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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Aliança (Sonata)

Nem o coração cortado por um vidro
num campo de espinhos,
nem as águas atrozes vistas nos cantos
de certas casas, águas como pálpebras e olhos,
poderiam sujeitar a tua cintura nas minhas mãos
quando o meu coração ergue as suas azinheiras
para o teu inquebrantável fio de neve.

Nocturno açúcar, espírito
das coroas,
redimida,
sangue humano, os teus beijos
desterram-me,
e um golpe de água com restos do mar
golpeia os silêncios que te esperam
rodeando as cadeiras gastas, gastando portas.

Noites com eixos claros,
partida, material, unicamente
voz, unicamente
nua em cada dia.
Sobre os teus seios de curso imóvel,
sobre as tuas pernas de dureza e água,
sobre a permanência e o orgulho
do teu cabelo nu,
quero estar, meu amor, já atiradas as lágrimas
para o áspero cesto onde se acumulam,
quero estar, meu amor, só com uma sílaba
de prata despedaçada, só com uma ponta
do teu seio de neve.

Já não é possível, às vezes,
ganhar a não ser caindo,
já não é possível, entre dois seres
tremer, tocar a flor do rio:
fibras de homem vêm como agulhas,
tramitações, pedaços,
famílias de coral repulsivo, tormentas
e duras travessias pelas passadeiras
de inverno.

Entre lábios e lábios há cidades
de grande cinza e húmida crista,
gotas de quando e como, indefinidas
circulações:
entre lábios e lábios como por uma costa
de areia e vidro, o vento passa.

Por isso és sem fim, recolhe-me como se fosses
toda solenidade, toda nocturna
como uma zona, até te confundires
com as linhas do tempo.

Avança na doçura,
vem ao meu lado até que as digitais
folhas dos violinos
se tenham calado, até que os musgos
ganhem raiz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Dívida Externa

Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.


(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)


Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.


Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.


Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.


Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.


Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.


Peço respeito por sua escapatória!
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Orégano

Quando aprendi com lentidão
a falar
creio que já aprendi a incoerência:
ninguém me entendia, nem eu mesmo,
e odiei aquelas palavras
que me retornavam sempre
ao mesmo poço,
ao poço de meu ser ainda escuro,
ainda transpassado do meu nascimento,
até que me encontrei numa plataforma
ou num campo recém-estreado
uma palavra: orégano,
palavra que me desenredou
como que me tirando de um labirinto.


Não quis aprender mais nenhuma palavra.


Queimei os dicionários,
encerrei-me nessas sílabas cantoras,
retrospectivas, mágicas, silvestres,
e a todo grito pela beira
dos rios,
entre as tábuas afiladas,
ou no cimento da cidadela,
em minas, oficinas e velórios,
eu mastigava minha palavra orégano
e era como se fosse uma pomba
que eu soltava entre os ignorantes.


Que cheiro de coração temível,
que cheiro de violetário verdadeiro,
e que forma de pálpebra
para dormir fechando os olhos:
a noite tem orégano
e outras vezes, fazendo-se revólver
acompanhou-me passeando entre as feras:
essa palavra defendeu meus versos.


Uma mordida, uns caninos (iam
sem dúvida destroçar-me
os javalis e os crocodilos):
então
tirei do bolso
minha estimável palavra:
orégano, gritei com alegria,
brandindo-a em minha mão trêmula.


Oh, milagre, as feras assustadas
pediram-me perdão e me pediram
humildemente orégano.


Oh, lepidóptero entre as palavras,
oh palavra helicóptero,
puríssima e prenhe
como uma aparição sacerdotal
e carregada de aroma,
telúrica como um leopardo negro,
fosforescente orégano
que me serviu para não falar com ninguém,
e para aclarar meu destino
renunciando ao alarde do discurso
com um secreto idioma, o do orégano.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Orégano

Quando aprendi com lentidão
a falar
creio que já aprendi a incoerência:
ninguém me entendia, nem eu mesmo,
e odiei aquelas palavras
que me retornavam sempre
ao mesmo poço,
ao poço de meu ser ainda escuro,
ainda transpassado do meu nascimento,
até que me encontrei numa plataforma
ou num campo recém-estreado
uma palavra: orégano,
palavra que me desenredou
como que me tirando de um labirinto.


Não quis aprender mais nenhuma palavra.


Queimei os dicionários,
encerrei-me nessas sílabas cantoras,
retrospectivas, mágicas, silvestres,
e a todo grito pela beira
dos rios,
entre as tábuas afiladas,
ou no cimento da cidadela,
em minas, oficinas e velórios,
eu mastigava minha palavra orégano
e era como se fosse uma pomba
que eu soltava entre os ignorantes.


Que cheiro de coração temível,
que cheiro de violetário verdadeiro,
e que forma de pálpebra
para dormir fechando os olhos:
a noite tem orégano
e outras vezes, fazendo-se revólver
acompanhou-me passeando entre as feras:
essa palavra defendeu meus versos.


Uma mordida, uns caninos (iam
sem dúvida destroçar-me
os javalis e os crocodilos):
então
tirei do bolso
minha estimável palavra:
orégano, gritei com alegria,
brandindo-a em minha mão trêmula.


Oh, milagre, as feras assustadas
pediram-me perdão e me pediram
humildemente orégano.


Oh, lepidóptero entre as palavras,
oh palavra helicóptero,
puríssima e prenhe
como uma aparição sacerdotal
e carregada de aroma,
telúrica como um leopardo negro,
fosforescente orégano
que me serviu para não falar com ninguém,
e para aclarar meu destino
renunciando ao alarde do discurso
com um secreto idioma, o do orégano.
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