
em lugar nenhum...
estás à beira da estrada...
e és novamente um recém-nascido.
Nunca fizestes nada.
O bordado
da tua vida
encontra o bordado
do teu destino.
Estás calado,
caminhas
entre pedras e pedregulhos,
flores silvestres, abelhas,
e uma pequena poça d'água....
Sob o sol eterno,
alheio aos carros que passam,
diante do teu futuro,
aqui estás,
presente—
ao mesmo tempo claro e escuro.
Nova York, 11 de julho 1995
958
Renato Rezende
Aroma
a S.M.A.
Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.
Nova York, 12 de julho 1996
Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.
Nova York, 12 de julho 1996
1 199
Renato Rezende
À Beira do Mar, Esta Manhã
À beira do mar, esta manhã
eu fui um homem
à beira do mar.
Apenas um homem,
sem nome, sem memória:
Deus
à beira do seu mar.
Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
eu fui um homem
à beira do mar.
Apenas um homem,
sem nome, sem memória:
Deus
à beira do seu mar.
Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
1 006
Renato Rezende
As Horas de Amor
O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.
Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.
Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?
Nova York, 28 de junho 1995
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.
Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.
Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?
Nova York, 28 de junho 1995
1 019
Renato Rezende
Ao Menos
Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
1 050
Renato Rezende
Ao Menos
Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
1 050
Renato Rezende
Copacabana, 1997
O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
961
Renato Rezende
Bacia
Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
1 166
Renato Rezende
Estelita Lins Com Laranjeiras
Nesta esquina havia um mendigo
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
932
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
1 006
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
1 006
Renato Rezende
Espera
Uma conversa que hoje escutei
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.
Nova York, 8 de março 1996
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.
Nova York, 8 de março 1996
1 132
Renato Rezende
Passeio
Demoro-me
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
1 085
Renato Rezende
Dentro do Mar
Dentro do mar
nós quatro
em silêncio
Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil
em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar
infinito --
e o céu infinito
Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
nós quatro
em silêncio
Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil
em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar
infinito --
e o céu infinito
Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
1 035
Renato Rezende
Sombras
Comprei uma biografia de Joan Miró
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
943