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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Artista

de súbito me torno um pintor.
uma garota de Galveston me dá
US$ 50 por um quadro de um homem
segurando uma bengala doce enquanto
flutua por um céu escuro.

então um jovem com uma barba negra
aparece
e eu lhe vendo três por US$ 80.
ele gosta de telas grosseiras
nas quais escrevo coisas como –
“cague” ou “GRANDE ARTE É
BOSTA DE CAVALO, COMPRE TACOS”.

posso fazer um quadro em 5 minutos.
uso tinta acrílica, direto do
tubo.
pinto o lado esquerdo do quadro
primeiro com minha mão esquerda e depois
termino o lado direito com minha
mão direita.

agora o jovem barbudo
retorna com um amigo com um cabelo
todo espetado e eles trazem uma loirinha
com eles.

o barba negra continua sendo o mesmo otário:
vendo-lhe um punhado de merda –
um cachorro laranja com a palavra
“CACHORRO” escrita ao seu lado.

o cabelos espetados quer 3 quadros
pelos quais peço US$ 70.
ele não tem a grana.
fico com as telas mas
ele promete me mandar uma
garota chamada Judy
de cinta-liga e saltos altos.
ele já lhe contou sobre mim:
“um escritor de fama internacional”, ele disse
e ela respondeu, “oh, não!” e puxou
seu vestido sobre sua cabeça.
“eu quero isso”, eu lhe disse.

depois discutimos as condições
eu queria comê-la primeiro
e depois receber um boquete.
“que tal o boquete primeiro e
depois a foda?”, ele perguntou.

“isso não funciona”, eu
disse.

então chegamos a um acordo:
Judy viria até aqui e
depois
eu alcançaria a ela as
3 pinturas.
e assim estamos:
de volta ao escambo
o único modo de vencer a
inflação.

apesar disso
gostaria de
iniciar aqui o Movimento pela Libertação Masculina:
quero uma mulher que me dê 3 de
suas pinturas após fazer
amor comigo,
e se ela não souber pintar
pode me deixar
um par de brincos de ouro
ou talvez um pedaço de orelha
em homenagem àquele que
era capaz.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Artista

de súbito me torno um pintor.
uma garota de Galveston me dá
US$ 50 por um quadro de um homem
segurando uma bengala doce enquanto
flutua por um céu escuro.

então um jovem com uma barba negra
aparece
e eu lhe vendo três por US$ 80.
ele gosta de telas grosseiras
nas quais escrevo coisas como –
“cague” ou “GRANDE ARTE É
BOSTA DE CAVALO, COMPRE TACOS”.

posso fazer um quadro em 5 minutos.
uso tinta acrílica, direto do
tubo.
pinto o lado esquerdo do quadro
primeiro com minha mão esquerda e depois
termino o lado direito com minha
mão direita.

agora o jovem barbudo
retorna com um amigo com um cabelo
todo espetado e eles trazem uma loirinha
com eles.

o barba negra continua sendo o mesmo otário:
vendo-lhe um punhado de merda –
um cachorro laranja com a palavra
“CACHORRO” escrita ao seu lado.

o cabelos espetados quer 3 quadros
pelos quais peço US$ 70.
ele não tem a grana.
fico com as telas mas
ele promete me mandar uma
garota chamada Judy
de cinta-liga e saltos altos.
ele já lhe contou sobre mim:
“um escritor de fama internacional”, ele disse
e ela respondeu, “oh, não!” e puxou
seu vestido sobre sua cabeça.
“eu quero isso”, eu lhe disse.

depois discutimos as condições
eu queria comê-la primeiro
e depois receber um boquete.
“que tal o boquete primeiro e
depois a foda?”, ele perguntou.

“isso não funciona”, eu
disse.

então chegamos a um acordo:
Judy viria até aqui e
depois
eu alcançaria a ela as
3 pinturas.
e assim estamos:
de volta ao escambo
o único modo de vencer a
inflação.

apesar disso
gostaria de
iniciar aqui o Movimento pela Libertação Masculina:
quero uma mulher que me dê 3 de
suas pinturas após fazer
amor comigo,
e se ela não souber pintar
pode me deixar
um par de brincos de ouro
ou talvez um pedaço de orelha
em homenagem àquele que
era capaz.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Loucura

não bato com meus punhos nas paredes
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.

a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.

eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.

ela é velha, quase tão velha quanto eu.

ela se foi, ainda chorosa...

na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.

“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”

eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.

“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”

“sim.”

“vamos lá, cara, não foda com a gente.”

“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”

os dois contornaram o pátio.

“esta porta aqui?”

“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”

eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Garotinhas

lá no norte da Califórnia
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.

ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.

ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.

“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!

ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.

“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”

mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.

duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.

não nos correspondemos desde então.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Agora, Se Você Tivesse Que Ensinar Escrita Criativa, Ele Perguntou, o Que Você Lhes Diria?

eu lhes diria para terem um caso de amor
fracassado, hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre a liberação sexual
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
órgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com um pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.

então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que vocês talvez aprendam
é que ninguém sabe nada –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhes darei um A com louvor
bem no olho
do cu.
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