Nelly Sachs

Nelly Sachs

1891–1970 · viveu 78 anos DE DE

Nelly Sachs foi uma poetisa e dramaturga judia de língua alemã, laureada com o Prémio Nobel da Literatura. A sua obra é profundamente marcada pela experiência do Holocausto e pela sua vivência como refugiada. A sua poesia, muitas vezes descrita como um "canto de luto e de esperança", explora temas como o sofrimento, a memória, a diáspora e a busca por redenção. Através de um estilo lírico e visionário, Sachs dá voz às vítimas da perseguição, mas também procura um sentido de transcendência e de comunhão com o divino. A sua escrita é um testemunho pungente da resiliência do espírito humano face à barbaridade.

n. 1891-12-10, Berlin-Schöneberg · m. 1970-05-12, Estocolmo

17 917 Visualizações

POVOS DA TERRA

Povos da Terra,
vós, que com a força das desconhecidas
constelações vos envolveis como carretéis,
que coseis e de novo descoseis o que cosestes,
que entrais na confusão das línguas
como em colmeias,
para no doce picardes
e serdes picados –

Povos da Terra,
não destruais o universo das palavras,
não retalheis com as lâminas do ódio
o som que nasceu ao mesmo tempo em que o sopro.

Povos da Terra,
Oh, que ninguém pense em morte quando diz vida –
e que ninguém pense em sangue quando diz berço –

Povos da Terra,
deixai as palavras junto à sua fonte,
pois são elas que podem arrojar
os horizontes até aos céus verdadeiros
e com sua face oculta
como uma máscara por detrás a noite boceja
ajudar no parto das estrelas.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nelly Sachs nasceu em Berlim, Alemanha, a 10 de dezembro de 1891, e faleceu em Estocolmo, Suécia, a 12 de maio de 1970. Foi uma poeta e dramaturga judia, cujo trabalho é inseparável da sua vivência do antissemitismo na Alemanha e do Holocausto. De nacionalidade alemã, escreveu em língua alemã e passou grande parte da sua vida no exílio. A sua obra é considerada uma das mais importantes manifestações poéticas do século XX, marcada por uma profunda humanidade e pela exploração das feridas da história.

Infância e formação

Nelly Sachs cresceu numa família abastada de origem judaica. A sua infância foi marcada pela leitura e pela sensibilidade artística, e desde cedo revelou aptidão para a escrita. Foi educada em casa e teve acesso a uma vasta biblioteca, onde descobriu poetas como Goethe e Schiller, que a influenciaram. A sua mãe possuía uma forte inclinação para a música, e a atmosfera familiar estimulou o seu desenvolvimento cultural. No entanto, a ascensão do nazismo e a perseguição aos judeus lançaram uma sombra sobre a sua vida, culminando na necessidade de fuga.

Percurso literário

O seu primeiro livro, "Liebesgedichte" (Poemas de Amor), foi publicado em 1910, revelando um lirismo romântico. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial e a Shoah, a sua poesia adquiriu uma dimensão mais sombria, reflexo do sofrimento e da destruição. Em 1940, com a ajuda de amigos, incluindo o poeta sueco Hjalmar Gullberg, conseguiu fugir da Alemanha nazista e estabelecer-se em Estocolmo, onde viveu o resto da sua vida. A partir de então, a sua obra tornou-se um lamento pelas vítimas do Holocausto e uma busca por um novo começo para a humanidade. Publicou numerosas coleções de poesia, como "In den Wohnungen des Todes" (Nas Moradas da Morte) e "O die Sternen", e também peças de teatro, como "Eli: Ein Mysterienspiel vom Leiden Israels" (Eli: Uma Peça Mística sobre o Sofrimento de Israel).

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Nelly Sachs é marcada pela sua profunda empatia com o sofrimento humano, especialmente o dos judeus perseguidos. Os seus poemas, frequentemente breves e fragmentados, evocam imagens de dor, exílio e morte, mas também de esperança e resiliência. Utiliza um simbolismo forte, recorrendo a imagens do cosmos, da natureza e de figuras bíblicas para expressar a angústia existencial e a busca por redenção. O seu estilo é lírico, visionário e por vezes alucinatório, com um ritmo que reflete a fragilidade e a força do espírito humano. Temas centrais incluem a memória, a diáspora, o destino trágico do povo judeu e a necessidade de um novo pacto com a vida e com o divino. A sua escrita é um testemunho da capacidade da poesia de confrontar o mal e de encontrar um caminho para a cura.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Nelly Sachs viveu os horrores do nazismo e do Holocausto, eventos que moldaram profundamente a sua visão de mundo e a sua obra. A sua experiência de exílio na Suécia, um país neutro durante a guerra, permitiu-lhe sobreviver, mas a memória da perseguição e da perda dos seus entes queridos permaneceu como uma ferida aberta. Foi contemporânea de muitos escritores que abordaram os horrores da guerra e do totalitarismo, mas a sua voz distingue-se pela sua singularidade e pela sua profunda conexão com a tradição mística judaica.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Nelly Sachs viveu uma vida discreta e dedicada à poesia. A sua saúde foi frequentemente frágil, e o trauma do Holocausto deixou marcas psicológicas profundas. A sua relação com a família e com amigos próximos foi fundamental para o seu apoio emocional. A perda dos pais e a separação de muitos entes queridos durante a guerra foram experiências dolorosas que influenciaram a sua escrita. Apesar do sofrimento, manteve uma fé inabalável na possibilidade de redenção e na força do espírito humano.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento internacional de Nelly Sachs atingiu o seu auge com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1966, partilhado com o escritor israelita Shmuel Yosef Agnon, "pela sua escrita lírica e dramática de grande força, que interpreta o destino de Israel com um toque de poesia transcendente". Foi a primeira mulher alemã a receber este galardão. A sua obra, inicialmente ignorada por muitos, passou a ser cada vez mais valorizada pela sua originalidade e pela sua profunda relevância humana e histórica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Nelly Sachs foi influenciada pela poesia alemã clássica, pela mística judaica e pelos poetas da sua época. O seu legado reside na sua capacidade de transformar o sofrimento individual e coletivo em poesia de profunda beleza e significado, dando voz às vítimas da história e apelando a uma humanidade reconciliada. A sua obra continua a inspirar e a comover leitores e escritores, sendo um testemunho poderoso da capacidade da arte de confrontar a tragédia e de afirmar a esperança.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Nelly Sachs é frequentemente interpretada como uma meditação sobre o exílio, a culpa, o sofrimento e a transcendência. A sua poesia aborda questões fundamentais sobre a natureza do mal, a fragilidade da existência e a busca por um sentido num mundo devastado pela guerra. A sua abordagem única, que combina o lirismo com o drama existencial, convida à reflexão sobre a condição humana e a necessidade de redenção.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Nelly Sachs era conhecida pela sua timidez e pela sua dedicação quase ascética à poesia. Passou grande parte da sua vida adulta numa semi-reclusão, imersa no seu trabalho criativo. A sua correspondência com outros escritores e intelectuais, como Martin Buber e Albert Schweitzer, revela a profundidade do seu pensamento e a sua busca por um diálogo com o transcendente. A sua forte ligação à tradição judaica e à cultura alemã, apesar da perseguição, é um aspeto notável da sua vida e obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Nelly Sachs faleceu em Estocolmo em 1970, aos 78 anos. A sua morte marcou o fim de uma vida dedicada à poesia e à testemunha da tragédia humana. A sua obra continua a ser estudada e celebrada, sendo um farol de esperança e um alerta contra os horrores da intolerância e da violência.

Poemas

24

POVOS DA TERRA

Povos da Terra,
vós, que com a força das desconhecidas
constelações vos envolveis como carretéis,
que coseis e de novo descoseis o que cosestes,
que entrais na confusão das línguas
como em colmeias,
para no doce picardes
e serdes picados –

Povos da Terra,
não destruais o universo das palavras,
não retalheis com as lâminas do ódio
o som que nasceu ao mesmo tempo em que o sopro.

Povos da Terra,
Oh, que ninguém pense em morte quando diz vida –
e que ninguém pense em sangue quando diz berço –

Povos da Terra,
deixai as palavras junto à sua fonte,
pois são elas que podem arrojar
os horizontes até aos céus verdadeiros
e com sua face oculta
como uma máscara por detrás a noite boceja
ajudar no parto das estrelas.
657

EU O VI SAIR DE CASA

Eu o vi sair de casa
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
907

É UM ESCURO COMO

É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
736

É UM ESCURO COMO

É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
759

A VÓS, QUE CONSTRUÍS A NOVA MORADA

Quando levantares de novo tuas paredes –
Fogão, catre, mesa e cadeira –
Não os enfeites com tuas lágrimas, os que partiram
Que não mais habitarão contigo
Na pedra
Nem na madeira –
Senão haverá choro no teu sono
No curto sono que ainda tens de dormir.
Não suspires ao estenderes teu lençol –
Senão misturam-se teus sonhos
Com o suor dos mortos.
Ah, paredes e utensílios
São sensíveis como harpas eólicas
E como um campo onde viceja tua dor,
E sentem o que em ti é parente do pó.
Constrói enquanto escorre a clepsidra
Mas não chores os minutos que correm
Junto com o pó
Que encobre a luz.
780

CORO DOS ÓRFÃOS

Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Deceparam nosso ramo
E lançaram-no ao fogo –
Transformaram em lenha quem nos protegia –
Nós, órfãos, jazemos nos campos da solidão.
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Na noite nossos pais brincam conosco de esconde-esconde –
Por detrás das negras dobras da noite
Fitam-nos seus rostos,
Falam suas bocas:
Fomos lenha seca na mão de um lenhador –
Mas nossos olhos tornaram-se olhos de anjos
E olham para vós,
Por entre as negras dobras da noite
Eles olham –

Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Pedras tornaram-se nosso brinquedo,
Pedras têm rostos, rostos de pai e mãe,
Não murcham como flores, não mordem como bichos –
E não ardem como lenha seca quando lançadas no forno –
Nós, órfãos, queixamo-nos do mundo:
Mundo por que nos tiraste as ternas mães
E os pais que dizem: Tu te pareces comigo!
Nós, órfãos, não nos parecemos com ninguém mais no mundo!
Ó Mundo,
Nós te acusamos!
724

MÃOS

Dos jardineiros da morte,
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?

Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
850

QUANTOS MARES

Quantos mares se apagam na areia,
Quanta areia sedimentada na pedra,
Quanto tempo pranteado na concha sussurrante dos caracóis,
Quanta desolação mortal
Nos olhos de pérola dos peixes,
Quantas trombetas matinais no coral,
Quantos padrões estelares no cristal,
Quantos embriões de hilaridade na garganta da gaivota,
Quantos fios de saudade
Percorreram as noturnas rotas constelares
Quanta terra fecunda
Para a raiz da palavra
Tu –
Por detrás de todas as grades dos mistérios
que vão sendo derrubadas
Tu –
745

QUEM CHAMA?

Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!

O que é isto?

O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!

O que é isto?

Sono e morte não têm características
701

CORO DOS SALVOS

Nós, salvos,
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
612

Citações

1

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.