Poemas neste tema
Outros
Marina Colasanti
É nesse
Há sempre um ponto
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
1 381
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 076
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
1 076
Marina Colasanti
Sobre um bosque de bétulas
A janela fechada
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
1 060
Marina Colasanti
Sobre um bosque de bétulas
A janela fechada
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
1 060
Marina Colasanti
Sobre um bosque de bétulas
A janela fechada
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.
Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.
Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
1 060
Marina Colasanti
Lua de mel em Veneza
Na mesa à minha esquerda
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
1 111
Marina Colasanti
Pitigrilli proibido
O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
1 094
Marina Colasanti
Pitigrilli proibido
O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
1 094
Marina Colasanti
Pitigrilli proibido
O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.
Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
1 094
Marina Colasanti
Tive um rosto
Tive um rosto
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
e o perdi
penso diante do espelho
que não me entrega aquela
que eu esperava
mas outra
bem mais velha.
Mais uma vez me engano.
Certo seria dizer:
pensei ter tido um rosto
e o que perdi foi
a ilusão de um rosto.
Caminhei até um rosto
longamente,
um rosto que alcançado
seria o meu.
E quando enfim cheguei
àquele rosto
ele não era aquele
era um rosto
muitos rostos adiante.
Cheguei sempre atrasada
nesse encontro
porque quis alcançar meu rosto
como a um porto
e não soube entender
que rosto
é só percurso.
1 522
Marina Colasanti
UCCELLO, EM VÔO
Paolo, chamado Uccello
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
1 110
Marina Colasanti
UCCELLO, EM VÔO
Paolo, chamado Uccello
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
1 110
Marina Colasanti
Longa viagem em 1943
Nosso carro a gasogênio
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
1 192
Marina Colasanti
Desde o início
Na escura caixa do peito
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
1 160
Marina Colasanti
No corte das lâminas brancas
Além da persiana do quarto
o verde volume das folhas que
à luz se desenha rendado
que cresce na sombra
e à noite se aquieta.
Carvalho, em repouso.
Mas basta-me um gesto
girar de vareta na ponta dos dedos
e as lâminas brancas se inclinam
cortando o carvalho em fatias.
Estrias de carvalho
paisagem mudada
marinha
pastagem
o verde deitado em longo horizonte
sem ser mais irmão de outro verde.
Girando a vareta outra vez
as lâminas tocam as lâminas
o branco se fecha no branco
escamas
couraças.
No quarto
o carvalho
dexiou de existir.
Berkeley, 1998
o verde volume das folhas que
à luz se desenha rendado
que cresce na sombra
e à noite se aquieta.
Carvalho, em repouso.
Mas basta-me um gesto
girar de vareta na ponta dos dedos
e as lâminas brancas se inclinam
cortando o carvalho em fatias.
Estrias de carvalho
paisagem mudada
marinha
pastagem
o verde deitado em longo horizonte
sem ser mais irmão de outro verde.
Girando a vareta outra vez
as lâminas tocam as lâminas
o branco se fecha no branco
escamas
couraças.
No quarto
o carvalho
dexiou de existir.
Berkeley, 1998
1 065
Marina Colasanti
Com o sol na língua
Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
949
Marina Colasanti
Respiram à noite
À noite
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 033
Marina Colasanti
Respiram à noite
À noite
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
as madeiras antigas
conversam com o tempo.
O armário estala
range a um canto a mesinha
um gemido perpassa todo o piso
que pousado nas vigas
se acomoda.
As cômodas
as portas
a moldura entalhada
estão despertas
respira aquilo
que dizemos morto.
No silêncio que fala
segue seu rumo a casa como um barco
varando a noite
que lhe aperta os flancos.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 033
Marina Colasanti
Mesmo se
Corredores do dia
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
umbral da noite
e o pensamento em fuga
entre as arcadas
mesmo se o corpo deita
e finge estar dormindo
mesmo se nas campinas
os dentes-de-leão afiam
as garras amarelas
de suas flores.
1 148
Marina Colasanti
UMA CAMÉLIA
Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
1 180
Marina Colasanti
UMA CAMÉLIA
Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
1 180
Marina Colasanti
De Guido Reni
Com a mesma elegância
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
655
Marina Colasanti
De Guido Reni
Com a mesma elegância
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
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