Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
XIV
E que disseram os rubis
ante o jugo das granadas?
Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?
Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?
Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?
ante o jugo das granadas?
Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?
Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?
Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?
1 078
Pablo Neruda
Os Que Me Esperam Em Milão
Os que me esperam em Milão
estão muito longe da névoa
não são os que estão e são eles
além de outros que me esperam.
Certamente não chegaram
porque têm pernas de pedra
e estão em círculo esperando
na entrada das igrejas,
asas gastas que não voam
narizes quebrados já faz tempo.
Não sabem estes que me esperam
que rumo a eles vou descendo
desde as nuvens e as dúvidas.
Os santos ensimesmados
as vênus de narizes quebrados
os atrabiliários répteis
que se enroscam e se encaixam.
As serpentes do Paraíso
e os profetas aborrecidos
chegam cedo a seus pórticos
para esperar-me com decoro.
estão muito longe da névoa
não são os que estão e são eles
além de outros que me esperam.
Certamente não chegaram
porque têm pernas de pedra
e estão em círculo esperando
na entrada das igrejas,
asas gastas que não voam
narizes quebrados já faz tempo.
Não sabem estes que me esperam
que rumo a eles vou descendo
desde as nuvens e as dúvidas.
Os santos ensimesmados
as vênus de narizes quebrados
os atrabiliários répteis
que se enroscam e se encaixam.
As serpentes do Paraíso
e os profetas aborrecidos
chegam cedo a seus pórticos
para esperar-me com decoro.
1 113
Pablo Neruda
Te Amo
Amante, te amo e me amas e te amo,
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.
Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.
Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja* fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?
são curtos os dias, os meses, a chuva, os trens;
são altas as casas, as árvores, e somos mais altos;
se acerca na areia a espuma que quer beijar-te;
transmigram as aves dos arquipélagos
e crescem em meu coração tuas raízes de trigo.
Não há dúvida, amor meu, que a tempestade de setembro
caiu com seu ferro oxidado sobre tua cabeça
e quando, entre rajadas de espinhos te vi caminhando indefesa,
tomei tua guitarra de âmbar, pus-me a teu lado,
sentindo que eu não podia cantar sem tua boca,
que eu morria se não me olhasses chorando na chuva.
Porque os quebrantos de amor à beira do rio,
porque a cantata que em pleno crepúsculo ardia em minha sombra,
por que se encerraram em ti, chillaneja* fragrante,
e restituíram o dom e o aroma que necessitava
minha roupa gasta por tantas batalhas de inverno?
963
Pablo Neruda
Aí Está o Mar?
Aí está o mar? Muito bem, que passe.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
1 640
Pablo Neruda
Aí Está o Mar?
Aí está o mar? Muito bem, que passe.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
1 640
Murillo Mendes
Pós-Poema
O anteontem - não do tempo mas de mim -
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
727
Pablo Neruda
Manhã - XII
Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
1 421
Pablo Neruda
VII - A ilha
Quando proliferaram os colossos
e erguidos caminharam
até povoar a ilha de narizes de pedra
e, ativos, fundaram descendência − filhos
do vento e da lava, netos
do ar e da cinza, percorreram
com grandes pés a ilha −
nunca trabalhou tanto
a brisa com suas mãos,
o ciclone com seu crime,
a persistência da Oceania.
Grandes cabeças puras,
de longos pescoços, de olhar grave,
gigantescas mandíbulas erguidas
no orgulho de sua solidão,
presenças,
presenças arrogantes,
preocupadas.
Oh graves dignidades solitárias
quem se atreveu, se atreve
e erguidos caminharam
até povoar a ilha de narizes de pedra
e, ativos, fundaram descendência − filhos
do vento e da lava, netos
do ar e da cinza, percorreram
com grandes pés a ilha −
nunca trabalhou tanto
a brisa com suas mãos,
o ciclone com seu crime,
a persistência da Oceania.
Grandes cabeças puras,
de longos pescoços, de olhar grave,
gigantescas mandíbulas erguidas
no orgulho de sua solidão,
presenças,
presenças arrogantes,
preocupadas.
Oh graves dignidades solitárias
quem se atreveu, se atreve
1 211
Murillo Mendes
Panfletos
Eu recebi o mal e a miséria
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
552
Pablo Neruda
Tarde - LIV
Esplêndida razão, demônio claro
do cacho absoluto, do reto meio-dia,
aqui estamos ao fim, sem solidão e sós,
longe do desvario da cidade selvagem.
Quando a linha pura rodeia sua pomba
e o fogo condecora a paz com seu sustento,
tu e eu erigimos este celeste efeito.
Razão e amor despidos vivem nesta casa.
Sonhos furiosos, rios de amarga certeza,
decisões mais duras que o sonho de um martelo
caíram na dúplice taça dos amantes.
Até que na balança se elevaram, gêmeos,
a razão e o amor como duas asas.
Assim se construiu a transparência.
do cacho absoluto, do reto meio-dia,
aqui estamos ao fim, sem solidão e sós,
longe do desvario da cidade selvagem.
Quando a linha pura rodeia sua pomba
e o fogo condecora a paz com seu sustento,
tu e eu erigimos este celeste efeito.
Razão e amor despidos vivem nesta casa.
Sonhos furiosos, rios de amarga certeza,
decisões mais duras que o sonho de um martelo
caíram na dúplice taça dos amantes.
Até que na balança se elevaram, gêmeos,
a razão e o amor como duas asas.
Assim se construiu a transparência.
1 069
José Saramago
27
Lavaram as feridas na água do mar e agora estão sentados na areia enquanto as sentinelas vigiam no alto das dunas
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
1 230
Murillo Mendes
Angústia e Reação
Há noites intransponíveis,
Há dias em que para nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à ideia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.
Há dias em que para nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à ideia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.
625
Pablo Neruda
Noite - LXXXVI
Oh cruz do sul, oh trevo de fósforo fragrante,
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,
descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,
descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.
1 241
Pablo Neruda
Noite - LXXXVI
Oh cruz do sul, oh trevo de fósforo fragrante,
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,
descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.
com quatro beijos hoje penetrou tua formosura
e atravessou a sombra e meu chapéu:
a lua ia redonda pelo frio.
Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
de escarcha azul, serenidade do céu,
espelho, apareceste e completou-se a noite
com tuas quatro adegas trêmulas de vinho.
Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
cruz verde, perrexil da sombra radiante,
vaga-lume à unidade do céu condenado,
descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.
1 241
Pablo Neruda
Tarde - LXII
Ai de mim, ai de nós, bem-amada,
só quisemos apenas amor, amar-nos,
e entre tantas dores se dispôs
somente a nós dois ser malferidos.
Quisemos o tu e o eu para nós,
o tu do beijo, o eu do pão secreto,
e assim era tudo, eternamente simples,
até que o ódio entrou pela janela.
Odeiam os que não amaram nosso amor,
nem outro nenhum amor, desventurados
como as cadeiras de um salão perdido,
até que em cinza se enredaram
e o rosto ameaçante que tiveram
se apagou no crepúsculo apagado.
só quisemos apenas amor, amar-nos,
e entre tantas dores se dispôs
somente a nós dois ser malferidos.
Quisemos o tu e o eu para nós,
o tu do beijo, o eu do pão secreto,
e assim era tudo, eternamente simples,
até que o ódio entrou pela janela.
Odeiam os que não amaram nosso amor,
nem outro nenhum amor, desventurados
como as cadeiras de um salão perdido,
até que em cinza se enredaram
e o rosto ameaçante que tiveram
se apagou no crepúsculo apagado.
1 231
Pablo Neruda
Ii - Assim Teria Acontecido
Assim teria acontecido, assim teria acontecido
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
1 064
Ana Martins Marques
Dardo
Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
1 220
Ana Martins Marques
Dardo
Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mão pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
1 220
Pablo Neruda
Noite - XCIII
Se alguma vez teu peito se detém,
se algo deixa de andar ardendo por tuas veias,
se tua voz em tua boca se vai sem ser palavra,
se tuas mãos se esquecem de voar e dormem,
Matilde, amor, deixa teus lábios entreabertos
porque esse último beijo deve durar comigo,
deve ficar imóvel para sempre em tua boca
para que assim também me acompanhe em minha morte.
Morrerei beijando tua louca boca fria,
abraçando o cacho perdido de teu corpo,
e buscando a luz de teus olhos fechados.
E assim quando a terra receber nosso abraço
iremos confundidos numa única morte
a viver para sempre de um beijo a eternidade.
se algo deixa de andar ardendo por tuas veias,
se tua voz em tua boca se vai sem ser palavra,
se tuas mãos se esquecem de voar e dormem,
Matilde, amor, deixa teus lábios entreabertos
porque esse último beijo deve durar comigo,
deve ficar imóvel para sempre em tua boca
para que assim também me acompanhe em minha morte.
Morrerei beijando tua louca boca fria,
abraçando o cacho perdido de teu corpo,
e buscando a luz de teus olhos fechados.
E assim quando a terra receber nosso abraço
iremos confundidos numa única morte
a viver para sempre de um beijo a eternidade.
1 385
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXIV
És filha do mar e prima do orégão,
nadadora, teu corpo é de água pura,
cozinheira, teu sangue é terra viva
e teus costumes são floridos e terrestres.
À água vão teus olhos e levantam as ondas,
à terra tuas mãos e saltam as sementes,
em água e terra tens propriedades profundas
que em ti se juntam como as leis da greda.
Naiade, corta teu corpo a turquesa
e logo ressurgido floresce na cozinha
de tal modo que assumes quanto existe
e ao fim dormes rodeada por meus braços que afastam
da sombra sombria, para que descanses,
legumes, algas, ervas: a espuma de teus sonhos.
nadadora, teu corpo é de água pura,
cozinheira, teu sangue é terra viva
e teus costumes são floridos e terrestres.
À água vão teus olhos e levantam as ondas,
à terra tuas mãos e saltam as sementes,
em água e terra tens propriedades profundas
que em ti se juntam como as leis da greda.
Naiade, corta teu corpo a turquesa
e logo ressurgido floresce na cozinha
de tal modo que assumes quanto existe
e ao fim dormes rodeada por meus braços que afastam
da sombra sombria, para que descanses,
legumes, algas, ervas: a espuma de teus sonhos.
1 331
Pablo Neruda
Manhã - XIX
Enquanto a magna espuma de Ilha Negra,
o sal azul, o sol nas ondas te molham,
eu contemplo os trabalhos da vespa
empenhada no mel de seu universo.
Vai e vem equilibrando seu reto e ruivo voo
como se deslizasse de um arame invisível
a elegância do baile, a sede de sua cintura,
e os assassinatos do ferrão maligno.
De petróleo e laranja é seu arco-íris,
busca como um avião entre a erva
com um rumor de espiga, voa, desaparece,
enquanto tu sais do mar, nua,
e regressas ao mundo cheia de sal e sol,
reverberante estátua e espada da areia.
o sal azul, o sol nas ondas te molham,
eu contemplo os trabalhos da vespa
empenhada no mel de seu universo.
Vai e vem equilibrando seu reto e ruivo voo
como se deslizasse de um arame invisível
a elegância do baile, a sede de sua cintura,
e os assassinatos do ferrão maligno.
De petróleo e laranja é seu arco-íris,
busca como um avião entre a erva
com um rumor de espiga, voa, desaparece,
enquanto tu sais do mar, nua,
e regressas ao mundo cheia de sal e sol,
reverberante estátua e espada da areia.
1 171
Pablo Neruda
Manhã - XIX
Enquanto a magna espuma de Ilha Negra,
o sal azul, o sol nas ondas te molham,
eu contemplo os trabalhos da vespa
empenhada no mel de seu universo.
Vai e vem equilibrando seu reto e ruivo voo
como se deslizasse de um arame invisível
a elegância do baile, a sede de sua cintura,
e os assassinatos do ferrão maligno.
De petróleo e laranja é seu arco-íris,
busca como um avião entre a erva
com um rumor de espiga, voa, desaparece,
enquanto tu sais do mar, nua,
e regressas ao mundo cheia de sal e sol,
reverberante estátua e espada da areia.
o sal azul, o sol nas ondas te molham,
eu contemplo os trabalhos da vespa
empenhada no mel de seu universo.
Vai e vem equilibrando seu reto e ruivo voo
como se deslizasse de um arame invisível
a elegância do baile, a sede de sua cintura,
e os assassinatos do ferrão maligno.
De petróleo e laranja é seu arco-íris,
busca como um avião entre a erva
com um rumor de espiga, voa, desaparece,
enquanto tu sais do mar, nua,
e regressas ao mundo cheia de sal e sol,
reverberante estátua e espada da areia.
1 171
Stela do Patrocínio
Não trabalho com a inteligência
Não trabalho com a inteligência
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
Nem com o pensamento
Mas também não uso a ignorância
579
Pablo Neruda
Manhã - XXVIII
Amor, de grão a grão, de planeta a planeta,
a rede do vento com seus países sombrios,
a guerra com seus sapatos de sangue,
ou melhor o dia e a noite da espiga.
Por onde fomos, ilhas ou pontes ou bandeiras,
violinos do fugaz outono atormentado,
repetiu a alegria dos lábios do copo,
a dor nos deteve com sua lição de pranto.
Em todas as repúblicas desenvolvia o vento
seu pavilhão impune, sua glacial cabeleira,
e logo regressava a flor a seus trabalhos.
Mas em nós nunca se calcinou o outono.
E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.
a rede do vento com seus países sombrios,
a guerra com seus sapatos de sangue,
ou melhor o dia e a noite da espiga.
Por onde fomos, ilhas ou pontes ou bandeiras,
violinos do fugaz outono atormentado,
repetiu a alegria dos lábios do copo,
a dor nos deteve com sua lição de pranto.
Em todas as repúblicas desenvolvia o vento
seu pavilhão impune, sua glacial cabeleira,
e logo regressava a flor a seus trabalhos.
Mas em nós nunca se calcinou o outono.
E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.
1 154