Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
O Embaixador
Vivi em um beco
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
1 256
Pablo Neruda
O Embaixador
Vivi em um beco
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
1 256
Pablo Neruda
Ode E Germinações
I
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 508
Pablo Neruda
XXXIII
E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
583
Pablo Neruda
XXXIII
E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
583
Pablo Neruda
Integrações
Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
2 073
Pablo Neruda
Integrações
Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
2 073
Pablo Neruda
Triste Canção Para Chatear Qualquer Um
Toda noite passei a vida
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
fazendo contas,
mas não de vacas,
mas não de libras,
mas não de francos,
mas não de dólares,
não, nada disso.
Toda vida passei a noite
fazendo contas,
mas não de carros,
mas não de gatos,
mas não de amores,
não.
Toda vida passei a luz
fazendo contas,
mas não de livros,
mas não de cachorros,
mas não de cifras,
não.
Toda lua passei a noite
fazendo contas,
mas não de beijos,
mas não de noivas,
mas não de camas,
não.
Toda noite passei as ondas
fazendo contas,
mas não de garrafas,
mas não de dentes,
mas não de copos,
não.
Toda guerra passei a paz
fazendo contas,
mas não de mortos,
mas não de flores,
não.
Toda chuva passei a terra
fazendo contas,
mas não de caminhos,
mas não de canções,
não.
Toda terra passei a sombra
fazendo contas,
mas não de cabelos,
não de rugas,
não de coisas perdidas,
não.
Toda morte passei a vida
fazendo contas:
mas de que se trata
não me lembro,
não.
Toda vida passei a morte
fazendo contas
e se saí perdendo
ou se saí ganhando
não sei, a terra
não sabe.
Et cetera.
1 143
Pablo Neruda
Passeando Com Laforgue
Direi desta maneira, eu, nós,
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
1 100
Pablo Neruda
Passeando Com Laforgue
Direi desta maneira, eu, nós,
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
1 100
Pablo Neruda
Juntos Nós
Como és pura ao sol ou pela noite caída,
que triunfal desmedida a tua órbita de branco,
e o teu peito de pão, alto de clima,
a tua coroa de árvores negras, bem amada,
e o teu nariz de animal solitário, de ovelha selvagem
que cheira a sombra e a precipitada fuga tirânica.
Agora, que armas esplêndidas são minhas mãos,
digna a sua pá de osso e o seu lírio de unhas,
e o lugar do meu rosto, e a renda da minha alma
situam-se no alicerce da força terrestre.
Que puro o meu olhar de nocturna influência,
caído de olhos obscuros e de feroz acicate,
a minha simétrica estátua de pernas gémeas
sobe até estrelas húmidas todas as manhãs,
e a minha boca de exílio morde a carne e a uva,
os meus braços de varão, o meu peito tatuado
em que penetra o cabelo como asa de estanho,
o meu rosto branco feito para a profundidade do sol,
o meu cabelo feito de ritos, de minerais negros,
a minha testa, penetrante como golpe ou caminho,
a minha pele de filho maduro, destinado ao arado,
os meus olhos de ávido, de casamento rápido,
a minha língua amiga branda do dique e do navio,
os meus dentes de horário branco, de equidade sistemática,
a pele que faz à minha frente um vazio de gelos
e nas minhas costas roda, e voa nas minhas pálpebras,
e reentra sobre o meu mais profundo estímulo,
e cresce até às rosas nos meus dedos,
no meu queixo de osso e nos meus pés de riqueza.
E tu como um mês de estrela, como um beijo fixo,
como estrutura de asa, ou começos de outono,
menina, minha defensora, minha amorosa,
a luz faz a sua cama sob as tuas grandes pálpebras,
douradas como bois, e a pomba redonda
muitas vezes faz os seus ninhos brancos em ti.
Feita de onda em lingotes e pinças brancas,
a tua saúde de maçã enfurecida estende-se sem limite,
o trémulo tonel em que o teu estômago ouve,
as tuas mãos filhas da farinha e do céu.
Como és parecida com o mais longo beijo,
o seu fixo abalo parece alimentar-te,
e o seu impulso de brasa, de bandeira esvoaçante,
vai latejando nos teus domínios e subindo num tremor,
e então a tua cabeça adelgaça-se em cabelos,
e a sua forma guerreira, o seu círculo seco,
desaba subitamente em fios lineares
como fios de espadas ou heranças do fumo.
que triunfal desmedida a tua órbita de branco,
e o teu peito de pão, alto de clima,
a tua coroa de árvores negras, bem amada,
e o teu nariz de animal solitário, de ovelha selvagem
que cheira a sombra e a precipitada fuga tirânica.
Agora, que armas esplêndidas são minhas mãos,
digna a sua pá de osso e o seu lírio de unhas,
e o lugar do meu rosto, e a renda da minha alma
situam-se no alicerce da força terrestre.
Que puro o meu olhar de nocturna influência,
caído de olhos obscuros e de feroz acicate,
a minha simétrica estátua de pernas gémeas
sobe até estrelas húmidas todas as manhãs,
e a minha boca de exílio morde a carne e a uva,
os meus braços de varão, o meu peito tatuado
em que penetra o cabelo como asa de estanho,
o meu rosto branco feito para a profundidade do sol,
o meu cabelo feito de ritos, de minerais negros,
a minha testa, penetrante como golpe ou caminho,
a minha pele de filho maduro, destinado ao arado,
os meus olhos de ávido, de casamento rápido,
a minha língua amiga branda do dique e do navio,
os meus dentes de horário branco, de equidade sistemática,
a pele que faz à minha frente um vazio de gelos
e nas minhas costas roda, e voa nas minhas pálpebras,
e reentra sobre o meu mais profundo estímulo,
e cresce até às rosas nos meus dedos,
no meu queixo de osso e nos meus pés de riqueza.
E tu como um mês de estrela, como um beijo fixo,
como estrutura de asa, ou começos de outono,
menina, minha defensora, minha amorosa,
a luz faz a sua cama sob as tuas grandes pálpebras,
douradas como bois, e a pomba redonda
muitas vezes faz os seus ninhos brancos em ti.
Feita de onda em lingotes e pinças brancas,
a tua saúde de maçã enfurecida estende-se sem limite,
o trémulo tonel em que o teu estômago ouve,
as tuas mãos filhas da farinha e do céu.
Como és parecida com o mais longo beijo,
o seu fixo abalo parece alimentar-te,
e o seu impulso de brasa, de bandeira esvoaçante,
vai latejando nos teus domínios e subindo num tremor,
e então a tua cabeça adelgaça-se em cabelos,
e a sua forma guerreira, o seu círculo seco,
desaba subitamente em fios lineares
como fios de espadas ou heranças do fumo.
1 309
Pablo Neruda
Juntos Nós
Como és pura ao sol ou pela noite caída,
que triunfal desmedida a tua órbita de branco,
e o teu peito de pão, alto de clima,
a tua coroa de árvores negras, bem amada,
e o teu nariz de animal solitário, de ovelha selvagem
que cheira a sombra e a precipitada fuga tirânica.
Agora, que armas esplêndidas são minhas mãos,
digna a sua pá de osso e o seu lírio de unhas,
e o lugar do meu rosto, e a renda da minha alma
situam-se no alicerce da força terrestre.
Que puro o meu olhar de nocturna influência,
caído de olhos obscuros e de feroz acicate,
a minha simétrica estátua de pernas gémeas
sobe até estrelas húmidas todas as manhãs,
e a minha boca de exílio morde a carne e a uva,
os meus braços de varão, o meu peito tatuado
em que penetra o cabelo como asa de estanho,
o meu rosto branco feito para a profundidade do sol,
o meu cabelo feito de ritos, de minerais negros,
a minha testa, penetrante como golpe ou caminho,
a minha pele de filho maduro, destinado ao arado,
os meus olhos de ávido, de casamento rápido,
a minha língua amiga branda do dique e do navio,
os meus dentes de horário branco, de equidade sistemática,
a pele que faz à minha frente um vazio de gelos
e nas minhas costas roda, e voa nas minhas pálpebras,
e reentra sobre o meu mais profundo estímulo,
e cresce até às rosas nos meus dedos,
no meu queixo de osso e nos meus pés de riqueza.
E tu como um mês de estrela, como um beijo fixo,
como estrutura de asa, ou começos de outono,
menina, minha defensora, minha amorosa,
a luz faz a sua cama sob as tuas grandes pálpebras,
douradas como bois, e a pomba redonda
muitas vezes faz os seus ninhos brancos em ti.
Feita de onda em lingotes e pinças brancas,
a tua saúde de maçã enfurecida estende-se sem limite,
o trémulo tonel em que o teu estômago ouve,
as tuas mãos filhas da farinha e do céu.
Como és parecida com o mais longo beijo,
o seu fixo abalo parece alimentar-te,
e o seu impulso de brasa, de bandeira esvoaçante,
vai latejando nos teus domínios e subindo num tremor,
e então a tua cabeça adelgaça-se em cabelos,
e a sua forma guerreira, o seu círculo seco,
desaba subitamente em fios lineares
como fios de espadas ou heranças do fumo.
que triunfal desmedida a tua órbita de branco,
e o teu peito de pão, alto de clima,
a tua coroa de árvores negras, bem amada,
e o teu nariz de animal solitário, de ovelha selvagem
que cheira a sombra e a precipitada fuga tirânica.
Agora, que armas esplêndidas são minhas mãos,
digna a sua pá de osso e o seu lírio de unhas,
e o lugar do meu rosto, e a renda da minha alma
situam-se no alicerce da força terrestre.
Que puro o meu olhar de nocturna influência,
caído de olhos obscuros e de feroz acicate,
a minha simétrica estátua de pernas gémeas
sobe até estrelas húmidas todas as manhãs,
e a minha boca de exílio morde a carne e a uva,
os meus braços de varão, o meu peito tatuado
em que penetra o cabelo como asa de estanho,
o meu rosto branco feito para a profundidade do sol,
o meu cabelo feito de ritos, de minerais negros,
a minha testa, penetrante como golpe ou caminho,
a minha pele de filho maduro, destinado ao arado,
os meus olhos de ávido, de casamento rápido,
a minha língua amiga branda do dique e do navio,
os meus dentes de horário branco, de equidade sistemática,
a pele que faz à minha frente um vazio de gelos
e nas minhas costas roda, e voa nas minhas pálpebras,
e reentra sobre o meu mais profundo estímulo,
e cresce até às rosas nos meus dedos,
no meu queixo de osso e nos meus pés de riqueza.
E tu como um mês de estrela, como um beijo fixo,
como estrutura de asa, ou começos de outono,
menina, minha defensora, minha amorosa,
a luz faz a sua cama sob as tuas grandes pálpebras,
douradas como bois, e a pomba redonda
muitas vezes faz os seus ninhos brancos em ti.
Feita de onda em lingotes e pinças brancas,
a tua saúde de maçã enfurecida estende-se sem limite,
o trémulo tonel em que o teu estômago ouve,
as tuas mãos filhas da farinha e do céu.
Como és parecida com o mais longo beijo,
o seu fixo abalo parece alimentar-te,
e o seu impulso de brasa, de bandeira esvoaçante,
vai latejando nos teus domínios e subindo num tremor,
e então a tua cabeça adelgaça-se em cabelos,
e a sua forma guerreira, o seu círculo seco,
desaba subitamente em fios lineares
como fios de espadas ou heranças do fumo.
1 309
Pablo Neruda
Chegou Homero
H. Arce e do Chile. Senhor meu,
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
1 167
Pablo Neruda
Chegou Homero
H. Arce e do Chile. Senhor meu,
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
que distância e que parco cavalheiro:
parecia que não, que não podia
sair do Chile, minha pátria espinhosa,
minha pátria rochosa e movediça.
Dali até aqui, formalmente trajado
de gravata e calça bem passada
atlântico chegou, depois de tudo,
sem comentar a heroica travessia,
em um avião repleto,
o passageiro de primeira vez.
Tem de se levar em conta
sua identidade estática e poética,
o quieto numeral de cada dia
que manteve em repouso
o nobre fogo de sua poesia.
Tem de se saber as coisas destes homens
que por grandes que são dissimulam-se
menosprezando as hegemonias
tão integrais quanto a madeira
das antigas vigas suavizadas
pelo tato do tempo e do decoro.
Agora está aqui outra vez meu
companheiro.
E como o conheço não lhe digo
nada além de “Bom dia”.
1 167
Pablo Neruda
I - As Máscaras
Piedade para estes séculos e seus sobreviventes
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.
658
Pablo Neruda
17
Pensando,enredando sombras na profunda solitude.
Também estás longe, ah mais longe que ninguém.
Pensando,soltando pássaros,desvanecendo imagens,
enterrando lâmpadas.
Campanário de brumas, que longe lá em cima!
Afogando lamentos, moendo esperanças sombrias,
moleiro taciturno,
A ti vem de bruços a noite, longe da cidade.
Tua presença é alheia, estranha a mim como uma coisa.
Penso, percorro longamente, minha vida antes de ti.
Minha vida antes de tudo, minha áspera vida.
O grito frente ao mar, entre as pedras,
correndo livre, louco, no hálito do mar.
A triste fúria, o grito, a solidão do mar.
Desbocado, violento, atirado aos céus.
Tu, mulher, que lá eras, que tira, que haste
desse leque imenso? Estavas longe como agora.
Incêndio no bosque! Arde em cruzes azuis.
Arde, arde, flameja, chispa em árvores de luz.
Tomba e crepita. Incêndio, incêndio.
E minha alma baila ferida de volutas de fogo.
Quem chama? Que silêncio povoado de ecos?
Tempo da nostalgia, tempo da alegria, tempo de solitude.
Meu tempo entre todos!
Búzio em que o vento passa cantando.
Tanta paixão de pranto atada a meu corpo.
Abalo de todas as raízes,
assalto de todas as ondas!
Rodava, alegre, triste, interminável, minha alma.
Pensando, enterrando lâmpadas na profunda solitude.
Quem és tu, quem és?
Também estás longe, ah mais longe que ninguém.
Pensando,soltando pássaros,desvanecendo imagens,
enterrando lâmpadas.
Campanário de brumas, que longe lá em cima!
Afogando lamentos, moendo esperanças sombrias,
moleiro taciturno,
A ti vem de bruços a noite, longe da cidade.
Tua presença é alheia, estranha a mim como uma coisa.
Penso, percorro longamente, minha vida antes de ti.
Minha vida antes de tudo, minha áspera vida.
O grito frente ao mar, entre as pedras,
correndo livre, louco, no hálito do mar.
A triste fúria, o grito, a solidão do mar.
Desbocado, violento, atirado aos céus.
Tu, mulher, que lá eras, que tira, que haste
desse leque imenso? Estavas longe como agora.
Incêndio no bosque! Arde em cruzes azuis.
Arde, arde, flameja, chispa em árvores de luz.
Tomba e crepita. Incêndio, incêndio.
E minha alma baila ferida de volutas de fogo.
Quem chama? Que silêncio povoado de ecos?
Tempo da nostalgia, tempo da alegria, tempo de solitude.
Meu tempo entre todos!
Búzio em que o vento passa cantando.
Tanta paixão de pranto atada a meu corpo.
Abalo de todas as raízes,
assalto de todas as ondas!
Rodava, alegre, triste, interminável, minha alma.
Pensando, enterrando lâmpadas na profunda solitude.
Quem és tu, quem és?
1 262
Pablo Neruda
XIII. Cochrane do Chile
E agora pergunto ao vazio, ao passado de sombra, quem era
este cavaleiro intranquilo da liberdade e das ondas?
É este quem seus inimigos revestem de escuras cores?
É este o desviado que esconde uma bolsa de ouro na selva de Londres?
É esta a espada expulsa das abadias patrícias?
É este quem ainda o encarniçado inimigo persegue através dos livros?
Almirante, teus olhos se abrem saindo do mar cada dia!
Com teu invulnerável esplendor se ilumina o delgado hemisfério
e na noite teus olhos se fecham sobre as cordilheiras do Chile!
este cavaleiro intranquilo da liberdade e das ondas?
É este quem seus inimigos revestem de escuras cores?
É este o desviado que esconde uma bolsa de ouro na selva de Londres?
É esta a espada expulsa das abadias patrícias?
É este quem ainda o encarniçado inimigo persegue através dos livros?
Almirante, teus olhos se abrem saindo do mar cada dia!
Com teu invulnerável esplendor se ilumina o delgado hemisfério
e na noite teus olhos se fecham sobre as cordilheiras do Chile!
1 004
Pablo Neruda
Ode Com Um Lamento
Oh menina entre as rosas, oh pressão de pombas,
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.
Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.
Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.
Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.
Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.
Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.
Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.
Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.
Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.
Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.
Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
1 546
Pablo Neruda
Noite - XCVII
Há que voar neste tempo, aonde?
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.
Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.
Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,
e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.
Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.
Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,
e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
1 217
Pablo Neruda
O Grande Urinador
O grande urinador era amarelo
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
e o jorro que caiu
era uma chuva cor de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre o teto dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
Quem era, onde estava?
Era uma densidade, líquido espesso
e que caía
como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
buscavam lá no céu,
enquanto as avenidas se inundavam
e por baixo das portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo canais, corrompendo
pisos de mármore, tapetes,
escadas.
Nada se divisava.
Onde estava o perigo?
Que ia acontecer no mundo?
O grande urinador de suas alturas
calava e urinava.
Que quer dizer isto?
Sou um simples poeta,
não tenho empenho em decifrar enigmas,
nem em propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Cumprimento e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.
999
Pablo Neruda
Antoine Courage
Aquele alguém depois de ter nascido
dedicou-se a solapar sua existência
com esse material foi fabricando
uma torre desditosa:
e para mim o estranho daquele homem
tão claro e evidente como foi
era aparecer na janela
para que as mulheres e os homens
vissem-no através dos cristais
vissem-no pobre ou rico, aplaudissem-no
com duas mulheres ao mesmo tempo, nu,
vissem-no militante ou isolado,
impuro, cristalino,
em sua miséria, em seu Jaguar entupido
de drogas eu ensinando a verdade,
eu aliviado em sua triste alegria.
Quando esta chama se apagou parece
fácil, no resplandor de nossa vida
ferir aquele que morreu, espalhar seus ossos,
desmoronar a torre de seu orgulho:
golpear a greta do contraditório
comendo o próprio pão de sua amargura:
e medir o soberbo destronado
com nossa secretíssima soberba:
ah, não é isso! não é isso! o que quero
é saber se aquele era o verdadeiro:
o que se consumia e se incendiava
ou o que clamava para que o vissem:
se foi aquele artesão do desprezo
esperando o amor do desprezado
como tantos mendigos iracundos.
Aqui deixo esta história:
não a terminei, mas a morte
porém se vê que todos somos juízes
e é nossa vontade encarniçada
participar da injustiça alheia.
dedicou-se a solapar sua existência
com esse material foi fabricando
uma torre desditosa:
e para mim o estranho daquele homem
tão claro e evidente como foi
era aparecer na janela
para que as mulheres e os homens
vissem-no através dos cristais
vissem-no pobre ou rico, aplaudissem-no
com duas mulheres ao mesmo tempo, nu,
vissem-no militante ou isolado,
impuro, cristalino,
em sua miséria, em seu Jaguar entupido
de drogas eu ensinando a verdade,
eu aliviado em sua triste alegria.
Quando esta chama se apagou parece
fácil, no resplandor de nossa vida
ferir aquele que morreu, espalhar seus ossos,
desmoronar a torre de seu orgulho:
golpear a greta do contraditório
comendo o próprio pão de sua amargura:
e medir o soberbo destronado
com nossa secretíssima soberba:
ah, não é isso! não é isso! o que quero
é saber se aquele era o verdadeiro:
o que se consumia e se incendiava
ou o que clamava para que o vissem:
se foi aquele artesão do desprezo
esperando o amor do desprezado
como tantos mendigos iracundos.
Aqui deixo esta história:
não a terminei, mas a morte
porém se vê que todos somos juízes
e é nossa vontade encarniçada
participar da injustiça alheia.
1 150
Pablo Neruda
Ix - Celebração
Coloquemos os sapatos, a camisa listada,
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
1 082
Pablo Neruda
Ix - Celebração
Coloquemos os sapatos, a camisa listada,
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
o terno azul embora já brilhem os cotovelos,
coloquemos os fogos de bengala e de artifício,
coloquemos vinho e cerveja entre o pescoço e os pés,
porque devidamente devemos celebrar
este número imenso que custou tanto tempo,
tantos anos e dias em pacotes,
tantas horas, tantos milhões de minutos,
vamos celebrar esta inauguração.
Desengarrafemos todas as alegrias resguardadas
e busquemos alguma noiva perdida
que aceite uma festiva dentada.
Hoje é. Hoje chegou. Pisamos o tapete
do interrogativo milênio. O coração, a amêndoa
da época crescente, a uva definitiva
irá se depositando em nós,
e será a verdade tão esperada.
Enquanto isso uma folha da folhagem
acrescenta o começo da idade:
ramo a ramo se cruzará a ramagem,
folha a folha subirão os dias
e fruto a fruto chegará a paz:
a árvore da sorte se prepara
desde a encarniçada raiz que sobrevive
buscando a água, a verdade, a vida.
Hoje é hoje. Chegou esta manhã
preparada por muita escuridão:
não sabemos se é claro porém
este mundo recém-inaugurado:
nós o aclararemos, nós o escureceremos
até que seja dourado e queimado
como os grãos duros do milho:
para cada um, os recém-nascidos,
os sobreviventes, os cegos,
os mudos, os mancos e coxos,
para que vejam e para que falem,
para que sobrevivam e corram,
para que agarrem a futura fruta
do reino atual que deixamos aberto
tanto para o explorador como para a rainha,
tanto para o interrogante cosmonauta
como para o agricultor tradicional,
para as abelhas que chegam agora
para participar da colmeia
e sobretudo para os povos recentes,
para os povos crescentes desde agora
com as novas bandeiras que nasceram
em cada gota de sangue ou suor.
Hoje é hoje e ontem se foi, não há dúvida.
Hoje é também amanhã, e eu me fui
com algum ano frio que se foi,
se foi comigo e me levou naquele ano.
Disto não há dúvida. Minha ossatura
consistiu, às vezes, em palavras duras
como ossos ao ar e à chuva,
e pude celebrar o que acontece
deixando em vez de canto ou testemunho
um obstinado esqueleto de palavras.
1 082
Pablo Neruda
Penha Brava
Há uma penha brava
aqui, na costa,
o vento furibundo,
o sal do mar, a ira,
desde e desde sempre, agora
e ontem, e cada século
atacaram-na:
tem rugas,
cavernas,
gretas, figuras, degraus,
faces de granito
e rebenta o mar na rocha
amando-a,
rompe o beijo maligno,
relâmpagos de espuma,
brilho de lua raivosa.
É uma penha gris,
cor de idade, austera,
infinita, cansada, poderosa.
aqui, na costa,
o vento furibundo,
o sal do mar, a ira,
desde e desde sempre, agora
e ontem, e cada século
atacaram-na:
tem rugas,
cavernas,
gretas, figuras, degraus,
faces de granito
e rebenta o mar na rocha
amando-a,
rompe o beijo maligno,
relâmpagos de espuma,
brilho de lua raivosa.
É uma penha gris,
cor de idade, austera,
infinita, cansada, poderosa.
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