Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
Vii - Canta a Polônia
A guerra ali no fundo
dos grandes bosques,
a guerra junto à água
lenta e multiplicada
saiu para insultar-me, no meio
da paz
no reino silvestre:
ali estava.
Goering havia deixado
seus cubos de cimento.
Ali estava a horrível arquitetura
inumana, angulosa,
ranhuras entreabertas
como olhos de réptil, formas nuas
da crueldade, ali, escondido,
nas novas covinhas das feras
planejaram o ataque
contra a luz soviética.
Ali do fundo da sombra
atacaram a estrela
reunindo toda força repulsiva,
unindo os vermes e o veneno,
as chamas destruidoras,
os planos da morte.
Já o bosque ia cobrindo
com seu esplendor obscuro
os sinais malignos,
mas ali agazapados os fortins,
as redes rotas que os escondiam
eram a voz do metal terrível,
a boca desdentada da guerra.
Como hoje nas tranquilas salas claras
dos colégios militares
da América do Norte,
com obstinada precisão se estuda
o poder do micróbio
para que às aldeias
entre com sua carga de vômitos
e assassine os meninos com a água,
assim os pensamentos do incêndio
e do assassinato se incubaram
nestas grutas dos bosques frios.
Mas a onda assassina se deteve
contra um muro de pedra:
a unânime muralha
do socialismo, o peso
do punho de Stalin,
e do Este nevado
voltou a paz ao bosque.
Os invasores que daqui saíram
não regressaram,
mas o ar luminoso
de Stalingrado veio,
atravessou os bosques da Polônia,
abriu as portas
do invasor sanguinário
e crescem desde então
as lianas no bosque,
a água espera as folhas que caem,
os esquilos elétricos
dançam com traje novo.
Denso é o ar como um líquido
que enchesse a taça da terra,
fundem-se meus passos no musgo
como se caminhasse no esquecimento,
um pedaço de lenha
se encheu de aderências
como um violino de música,
as folhas tecem fios que atravessam
de uma árvore a outra
fiando o perfurado
silêncio da selva.
Ao pé do bosque as campinas
sentem nascer o trigo,
mais além o carvão corre
para o aço,
as cidades se povoam,
marcha o homem,
marcham os homens,
crescem as naves,
de noite o céu mostra
a Polônia com longa
luz de estrelas
dizendo: “Homens de todas
as terras e os mares,
vede como cresce
a filha do aço”.
E a lua se assombra
porque no vazio
de ontem, carbonizado,
hoje um telhado devolve
a doce luz noturna,
o sol entra cedo
nas padarias,
senta-se nas escolas,
vive a vida,
constrói o homem,
o braço duro enlaça
um talhe de pomba.
Bom dia, Polônia!
Boa noite, Polônia!
Até amanhã, te amo!
Bons dias e noites!
Bons anos e séculos!
Te amo, Polônia, e de ti me despeço
levando uma flor e deixando em tua testa
um longo beijo que tomou a forma
de todos os meus beijos: de um canto.
dos grandes bosques,
a guerra junto à água
lenta e multiplicada
saiu para insultar-me, no meio
da paz
no reino silvestre:
ali estava.
Goering havia deixado
seus cubos de cimento.
Ali estava a horrível arquitetura
inumana, angulosa,
ranhuras entreabertas
como olhos de réptil, formas nuas
da crueldade, ali, escondido,
nas novas covinhas das feras
planejaram o ataque
contra a luz soviética.
Ali do fundo da sombra
atacaram a estrela
reunindo toda força repulsiva,
unindo os vermes e o veneno,
as chamas destruidoras,
os planos da morte.
Já o bosque ia cobrindo
com seu esplendor obscuro
os sinais malignos,
mas ali agazapados os fortins,
as redes rotas que os escondiam
eram a voz do metal terrível,
a boca desdentada da guerra.
Como hoje nas tranquilas salas claras
dos colégios militares
da América do Norte,
com obstinada precisão se estuda
o poder do micróbio
para que às aldeias
entre com sua carga de vômitos
e assassine os meninos com a água,
assim os pensamentos do incêndio
e do assassinato se incubaram
nestas grutas dos bosques frios.
Mas a onda assassina se deteve
contra um muro de pedra:
a unânime muralha
do socialismo, o peso
do punho de Stalin,
e do Este nevado
voltou a paz ao bosque.
Os invasores que daqui saíram
não regressaram,
mas o ar luminoso
de Stalingrado veio,
atravessou os bosques da Polônia,
abriu as portas
do invasor sanguinário
e crescem desde então
as lianas no bosque,
a água espera as folhas que caem,
os esquilos elétricos
dançam com traje novo.
Denso é o ar como um líquido
que enchesse a taça da terra,
fundem-se meus passos no musgo
como se caminhasse no esquecimento,
um pedaço de lenha
se encheu de aderências
como um violino de música,
as folhas tecem fios que atravessam
de uma árvore a outra
fiando o perfurado
silêncio da selva.
Ao pé do bosque as campinas
sentem nascer o trigo,
mais além o carvão corre
para o aço,
as cidades se povoam,
marcha o homem,
marcham os homens,
crescem as naves,
de noite o céu mostra
a Polônia com longa
luz de estrelas
dizendo: “Homens de todas
as terras e os mares,
vede como cresce
a filha do aço”.
E a lua se assombra
porque no vazio
de ontem, carbonizado,
hoje um telhado devolve
a doce luz noturna,
o sol entra cedo
nas padarias,
senta-se nas escolas,
vive a vida,
constrói o homem,
o braço duro enlaça
um talhe de pomba.
Bom dia, Polônia!
Boa noite, Polônia!
Até amanhã, te amo!
Bons dias e noites!
Bons anos e séculos!
Te amo, Polônia, e de ti me despeço
levando uma flor e deixando em tua testa
um longo beijo que tomou a forma
de todos os meus beijos: de um canto.
1 298
Pablo Neruda
Ii - Primavera No Norte
Eu percorri a primavera
verde e abrasadora
da Polônia.
Tremiam na luz os cereais
da abundância, o leite deslizava
um rio branco
para o mar
lá da agricultura coletiva,
os campos úmidos, olor de chão,
flores como relâmpagos azuis
ou pontuações rápidas de sangue.
Desde o inverno longo os pinhais
moviam seus costados de navio
como embarcando na primavera,
e debaixo, na sombra turbadora,
os morangos entreabriam suas hastes.
O ar era metálico,
um ar novo de ressurreição,
porque não só o bosque,
o mar, a terra,
mas o homem,
ali ressuscitavam.
Ali o dilúvio foi de sangue,
a arca clandestina da luta
navegou entre os mortos.
Por isso a violenta primavera
da Polônia tinha
sabor ferruginoso
para minha boca, era
um elétrico líquido,
o beijo da terra,
o coração do homem
na taça estrelada da vida!
verde e abrasadora
da Polônia.
Tremiam na luz os cereais
da abundância, o leite deslizava
um rio branco
para o mar
lá da agricultura coletiva,
os campos úmidos, olor de chão,
flores como relâmpagos azuis
ou pontuações rápidas de sangue.
Desde o inverno longo os pinhais
moviam seus costados de navio
como embarcando na primavera,
e debaixo, na sombra turbadora,
os morangos entreabriam suas hastes.
O ar era metálico,
um ar novo de ressurreição,
porque não só o bosque,
o mar, a terra,
mas o homem,
ali ressuscitavam.
Ali o dilúvio foi de sangue,
a arca clandestina da luta
navegou entre os mortos.
Por isso a violenta primavera
da Polônia tinha
sabor ferruginoso
para minha boca, era
um elétrico líquido,
o beijo da terra,
o coração do homem
na taça estrelada da vida!
1 172
Pablo Neruda
Volta Espanha
Espanha, Espanha coração violeta,
me faltaste ao peito, tu me faltas
não como falta o sol na cintura
mas como o sal na garganta,
como o pão nos dentes, como o ódio
na colmeia negra, como o dia
em cima dos sobressaltos da aurora,
mas não é isso ainda, como o tecido
do elemento visceral, profunda
pálpebra que não fita e que não cede,
terreno mineral, rosa de osso
aberta em minha razão como um castelo.
A quem posso chamar senão à tua boca?
Tenho outros lábios que me representem?
Estás abandonada ou estou mudo?
Que significa tua calada esfera?
Aonde vou sem tua voz, areia mãe?
Que sou sem teu fanal crucificado?
Onde estou sem a água de tua rocha?
Que és tu se não me deste sangue?
Oh tormento! Recobra-me, recebe-me
antes que meu nome e minhas espigas
desapareçam na primavera.
Porque a tuas solidões iradas
vai meu destino acorrentado, ao peso
de tua vitória. A ti vou conduzido.
Espanha, és mais grave que uma data,
que uma adivinhação, que uma tormenta,
e não importa a torre desapiedada
de tua perdida voz, mas a dura
resistência, a pedra que sustenta.
Mas por que, se sou areia tua,
água em tuas águas, sangue em tuas feridas,
hoje me recusas a boca que me chama,
tua voz, a construção dê minha existência?
Peço ao que em teu ser é minha substância,
a teu dilaceramento de facas,
que se abram hoje, sobre a desventura,
as iluminações de teu rosto,
e te levantes, perfurando o céu,
rompendo as trevas e os sinais,
até surgir, farinha e alvorada,
lua acesa sobre os ossários.
Matarás. Mata, Espanha, santa virgem,
levanta-te empunhando a ternura
como uma cega rosa desatada
sobre as pedrarias infernais.
Vem a mim, devolve-me a torre
que me roubaram,
devolve-me a língua
e o povo que me esperam, espanta-me
com a unidade final de tua formosura.
Levanta-te em teu sangue e em teu fogo
o sangue que deste, o primeiro,
e o fogo, ninho de tua luz sagrada.
1 338
Pablo Neruda
Iii - As Ruínas No Báltico
Gdansk, atormentado pela guerra,
rosa despedaçada,
como espectro entre espectros,
entre o cheiro marinho
e o alto céu branco,
andei entre tuas ruínas,
entre pedaços de prata alaranjada.
A névoa entrou comigo,
os vapores glaciais,
e errante
desenlacei as ruas
sem casas e sem homens.
Eu conheço a guerra
e esse rosto sem olhos e sem lábios,
essas janelas mortas
as conheço,
vi-as em Madri, em Berlim, em Varsóvia,
mas esta gótica nave
com sua cinza de tijolos vermelhos
junto ao mar, na porta
das antigas viagens,
esta figura mercantil de proa,
balandra verde dos mares frios,
com suas dilacerantes aberturas,
seus muros em munhões,
seu orgulho demolido,
me entraram na alma
com rajadas de neve, pó e fumo,
algo enceguecedor, desesperado.
A casa das agremiações
com seus sinais caídos,
os bancos em que o ouro tilintava
tombando na garganta da Europa,
os molhes vermelhos
onde um rio
de cereais trouxe
como uma onda terrestre
o olor do verão,
tudo era pó, montes
de matéria desfeita,
e o vento do Báltico férreo
voando no vazio.
Vi com meus olhos
pulular o rocio da onda
na ressurreição das carenas,
das proas bordadas
pelo homem recém-desenterrado.
Vislumbrei
como nascia um porto,
mas não das águas e as terras
lavadas e lustradas,
mas da catástrofe.
E eu te vi, titânica pomba,
branca e azul, marinha,
nascer e levantar-te
voando firme e forte
lá da destruição emaranhada
e da sangrenta solidão
do vento e as cinzas!
rosa despedaçada,
como espectro entre espectros,
entre o cheiro marinho
e o alto céu branco,
andei entre tuas ruínas,
entre pedaços de prata alaranjada.
A névoa entrou comigo,
os vapores glaciais,
e errante
desenlacei as ruas
sem casas e sem homens.
Eu conheço a guerra
e esse rosto sem olhos e sem lábios,
essas janelas mortas
as conheço,
vi-as em Madri, em Berlim, em Varsóvia,
mas esta gótica nave
com sua cinza de tijolos vermelhos
junto ao mar, na porta
das antigas viagens,
esta figura mercantil de proa,
balandra verde dos mares frios,
com suas dilacerantes aberturas,
seus muros em munhões,
seu orgulho demolido,
me entraram na alma
com rajadas de neve, pó e fumo,
algo enceguecedor, desesperado.
A casa das agremiações
com seus sinais caídos,
os bancos em que o ouro tilintava
tombando na garganta da Europa,
os molhes vermelhos
onde um rio
de cereais trouxe
como uma onda terrestre
o olor do verão,
tudo era pó, montes
de matéria desfeita,
e o vento do Báltico férreo
voando no vazio.
Vi com meus olhos
pulular o rocio da onda
na ressurreição das carenas,
das proas bordadas
pelo homem recém-desenterrado.
Vislumbrei
como nascia um porto,
mas não das águas e as terras
lavadas e lustradas,
mas da catástrofe.
E eu te vi, titânica pomba,
branca e azul, marinha,
nascer e levantar-te
voando firme e forte
lá da destruição emaranhada
e da sangrenta solidão
do vento e as cinzas!
1 013
Pablo Neruda
Tarde - LXVII
A grande chuva do Sul cai sobre Ilha Negra
como uma só gota transparente e pesada,
o mar abre suas folhas frias e a recebe,
a terra apreende o úmido destino de uma taça.
Alma minha, dá-me em teus beijos a água
salobre destes meses, o mel do território,
a fragrância molhada por mil lábios do céu,
a paciência sagrada do mar no inverno.
Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,
relata a água um longo rumor às janelas,
cresce o céu para baixo tocando as raízes,
e assim tece e destece sua rede celeste o dia
com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,
uma mulher, um homem e o inverno na terra.
LXVIII
(Carranca de Proa)
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
como uma só gota transparente e pesada,
o mar abre suas folhas frias e a recebe,
a terra apreende o úmido destino de uma taça.
Alma minha, dá-me em teus beijos a água
salobre destes meses, o mel do território,
a fragrância molhada por mil lábios do céu,
a paciência sagrada do mar no inverno.
Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,
relata a água um longo rumor às janelas,
cresce o céu para baixo tocando as raízes,
e assim tece e destece sua rede celeste o dia
com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,
uma mulher, um homem e o inverno na terra.
LXVIII
(Carranca de Proa)
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
1 276
Pablo Neruda
I - Eu Canto E Conto
Desde o estio báltico,
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.
Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.
Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
1 208
Pablo Neruda
I - Eu Canto E Conto
Desde o estio báltico,
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.
Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
azul aço, âmbar e espuma,
até onde os Cárpatos coroam
as fontes da Polônia
com os diademas pálidos da Europa,
eu atravessei a terra
dos martírios e dos nascimentos,
a pele esquartejada,
o infinito trigo que renasce,
as grutas do carvão, e me mostraram
antigo sangue na neve,
rascando as campinas,
o homem e sua cozinha sepultados,
o menino e seu pequeno carrinho,
a flor sobre os ossos da mãe.
Testemunha destes dias
sou e sinto e canto
e não há cordas de ouro
para mim neste tempo.
A harpa e sua doçura se queimaram
com o incêndio do mundo
e para contar e cantar ressurreições
vim.
Recebei-me
e vede o que eu tiro da terra arrasada,
um fragmento de violino, um anel morto
e o esquecimento.
Aceitai o que trago,
canto e conto,
porque não só sangue submerso,
ruína, pranto e cinza,
vêm comigo agora.
Trago em meu saco de viagem
a chuva cinza do Norte:
sobre novas sementeiras
cai e cai,
e o pão imenso cresce
como nunca na terra.
O martelo bate,
a pá sobe e desce,
soam as pedras nas construções,
sobe a vida.
Oh Polônia, oh amor,
oh primavera,
vens comigo
para que eu te mostre
contando e cantando
por todos os caminhos,
e no fundo,
mais além dos mortos,
canta e conta a vida,
porque isso é o canto e a conta,
o que me ensinaste,
Polônia, e o que ensino:
a fé na vida, mais profunda
quando de mais longe vim,
da morte,
a fé no homem quando pôde triunfar
do próprio homem,
a fé na casa quando pôde nascer
da cinza imensa,
a fé no canto que se pôde cantar
quando já não havia boca!
Polônia, me ensinaste a ser
de novo
e a cantar de novo,
e isto é o que o viandante com guitarra
tira do saco e o mostra cantando:
a flor indestrutível
e a nova esperança,
as antigas dores sepultadas
e a reconstrução da alegria.
1 208
Pablo Neruda
VI - China
China, por muito tempo nos mostraram tua efígie
pintada especialmente para ocidentais:
eras uma velhinha enrugada,
infinitamente pobre,
com uma tigela vazia de arroz
na porta de um templo.
Entravam e saíam os soldados
de todos os países,
o sangue salpicava as paredes,
te saqueavam como a casa sem dono,
e davas ao mundo um aroma estranho,
mescla de chá e cinza,
enquanto na porta do templo com teu prato
vazio, nos fitavas com teu olhar antigo.
Em Buenos Aires se vendia teu retrato
feito especialmente para senhoras cultas,
e nas conferências tuas sílabas mágicas
surgiam de repente como luz enterrada.
Todos sabiam algo das dinastias
e ao dizer Ming ou Celadom franziam os lábios
como se comessem um morango,
e assim querias que para nós fosses
uma terra sem homens, uma pátria
onde o vento entrava pelos templos vazios
e saía cantando, só, pelas montanhas.
Queriam que acreditássemos
que dormias,
que dormirias com um sonho eterno,
que eras a “misteriosa”,
intraduzível, estranha,
uma mãe mendiga com farrapos de seda,
enquanto isso de cada um de teus portos
se afastavam os barcos carregados de tesouros
e os aventureiros entre si disputavam
tua herança: minerais
e marfins, planejando,
depois de sangrar-te, como levariam
um bom barco carregado com teus ossos.
pintada especialmente para ocidentais:
eras uma velhinha enrugada,
infinitamente pobre,
com uma tigela vazia de arroz
na porta de um templo.
Entravam e saíam os soldados
de todos os países,
o sangue salpicava as paredes,
te saqueavam como a casa sem dono,
e davas ao mundo um aroma estranho,
mescla de chá e cinza,
enquanto na porta do templo com teu prato
vazio, nos fitavas com teu olhar antigo.
Em Buenos Aires se vendia teu retrato
feito especialmente para senhoras cultas,
e nas conferências tuas sílabas mágicas
surgiam de repente como luz enterrada.
Todos sabiam algo das dinastias
e ao dizer Ming ou Celadom franziam os lábios
como se comessem um morango,
e assim querias que para nós fosses
uma terra sem homens, uma pátria
onde o vento entrava pelos templos vazios
e saía cantando, só, pelas montanhas.
Queriam que acreditássemos
que dormias,
que dormirias com um sonho eterno,
que eras a “misteriosa”,
intraduzível, estranha,
uma mãe mendiga com farrapos de seda,
enquanto isso de cada um de teus portos
se afastavam os barcos carregados de tesouros
e os aventureiros entre si disputavam
tua herança: minerais
e marfins, planejando,
depois de sangrar-te, como levariam
um bom barco carregado com teus ossos.
1 124
Pablo Neruda
Tarde - LX
A ti fere aquele que quis fazer-me dano,
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
e o golpe do veneno contra mim dirigido
como por uma rede passa entre meus trabalhos
e em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo.
Não quero ver, amor, na lua florescida
de tua fronte cruzar o ódio que me espreita.
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
esquecida sua inútil coroa de facas.
Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
onde canto a inveja maldiz, ri e rói.
E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
é um traje vazio que me segue coxeando
como um espantalho de sorriso sangrento.
1 051
Pablo Neruda
Ii - Ali Estava Meu Irmão
Ali estive.
Ali vi
não só areia e ar,
não só camelos e metais,
mas o homem,
o remoto
irmão meu,
nascendo agora no meio
da solidão planetária,
diferenciando-se
da natureza,
conhecendo
o mistério
da eletricidade e da vida,
dando a mão ao Este
e ao Oeste,
dando a mão ao céu
e à terra
repartindo,
existindo,
assegurando
o pão e a ternura
entre seus filhos.
Oh territórios duros,
contrafortes lunares,
em vós
ascende
a semente
do tempo socialista
e sobe
da pedra
a flor e a formosura,
a usina que fala ao céu
com palavras de fumo
e com os minerais dominados elabora ferramentas e alegria.
Ali vi
não só areia e ar,
não só camelos e metais,
mas o homem,
o remoto
irmão meu,
nascendo agora no meio
da solidão planetária,
diferenciando-se
da natureza,
conhecendo
o mistério
da eletricidade e da vida,
dando a mão ao Este
e ao Oeste,
dando a mão ao céu
e à terra
repartindo,
existindo,
assegurando
o pão e a ternura
entre seus filhos.
Oh territórios duros,
contrafortes lunares,
em vós
ascende
a semente
do tempo socialista
e sobe
da pedra
a flor e a formosura,
a usina que fala ao céu
com palavras de fumo
e com os minerais dominados elabora ferramentas e alegria.
1 178
Pablo Neruda
Noite - XCVIII
E esta palavra, este papel escrito
pelas mil mãos de uma só mão,
não fica em ti, não serve para sonhos,
cai à terra: ali permanece.
Não importa que a luz ou a louvação
se derramem e saiam da taça
se foram um tenaz tremor do vinho
se tingiu tua boca de amaranto.
Não quer mais a sílaba tardia,
o que traz e retraz o arrecife
de minhas lembranças, a irritada espuma,
não quer mais senão escrever teu nome.
E ainda que o cale meu sombrio amor
mais tarde o dirá a primavera.
pelas mil mãos de uma só mão,
não fica em ti, não serve para sonhos,
cai à terra: ali permanece.
Não importa que a luz ou a louvação
se derramem e saiam da taça
se foram um tenaz tremor do vinho
se tingiu tua boca de amaranto.
Não quer mais a sílaba tardia,
o que traz e retraz o arrecife
de minhas lembranças, a irritada espuma,
não quer mais senão escrever teu nome.
E ainda que o cale meu sombrio amor
mais tarde o dirá a primavera.
1 048
Pablo Neruda
Noite - XCVIII
E esta palavra, este papel escrito
pelas mil mãos de uma só mão,
não fica em ti, não serve para sonhos,
cai à terra: ali permanece.
Não importa que a luz ou a louvação
se derramem e saiam da taça
se foram um tenaz tremor do vinho
se tingiu tua boca de amaranto.
Não quer mais a sílaba tardia,
o que traz e retraz o arrecife
de minhas lembranças, a irritada espuma,
não quer mais senão escrever teu nome.
E ainda que o cale meu sombrio amor
mais tarde o dirá a primavera.
pelas mil mãos de uma só mão,
não fica em ti, não serve para sonhos,
cai à terra: ali permanece.
Não importa que a luz ou a louvação
se derramem e saiam da taça
se foram um tenaz tremor do vinho
se tingiu tua boca de amaranto.
Não quer mais a sílaba tardia,
o que traz e retraz o arrecife
de minhas lembranças, a irritada espuma,
não quer mais senão escrever teu nome.
E ainda que o cale meu sombrio amor
mais tarde o dirá a primavera.
1 048
Pablo Neruda
Ix - Com Meu Amigo de Praga
Feliz tua pátria, Tchecoslováquia, mãe
de olhos de aço, pétala preferida
da Europa, coroada
pela paz de teu povo!
Doces colinas, águas, telhados vermelhos,
e trêmulos como chuva verde
eleva o lúpulo seus fios verticais,
enquanto em Gotwaldov uma colmeia
de inteligência e de razão sustenta
a nova rosa do trabalho humano.
Oh, Fucik, vem, visita
comigo,
comigo o limpo chão de tua pátria,
verde, branco e dourado,
e nela iluminando-a,
a claridade do povo!
Honra ao novo sulco
e à nova jornada,
e ao aço invencível de Kladno!
Ao homem novo que penetra
nas oficinas e nas praças,
às novas pontes seguras
sobre o tremor do velho rio,
através de Fucik, meu amigo,
meu companheiro silencioso,
que foi comigo mostrando tudo
na cor do inverno de Praga,
com seu velho chapéu invisível
e seu doce sorriso mudo,
pela vida e pela morte,
a herança e o dom que nos fez.
Julius Fucik, eu te saúdo,
Tchecoslováquia renovada,
mãe de rapazes simples,
terra dos calados heróis,
república de névoa e cristal,
cacho, espiga, aço, povo!
de olhos de aço, pétala preferida
da Europa, coroada
pela paz de teu povo!
Doces colinas, águas, telhados vermelhos,
e trêmulos como chuva verde
eleva o lúpulo seus fios verticais,
enquanto em Gotwaldov uma colmeia
de inteligência e de razão sustenta
a nova rosa do trabalho humano.
Oh, Fucik, vem, visita
comigo,
comigo o limpo chão de tua pátria,
verde, branco e dourado,
e nela iluminando-a,
a claridade do povo!
Honra ao novo sulco
e à nova jornada,
e ao aço invencível de Kladno!
Ao homem novo que penetra
nas oficinas e nas praças,
às novas pontes seguras
sobre o tremor do velho rio,
através de Fucik, meu amigo,
meu companheiro silencioso,
que foi comigo mostrando tudo
na cor do inverno de Praga,
com seu velho chapéu invisível
e seu doce sorriso mudo,
pela vida e pela morte,
a herança e o dom que nos fez.
Julius Fucik, eu te saúdo,
Tchecoslováquia renovada,
mãe de rapazes simples,
terra dos calados heróis,
república de névoa e cristal,
cacho, espiga, aço, povo!
1 196
Pablo Neruda
Solo de Sol
Hoje, este momento, este hoje destapado, aqui fora,
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
2 342
Pablo Neruda
Vii - Se Lhes Falo...
Há mil anos um homem foi crucificado,
morreu em sua fé, pensando mais além da terra.
Sua cruz pesou sobre a vida humana
e amassou a ânsia e a esperança.
Nós teremos milhões de crucificados
e nossa esperança está sobre a terra.
Que levante os olhos o que deseje vê-la.
Dá-me a mão se queres tocá-la.
Nos novos arrozais da China está nossa esperança.
E quando os dentes brancos do arroz sorriem,
não é verdade que a terra está feliz?
Não é verdade que o trigo e a carne,
não é verdade que a escola,
a casa limpa, o trabalho assegurado e justo,
a paz para os filhos, o amor,
o livro em que a alegria e a sabedoria se juntaram,
não é verdade que são estas as conquistas do homem,
e estas simples verdades compõem nossa esperança?
Por que desejais que aos camponeses aimarás da infeliz Bolívia,
desfiados pela fome e o frio das
grandes alturas, venha amanhã prometer-lhes o
céu?
Já não me crucificaríeis porque eles continuariam famintos.
Mas se lhes falo de uma cooperativa agrícola que
vi na Polônia,
onde o leite, o pão e o livro eram tesouros comuns,
então me dareis pauladas nas costas
e me crucificareis se os meus não me defendem.
Temos um crucificado em cada quilômetro de terra, e perto da próspera Nova York, perto do Stork Club, crucificam um negro e um branco diariamente.
Mas não ficamos tranquilos
esperando o martírio nem o incenso,
nós lutaremos cada dia de nossa vida,
nós venceremos e agora te chamamos,
e assim lá de sua forca e sua cruz, como a chames
não me importa,
o coração morto de Julius Fucik derrotou seus carrascos.
morreu em sua fé, pensando mais além da terra.
Sua cruz pesou sobre a vida humana
e amassou a ânsia e a esperança.
Nós teremos milhões de crucificados
e nossa esperança está sobre a terra.
Que levante os olhos o que deseje vê-la.
Dá-me a mão se queres tocá-la.
Nos novos arrozais da China está nossa esperança.
E quando os dentes brancos do arroz sorriem,
não é verdade que a terra está feliz?
Não é verdade que o trigo e a carne,
não é verdade que a escola,
a casa limpa, o trabalho assegurado e justo,
a paz para os filhos, o amor,
o livro em que a alegria e a sabedoria se juntaram,
não é verdade que são estas as conquistas do homem,
e estas simples verdades compõem nossa esperança?
Por que desejais que aos camponeses aimarás da infeliz Bolívia,
desfiados pela fome e o frio das
grandes alturas, venha amanhã prometer-lhes o
céu?
Já não me crucificaríeis porque eles continuariam famintos.
Mas se lhes falo de uma cooperativa agrícola que
vi na Polônia,
onde o leite, o pão e o livro eram tesouros comuns,
então me dareis pauladas nas costas
e me crucificareis se os meus não me defendem.
Temos um crucificado em cada quilômetro de terra, e perto da próspera Nova York, perto do Stork Club, crucificam um negro e um branco diariamente.
Mas não ficamos tranquilos
esperando o martírio nem o incenso,
nós lutaremos cada dia de nossa vida,
nós venceremos e agora te chamamos,
e assim lá de sua forca e sua cruz, como a chames
não me importa,
o coração morto de Julius Fucik derrotou seus carrascos.
839
Pablo Neruda
Vi - Regressou a Sirena
Amor, como se um dia
morresses,
e eu cavasse
e eu cavasse
noite e dia
em teu sepulcro
e te recompusesse,
levantasse teus seios desde o pó,
a boca que adorei, de suas cinzas,
construísse de novo
teus braços e tuas pernas e teus olhos,
tua cabeleira de metal torcido,
e te desse a vida
com o amor que te ama,
te fizesse andar de novo,
palpitar outra vez em tua cintura,
assim, amor, levantaram de novo
a cidade de Varsóvia.
Eu chegaria cego em tuas cinzas
mas te buscaria,
e pouco a pouco irias elevando
os edifícios doces de teu corpo,
e assim encontraram eles
na cidade amada
só vento e cinza,
fragmentos arrasados,
carvões que choravam na chuva,
sorrisos de mulher sob a neve.
Morta estava a formosa,
não existiam janelas,
a noite se encostava sobre a branca morta,
o dia iluminava a campina vazia.
E assim a levantaram,
com amor, e chegaram
cegos e soluçantes,
mas cavaram fundo,
limparam a cinza.
Era tarde, a noite,
o cansaço, a neve
detinham a pá,
e eles cavando acharam
primeiro a cabeça,
os alvos seios da doce morta,
seu traje de sirena,
e por fim o coração sob a terra,
enterrado e queimado mas vivo,
e hoje pulsa vivo, palpitando no meio
da reconstrução de sua beleza.
Agora compreendes como
o amor construiu as avenidas,
fez cantar a lua nos jardins.
Hoje quando
pétala a pétala tomba a neve
sobre os telhados e as pontes
e o inverno bate
as portas de Varsóvia,
o fogo, o canto
vivem de novo nos lares
que edificou o amor sobre a morte.
Ai daqueles que fugiram e creram
escapar com a poesia:
não sabem que o amor está em Varsóvia,
e que quando a morte
ali foi derrotada,
e quando o rio passa,
reconhecendo seres e destinos,
como duas flores de perfume e prata,
cidade e poesia,
em suas cúpulas claras
guardam a luz, o fogo e o pão de seu destino.
Varsóvia milagrosa,
coração enterrado
de novo vivo e livre,
cidade em que se prova
como o homem é maior
que toda a desventura,
Varsóvia, deixa-me
tocar teus muros.
Não estão feitos de pedra ou de madeira,
de esperança estão feitos,
e o que tocar queira a esperança,
matéria firme e dura,
terra tenaz que canta,
metal que reconstrói,
areia indestrutível,
cereal infinito,
mel para todos os séculos,
martelo eterno,
estrela vencedora,
ferramenta invencível,
cimento da vida,
a esperança,
que aqui a toquem,
que aqui sintam nela como sobe
a vida e o sangue de novo,
porque o amor, Varsóvia,
levantou tua estátua de sirena
e se toco teus muros,
tua pele sagrada,
compreendo
que és a vida e que nos teus muros
morreu, por fim, a morte.
morresses,
e eu cavasse
e eu cavasse
noite e dia
em teu sepulcro
e te recompusesse,
levantasse teus seios desde o pó,
a boca que adorei, de suas cinzas,
construísse de novo
teus braços e tuas pernas e teus olhos,
tua cabeleira de metal torcido,
e te desse a vida
com o amor que te ama,
te fizesse andar de novo,
palpitar outra vez em tua cintura,
assim, amor, levantaram de novo
a cidade de Varsóvia.
Eu chegaria cego em tuas cinzas
mas te buscaria,
e pouco a pouco irias elevando
os edifícios doces de teu corpo,
e assim encontraram eles
na cidade amada
só vento e cinza,
fragmentos arrasados,
carvões que choravam na chuva,
sorrisos de mulher sob a neve.
Morta estava a formosa,
não existiam janelas,
a noite se encostava sobre a branca morta,
o dia iluminava a campina vazia.
E assim a levantaram,
com amor, e chegaram
cegos e soluçantes,
mas cavaram fundo,
limparam a cinza.
Era tarde, a noite,
o cansaço, a neve
detinham a pá,
e eles cavando acharam
primeiro a cabeça,
os alvos seios da doce morta,
seu traje de sirena,
e por fim o coração sob a terra,
enterrado e queimado mas vivo,
e hoje pulsa vivo, palpitando no meio
da reconstrução de sua beleza.
Agora compreendes como
o amor construiu as avenidas,
fez cantar a lua nos jardins.
Hoje quando
pétala a pétala tomba a neve
sobre os telhados e as pontes
e o inverno bate
as portas de Varsóvia,
o fogo, o canto
vivem de novo nos lares
que edificou o amor sobre a morte.
Ai daqueles que fugiram e creram
escapar com a poesia:
não sabem que o amor está em Varsóvia,
e que quando a morte
ali foi derrotada,
e quando o rio passa,
reconhecendo seres e destinos,
como duas flores de perfume e prata,
cidade e poesia,
em suas cúpulas claras
guardam a luz, o fogo e o pão de seu destino.
Varsóvia milagrosa,
coração enterrado
de novo vivo e livre,
cidade em que se prova
como o homem é maior
que toda a desventura,
Varsóvia, deixa-me
tocar teus muros.
Não estão feitos de pedra ou de madeira,
de esperança estão feitos,
e o que tocar queira a esperança,
matéria firme e dura,
terra tenaz que canta,
metal que reconstrói,
areia indestrutível,
cereal infinito,
mel para todos os séculos,
martelo eterno,
estrela vencedora,
ferramenta invencível,
cimento da vida,
a esperança,
que aqui a toquem,
que aqui sintam nela como sobe
a vida e o sangue de novo,
porque o amor, Varsóvia,
levantou tua estátua de sirena
e se toco teus muros,
tua pele sagrada,
compreendo
que és a vida e que nos teus muros
morreu, por fim, a morte.
1 203
Pablo Neruda
V - Os Bosques
Para os bosques frios e os lagos
do Norte verde,
as águas masurianas,
entrando em toda parte,
tanques amplos invadidos
pelo pálido céu,
lagoas como agulhas,
todas as formas plácidas da água
ali ficaram como se uma estrela
se houvesse destroçado
ou lua verde em gotas
caindo da altura.
Formoso é o ar, e o vento
penteia as eriçadas cabeleiras
dos pinhais acerados.
Formoso é o ar, fresco
e azul sob os pinheiros.
De repente o vento traja
seu trêmulo vestido
de oxigênio e agulhas.
Solene é o vento na selva.
Faz pequenos ruídos
como cartas que tombam,
ou ressoa com um pranto de garrafa
ou brita pedras, busca
fragmentos de madeira
que arrasta com mãos de pai
ou sopra e sobe
de uma árvore a outra
espantando os pássaros.
Formoso é o vento do Norte,
irmão da neve,
na profundidade dos pinhais.
E marcho sem chapéu.
Em minha cabeça o ar
me coroa de frio,
novos lábios me mordem.
Entro cantando
no frescor verde
como num alto oceano.
Canto
e piso a erva
recém-condecorada
com pequenas estrelas amarelas.
Formoso Norte de largos ombros,
de lagos e pinhais,
te saúdo:
deixa-me respirar-te,
andar entre os pinheiros e as águas
cantando e silvando
e descansar em tua molhada alfombra
como uma árvore caída
sob teu sonho verde.
do Norte verde,
as águas masurianas,
entrando em toda parte,
tanques amplos invadidos
pelo pálido céu,
lagoas como agulhas,
todas as formas plácidas da água
ali ficaram como se uma estrela
se houvesse destroçado
ou lua verde em gotas
caindo da altura.
Formoso é o ar, e o vento
penteia as eriçadas cabeleiras
dos pinhais acerados.
Formoso é o ar, fresco
e azul sob os pinheiros.
De repente o vento traja
seu trêmulo vestido
de oxigênio e agulhas.
Solene é o vento na selva.
Faz pequenos ruídos
como cartas que tombam,
ou ressoa com um pranto de garrafa
ou brita pedras, busca
fragmentos de madeira
que arrasta com mãos de pai
ou sopra e sobe
de uma árvore a outra
espantando os pássaros.
Formoso é o vento do Norte,
irmão da neve,
na profundidade dos pinhais.
E marcho sem chapéu.
Em minha cabeça o ar
me coroa de frio,
novos lábios me mordem.
Entro cantando
no frescor verde
como num alto oceano.
Canto
e piso a erva
recém-condecorada
com pequenas estrelas amarelas.
Formoso Norte de largos ombros,
de lagos e pinhais,
te saúdo:
deixa-me respirar-te,
andar entre os pinheiros e as águas
cantando e silvando
e descansar em tua molhada alfombra
como uma árvore caída
sob teu sonho verde.
1 180
Pablo Neruda
V - Os Bosques
Para os bosques frios e os lagos
do Norte verde,
as águas masurianas,
entrando em toda parte,
tanques amplos invadidos
pelo pálido céu,
lagoas como agulhas,
todas as formas plácidas da água
ali ficaram como se uma estrela
se houvesse destroçado
ou lua verde em gotas
caindo da altura.
Formoso é o ar, e o vento
penteia as eriçadas cabeleiras
dos pinhais acerados.
Formoso é o ar, fresco
e azul sob os pinheiros.
De repente o vento traja
seu trêmulo vestido
de oxigênio e agulhas.
Solene é o vento na selva.
Faz pequenos ruídos
como cartas que tombam,
ou ressoa com um pranto de garrafa
ou brita pedras, busca
fragmentos de madeira
que arrasta com mãos de pai
ou sopra e sobe
de uma árvore a outra
espantando os pássaros.
Formoso é o vento do Norte,
irmão da neve,
na profundidade dos pinhais.
E marcho sem chapéu.
Em minha cabeça o ar
me coroa de frio,
novos lábios me mordem.
Entro cantando
no frescor verde
como num alto oceano.
Canto
e piso a erva
recém-condecorada
com pequenas estrelas amarelas.
Formoso Norte de largos ombros,
de lagos e pinhais,
te saúdo:
deixa-me respirar-te,
andar entre os pinheiros e as águas
cantando e silvando
e descansar em tua molhada alfombra
como uma árvore caída
sob teu sonho verde.
do Norte verde,
as águas masurianas,
entrando em toda parte,
tanques amplos invadidos
pelo pálido céu,
lagoas como agulhas,
todas as formas plácidas da água
ali ficaram como se uma estrela
se houvesse destroçado
ou lua verde em gotas
caindo da altura.
Formoso é o ar, e o vento
penteia as eriçadas cabeleiras
dos pinhais acerados.
Formoso é o ar, fresco
e azul sob os pinheiros.
De repente o vento traja
seu trêmulo vestido
de oxigênio e agulhas.
Solene é o vento na selva.
Faz pequenos ruídos
como cartas que tombam,
ou ressoa com um pranto de garrafa
ou brita pedras, busca
fragmentos de madeira
que arrasta com mãos de pai
ou sopra e sobe
de uma árvore a outra
espantando os pássaros.
Formoso é o vento do Norte,
irmão da neve,
na profundidade dos pinhais.
E marcho sem chapéu.
Em minha cabeça o ar
me coroa de frio,
novos lábios me mordem.
Entro cantando
no frescor verde
como num alto oceano.
Canto
e piso a erva
recém-condecorada
com pequenas estrelas amarelas.
Formoso Norte de largos ombros,
de lagos e pinhais,
te saúdo:
deixa-me respirar-te,
andar entre os pinheiros e as águas
cantando e silvando
e descansar em tua molhada alfombra
como uma árvore caída
sob teu sonho verde.
1 180
Pablo Neruda
Iv - o Cinturão
Carlos Augusto me mandou
um cinturão de couro de Orinoco.
Agora na cintura
levo um rio,
aves nupciais que em seu vôo levantam
as pétalas da espessura,
o longo trovão que perdi na infância
hoje o levo amarrado,
cosido com relâmpagos e chuva,
subjugando minhas velhas calças.
Couro de litoral, couro de rio,
te amo e toco,
és flor e madeira, sáurio e lodo,
és argila extensa.
Passo minha mão sobre tuas rugas
como sobre minha pátria. Tens lábios
de um beijo que me busca.
Mas não só amor, oh terra, tens,
sei que também me guardas
a dentada, o fio, o extermínio
que perguntam por mim todos os dias,
porque tua costa, América, não tem apenas plumas
de um leque incendiário,
não tem só açúcar luminoso,
frutas que pestanejam,
mas o venenoso sussurro
da facada secreta.
Aqui só
me provou o rio:
não fica mal em minha cintura.
O Orinoco
é como um nome que me falta.
Eu me chamo Orinoco,
devo ir com a água na cintura,
e desde agora
esta linha de couro
crescerá com a lua,
abrirá seus estuários na aurora,
caminhará as ruas
comigo e entrará nas reuniões
recordando-me
de onde sou: das terras abruptas
de Sinaloa e de Magallanes,
das pontas de ferro andino,
das ilhas de furacão,
porém mais que todos os lugares,
do rio caimão verde,
do Orinoco, envolto
pelas suas respirações,
que entre suas duas margens sempre recém-bordadas
vai estendendo seu canto pela terra.
Carlos Augusto, obrigado,
jovem irmão, porque no meu exílio
a água pátria me mandaste. Um dia
verás aparecer na corrente
do rio
que desatada corre e nos reúne,
um rosto, nosso povo,
alto e feliz cantando com as águas.
E quando esse rosto nos fitar
pensaremos “fizemos nossa parte”
e cantaremos com nossos rios,
com nossos povos cantaremos.
um cinturão de couro de Orinoco.
Agora na cintura
levo um rio,
aves nupciais que em seu vôo levantam
as pétalas da espessura,
o longo trovão que perdi na infância
hoje o levo amarrado,
cosido com relâmpagos e chuva,
subjugando minhas velhas calças.
Couro de litoral, couro de rio,
te amo e toco,
és flor e madeira, sáurio e lodo,
és argila extensa.
Passo minha mão sobre tuas rugas
como sobre minha pátria. Tens lábios
de um beijo que me busca.
Mas não só amor, oh terra, tens,
sei que também me guardas
a dentada, o fio, o extermínio
que perguntam por mim todos os dias,
porque tua costa, América, não tem apenas plumas
de um leque incendiário,
não tem só açúcar luminoso,
frutas que pestanejam,
mas o venenoso sussurro
da facada secreta.
Aqui só
me provou o rio:
não fica mal em minha cintura.
O Orinoco
é como um nome que me falta.
Eu me chamo Orinoco,
devo ir com a água na cintura,
e desde agora
esta linha de couro
crescerá com a lua,
abrirá seus estuários na aurora,
caminhará as ruas
comigo e entrará nas reuniões
recordando-me
de onde sou: das terras abruptas
de Sinaloa e de Magallanes,
das pontas de ferro andino,
das ilhas de furacão,
porém mais que todos os lugares,
do rio caimão verde,
do Orinoco, envolto
pelas suas respirações,
que entre suas duas margens sempre recém-bordadas
vai estendendo seu canto pela terra.
Carlos Augusto, obrigado,
jovem irmão, porque no meu exílio
a água pátria me mandaste. Um dia
verás aparecer na corrente
do rio
que desatada corre e nos reúne,
um rosto, nosso povo,
alto e feliz cantando com as águas.
E quando esse rosto nos fitar
pensaremos “fizemos nossa parte”
e cantaremos com nossos rios,
com nossos povos cantaremos.
1 186
Pablo Neruda
Iii - Contemplada a Grécia
Oh lágrimas, não é tempo
de acudir a meus olhos,
não é hora
de acudir aos olhos dos homens,
pálpebras, levantai-vos
do fundo da escuridão do sonho, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, o ano, o dia,
vertendo o sangue de seu povo,
batendo as faces
em seu terrível capitel de espinhos.
Olhai, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, o açoite
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vê como se levanta a cabeça
de seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento cresce suas bandeiras,
a ação confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.
Oh Grécia clara,
se em ti rodou a escuridão seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti mesma
está a claridade, que recolhes
a noite inteira em teu regaço
até que de tuas mãos
se levanta a aurora,
vôo branco molhado de orvalho.
Em sua luz te veremos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos de novo tua brancura
de estátua, entre os montes
de acudir a meus olhos,
não é hora
de acudir aos olhos dos homens,
pálpebras, levantai-vos
do fundo da escuridão do sonho, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, o ano, o dia,
vertendo o sangue de seu povo,
batendo as faces
em seu terrível capitel de espinhos.
Olhai, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, o açoite
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vê como se levanta a cabeça
de seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento cresce suas bandeiras,
a ação confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.
Oh Grécia clara,
se em ti rodou a escuridão seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti mesma
está a claridade, que recolhes
a noite inteira em teu regaço
até que de tuas mãos
se levanta a aurora,
vôo branco molhado de orvalho.
Em sua luz te veremos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos de novo tua brancura
de estátua, entre os montes
1 194
Pablo Neruda
Ii - Cabeleira de Capri
Capri, rainha do penedo,
em teu vestido
de cor amaranto e açucena
vivi desenvolvendo
a ventura e a dor, a vinha cheia
de radiantes cachos
que conquistei na terra,
o trêmulo tesouro
de aroma e cabeleira,
lâmpada zenital, rosa estendida,
favo de meu planeta.
Desembarquei no inverno.
Seu traje de safira
a ilha em seus pés guardava,
e nua surgia em seu vapor
de catedral marinha.
Era de pedra sua formosura. Em cada
fragmento de sua pele reverdecia
a primavera pura
que escondia nas gredas seu tesouro.
Um relâmpago vermelho e amarelo
sob a luz tênue
jazia sonolento
esperando a hora
para desencadear seu poderio.
Na margem de pássaros imóveis,
na metade do céu,
um rouco grito, o vento
e a indizível espuma.
De prata e pedra teu vestido, apenas
a flor azul rebenta
bordando o manto hirsuto
com seu sangue celeste.
Oh solidão de Capri, vinho
das uvas de prata,
taça de inverno, plena
de exercício invisível,
levantei tua firmeza,
tua delicada luz, tuas estruturas,
e teu álcool de estrela
bebi como se fosse
nascendo em mim a vida.
Ilha, de tuas paredes
desprendi a pequena flor noturna
e a guardo em meu peito.
E lá do mar girando em teu contorno
fiz um anel de água
que ali ficou nas ondas,
encerrando as torres orgulhosas
de pedra florescida,
os gretados píncaros
que a meu amor sustiveram
e guardarão com mãos implacáveis
o rasto de meus beijos.
em teu vestido
de cor amaranto e açucena
vivi desenvolvendo
a ventura e a dor, a vinha cheia
de radiantes cachos
que conquistei na terra,
o trêmulo tesouro
de aroma e cabeleira,
lâmpada zenital, rosa estendida,
favo de meu planeta.
Desembarquei no inverno.
Seu traje de safira
a ilha em seus pés guardava,
e nua surgia em seu vapor
de catedral marinha.
Era de pedra sua formosura. Em cada
fragmento de sua pele reverdecia
a primavera pura
que escondia nas gredas seu tesouro.
Um relâmpago vermelho e amarelo
sob a luz tênue
jazia sonolento
esperando a hora
para desencadear seu poderio.
Na margem de pássaros imóveis,
na metade do céu,
um rouco grito, o vento
e a indizível espuma.
De prata e pedra teu vestido, apenas
a flor azul rebenta
bordando o manto hirsuto
com seu sangue celeste.
Oh solidão de Capri, vinho
das uvas de prata,
taça de inverno, plena
de exercício invisível,
levantei tua firmeza,
tua delicada luz, tuas estruturas,
e teu álcool de estrela
bebi como se fosse
nascendo em mim a vida.
Ilha, de tuas paredes
desprendi a pequena flor noturna
e a guardo em meu peito.
E lá do mar girando em teu contorno
fiz um anel de água
que ali ficou nas ondas,
encerrando as torres orgulhosas
de pedra florescida,
os gretados píncaros
que a meu amor sustiveram
e guardarão com mãos implacáveis
o rasto de meus beijos.
1 276
Pablo Neruda
Ii - Cabeleira de Capri
Capri, rainha do penedo,
em teu vestido
de cor amaranto e açucena
vivi desenvolvendo
a ventura e a dor, a vinha cheia
de radiantes cachos
que conquistei na terra,
o trêmulo tesouro
de aroma e cabeleira,
lâmpada zenital, rosa estendida,
favo de meu planeta.
Desembarquei no inverno.
Seu traje de safira
a ilha em seus pés guardava,
e nua surgia em seu vapor
de catedral marinha.
Era de pedra sua formosura. Em cada
fragmento de sua pele reverdecia
a primavera pura
que escondia nas gredas seu tesouro.
Um relâmpago vermelho e amarelo
sob a luz tênue
jazia sonolento
esperando a hora
para desencadear seu poderio.
Na margem de pássaros imóveis,
na metade do céu,
um rouco grito, o vento
e a indizível espuma.
De prata e pedra teu vestido, apenas
a flor azul rebenta
bordando o manto hirsuto
com seu sangue celeste.
Oh solidão de Capri, vinho
das uvas de prata,
taça de inverno, plena
de exercício invisível,
levantei tua firmeza,
tua delicada luz, tuas estruturas,
e teu álcool de estrela
bebi como se fosse
nascendo em mim a vida.
Ilha, de tuas paredes
desprendi a pequena flor noturna
e a guardo em meu peito.
E lá do mar girando em teu contorno
fiz um anel de água
que ali ficou nas ondas,
encerrando as torres orgulhosas
de pedra florescida,
os gretados píncaros
que a meu amor sustiveram
e guardarão com mãos implacáveis
o rasto de meus beijos.
em teu vestido
de cor amaranto e açucena
vivi desenvolvendo
a ventura e a dor, a vinha cheia
de radiantes cachos
que conquistei na terra,
o trêmulo tesouro
de aroma e cabeleira,
lâmpada zenital, rosa estendida,
favo de meu planeta.
Desembarquei no inverno.
Seu traje de safira
a ilha em seus pés guardava,
e nua surgia em seu vapor
de catedral marinha.
Era de pedra sua formosura. Em cada
fragmento de sua pele reverdecia
a primavera pura
que escondia nas gredas seu tesouro.
Um relâmpago vermelho e amarelo
sob a luz tênue
jazia sonolento
esperando a hora
para desencadear seu poderio.
Na margem de pássaros imóveis,
na metade do céu,
um rouco grito, o vento
e a indizível espuma.
De prata e pedra teu vestido, apenas
a flor azul rebenta
bordando o manto hirsuto
com seu sangue celeste.
Oh solidão de Capri, vinho
das uvas de prata,
taça de inverno, plena
de exercício invisível,
levantei tua firmeza,
tua delicada luz, tuas estruturas,
e teu álcool de estrela
bebi como se fosse
nascendo em mim a vida.
Ilha, de tuas paredes
desprendi a pequena flor noturna
e a guardo em meu peito.
E lá do mar girando em teu contorno
fiz um anel de água
que ali ficou nas ondas,
encerrando as torres orgulhosas
de pedra florescida,
os gretados píncaros
que a meu amor sustiveram
e guardarão com mãos implacáveis
o rasto de meus beijos.
1 276
Pablo Neruda
O Grande Amor
No entanto,
Inglaterra,
há algo de caoba
em tua cintura,
velha madeira usada
pela mão do homem,
banco de igreja, coro
de catedral na névoa.
Algo
a ti nos une,
há algo
contido
detrás de tuas janelas,
um vento brusco, uma ave
de litoral selvagem,
uma melancolia matutina,
algo impossivelmente solitário.
Amei a vida
de teus homens, falsos
conquistadores conquistados,
derramados rumo aos quatro ventos do planeta
para encher teu cofre. No entanto,
se o ouro os moveu com sua onda negra
não só foram isso
mas seres,
tímidos seres em trevas, sós,
enquanto o estandarte com leões
sufocava a luta dos povos.
Pobres meninos ingleses, amos pobres
de um mundo debulhado,
eu sei que entre vós
é natural
o rouxinol terrestre.
Shelley canta na chuva
e decora a chuva
sua citara escarlate.
Nasce em teu litoral o agressivo
punhal de proa rumo a todos os mares,
mas em tua areia o perseguido
encontrou o pão e construiu sua casa.
Lenin sob a névoa
entrando no Museu
em busca de uma linha,
de uma data, de um nome,
enquanto toda a terra
parecia oprimida,
solidão sozinha, etapa impenetrável,
ali, com seus óculos
e seu livro,
Lenin,
mudando em luz a névoa.
E então, isso eras,
Inglaterra,
torre de asilo,
catedral de refúgio,
e os que agora
fecham com a polícia
as linhas, as palavras,
o tesouro
das sabedorias que resguardas,
os que recusam tua areia
ao peregrino da luz errante,
não são dignos
de tua antiga verdade, de tua madeira,
mas te esfaqueiam,
matam em ti o que te resguardava,
não coração, mas o decoro.
Pátria de aves marinhas,
me ensinaste
quanto sei dos pássaros.
Mostraste-me a escama
polida dos peixes,
o tesouro plenário
da natureza,
foste catalogando rios, flores,
moluscos e vulcões.
Nas encarniçadas
regiões de minha pátria
chegou Darwin o jovem,
com sua lâmpada
e sua luz alumiou sob a terra
e sob o mar profundo
tudo o que temos:
plantas, metais, vidas
que tecem a estrutura
de nossa obscura estrela.
Mais tarde Hudson
nas campinas
se ocupou dos pássaros que haviam
sido esquecidos pelos livros
e com eles
encheu a geografia
que nos está parindo pouco a pouco.
Inglaterra,
és doce
descobridora
de plumas e raízes,
pudeste
ser o conhecimento enamorado,
e agora
por que permites
que em tua beira
vivam os destruidores de aves,
os rapaces, os enterradores?
Foste
penetradora
do mais secreto
labirinto
da vida e as vidas,
e agora,
quando escutamos
tua voz
ouvimos a cinza,
a destruição do pó, a agonia.
Eu sei que cantas
e és
singela como tua perdida gente
de subúrbios e minas,
grave e crepitante
como o carvão que escavas.
Peço-te,
Inglaterra,
que voltes
a ser
inglesa,
me ouves?
Sim, que sejas
inglesa,
que não te macaquizem,
que não te policiem, que respires,
que sejas e que sejas
o que tens sido
em teu campo e teus povoados,
horto frutal de pássaros e gentes,
humanidade simples,
refugio dos homens perseguidos,
descobridora de aves.
Inglaterra,
peço-te
que sejas uma rainha das ilhas,
não uma vassala insular,
que obedeças
a teu coro de pássaros marinhos,
a tua simples estirpe
mineira e marinheira.
Eu vou dizer-te em segredo
que desejamos amar-te.
E difícil,
tu sabes
quantas coisas ocorreram
nos distantes territórios,
sangue, explorados,
etcetera e etcetera.
E então, agora,
na hora do amor
te queremos amar.
Prepara-te como antes
para o amor que volta,
para o amor que sobe
na onda mais alta
do oceano humano.
Prepara-te
na paz,
e então,
volta a ser o que amamos,
homens como nós,
terra como a nossa,
isso é o que desejamos.
Todos
vivemos
na terra
sob os mesmos bosques,
sobre a mesma areia.
Não podemos
contrariar o outono,
ou lutar
contra a primavera,
temos
que viver
sobre as mesmas ondas.
São nossas, dos homens,
dos meninos.
Todas
as ondas,
não têm selo algum,
nem a terra
tem selo,
por isso
homens de tantas raças e regiões
nesta época
da fertilidade, dos destinos
e das invenções,
podemos descobrir
o grande amor
e implantá-lo
sobre os mares e sobre a terra.
Inglaterra,
há algo de caoba
em tua cintura,
velha madeira usada
pela mão do homem,
banco de igreja, coro
de catedral na névoa.
Algo
a ti nos une,
há algo
contido
detrás de tuas janelas,
um vento brusco, uma ave
de litoral selvagem,
uma melancolia matutina,
algo impossivelmente solitário.
Amei a vida
de teus homens, falsos
conquistadores conquistados,
derramados rumo aos quatro ventos do planeta
para encher teu cofre. No entanto,
se o ouro os moveu com sua onda negra
não só foram isso
mas seres,
tímidos seres em trevas, sós,
enquanto o estandarte com leões
sufocava a luta dos povos.
Pobres meninos ingleses, amos pobres
de um mundo debulhado,
eu sei que entre vós
é natural
o rouxinol terrestre.
Shelley canta na chuva
e decora a chuva
sua citara escarlate.
Nasce em teu litoral o agressivo
punhal de proa rumo a todos os mares,
mas em tua areia o perseguido
encontrou o pão e construiu sua casa.
Lenin sob a névoa
entrando no Museu
em busca de uma linha,
de uma data, de um nome,
enquanto toda a terra
parecia oprimida,
solidão sozinha, etapa impenetrável,
ali, com seus óculos
e seu livro,
Lenin,
mudando em luz a névoa.
E então, isso eras,
Inglaterra,
torre de asilo,
catedral de refúgio,
e os que agora
fecham com a polícia
as linhas, as palavras,
o tesouro
das sabedorias que resguardas,
os que recusam tua areia
ao peregrino da luz errante,
não são dignos
de tua antiga verdade, de tua madeira,
mas te esfaqueiam,
matam em ti o que te resguardava,
não coração, mas o decoro.
Pátria de aves marinhas,
me ensinaste
quanto sei dos pássaros.
Mostraste-me a escama
polida dos peixes,
o tesouro plenário
da natureza,
foste catalogando rios, flores,
moluscos e vulcões.
Nas encarniçadas
regiões de minha pátria
chegou Darwin o jovem,
com sua lâmpada
e sua luz alumiou sob a terra
e sob o mar profundo
tudo o que temos:
plantas, metais, vidas
que tecem a estrutura
de nossa obscura estrela.
Mais tarde Hudson
nas campinas
se ocupou dos pássaros que haviam
sido esquecidos pelos livros
e com eles
encheu a geografia
que nos está parindo pouco a pouco.
Inglaterra,
és doce
descobridora
de plumas e raízes,
pudeste
ser o conhecimento enamorado,
e agora
por que permites
que em tua beira
vivam os destruidores de aves,
os rapaces, os enterradores?
Foste
penetradora
do mais secreto
labirinto
da vida e as vidas,
e agora,
quando escutamos
tua voz
ouvimos a cinza,
a destruição do pó, a agonia.
Eu sei que cantas
e és
singela como tua perdida gente
de subúrbios e minas,
grave e crepitante
como o carvão que escavas.
Peço-te,
Inglaterra,
que voltes
a ser
inglesa,
me ouves?
Sim, que sejas
inglesa,
que não te macaquizem,
que não te policiem, que respires,
que sejas e que sejas
o que tens sido
em teu campo e teus povoados,
horto frutal de pássaros e gentes,
humanidade simples,
refugio dos homens perseguidos,
descobridora de aves.
Inglaterra,
peço-te
que sejas uma rainha das ilhas,
não uma vassala insular,
que obedeças
a teu coro de pássaros marinhos,
a tua simples estirpe
mineira e marinheira.
Eu vou dizer-te em segredo
que desejamos amar-te.
E difícil,
tu sabes
quantas coisas ocorreram
nos distantes territórios,
sangue, explorados,
etcetera e etcetera.
E então, agora,
na hora do amor
te queremos amar.
Prepara-te como antes
para o amor que volta,
para o amor que sobe
na onda mais alta
do oceano humano.
Prepara-te
na paz,
e então,
volta a ser o que amamos,
homens como nós,
terra como a nossa,
isso é o que desejamos.
Todos
vivemos
na terra
sob os mesmos bosques,
sobre a mesma areia.
Não podemos
contrariar o outono,
ou lutar
contra a primavera,
temos
que viver
sobre as mesmas ondas.
São nossas, dos homens,
dos meninos.
Todas
as ondas,
não têm selo algum,
nem a terra
tem selo,
por isso
homens de tantas raças e regiões
nesta época
da fertilidade, dos destinos
e das invenções,
podemos descobrir
o grande amor
e implantá-lo
sobre os mares e sobre a terra.
1 351
Pablo Neruda
Iv - o Anjo Soviétivo
Fazia cento e cinquenta anos
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.
Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.
Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.
E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
que jazia enterrado.
Em Petrogrado de seda e sangue
caiu com uma bala suja
em alguma parte do peito.
Passou o tempo.
Por mais de cem invernos caiu neve
sobre telhados e ruas,
mas aberta e sangrando
esteve aquela
pequena ferida vermelha
no peito de pedra, seda e ouro
de Petrogrado. Um fio
de sangue acusava. Ia
e vinha,
subia pelas cúpulas,
corria pela seda
das casacas bordadas,
de repente aparecia
como pedra preciosa
sobre o decolleté
de uma beleza,
e ai, era só um coágulo
de sangue que acusava.
Assim era,
assim era o sangue de Pushkin
assassinado,
ia por toda parte
como um fio
infinito.
No silêncio
de Petrogrado, na pedra e a água
da cidade adormecida,
na estátua de Pedro e seu cavalo,
o fio,
o fio de sangue
caminhava,
caminhava procurando.
Até que um dia
amanheceu a aurora disparando.
Nas escadas
do Palácio de Inverno
apareceu um tapete
de estranha contextura:
era homem e cólera,
era esperança e fogo,
eram cabeças jovens e cinzentas,
a fronte dos povos.
E logo Lenin
com uma assinatura
no pé da esperança
mudou a História.
Então
aquele fio de sangue que acusava
retirou-se a seu lugar
e claro, aéreo e vermelho,
o anjo pensativo
viveu de novo.
Pushkin
fitou sua camisa:
já não sangrava o furo sujo
que deixara a bala assassina.
O povo
havia expulso
os espadachins
de casacas vermelhas,
os carrascos
condecorados com gotas de sangue
e agora
com a ferida fechada
recebeu na cabeça
o vento de loureiros
e pôs-se a andar pelas ruas,
acompanhou seu povo.
E, vivo de novo,
fulgurante em sua estátua,
ondulando no céu
como uma grande bandeira,
mesclando-se aos homens
na saída do comércio,
na campina
com o pêlo molhado
ou descansando um pouco
junto aos feixes de trigo,
vi o jovem Pushkin.
Meu amigo
não falava,
havia que lê-lo.
Eu caminhei a vasta geografia
da URSS,
olhando-o e lendo-o,
e ele com sua antiga voz me decifrava
as vidas e as terras.
Um repousado orgulho,
como um sonho,
invadia seu rosto
quando a meu lado
ia voando
transparente no ar transparente,
sobre a liberdade espaçosa
das cidades e dos prados.
1 047