Lista de Poemas

Uma porta é uma faca: ela divide o mundo em duas partes.

 

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É UM ESCURO COMO

É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
713

OH, AS CHAMINÉS

Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?

Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?

Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –

Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
767

A VÓS, QUE CONSTRUÍS A NOVA MORADA

Quando levantares de novo tuas paredes –
Fogão, catre, mesa e cadeira –
Não os enfeites com tuas lágrimas, os que partiram
Que não mais habitarão contigo
Na pedra
Nem na madeira –
Senão haverá choro no teu sono
No curto sono que ainda tens de dormir.
Não suspires ao estenderes teu lençol –
Senão misturam-se teus sonhos
Com o suor dos mortos.
Ah, paredes e utensílios
São sensíveis como harpas eólicas
E como um campo onde viceja tua dor,
E sentem o que em ti é parente do pó.
Constrói enquanto escorre a clepsidra
Mas não chores os minutos que correm
Junto com o pó
Que encobre a luz.
759

QUEM CHAMA?

Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!

O que é isto?

O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!

O que é isto?

Sono e morte não têm características
678

QUATRO DIAS QUATRO NOITES

Quatro dias quatro noites
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –

Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
579

NESTA AMETISTA

Nesta ametista
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou

Tua morte resplandece ainda
dura violeta
724

QUATRO DIAS QUATRO NOITES

Quatro dias quatro noites
teu esconderijo foi um caixão
sobreviver inspirou – e expirou –
para retardar a morte –
Entre quatro tábuas
jazia a dor do mundo –
Lá fora o minuto crescia pleno de flores
nuvens brincavam no céu –
551

MAS QUEM

Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –

Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
704

ESTOU NO ESTRANGEIRO

Estou no estrangeiro
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
570

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Identificação e contexto básico

Nelly Sachs nasceu em Berlim, Alemanha, a 10 de dezembro de 1891, e faleceu em Estocolmo, Suécia, a 12 de maio de 1970. Foi uma poeta e dramaturga judia, cujo trabalho é inseparável da sua vivência do antissemitismo na Alemanha e do Holocausto. De nacionalidade alemã, escreveu em língua alemã e passou grande parte da sua vida no exílio. A sua obra é considerada uma das mais importantes manifestações poéticas do século XX, marcada por uma profunda humanidade e pela exploração das feridas da história.

Infância e formação

Nelly Sachs cresceu numa família abastada de origem judaica. A sua infância foi marcada pela leitura e pela sensibilidade artística, e desde cedo revelou aptidão para a escrita. Foi educada em casa e teve acesso a uma vasta biblioteca, onde descobriu poetas como Goethe e Schiller, que a influenciaram. A sua mãe possuía uma forte inclinação para a música, e a atmosfera familiar estimulou o seu desenvolvimento cultural. No entanto, a ascensão do nazismo e a perseguição aos judeus lançaram uma sombra sobre a sua vida, culminando na necessidade de fuga.

Percurso literário

O seu primeiro livro, "Liebesgedichte" (Poemas de Amor), foi publicado em 1910, revelando um lirismo romântico. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial e a Shoah, a sua poesia adquiriu uma dimensão mais sombria, reflexo do sofrimento e da destruição. Em 1940, com a ajuda de amigos, incluindo o poeta sueco Hjalmar Gullberg, conseguiu fugir da Alemanha nazista e estabelecer-se em Estocolmo, onde viveu o resto da sua vida. A partir de então, a sua obra tornou-se um lamento pelas vítimas do Holocausto e uma busca por um novo começo para a humanidade. Publicou numerosas coleções de poesia, como "In den Wohnungen des Todes" (Nas Moradas da Morte) e "O die Sternen", e também peças de teatro, como "Eli: Ein Mysterienspiel vom Leiden Israels" (Eli: Uma Peça Mística sobre o Sofrimento de Israel).

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Nelly Sachs é marcada pela sua profunda empatia com o sofrimento humano, especialmente o dos judeus perseguidos. Os seus poemas, frequentemente breves e fragmentados, evocam imagens de dor, exílio e morte, mas também de esperança e resiliência. Utiliza um simbolismo forte, recorrendo a imagens do cosmos, da natureza e de figuras bíblicas para expressar a angústia existencial e a busca por redenção. O seu estilo é lírico, visionário e por vezes alucinatório, com um ritmo que reflete a fragilidade e a força do espírito humano. Temas centrais incluem a memória, a diáspora, o destino trágico do povo judeu e a necessidade de um novo pacto com a vida e com o divino. A sua escrita é um testemunho da capacidade da poesia de confrontar o mal e de encontrar um caminho para a cura.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Nelly Sachs viveu os horrores do nazismo e do Holocausto, eventos que moldaram profundamente a sua visão de mundo e a sua obra. A sua experiência de exílio na Suécia, um país neutro durante a guerra, permitiu-lhe sobreviver, mas a memória da perseguição e da perda dos seus entes queridos permaneceu como uma ferida aberta. Foi contemporânea de muitos escritores que abordaram os horrores da guerra e do totalitarismo, mas a sua voz distingue-se pela sua singularidade e pela sua profunda conexão com a tradição mística judaica.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Nelly Sachs viveu uma vida discreta e dedicada à poesia. A sua saúde foi frequentemente frágil, e o trauma do Holocausto deixou marcas psicológicas profundas. A sua relação com a família e com amigos próximos foi fundamental para o seu apoio emocional. A perda dos pais e a separação de muitos entes queridos durante a guerra foram experiências dolorosas que influenciaram a sua escrita. Apesar do sofrimento, manteve uma fé inabalável na possibilidade de redenção e na força do espírito humano.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento internacional de Nelly Sachs atingiu o seu auge com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1966, partilhado com o escritor israelita Shmuel Yosef Agnon, "pela sua escrita lírica e dramática de grande força, que interpreta o destino de Israel com um toque de poesia transcendente". Foi a primeira mulher alemã a receber este galardão. A sua obra, inicialmente ignorada por muitos, passou a ser cada vez mais valorizada pela sua originalidade e pela sua profunda relevância humana e histórica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Nelly Sachs foi influenciada pela poesia alemã clássica, pela mística judaica e pelos poetas da sua época. O seu legado reside na sua capacidade de transformar o sofrimento individual e coletivo em poesia de profunda beleza e significado, dando voz às vítimas da história e apelando a uma humanidade reconciliada. A sua obra continua a inspirar e a comover leitores e escritores, sendo um testemunho poderoso da capacidade da arte de confrontar a tragédia e de afirmar a esperança.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Nelly Sachs é frequentemente interpretada como uma meditação sobre o exílio, a culpa, o sofrimento e a transcendência. A sua poesia aborda questões fundamentais sobre a natureza do mal, a fragilidade da existência e a busca por um sentido num mundo devastado pela guerra. A sua abordagem única, que combina o lirismo com o drama existencial, convida à reflexão sobre a condição humana e a necessidade de redenção.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Nelly Sachs era conhecida pela sua timidez e pela sua dedicação quase ascética à poesia. Passou grande parte da sua vida adulta numa semi-reclusão, imersa no seu trabalho criativo. A sua correspondência com outros escritores e intelectuais, como Martin Buber e Albert Schweitzer, revela a profundidade do seu pensamento e a sua busca por um diálogo com o transcendente. A sua forte ligação à tradição judaica e à cultura alemã, apesar da perseguição, é um aspeto notável da sua vida e obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Nelly Sachs faleceu em Estocolmo em 1970, aos 78 anos. A sua morte marcou o fim de uma vida dedicada à poesia e à testemunha da tragédia humana. A sua obra continua a ser estudada e celebrada, sendo um farol de esperança e um alerta contra os horrores da intolerância e da violência.