Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
XI - Os homens
Vê-se que nascemos para nos ouvir e nos ver,
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
1 121
Pablo Neruda
Canto VI - América, não invoco o teu nome em vão
I
De cima (1942)
O percorrido, o ar
indefinível, a lua das crateras,
a seca lua derramada
sobre as cicatrizes,
o calcário buraco da túnica rota,
a ramagem de veias congeladas, o pânico do quartzo,
do trigo, da aurora,
as chaves estendidas nas rochas secretas,
a aterradora linha
do sul despedaçado,
o sulfato dormido em sua estatura
de longa geografia,
e as disposições da turquesa
girando em torno da luz cortada,
do acre ramo sem cessar florido,
da espaçosa noite de espessura.
II
Um assassino dorme
A cintura manchada pelo vinho
quando o deus tabernário
pisa os copos rotos e desgrenha
a luz da alva desencadeada:
a rosa umedecida no soluço
da pequena prostituta, o vento dos dias febris
que entra pela janela sem vidraças
onde o vingado dorme com os sapatos postos
em um odor amargo de pistolas,
em um a cor azul de olhos perdidos.
III
Na costa
Em Santos, entre o odor doce-agudo das bananeiras
que, como um rio de ouro brando, aberto nas costas,
deixa nas margens a estúpida saliva
do paraíso desengonçado,
e um clamor férreo de sombras, de água e locomotiva,
uma corrente de suor e plumas,
algo que baixa e corre do fundo das folhas ardentes
como de um sovaco palpitante:
uma crise de vôos, uma remota
espuma.
IV
Inverno no sul, a cavalo
Eu transpassei a cortiça mil
vezes agredida pelos golpes austrais:
senti o cachaço do cavalo dormir
sob a pedra fria da noite do sul,
tiritar na bússola do monte desfolhado,
ascender na pálida face que começa:
eu conheço o final do galope na névoa,
o farrapo do pobre caminhante:
e para mim não há deus senão a areia escura,
o lombo interminável da pedra e a noite,
o insociável dia
com um advento
de roupa ruim, de alma exterminada.
V
Os crimes
Talvez tu, das noites escuras percorreste
o grito com punhal, a pisada no sangue:
o solitário fio de nossa cruz mil vezes
pisoteada,
as grandes pancadas na porta calada,
o abismo ou o raio que tragou o assassino
quando ladram os cães e a violenta polícia
chega entre os adormecidos
a torcer com força os fios da lágrima
arrancando-os da pálpebra aterrada.
VI
Juventude
Um perfume como uma ácida espada
de cerejas num caminho,
os beijos do açúcar nos dentes,
as gotas vitais resvalando nos dedos,
a doce polpa erótica,
as eiras, os paióis, os incitantes
lugares secretos das casas amplas,
os colchões dormidos no passado, o acre vale verde
olhado de cima, da vidraça escondida:
toda a adolescência molhando-se e ardendo
como uma lâmpada derrubada na chuva.
VII
Os climas
Caem do álamo no outono
as altas flechas, o renovado olvido:
fundem-se os pés em puro cobertor:
o frio das folhas irritadas
é um espesso manancial de ouro,
e um esplendor de espinhos põe perto do céu
os secos candelabros de estatura eriçada,
e um jaguar amarelo, entre as unhas,
cheira uma gota viva.
VIII
Varadero em Cuba
Fulgor de Varadero desde a costa elétrica
quando, despedaçando-se, recebe nas ancas
a Antilha, o maior golpe de vaga-lume e água,
o sem-fim fulgurante do fósforo e a lua,
o intenso cadáver da turquesa morta:
e o pescador escuro retira dos metais
uma cauda eriçada de violetas marinhas.
IX
Os ditadores
Ficou um aroma entre os canaviais:
uma mescla de sangue e corpo, uma penetrante
pétala nauseabunda.
Entre os coqueiros os túmulos estão cheios
de ossos demolidos, de estertores calados.
O delicado sátrapa conversa
com taças, pescoços e cordões de ouro.
O pequeno palácio brilha como um relógio
e os rápidos risos enluvados
atravessam às vezes os corredores
e se reúnem às vozes mortas
e às bocas azuis frescamente enterradas.
O pranto está escondido como uma planta
cuja semente cai sem cessar sobre o chão
e faz crescer sem luz suas grandes folhas cegas.
O ódio se formou escama por escama,
golpe por golpe, ria água terrível do pântano,
como um focinho cheio de lodo e silêncio.
X
América Central
Que lua como uma culatra ensangüentada,
que ramagem de látegos,
que luz atroz de pálpebra arrancada
te fazem gemer sem voz, sem movimento,
rompem teu padecer, sem voz, sem boca,
ó, cintura central, ó, paraíso
de chagas implacáveis.
Noite e dia vejo os martírios,
dia e noite vejo o acorrentado,
o rubro, o negro, o índio
escrevendo com mãos batidas e fosfóricas
nas intermináveis paredes da noite.
XI
Fome no sul
Vejo o soluço no carvão de Lota
e a enrugada sombra do chileno humilhado
picar a amarga veia da entranha, morrer,
viver, nascer na dura cinza
agachados, caídos como se o mundo
entrasse assim e saísse assim
entre pó negro, entre chamas,
e só acontecesse
a tosse no inverno, o passo
de um cavalo na água negra, onde caiu
uma folha de eucalipto como faca morta.
XII
Patagônia
As focas estão parindo
na profundidade das zonas geladas,
nas crepusculares grutas que formam
os últimos focinhos do oceano,
as vacas da Patagônia
se destacam do dia
como um tumulto, como um vapor pesado
que levanta no trio sua quente coluna
para as solidões.
Deserta és, América, como um sino:
cheia por dentro dum canto que não se eleva,
o pastor, o llanero, o pescador
não têm uma mão, nem uma orelha, nem um piano,
nem um rosto perto: a lua os vigia,
a extensão os aumenta, a noite os espreita,
e um velho dia, lento como os outros, nasce.
XIII
Uma rosa
Vejo uma rosa junto à água, uma pequena taça
de pálpebras vermelhas,
sustentada na altura por um som aéreo:
uma luz de folhas verdes toca os mananciais
e transfigura o bosque com solitários seres
de transparentes pés:
o ar está povoado de claras vestimentas
e a árvore estabelece sua magnitude adormecida.
XIV
Vida e morte de uma mariposa
Voa a mariposa de Muzo na tormenta:
todos os fios equinociais,
a pasta gelada das esmeraldas,
tudo voa no raio
são sacudidas as últimas conseqüências da aragem
e então uma chuva de estames verdes
o pólen das esmeraldas sobe;
seus grandes veludos de fragrância molhada
caem nas ribas azuis do ciclone,
unem-se aos tombados fermentos terrestres,
regressam à pátria das folhas.
XV
O homem enterrado no pampa
De tango em tango, se conseguisse
riscar o domínio, as pradarias,
se já adormecido
saindo de minha boca o cereal selvagem,
se eu escutasse nas planuras
um trovão de cavalos,
uma furiosa tempestade de patas
passar sobre os meus dedos enterrados,
beijaria sem lábios a semente
e amarraria nela os vestígios
de meus olhos
para ver o galope que amou minha turbulência:
mata-me, vidalita,
mata-me e que minha substância se derrame
como o rouco metal das guitarras.
XVI
Operários marítimos
Em Valparaíso, os operários do mar
me convidaram: eram pequenos e duros,
e seus rostos queimados eram a geografia
do oceano Pacífico: eram uma corrente
por dentro das imensas águas, uma onda muscular,
um ramo de asas marinhas na tormenta.
Era formoso vê-los como pequenos deuses pobres,
semidesnudos, malnutridos, era formoso
vê-los lutar e palpitar com outros homens além do oceano,
com outros homens de outros portos miseráveis, e ouvi-los,
era a mesma linguagem de espanhóis e chineses,
a linguagem de Baltimore e Kronstadt,
e quando cantaram A internacional cantei com eles:
um hino me subia do coração, quis dizer-lhes: “Irmãos”,
mas tive apenas a ternura que se me fazia canto
e que ia com o seu canto de minha boca até o mar.
Eles me reconheciam, me abraçavam com seus poderosos olhares
sem dizer-me nada, olhando-me e cantando.
XVII
Um rio
Quero ir pelo Papalopán
como tantas vezes pelo terroso espelho,
tocando com as unhas a água poderosa:
quero ir a matrizes, à contextura
de suas originais ramagens de cristal:
ir, molhar meu rosto, mergulhar na secreta
confusão do orvalho
a pele, a sede, o sonho.
O sável saindo da água
como um violino de prata,
e na margem as flores atmosféricas
e as asas imóveis
num calor de espaço defendido
por espadas azuis.
XVIII
América
Estou, estou rodeado
por madressilva e páramo, por chacal e centelha,
pelo acorrentado perfume dos lilases:
estou, estou rodeado
por dias, meses, águas que só eu conheço,
por unhas, peixes, meses que só eu estabeleço,
estou, estou rodeado
pela delgada espuma combatente
do litoral povoado de sinos.
A camisa escarlate do vulcão e do índio,
o caminho, que o pé descalço levantou entre as folhas
e os espinhos entre as raízes,
chega a meus pés à noite para que o caminhe.
O escuro sangue como num outono
derramado no solo,
o temível estandarte da morte na selva,
os passos invasores se desfazendo, o grito
dos guerreiros, o crepúsculo das lanças adormecidas,
o sobressaltado sonho dos soldados, os grandes
rios em que a paz do caimão chapinha,
tuas recentes cidades de alcaides imprevistos,
o coro dos pássaros de costume indomável,
no pútrido dia da selva, o fulgor
tutelar do vaga-lume,
quando em teu ventre existo, em tua tarde
de almenaras, em teu descanso, no útero de teu nascimento,
no terremoto, no diabo dos camponeses, na cinza
que cai das nevadas, no espaço,
no espaço puro, circular, inatingível,
na garra sangrenta dos condores, na paz humilhada
da Guatemala, nos negros,
nos cais de Trinidad, na Guayra:
tudo é minha noite, tudo
é meu dia, tudo
é meu ar, tudo
é o que vivo, sofro, levanto e agonizo.
América, nem da noite
nem do dia estão feitas as sílabas que eu canto.
De terra é a matéria apoderada
do fulgor e do pão de minha vitória,
e não é sonho meu sonho porém terra.
Durmo rodeado de espaçosa argila
e por minhas mãos corre quando vivo
um manancial de caudalosas terras.
E não é vinho o que bebo porém terra,
terra escondida, terra de minha boca,
terra de agricultura com orvalho,
vendaval de legumes luminosos,
estirpe cereal, adega de ouro.
XIX
América, não invoco o teu nome em vão
América, não invoco o teu nome em vão.
Quando sujeito ao coração a espada,
quando agüento na alma a goteira,
quando pelas janelas
um novo dia teu me penetra,
sou e estou na luz que me produz,
vivo na sombra que me determina,
durmo e desperto em tua essencial aurora:
doce como as uvas, e terrível,
condutor do açúcar e o castigo,
empapado em esperma de tua espécie,
amamentado em sangue de tua herança.
De cima (1942)
O percorrido, o ar
indefinível, a lua das crateras,
a seca lua derramada
sobre as cicatrizes,
o calcário buraco da túnica rota,
a ramagem de veias congeladas, o pânico do quartzo,
do trigo, da aurora,
as chaves estendidas nas rochas secretas,
a aterradora linha
do sul despedaçado,
o sulfato dormido em sua estatura
de longa geografia,
e as disposições da turquesa
girando em torno da luz cortada,
do acre ramo sem cessar florido,
da espaçosa noite de espessura.
II
Um assassino dorme
A cintura manchada pelo vinho
quando o deus tabernário
pisa os copos rotos e desgrenha
a luz da alva desencadeada:
a rosa umedecida no soluço
da pequena prostituta, o vento dos dias febris
que entra pela janela sem vidraças
onde o vingado dorme com os sapatos postos
em um odor amargo de pistolas,
em um a cor azul de olhos perdidos.
III
Na costa
Em Santos, entre o odor doce-agudo das bananeiras
que, como um rio de ouro brando, aberto nas costas,
deixa nas margens a estúpida saliva
do paraíso desengonçado,
e um clamor férreo de sombras, de água e locomotiva,
uma corrente de suor e plumas,
algo que baixa e corre do fundo das folhas ardentes
como de um sovaco palpitante:
uma crise de vôos, uma remota
espuma.
IV
Inverno no sul, a cavalo
Eu transpassei a cortiça mil
vezes agredida pelos golpes austrais:
senti o cachaço do cavalo dormir
sob a pedra fria da noite do sul,
tiritar na bússola do monte desfolhado,
ascender na pálida face que começa:
eu conheço o final do galope na névoa,
o farrapo do pobre caminhante:
e para mim não há deus senão a areia escura,
o lombo interminável da pedra e a noite,
o insociável dia
com um advento
de roupa ruim, de alma exterminada.
V
Os crimes
Talvez tu, das noites escuras percorreste
o grito com punhal, a pisada no sangue:
o solitário fio de nossa cruz mil vezes
pisoteada,
as grandes pancadas na porta calada,
o abismo ou o raio que tragou o assassino
quando ladram os cães e a violenta polícia
chega entre os adormecidos
a torcer com força os fios da lágrima
arrancando-os da pálpebra aterrada.
VI
Juventude
Um perfume como uma ácida espada
de cerejas num caminho,
os beijos do açúcar nos dentes,
as gotas vitais resvalando nos dedos,
a doce polpa erótica,
as eiras, os paióis, os incitantes
lugares secretos das casas amplas,
os colchões dormidos no passado, o acre vale verde
olhado de cima, da vidraça escondida:
toda a adolescência molhando-se e ardendo
como uma lâmpada derrubada na chuva.
VII
Os climas
Caem do álamo no outono
as altas flechas, o renovado olvido:
fundem-se os pés em puro cobertor:
o frio das folhas irritadas
é um espesso manancial de ouro,
e um esplendor de espinhos põe perto do céu
os secos candelabros de estatura eriçada,
e um jaguar amarelo, entre as unhas,
cheira uma gota viva.
VIII
Varadero em Cuba
Fulgor de Varadero desde a costa elétrica
quando, despedaçando-se, recebe nas ancas
a Antilha, o maior golpe de vaga-lume e água,
o sem-fim fulgurante do fósforo e a lua,
o intenso cadáver da turquesa morta:
e o pescador escuro retira dos metais
uma cauda eriçada de violetas marinhas.
IX
Os ditadores
Ficou um aroma entre os canaviais:
uma mescla de sangue e corpo, uma penetrante
pétala nauseabunda.
Entre os coqueiros os túmulos estão cheios
de ossos demolidos, de estertores calados.
O delicado sátrapa conversa
com taças, pescoços e cordões de ouro.
O pequeno palácio brilha como um relógio
e os rápidos risos enluvados
atravessam às vezes os corredores
e se reúnem às vozes mortas
e às bocas azuis frescamente enterradas.
O pranto está escondido como uma planta
cuja semente cai sem cessar sobre o chão
e faz crescer sem luz suas grandes folhas cegas.
O ódio se formou escama por escama,
golpe por golpe, ria água terrível do pântano,
como um focinho cheio de lodo e silêncio.
X
América Central
Que lua como uma culatra ensangüentada,
que ramagem de látegos,
que luz atroz de pálpebra arrancada
te fazem gemer sem voz, sem movimento,
rompem teu padecer, sem voz, sem boca,
ó, cintura central, ó, paraíso
de chagas implacáveis.
Noite e dia vejo os martírios,
dia e noite vejo o acorrentado,
o rubro, o negro, o índio
escrevendo com mãos batidas e fosfóricas
nas intermináveis paredes da noite.
XI
Fome no sul
Vejo o soluço no carvão de Lota
e a enrugada sombra do chileno humilhado
picar a amarga veia da entranha, morrer,
viver, nascer na dura cinza
agachados, caídos como se o mundo
entrasse assim e saísse assim
entre pó negro, entre chamas,
e só acontecesse
a tosse no inverno, o passo
de um cavalo na água negra, onde caiu
uma folha de eucalipto como faca morta.
XII
Patagônia
As focas estão parindo
na profundidade das zonas geladas,
nas crepusculares grutas que formam
os últimos focinhos do oceano,
as vacas da Patagônia
se destacam do dia
como um tumulto, como um vapor pesado
que levanta no trio sua quente coluna
para as solidões.
Deserta és, América, como um sino:
cheia por dentro dum canto que não se eleva,
o pastor, o llanero, o pescador
não têm uma mão, nem uma orelha, nem um piano,
nem um rosto perto: a lua os vigia,
a extensão os aumenta, a noite os espreita,
e um velho dia, lento como os outros, nasce.
XIII
Uma rosa
Vejo uma rosa junto à água, uma pequena taça
de pálpebras vermelhas,
sustentada na altura por um som aéreo:
uma luz de folhas verdes toca os mananciais
e transfigura o bosque com solitários seres
de transparentes pés:
o ar está povoado de claras vestimentas
e a árvore estabelece sua magnitude adormecida.
XIV
Vida e morte de uma mariposa
Voa a mariposa de Muzo na tormenta:
todos os fios equinociais,
a pasta gelada das esmeraldas,
tudo voa no raio
são sacudidas as últimas conseqüências da aragem
e então uma chuva de estames verdes
o pólen das esmeraldas sobe;
seus grandes veludos de fragrância molhada
caem nas ribas azuis do ciclone,
unem-se aos tombados fermentos terrestres,
regressam à pátria das folhas.
XV
O homem enterrado no pampa
De tango em tango, se conseguisse
riscar o domínio, as pradarias,
se já adormecido
saindo de minha boca o cereal selvagem,
se eu escutasse nas planuras
um trovão de cavalos,
uma furiosa tempestade de patas
passar sobre os meus dedos enterrados,
beijaria sem lábios a semente
e amarraria nela os vestígios
de meus olhos
para ver o galope que amou minha turbulência:
mata-me, vidalita,
mata-me e que minha substância se derrame
como o rouco metal das guitarras.
XVI
Operários marítimos
Em Valparaíso, os operários do mar
me convidaram: eram pequenos e duros,
e seus rostos queimados eram a geografia
do oceano Pacífico: eram uma corrente
por dentro das imensas águas, uma onda muscular,
um ramo de asas marinhas na tormenta.
Era formoso vê-los como pequenos deuses pobres,
semidesnudos, malnutridos, era formoso
vê-los lutar e palpitar com outros homens além do oceano,
com outros homens de outros portos miseráveis, e ouvi-los,
era a mesma linguagem de espanhóis e chineses,
a linguagem de Baltimore e Kronstadt,
e quando cantaram A internacional cantei com eles:
um hino me subia do coração, quis dizer-lhes: “Irmãos”,
mas tive apenas a ternura que se me fazia canto
e que ia com o seu canto de minha boca até o mar.
Eles me reconheciam, me abraçavam com seus poderosos olhares
sem dizer-me nada, olhando-me e cantando.
XVII
Um rio
Quero ir pelo Papalopán
como tantas vezes pelo terroso espelho,
tocando com as unhas a água poderosa:
quero ir a matrizes, à contextura
de suas originais ramagens de cristal:
ir, molhar meu rosto, mergulhar na secreta
confusão do orvalho
a pele, a sede, o sonho.
O sável saindo da água
como um violino de prata,
e na margem as flores atmosféricas
e as asas imóveis
num calor de espaço defendido
por espadas azuis.
XVIII
América
Estou, estou rodeado
por madressilva e páramo, por chacal e centelha,
pelo acorrentado perfume dos lilases:
estou, estou rodeado
por dias, meses, águas que só eu conheço,
por unhas, peixes, meses que só eu estabeleço,
estou, estou rodeado
pela delgada espuma combatente
do litoral povoado de sinos.
A camisa escarlate do vulcão e do índio,
o caminho, que o pé descalço levantou entre as folhas
e os espinhos entre as raízes,
chega a meus pés à noite para que o caminhe.
O escuro sangue como num outono
derramado no solo,
o temível estandarte da morte na selva,
os passos invasores se desfazendo, o grito
dos guerreiros, o crepúsculo das lanças adormecidas,
o sobressaltado sonho dos soldados, os grandes
rios em que a paz do caimão chapinha,
tuas recentes cidades de alcaides imprevistos,
o coro dos pássaros de costume indomável,
no pútrido dia da selva, o fulgor
tutelar do vaga-lume,
quando em teu ventre existo, em tua tarde
de almenaras, em teu descanso, no útero de teu nascimento,
no terremoto, no diabo dos camponeses, na cinza
que cai das nevadas, no espaço,
no espaço puro, circular, inatingível,
na garra sangrenta dos condores, na paz humilhada
da Guatemala, nos negros,
nos cais de Trinidad, na Guayra:
tudo é minha noite, tudo
é meu dia, tudo
é meu ar, tudo
é o que vivo, sofro, levanto e agonizo.
América, nem da noite
nem do dia estão feitas as sílabas que eu canto.
De terra é a matéria apoderada
do fulgor e do pão de minha vitória,
e não é sonho meu sonho porém terra.
Durmo rodeado de espaçosa argila
e por minhas mãos corre quando vivo
um manancial de caudalosas terras.
E não é vinho o que bebo porém terra,
terra escondida, terra de minha boca,
terra de agricultura com orvalho,
vendaval de legumes luminosos,
estirpe cereal, adega de ouro.
XIX
América, não invoco o teu nome em vão
América, não invoco o teu nome em vão.
Quando sujeito ao coração a espada,
quando agüento na alma a goteira,
quando pelas janelas
um novo dia teu me penetra,
sou e estou na luz que me produz,
vivo na sombra que me determina,
durmo e desperto em tua essencial aurora:
doce como as uvas, e terrível,
condutor do açúcar e o castigo,
empapado em esperma de tua espécie,
amamentado em sangue de tua herança.
1 621
Pablo Neruda
XX - A ilha
De outro lugares (Ceilão, Orenoco, Valdívia)
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
1 112
Pablo Neruda
Manhã - VII
“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.
Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!
Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado
que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.
Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!
Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado
que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.
1 185
Pablo Neruda
Os sonhos
Irmã da água empenhada e de suas adversárias
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
1 174
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXVI
Coração meu, rainha do aipo e da artesa:
pequena leoparda do fio e a cebola:
agrada-me ver brilhar teu império diminuto,
as armas da cera, do vinho, do azeite,
do alho, da terra por tuas mãos aberta,
da substância azul acesa em tuas mãos
da transmigração do sonho à salada,
do réptil enrolado na mangueira.
Tu, com tua podadeira levantando o perfume,
tu, com a direção do sabão na espuma,
tu, subindo minhas loucas escalas e escadas,
tu, manejando o sintoma de minha caligrafia
e encontrando na areia do caderno
as letras extraviadas que buscavam tua boca.
pequena leoparda do fio e a cebola:
agrada-me ver brilhar teu império diminuto,
as armas da cera, do vinho, do azeite,
do alho, da terra por tuas mãos aberta,
da substância azul acesa em tuas mãos
da transmigração do sonho à salada,
do réptil enrolado na mangueira.
Tu, com tua podadeira levantando o perfume,
tu, com a direção do sabão na espuma,
tu, subindo minhas loucas escalas e escadas,
tu, manejando o sintoma de minha caligrafia
e encontrando na areia do caderno
as letras extraviadas que buscavam tua boca.
1 250
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXVI
Coração meu, rainha do aipo e da artesa:
pequena leoparda do fio e a cebola:
agrada-me ver brilhar teu império diminuto,
as armas da cera, do vinho, do azeite,
do alho, da terra por tuas mãos aberta,
da substância azul acesa em tuas mãos
da transmigração do sonho à salada,
do réptil enrolado na mangueira.
Tu, com tua podadeira levantando o perfume,
tu, com a direção do sabão na espuma,
tu, subindo minhas loucas escalas e escadas,
tu, manejando o sintoma de minha caligrafia
e encontrando na areia do caderno
as letras extraviadas que buscavam tua boca.
pequena leoparda do fio e a cebola:
agrada-me ver brilhar teu império diminuto,
as armas da cera, do vinho, do azeite,
do alho, da terra por tuas mãos aberta,
da substância azul acesa em tuas mãos
da transmigração do sonho à salada,
do réptil enrolado na mangueira.
Tu, com tua podadeira levantando o perfume,
tu, com a direção do sabão na espuma,
tu, subindo minhas loucas escalas e escadas,
tu, manejando o sintoma de minha caligrafia
e encontrando na areia do caderno
as letras extraviadas que buscavam tua boca.
1 250
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLI
Desventuras do mês de janeiro quando o indiferente
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.
Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.
Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.
Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.
Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.
Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.
Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
1 122
Pablo Neruda
Poderes
Talvez o amor restitui um cristal quebrantado no fundo
do ser, um sal espargido e perdido
e aparece entre sangue e silêncio como a criatura
o poder que não impera senão dentro do gozo e da alma
e assim neste equilíbrio poderia fundar uma abelha
ou encerrar as conquistas de todos os tempos em uma papoula,
porque assim de infinito é não amar e esperar à beira de um rio redondo
e assim são transmutados os vínculos no mínimo reino recém-descoberto.
do ser, um sal espargido e perdido
e aparece entre sangue e silêncio como a criatura
o poder que não impera senão dentro do gozo e da alma
e assim neste equilíbrio poderia fundar uma abelha
ou encerrar as conquistas de todos os tempos em uma papoula,
porque assim de infinito é não amar e esperar à beira de um rio redondo
e assim são transmutados os vínculos no mínimo reino recém-descoberto.
1 005
Pablo Neruda
A nostalgia
Daquelas aldeias que cruzam o inverno e as ferrovias
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
1 213
Pablo Neruda
Introdução a Meu Tema
Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
1 137
Pablo Neruda
Introdução a Meu Tema
Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
1 137
Pablo Neruda
Manhã - XXIII
Foi luz o fogo e pão a lua rancorosa,
o jasmim duplicou seu estrelado segredo,
e do terrível amor as suaves mãos puras
deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.
Oh amor, como de repente, dos rasgos
fizeste o edifício da doce firmeza,
derrotaste as unhas malignas e zelosas
e hoje diante do mundo somos como uma só vida.
Assim foi, assim é e assim será até quando,
selvagem e doce amor, bem-amada Matilde,
o tempo nos assinale a flor final do dia.
Sem ti, sem mim, sem luz já não seremos:
então mais além da terra e a sombra
o resplendor de nosso amor seguirá vivo.
o jasmim duplicou seu estrelado segredo,
e do terrível amor as suaves mãos puras
deram paz a meus olhos e sol a meus sentidos.
Oh amor, como de repente, dos rasgos
fizeste o edifício da doce firmeza,
derrotaste as unhas malignas e zelosas
e hoje diante do mundo somos como uma só vida.
Assim foi, assim é e assim será até quando,
selvagem e doce amor, bem-amada Matilde,
o tempo nos assinale a flor final do dia.
Sem ti, sem mim, sem luz já não seremos:
então mais além da terra e a sombra
o resplendor de nosso amor seguirá vivo.
1 183
Pablo Neruda
Tarde - LXV
Matilde, onde estás? Notei, para baixo,
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
1 177
Pablo Neruda
O canto
A torre do pão, a estrutura que o arco constrói na altura
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
1 201
Pablo Neruda
O amor
Te amei sem por quê, sem de onde, te amei sem olhar, sem medida,
e eu não sabia que ouvia a voz da férrea distância,
o eco chamando à greda que canta pelas cordilheiras,
eu não supunha, chilena, que tu eras minhas próprias raízes,
eu sem saber como entre idiomas alheios li o alfabeto
que teus pés miúdos deixavam andando na areia
e tu sem tocar-me acudias ao centro do bosque invisível
a marcar a árvore de cuja casca voava o aroma perdido.
e eu não sabia que ouvia a voz da férrea distância,
o eco chamando à greda que canta pelas cordilheiras,
eu não supunha, chilena, que tu eras minhas próprias raízes,
eu sem saber como entre idiomas alheios li o alfabeto
que teus pés miúdos deixavam andando na areia
e tu sem tocar-me acudias ao centro do bosque invisível
a marcar a árvore de cuja casca voava o aroma perdido.
636
Pablo Neruda
Vallejo
Mais tarde na Rua Delambre com Vallejo bebendo calvados
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
1 116
Pablo Neruda
Tarde - LXVIII
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
1 072
Pablo Neruda
LXIV
Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
1 149
Pablo Neruda
LXIV
Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
se agita como uma bandeira?
Sou um malvado alguma vez
ou todas as vezes sou bom?
É a bondade que se aprende
ou a máscara da bondade?
Não é branca a roseira do malvado
e negras as flores do bem?
Quem dá os nomes e os números
ao inocente inumerável?
1 149
Pablo Neruda
XLIV
Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
1 379
Pablo Neruda
XXXII
Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
1 079