Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
Não Há Muito Que Contar
Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
1 126
Pablo Neruda
O Frango Hieroglífico
Tão enguiçado era meu amigo
que não suportava o crepúsculo.
Era uma injuria pessoal
a aproximação da sombra,
a dúvida crítica do dia.
Meu pobre amigo ainda que herdeiro
de possessões terrenais
podia mudar de estação
buscando o país da neve
ou as palmeiras de Sumatra:
porém, como evitar ao dia
o crepúsculo inevitável?
Tentou soníferos verdes
e álcoois extravagantes
nadou em espuma de cerveja
recorreu a médicos, leu
farmacopéias e almanaques,
escolheu o amor a essa hora,
porém tudo resultou inútil:
quase deixava de pulsar
ou palpitava demasiado
seu coração que rechaçava
o advento fatal
do crepúsculo de cada dia.
Penosa vida que arrastou
meu amigo desinteressado.
Com C. B. íamos, com ele,
a um restaurante de Paris
a essa hora para que se visse
a aproximação da noite.
Nosso amigo pensou encontrar
um hieroglífico inquietante
num manjar que lhe ofereciam.
E ato contínuo, iracundo,
jogou o frango hieroglífico
na cabeça do benigno
maitre d’hôtel do restaurante.
Enquanto se fechava o crepúsculo
como um leque celeste
sobre as torres de Paris,
descia o molho sobre os olhos
do serviçal desorientado.
Chegou a noite e outro dia
e sobre nosso atormentado,
que fazer? Caiu o olvido escuro
como um crepúsculo de chumbo.
C. B me recorda esta história
em uma carta que conservo.
que não suportava o crepúsculo.
Era uma injuria pessoal
a aproximação da sombra,
a dúvida crítica do dia.
Meu pobre amigo ainda que herdeiro
de possessões terrenais
podia mudar de estação
buscando o país da neve
ou as palmeiras de Sumatra:
porém, como evitar ao dia
o crepúsculo inevitável?
Tentou soníferos verdes
e álcoois extravagantes
nadou em espuma de cerveja
recorreu a médicos, leu
farmacopéias e almanaques,
escolheu o amor a essa hora,
porém tudo resultou inútil:
quase deixava de pulsar
ou palpitava demasiado
seu coração que rechaçava
o advento fatal
do crepúsculo de cada dia.
Penosa vida que arrastou
meu amigo desinteressado.
Com C. B. íamos, com ele,
a um restaurante de Paris
a essa hora para que se visse
a aproximação da noite.
Nosso amigo pensou encontrar
um hieroglífico inquietante
num manjar que lhe ofereciam.
E ato contínuo, iracundo,
jogou o frango hieroglífico
na cabeça do benigno
maitre d’hôtel do restaurante.
Enquanto se fechava o crepúsculo
como um leque celeste
sobre as torres de Paris,
descia o molho sobre os olhos
do serviçal desorientado.
Chegou a noite e outro dia
e sobre nosso atormentado,
que fazer? Caiu o olvido escuro
como um crepúsculo de chumbo.
C. B me recorda esta história
em uma carta que conservo.
797
Pablo Neruda
Manhã Com Ar
Do ar livre prisioneiro vai
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
1 029
Pablo Neruda
18
Aqui te amo.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
1 221
Pablo Neruda
Aliança (Sonata)
Nem o coração cortado por um vidro
num campo de espinhos,
nem as águas atrozes vistas nos cantos
de certas casas, águas como pálpebras e olhos,
poderiam sujeitar a tua cintura nas minhas mãos
quando o meu coração ergue as suas azinheiras
para o teu inquebrantável fio de neve.
Nocturno açúcar, espírito
das coroas,
redimida,
sangue humano, os teus beijos
desterram-me,
e um golpe de água com restos do mar
golpeia os silêncios que te esperam
rodeando as cadeiras gastas, gastando portas.
Noites com eixos claros,
partida, material, unicamente
voz, unicamente
nua em cada dia.
Sobre os teus seios de curso imóvel,
sobre as tuas pernas de dureza e água,
sobre a permanência e o orgulho
do teu cabelo nu,
quero estar, meu amor, já atiradas as lágrimas
para o áspero cesto onde se acumulam,
quero estar, meu amor, só com uma sílaba
de prata despedaçada, só com uma ponta
do teu seio de neve.
Já não é possível, às vezes,
ganhar a não ser caindo,
já não é possível, entre dois seres
tremer, tocar a flor do rio:
fibras de homem vêm como agulhas,
tramitações, pedaços,
famílias de coral repulsivo, tormentas
e duras travessias pelas passadeiras
de inverno.
Entre lábios e lábios há cidades
de grande cinza e húmida crista,
gotas de quando e como, indefinidas
circulações:
entre lábios e lábios como por uma costa
de areia e vidro, o vento passa.
Por isso és sem fim, recolhe-me como se fosses
toda solenidade, toda nocturna
como uma zona, até te confundires
com as linhas do tempo.
Avança na doçura,
vem ao meu lado até que as digitais
folhas dos violinos
se tenham calado, até que os musgos
ganhem raiz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
num campo de espinhos,
nem as águas atrozes vistas nos cantos
de certas casas, águas como pálpebras e olhos,
poderiam sujeitar a tua cintura nas minhas mãos
quando o meu coração ergue as suas azinheiras
para o teu inquebrantável fio de neve.
Nocturno açúcar, espírito
das coroas,
redimida,
sangue humano, os teus beijos
desterram-me,
e um golpe de água com restos do mar
golpeia os silêncios que te esperam
rodeando as cadeiras gastas, gastando portas.
Noites com eixos claros,
partida, material, unicamente
voz, unicamente
nua em cada dia.
Sobre os teus seios de curso imóvel,
sobre as tuas pernas de dureza e água,
sobre a permanência e o orgulho
do teu cabelo nu,
quero estar, meu amor, já atiradas as lágrimas
para o áspero cesto onde se acumulam,
quero estar, meu amor, só com uma sílaba
de prata despedaçada, só com uma ponta
do teu seio de neve.
Já não é possível, às vezes,
ganhar a não ser caindo,
já não é possível, entre dois seres
tremer, tocar a flor do rio:
fibras de homem vêm como agulhas,
tramitações, pedaços,
famílias de coral repulsivo, tormentas
e duras travessias pelas passadeiras
de inverno.
Entre lábios e lábios há cidades
de grande cinza e húmida crista,
gotas de quando e como, indefinidas
circulações:
entre lábios e lábios como por uma costa
de areia e vidro, o vento passa.
Por isso és sem fim, recolhe-me como se fosses
toda solenidade, toda nocturna
como uma zona, até te confundires
com as linhas do tempo.
Avança na doçura,
vem ao meu lado até que as digitais
folhas dos violinos
se tenham calado, até que os musgos
ganhem raiz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
1 354
Pablo Neruda
Preguiça
Não trabalhei em Domingo,
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
1 442
Pablo Neruda
Meio-Dia - LIII
Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada:
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
584
Pablo Neruda
Enigmas Para Intranquilos
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
1 228
Pablo Neruda
1
Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
1 233
Pablo Neruda
5
Para que tu me ouças
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.
Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.
E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.
Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.
Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.
Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.
E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.
Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.
Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
1 462
Pablo Neruda
5
Para que tu me ouças
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.
Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.
E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.
Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.
Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.
Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.
E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.
Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.
Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
1 462
Pablo Neruda
XXXIV
Com as virtudes que olvidei
posso fazer um traje novo?
Por que os melhores rios
foram correr na França?
Por que não amanhece na Bolívia
desde a noite de Guevara?
E busca ali os assassinos
seu coração assassinado?
Tem primeiro gosto a lágrimas
as uvas negras do deserto?
posso fazer um traje novo?
Por que os melhores rios
foram correr na França?
Por que não amanhece na Bolívia
desde a noite de Guevara?
E busca ali os assassinos
seu coração assassinado?
Tem primeiro gosto a lágrimas
as uvas negras do deserto?
1 109
Pablo Neruda
2
Em sua chama mortal a luz te envolve.
Absorta, doente pálida, assim voltada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno de ti dá voltas.
Muda, minha amiga,
Só na solidão desta hora de mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.
Do sol cai um cacho em teu vestido escuro.
Da noite as grandes raízes
crescem de súbito de tua alma,
e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas,
de modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.
Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava
círculo que em negro e dourado aparece:
erguida, tece e goza uma criação tão viva
que sucumbem tuas flores, e és plena de tristeza.
Absorta, doente pálida, assim voltada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno de ti dá voltas.
Muda, minha amiga,
Só na solidão desta hora de mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.
Do sol cai um cacho em teu vestido escuro.
Da noite as grandes raízes
crescem de súbito de tua alma,
e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas,
de modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.
Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava
círculo que em negro e dourado aparece:
erguida, tece e goza uma criação tão viva
que sucumbem tuas flores, e és plena de tristeza.
785
Pablo Neruda
Declaro Quatro Cães
Declaro quatro cães:
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
1 059
Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
1 286
Pablo Neruda
Em Pleno Mês de Junho
Em pleno mês de Junho
me aconteceu uma mulher,
melhor uma laranja.
Está confuso o panorama.
Bateram à porta,
era uma lufada,
um látego de luz,
uma tartaruga ultravioleta,
a via com lentidão de telescópio,
como se longe fosse ou habitasse
esta vestidura de estrela,
e por erro do astrônomo
houvesse entrado em minha casa.
me aconteceu uma mulher,
melhor uma laranja.
Está confuso o panorama.
Bateram à porta,
era uma lufada,
um látego de luz,
uma tartaruga ultravioleta,
a via com lentidão de telescópio,
como se longe fosse ou habitasse
esta vestidura de estrela,
e por erro do astrônomo
houvesse entrado em minha casa.
1 157
Pablo Neruda
Uma Estátua No Silêncio
Tanto ocorre no vozerio,
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.
Quando despenca uma ameixa,
quando uma onda desmaia,
quando rodam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.
O ar está mudo ainda,
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.
As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como os cisnes,
como as nuvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.
Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.
Quando despenca uma ameixa,
quando uma onda desmaia,
quando rodam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.
O ar está mudo ainda,
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.
As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como os cisnes,
como as nuvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.
Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.
707
Pablo Neruda
Todos
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
1 183
Pablo Neruda
O Embaixador
Vivi em um beco
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
1 260
Pablo Neruda
O Embaixador
Vivi em um beco
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
1 260
Pablo Neruda
O Embaixador
Vivi em um beco
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
onde chegavam para mijar
todo gato e todo cão
de Santiago do Chile.
Era em 1925.
Eu me encerrava com a poesia
transportado ao Jardim de Albert Samain,
ao suntuoso Henri de Regnier,
ao leque azul de Mallarmé.
Nada melhor contra a urina
de milhares de cães suburbanos
que um cristal refinado
com pureza essencial, com luz e céu,
a janela da França, parques frios
por onde as estátuas impecáveis
— era em 1925 —
trocavam-se camisas de mármore,
com pátinas, suavíssimas ao tato
de numerosos elegantes séculos.
Naquele beco eu fui feliz.
Mais tarde, anos depois,
cheguei como Embaixador aos Jardins.
Já os poetas tinham ido embora.
E as estátuas não me conheciam.
1 260
Pablo Neruda
Desastres
Quando cheguei a Curacautin
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
1 184
Pablo Neruda
Nomes
Ai, Eduvigis, que nome tão belo tens,
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
1 187
Pablo Neruda
Nomes
Ai, Eduvigis, que nome tão belo tens,
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
mulher de coração azul;
és um nome de rainha
que pouco a pouco chegou às cozinhas
e não regressou aos palácios.
Eduvigis
está feito de sílabas trançadas
com résteas de alhos
penduradas nas vigas.
Se olharmos teu nome na noite,
cuidado, resplandece
como uma tiara desde a cinza
como uma brasa verde
escondida no tempo.
1 187